domingo, 7 de março de 2021

Verme & vermes

Um sábado de fim de verão carente de poesia pelo cinza que ameaça no céu, pela reclusão prudente e pelo medo do vírus letal. Busco alento na leitura e nas películas da sempre salvadora Netflix. A feijoada, presente de um cozinheiro amigo, proporciona um fugaz e gordo prazer no meio de tanta aflição.


Pensamentos recorrentes vêm e vão, inafastáveis, sem cor. Do vírus, já devidamente esquadrinhado pela Ciência, sabemos à exaustão o quão essenciais são as vacinas e o cotidiano preventivo para combatê-lo. Façamos o que nos cabe e gritemos sem pudor para que consigamos o que compete ao Verme, ops, ao governo. 


O verme, naquele sentido de priscas eras, é causador de barrigas inchadas, de desconfortos abdominais e de apetites insaciáveis. 


Hoje, o Verme, numa versão piorada e desumana, mata por negar a gravidade do vírus, por causar retrocessos medievais e por disseminar comportamentos irresponsáveis. 


E o mais triste é que 30% dos nossos gostam dos efeitos decorrentes da ação do Verme e boicotam a prescrição vital de vermífugos institucionais. Esse um terço de brasileiros é resistente à claridade dos fatos, à verdade dos números e à Ciência. A marcha, em todos os sentidos, toca e avança em notas e formação fúnebres enquanto o Verme gargalha e arrota satisfeito com seus recordes macabros. 


A noite avança e a sobra da feijoada do almoço chama-me à mesa anunciando um invencível verme —uma lombriga— e um cerrar de dia menos melancólico. 


No fim, quero crer, as flores da vida hão de se destacar sobre o plúmbeo do obscurantismo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Yucatécas


 A felicidade em Cancún vem num copo longo de mojito nos bares molhados das enormes piscinas dos hotéis espetaculares. Vem também no lindíssimo mar azul-esverdeado e na areia clara da famosa Riviera Maia. Tanto mimo, conforto e beleza, creiam, não rende mote ao cronista. A inspiração para o gênero está no inusitado, na gafe, no engraçado, está longe da perfeição estética de um mundo cor-de-rosa. Então...

Por um dia renunciamos, eu e Josi, a esta comodidade estrelada do resort all inclusive para conhecer um México menos cinematográfico e mais real. Optamos por um passeio no vizinho estado de Yucatán.

Primeira parada: a cidade colonial nominada Valladolid, fundada em 1543. Quando o ônibus estacionou na praça central da igreja de São Gervásio, o guia deu uma estranha saudação de boas-vindas. Disse o profissional ao sacar uma mochila e oferecer frascos de repelente por 10 doletas: “Protejam-se, a região está infestada de chikungunya e zika vírus”. Que merda! Além do corona teríamos que nos preocupar com outros bichinhos escrotos. Resultado do alerta e do preço abusivo do repelente de rótulo suspeito: depois da foto clássica em frente ao templo católico do século 16, saímos em disparada buscando uma farmácia que tivesse marcas mais confiáveis e preços menos doloridos. Ao ver dois caipiras suados regressando ao coletivo, o guia questionou: “¿Ustedes están bien?”.

Segunda parada: um povoado (ou pequena cidade) maia de nome Xocenpich. Um senhor maia nos esperava à beira do mato com uma mesa cheia de peças de artesanato. Enquanto ele nos abençoava numa pequena cerimônia nativa, outro homem nos rodeava espalhando fumaça de incenso. Não tive certeza se o fumacê era parte da celebração maia ou se era para espantar os mosquitos virais que infestavam as cercanias. Certeza eu tive das intenções mais comerciais do que espirituais da, com o devido respeito, pajelança. Terminada esta, fomos informados do quão importante seria comprar o (caro) artesanato bento. Também fomos convidados a uma ses$ão particular com o líder religioso. Temi pela nossa alma, pois não fiz nada do pre$crito. O almoço tipo buffet, ali mesmo e incluso no tour, foi no restaurante Yaxkin. Se o espírito não foi alimentado, o corpo foi abençoado com fantásticos tacos al pastor e de COCHINITA PIBIL, ambos preparados com tortillas feitas manualmente. Vá no Google, digite COCHINITA PIBIL e entenda o que esta iguaria de carne de porco significa para Yucatán.

