domingo, 24 de novembro de 2024

Mercearia do Dito: a poesia do frugal

 


Há algo fascinante nas descobertas gastronômicas que estão recônditas em pequenos estabelecimentos, onde o acepipe autêntico, dos deuses, nasce da simplicidade e da alma de quem cozinha. É ali, na estufa do bar puído de esquina ou na lanchonete com cardápio rabiscado, que está aquele petisco que a plebe trabalhadora pede no fim do expediente: um torresmo crocante, uma coxinha receita de família ou uma empada de frango que nos faz crer que a humanidade (ainda) não está perdida. Esses beliscos do underground carregam tradições, até que, de repente, saem do anonimato e ganham o olhar do mainstream. Tornam-se cult e viralizam no Instagram, mas não perdem charme genuíno de suas origens. É o êxito do despojamento, a poesia do frugal.

Vai daí que um certo bancário, metido a cronista, glutão incurável, segue firme na exploração das trilhas aromáticas e condimentadas da região. Sintam o cheiro da narrativa —com o perdão do trocadilho sofrível— do Dito cujo!

Nivaldo Ferreira, o amigo paulistano-pratense, deu a dica num tom quase de súplica. Acatei sem vacilar a sugestão que atiçou meus instintos com algumas palavras-chave irresistíveis: bolinho de bacalhau, camarão, Mercadão, botequim, chope, Poços. A coisa toda, numa tarde quente de sábado, rolou na Mercearia do Dito, cujas mesas na calçada têm vista privilegiada para o Cristo. No lado externo do Mercado Municipal de Poços, desde 2019, Dito e seu time, de segunda à segunda, servem a freguesia num espaço despretensioso que mistura informalidade, movimento de rua, comércio popular, cerveja gelada e, principalmente, comida boa. O bolinho de bacalhau e a porção de camarão que protagonizam esta publicação devem, obrigatoriamente, figurar em qualquer enciclopédia dedicada aos melhores deste pedaço vulcânico.

O poços-caldense Benedito Aparecido Silva de Oliveira, 61 anos, rodou o Brasil pra ganhar o pão. Voltou ao torrão natal para vendê-lo, para ser o velho Dito do bairro Santana. Regressou para replicar em seu boteco o espírito do Mercadão de São Paulo, o lugar que mais influenciou sua paixão por temperos e sabores. Retornou para triunfar e fazer história.

🍺🍺🍺

Mercearia do Dito
Mercado Municipal de Poços de Caldas, MG
Segunda a sábado, das 9 às 18h
Domingo, das 9 às 14h





quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A casa da Vovó Elna

 

A sala da Vovó Elna

Como os salmões da trama, fui capturado pela série “Ilha de Peixe Grande”, na Netflix. Gravados na Noruega, os seis episódios, bem produzidos, contam a história da disputa entre duas famílias poderosas pelo controle da indústria do famoso peixe de carne alaranjada. O atraente enredo é ambientado na fictícia Ilha de Brima. As locações escolhidas destacam lindas paisagens costeiras, a atmosfera da piscicultura e pequenas vilas que retratam o estilo de vida local.


Uma rápida curiosidade sobre o salmão norueguês, pescado nas águas do Atlântico. Na década de 1980, o governo do país nórdico implantou uma estratégia de marketing ousada chamada “Project Japan”. A iniciativa almejava introduzir o peixe no sushi japonês. Resistentes culturalmente, os nipônicos rechaçaram inicialmente a investida dos noruegueses. O salmão não era tradicionalmente usado nos sushis/sashimis do Sol Nascente. Com persistência e um oceano de dinheiro, a Noruega conseguiu cativar os japas, demonstrando as práticas rigorosas de sua aquicultura. Pesaram também, nessa conquista, argumentos gastronômicos: a cor vibrante e o sabor suave do salmão. Convenceram o Japão e o mundo, mas não me dobraram. Só troco o atum do meu sushi por prego.


Ver a Noruega na TV reavivou meus laços afetivos com essa terra que tem outra celebridade em seus mares: o bacalhau. Meu filho, pelo intercâmbio do Rotary, viveu lá por doze meses, entre 2007 e 2008. Foi acolhido no período por três famílias. Em junho de 2010, fomos, eu e Josi, conhecer o país na companhia do Laurinho. Aquele fim de primavera foi inesquecível na Escandinávia.


Laurinho morou em Lillehammer e arredores. Nossa base foi no Centro da cidade, no apartamento do saudoso Anton Beck. A localidade, de pouco mais de 25 mil habitantes, foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 1994. Cercada por montanhas e pistas de esqui de primeira linha, às margens do lago Mjøsa, Lillehammer, ao mesmo tempo, pulsa na emoção dos esportes de neve e relaxa na tranquilidade de um vilarejo setentrional. Ali, entre idas e vindas turísticas, passei dias quase como um nativo: era até reconhecido pelos funcionários do Kiwi, um popular supermercado dos boreais.


