quinta-feira, 27 de março de 2025

Rizz


— Lauro, você conhece o Rizz? 

— Eu conheci o embrião do Rizz, o restaurante de risotos do Biluca, mais de uma década atrás. 

— Lauro, prestenção, você não conhece o Rizz!


Rizz é o nome que chegou em 2016 à casa que funciona desde 2008. Naquele ano, Zé Fernando dos Reis, o Biluca, inaugurou o Estação São Pedro, um restaurante que propunha risotos. Monica, sua mulher, colocava no negócio familiar seu conhecimento e sua paixão pela cozinha. O cardápio, aos poucos, ganhou fama, corpo e clientela. Virou referência na região. Forjado no comércio pinhalense — foi proprietário de loja de presentes e importados —, Biluca e os seus sabem da importância de fidelizar o consumidor.


No último ano, na esteira do boom do enoturismo em Pinhal, o Rizz passou por uma intensa repaginação. Teve muita novidade: da louçaria ao mobiliário, até a mudança para o elegante imóvel da Coronel Joaquim Vergueiro. Mas o mais importante, nesse período todo, foram as constantes inovações no menu. Monica, que faz questão de pratos autorais, encanta os comensais cada vez mais exigentes que frequentam a cidade, seja com os tradicionais risotos, seja com ancho, camarão, cordeiro, bacalhau ou polvo.


Com a recente vocação vinícola de Espírito Santo do Pinhal, o Rizz respeita e reverencia seu torrão: a carta de Bacco é 100% regional.


A coisa deu tão certo que o restaurante absorve a força de trabalho de todo o clã. Os filhos, João e Thiago, ajudam no estabelecimento original. Pedro, o outro rebento, está em São Paulo, expandindo fronteiras e replicando o conceito no Rizz Moema.


Agora eu posso responder, em vídeo e palavras, ao meu interlocutor incomodado: eu, felizmente, conheço o Rizz!

quarta-feira, 26 de março de 2025

Irarema: o vulcão descansa, o azeite corre

 

Maio de 2019: primeiro brunch na Fazenda Irarema

Na região vulcânica em que São Paulo encontra Minas —o município é São Sebastião da Grama, mas o coração bate forte em Poços de Caldas— a Fazenda Irarema se espalha entre montanhas guardando dádivas oleosas. O que era para ser apenas um refúgio de moradia para a família de Maurício Carvalho Dias virou, sem querer querendo, um polo de azeite premiado e turismo rural. O sujeito foi buscar sossego e acabou encontrando oliveiras, prêmios e uma legião de turistas e foodies de olhos brilhando e pão na mão, prontos para provar a lava dourada que escorre da casa.


Tudo começou em 2016, quando Maurício decidiu plantar oliveiras. Antes mesmo da primeira safra, resolveu investir em uma planta de extração, confiando no projeto como quem aposta em receita de avó: sem erro. E não é que deu certo? A ideia pegou tanto que os vizinhos também se animaram a cultivar oliveiras, e a região passou a sonhar com um novo sobrenome: “Toscana Brasileira”. Exagero? Talvez. Mas quem prova o azeite da Irarema sente que o sonho tem fundamento.


Em 2018, com duas safrazinhas modestas nas costas, decidiram mandar o azeite para o New York Olive Oil Contest, sem grandes expectativas. “Vamos ver o que eles acham”, pensaram. Pois bem, Nova York não apenas aprovou, como elegeu o Irarema Blend Suave o melhor do mundo na categoria. A família acordou famosa, o telefone tocava sem parar (telefone ainda toca?), e a fazenda virou ponto de romaria para apreciadores do bom azeite. Uma curiosidade: a aduana brasileira tentou taxar o troféu vindo dos EUA. A peça só foi liberada depois que provaram, com paciência e bom humor, que era um prêmio azeitado, não contrabando de luxo.


De lá para cá, a coisa tomou proporções sérias. O olival cresceu, de 5 mil para 20 mil pés, e a produção pulou em 2024 para 100 toneladas de frutos. O azeite não apenas se multiplicou, como ganhou variações: frutado, defumado e aromatizado com alecrim, alho, limão siciliano e manjericão. Um cardápio para deixar qualquer salada azeitada de emoção.