Terceira parada: Chichén Itzá, o incrível complexo arqueológico que foi o centro da civilização maia. O local, que é Patrimônio da Humanidade (UNESCO) desde 1988, abriga ruínas que têm uma gigantesca dimensão histórica. Fomos conduzidos no passeio pelo guia Rodrigo que, além de ser um conhecedor profundo da cultura maia, nos surpreendeu ainda com saberes mais contemporâneos no findar da visita: “Te daré consejos para conseguir fotos geniales para tu Instagram”.


Quarta parada: um CENOTE. Até semanas atrás eu não sabia o que é um CENOTE. Nada a declarar, exceto a correria que foi saltar do autobús, comprar bilhetes, colocar roupa de banho, tomar uma ducha, descer ao CENOTE, cair na água, posar para fotos, apreciar a maravilha natural, trocar o traje mínimo e, ufa!, retornar ao  veículo. Tudo isso em trinta sufocantes minutos! 

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Arab Food Gourmet

Sírios e libaneses estão na origem genealógica de Rosana Issa El Baba e Ivy Nasser. Morando no mesmo condomínio em São João, elas se conheceram e a amizade foi forjada na cozinha.


A paixão pela culinária do Oriente Médio e o incentivo de familiares e amigos fez nascer em julho último o Arab Food Gourmet, que tem uma proposta de delivery em que o comensal precisa encomendar com um mínimo de 12h de antecedência. Nenhum item da carta carece de frescor, tudo é preparado momentos antes da chegada à mesa do cliente.


Ivy tem na bagagem o trabalho com culinária árabe na sua São José do Rio Pardo natal. Rosana e o marido têm histórico de labuta na mesma gastronomia no Paraguai e na Argentina. Ela também frequentou cursos em fogões do Egito, Emirados Árabes e Líbano.


Fui regalado com o kit da imagem. O Kibe Trípoli, uma torrinha cujas camadas intercalam quibe cru, labneh (coalhada seca), hashweh (carne moída e especiarias), folhas de hortelã e cebola crispy, veio acompanhado de labneh, homus, tabouli, salada de chancliche e pão folha. Impecável conjunto em que a perfeita apresentação está à altura do magnífico sabor.


Sobre sua comida, Rosana divaga: “As especiarias e a cultura da minha origem atravessaram oceanos com algum propósito. Eu tenho que honrar meus ancestrais”.


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Arab Food Gourmet 

De terça a sábado 

(19) 99932-7098

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Pórva no Tio Sam

—Acabou a saliva, tá ok? Agora é ação, mobilize as tropas. Pra cima deles, porra!


—Capitão, não é melhor...


—Não fode, general, sem me questionar, para de ser maricas e vamos para as trincheiras. E outra coisa: aqui eu sou presidente, capitão ficou no meu passado. Pra cima deles, porra!


—Pensou numa estratégia, senhor?


—Não fode, general, quem pensa muito é intelectual de esquerda e economista tucano. Aqui ninguém pensa, aqui nós agimos. Pra cima deles, porra!


—Atacamos pelo Atlântico ou pelo Pacífico?


—Cerca tudo, quero encurralar o Biden até pelo Golfo do México. Pra cima deles, porra!


—Precisamos de mais porta-aviões para uma missão desse porte, senhor.


—Pede pro Flávio e pro Queiroz que eles arrumam dinheiro vivo pra reforçar nossa frota. Pra cima deles, porra!


—Já que o senhor é da caserna, pensamos em chamá-lo para chefiar a missão. Olha o simbolismo que isso teria para nossos apoiadores. 


—Não fode, general, não vem me arrumar dor de cabeça. Eu vou ficar no Twitter elevando a moral dos nossos homens e demonizando a vacina do Doria. Deixa eu fazer o que eu sei. Ah, não esquece de espetar nossa bandeira no topo daquele prédio do King Kong. Pra cima deles, porra!


—Mais alguma ordem, senhor?