Em Oslo, a capital, boquiabertos ficamos ante as esculturas monumentais do Parque Vigeland, caminhamos no teto moderno da Ópera Nacional e até “ouvimos” o icônico “O Grito” de Edvard Munch. Aquela expressão de angústia do quadro até hoje ecoa nas profundezas da minha alma.


Impossível ficar imune àquelas grandiosidades naturais em que formações verticais mergulham em águas límpidas que espelham o céu: os fiordes. Impossível ficar imune à inacreditável arquitetura curva da Storseisundbrua, a ponte mais incrível do planeta. Impossível ficar imune à justiça social e ao bem-estar geral proporcionados pela riqueza petrolífera.


Gostei muito da vivência norueguesa como turista, mas foi o laço terno com clãs locais que nos levou a uma experiência única em Fåvang: a casa da Vovó Elna, uma pequena propriedade rural onde o tempo parecia desacelerar. Entre paredes rústicas de madeira, ela nos brindou com waffles dourados, fresquinhos, acompanhados de mel e geleia feita de framboesas do seu pomar. Ali, naquele recanto que abraçava com hospitalidade e simplicidade, sentimos o afeto genuíno que turista comum jamais vai sentir.


Vovó Elna e seus inesquecíveis waffles

domingo, 3 de novembro de 2024

Três Batalhas: montanha, vinho e arte


 Um passeio pelas altitudes do meu quintal geográfico e afetivo num sábado de clima pouco amigável. Agradável, ao contrário do céu plúmbeo, foi o encontro com os amigos emoldurado pela mais cinematográfica das paisagens deste torrão. Da prosa solta em volta da mesa generosa, das afinidades, das bençãos de Bacco, dos efeitos das taças, enfim, desse caldeirão de prazeres veio a luz para a crônica que segue.

Geraldo Dezena, natural de Águas da Prata, e Angela Bonfante, de São João da Boa Vista, uniram suas existências em uma caminhada marcada tanto pela dedicação profissional quanto pela valorização das culturas locais onde viveram. Seus destinos se cruzaram no Banco do Brasil, onde Geraldo trilhou uma carreira de sucesso, ascendendo a postos importantes, como superintendente estadual na Paraíba e Bahia, até alcançar a vice-presidência de tecnologia da instituição. Angela, por sua vez, levou para a vida de Geraldo sensibilidade, talento e energia criativa como artista plástica inquieta que é. Formaram uma família com três filhos e, na estrada, aproveitaram a vivência nômade como bancários em aprendizado, estímulos e conquistas.

Após a aposentadoria, no período da pandemia, decidiram consolidar ainda mais suas raízes, adquirindo uma pequena gleba nas montanhas de Águas da Prata. Ali, na plenitude da Serra da Mantiqueira, cercados pelo verde abundante, refundaram aquele naco de chão como Sítio Mirante Azul, um refúgio de paz e inspiração para novos projetos. Um deles —nascido do hábito de Angela de fermentar e engarrafar safras domésticas—, é a produção de vinhos sob o rótulo “Três Batalhas”, uma homenagem à Revolução Constitucionalista de 1932 —na qual a região, situada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, foi palco de intensos combates—, bem como aos antepassados italianos do casal e à tradição vinícola de seus clãs.

Com devoção e pesquisa, Geraldo e Angela usam a técnica da poda de inverno (ou poda invertida) para produzir néctares Syrah e Sauvignon Blanc, elaborados a partir das frutas colhidas no próprio domínio serrano. O solo vulcânico da região, rico em minerais e memórias, confere à bebida características singulares, que refletem tanto a riqueza e a alma da terra, o chamado terroir, quanto o empenho e a biografia de seus produtores. No Sítio Mirante Azul, eles não cultivam apenas uvas, mas também perpetuam o legado de seus ancestrais e a paixão pela lida no campo. Assim, a história se renova, e uma nova geração de viticultores emerge, juntando passado e presente, Itália e Brasil, trabalho árduo e poesia.

E falando em poesia, é necessário reproduzir a bela obra de autoria de Paulo Tó, compositor maior e filho do meio dos neo-vinhateiros, que está gravada nas garrafas da marca. Sintam!

Um soldado pisando com cuidado as terras
altas entre São Paulo e Minas:

“Espera, soldado, espera um momento! 

Olhe a colina, sinta o vento fresco da mata!”

E então o soldado, naquele doce delírio, estafado da guerra, 

sonhou que o vermelho,

descendo nas águas da serra,

em vez de sangue,

era vinho!