—Fica aqui do meu lado e faz arminha que eu vou fazer uma live anunciando o início da operação “Pórva no Tio Sam”. Pra cima deles, porra!

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Progetto Pizzeria

Molecada talentosa, agitada, ousada, inovadora. 

Jorge, 25, curte cozinha e se arvorou a brincar com levain. A ideia inicial era usar o fermento natural em pães. A brincadeira gostosa se estendeu às pizzas. Amigos e família: “Que massa é essa!”. Moisés, 26, amigo de infância de Jorge: “Que coisa deliciosa! Vamos abrir uma pizzaria!?”. Isabella, 23, namorada de Jorge: “Eu tô dentro”. Eduardo “Du Comidaria” Pradella, um velho senhor de 35 anos, chef que tem experiências do Velho Mundo na bagagem, se juntou ao trio para dar forma ao quarteto Progetto.

 

Passados alguns meses em instalação provisória e ajustando a operação, a Progetto Pizzeria tá na área, arredondando paladares, só no delivery, fazendo a chamada pizza neo-napolitana, que segue a tradicional da Bota em muitos preceitos —massa de longa fermentação, preparo do molho, tamanho do disco, borda e temperatura do forno—, mas que arrisca algo fora da rigidez das redondas vero napoletanas. O baita forno que chega a 400°C é a gás, no entanto não prejudica o [belíssimo] conjunto final. Alguns sabores são um tanto fora do convencional, porém não bizarros, se comparados às ortodoxas de Napoli. 


Ouçam duas das doze melodias das bordas tostadinhas: 1) molho de coalhada, mozzarella, bacon artesanal, parmesão, gema, pimenta do reino e azeite. Carbonara é o nome da redonda. 2) Mais uma: Amatriciana tem no disco, prestenção!, molho de tomate, mozzarella, parmesão, bacon artesanal, cebola roxa, salsinha, azeitona preta, pimenta do reino e azeite.

Catupiry, frango, filé, milho, batata frita… Quer algum destes ingredientes na pizza? Sorry, guys, peçam em outro lugar.


Sextas e sábados, a partir das 18h30

Pedidos: telefone e site

(19) 99834-9169

clique aqui e peça 



terça-feira, 27 de outubro de 2020

Frutas Del Bosque

O amigo crepúsculo-argentino, Alberto Umhof, radicado nestas plagas macaúbicas desde 2000, empreendeu por duas décadas no segmento de telecomunicações. Foi ele o fundador da conhecida BVCi. Vender a empresa para um grande grupo poderia sinalizar um merecido retiro dolce-far-niente. A curtição veio com um sítio no topo da Serra da Paulista. O dulçor veio com um pomar de amoras e framboesas. O fazer nada não vingou. Apaixonado pela nova propriedade, Alberto e a mulher Graciela adiaram a aposentadoria para cultivar frutas vermelhas na geografia serrana que tanto seduz nesta província abençoada pela divindade da natureza. Frutas Del Bosque é o nome do selo que embala as deliciosas frutas rubras que servem para sucos, geléias, caldas, saladas etc, e que também têm na cor, nos sabores e nas formas sutis apelos eróticos. 


O post é ilustrado com a obra do chef Jose Luiz Gabriel da Doce Vida: a clássica pavlova, cujo leve suspiro é recheado com creme pâtissier e coberto com calda de amoras e framboesas. Frutas vermelhas frescas finalizam a sobremesa.



🍒 🍓🍒 🍓🍒 🍓

Frutas Del Bosque: 19 3636-4611 // 19 98184-8394

Doce Vida: 19 98194-0091

sábado, 24 de outubro de 2020

Ciao Gelato & Caffè

O forte sotaque paulistano entrega que Marília, a cidade, só ouviu o primeiro choro de Paulo. Na capital ele brincou, cresceu e fez a vida. O casamento com a sanjoanense Luiza fez ele se apaixonar também por este irresistível pé da Mantiqueira. Morar em São João veio como um imperativo do coração e como um desejo de dar qualidade de vida à filha Helena.


Brilhando de tão nova, a Ciao Gelato & Caffè, by Paulo e Luiza, foi concebida num caldeirão que mistura este torrão serrano com experiências gastronômicas notadamente italianas. Sorvete e café feitos seguindo os preceitos da Bota sem medo de mesclar com cores, temperos e ingredientes regionais.


Doce de leite Montezuma, milho e geleia de Águas da Prata, pães da Ueba e da Nita, amora da Serra da Paulista, queijos Roni, café de São Sebastião da Grama...


Na Durval Nicolau, o lugar gostoso, moderno, claro, arejado e acolhedor tem destas cercanias montanhosas muito, mas muito mais do que uma Boa Vista.


🍦☕️🍦☕️

Av. Durval Nicolau, 698

São João da Boa Vista, SP

sábado, 10 de outubro de 2020

Banana Split


Minha vó Fiuca, fim dos anos 70 até o começo dos 80, era assídua freguesa das Lojas Americanas de Campinas e Ribeirão. Era um conceito moderno de comércio para a época. Dentro da loja, eu achava o máximo, havia lanchonetes. Foi numa das Americanas que tomei –depois, óbvio, de um hambúrguer– minha primeira Banana Split, naqueles balcões típicos norte-americanos. Em São João, puxando as lembranças, tomava Banana Split no Tekinfin, na Dona Angelina, na Bambi... 


Hoje em dia, vez ou outra, revisito nostalgicamente essa taça tão clássica na não menos clássica Sorveteria Macaúba. Gosto do desenho tradicional com as bolas de chocolate, nata e morango.


Geograficamente, venço um quarteirão até a Macaúba; afetivamente, volto quarenta anos atrás.

Yuzu

Na Liberdade. A indicação e a companhia de uma amiga que conhece boa comida. Numa das mesas, um distinto senhor oriental empunha os hashis com a habilidade de quem sabe. A fachada não chama a atenção, tampouco há glamour no sóbrio interior que remete a um Japão mais tradicional. Não quero shopping, não quero restaurantes bacaninhas de rede e sabor industrial. Quero Liberdade! Quero Bom Retiro, quero Centro, quero Moóca, quero Vila Sônia, quero Freguesia do Ó, quero Brás... quero restaurante de rua!

Pizza feelings


A paixão por pizza já me fez cometer algumas loucuras. Numa viagem de trem de Roma a Pompeia, a escala de hora e meia em Napoli não me impediu de sair da estação tresloucadamente pelo Centro da cidade —que eu não conhecia— única e exclusivamente para comer redondas na capital delas. Era um domingo e a intenção eram os discos da lendária Da Michele. A famosa pizzaria do filme “Comer, Rezar e Amar” estava fechada, o que aumentou a ansiedade deste roliço escriba. O Google contou que nas proximidades a Trianon da Ciro seria tão boa quanto a Da Michele. E foi! Enquanto comíamos, eu e Josi, a melhor pizza de nossas vidas, meu olho estava no relógio dividindo a atenção com o pizzaiolo que não parava de falar o quanto ele idolatrava o centroavante Careca, que fez com Diego Maradona a dupla mais infernal da história do time napolitano. Chegar esbaforido de volta ao terminal Napoli Centrale não foi nenhum incômodo depois daquela inesquecível pizza tão marcante quanto as incríveis ruínas de Pompeia.

Desde aquele março de 2014, buscar pizzas “vero napoletanas” passou a fazer parte da cesta básica da existência deste compulsivo cronista. Comi algumas realmente boas em outra viagem à Itália, em New Haven (EUA) e também em São Paulo na Napoli Centrale —olha o nome aí de novo— do Mercado de Pinheiros. No último mês de 2019 descobri uma “vero napoletana” não tão longe de casa. A Hannds de Mogi Mirim, antes da pandemia, me botou meia dúzia de vezes na estrada para devorar suas fantásticas e corretíssimas redondas. O isolamento pelo vírus maldito tirou violentamente a Hannds dos nossos deleites de outono e inverno.

Nesta primavera nascente, Josi foi a Mogi Mirim por motivos originalmente não tão prazerosos e, glória!, retornou com o carro revisado e com quatro lindezas napolitanas da Hannds que foram dignamente reavivadas no nosso modesto forno doméstico. Meu doloroso interregno acabou, acreditem!, na mesa de afetos da Tereziano Valim.