Moacir Carvalho Dias, filho, é o cara do azeite na Irarema. Formado em engenharia civil, se especializou em oleotecnia em Portugal e na Espanha, trazendo conhecimentos técnicos essenciais para a qualidade do produto. Reza a lenda que ele já foi DJ por aí. Dos bons! Dizem que seu som azeitava festas como nenhum outro.


O óleo de avocado/abacate entrou para o portfólio da marca em 2022. Com mais pesquisas e investimentos, a fazenda elevou o azeite da fruta a um produto gastronômico de excelência, consolidando o rótulo Irarema como o maior do Brasil no segmento.


Com tanto sucesso, a fazenda virou destino de passeio. Aos fins de semana, centenas de visitantes sobem a serra para conhecer o processo de produção, saborear azeites e, claro, almoçar ou lanchar com aquela vista de tirar o fôlego. A área de vendas, degustação e café não é apenas um espaço funcional, mas um espetáculo à parte: um prédio de design arrojado, onde madeira, ferro e vidro se entrelaçam em harmonia, criando um diamante arquitetônico no meio das oliveiras. Um cenário que convida não apenas à contemplação, mas ao prazer de viver a experiência em todos os sentidos.


O restaurante e a cafeteria estão sob os cuidados da filha Gabriela, enquanto Mônica, a mãe, gerencia uma linha de cosméticos à base de oliva. Na confeitaria, Lídia adoça a experiência com bolos e doces tão caprichados que dá pena de comer. Mas a gente come.


E no alicerce de tudo isso, ainda está o patriarca Maurício, 76, o homem que trocou a paz de um retiro pelo frenesi de um sonho bem-sucedido. Seu legado é uma estância que não apenas produz azeite, mas também alimenta histórias, encontros e memórias.


A arquitetura, as cores, os aromas, o entorno de natureza, o clima de montanha. Impossível não se envolver, não se apaixonar, não se embasbacar com o conjunto da obra.

sábado, 22 de março de 2025

Histórias, sonhos e peixe frito


 Recém-casados, ambos saindo de uniões que não deram certo, os sanjoanenses Humberto e Patrícia buscaram trabalho e novos ares em Divinolândia. O serviço dos dois em um pesqueiro ensinou a mulher o ofício com peixe —limpar, cortar, temperar, empanar, fritar. Vinda de uma trajetória no ramo de vendas, ela adentrava o universo da cozinha. Ele, que já havia sido proprietário de um botequim na Vila Loyola, conhecia a arte de mexer com os bichinhos aquáticos.

O sangue e as raízes trouxeram o casal de volta aos Crepúsculos, depois de quase vinte e quatro meses exilados. O know-how peixeiro e a necessidade de sobrevivência impulsionaram Humberto e Patrícia a empreender. Na mesma Vila Loyola onde ele havia comandado o Bar do Primo, alugaram uma esquina e, com gana de prosperidade, inauguraram, em meados de 2008, o Fish Bar. Ela aprimorou todo o processo, apurando o tempero e o modo de cocção, além de desenvolver talhos que deixavam as porções mais apresentáveis.

O sucesso veio pelo boca a boca, numa época em que as redes sociais ainda engatinhavam. As tilápias crocantes, a maionese temperada e a cerveja gelada viralizaram em São João, atraindo, para as mesas do Fish Bar, nas proximidades do Ginasinho, a clientela que antes frequentava apenas as choperias do Centro. Triunfaram também no período em que se instalaram em um ponto defronte ao finado supermercado Dia%, na rua João Pessoa.

Arriscaram novamente em 2019. Decidiram sair da área que consagrara o estabelecimento e se mudaram para o novo eldorado macaúbico: a avenida Isette Fontão, no Jardim das Flores, na região sul da cidade.

Em um prédio próprio, o Fish Bar se tornou referência de longevidade no concorrido e difícil segmento gastronômico. Mesclando a antiga freguesia com as novas gerações, a casa se mantém: digna, sólida e cheia de sabores. Humberto Francioli e Patrícia Bizo continuam escrevendo uma bela história de vida, condimentada com dedicação, qualidade e ousadia. E, claro, muito peixe —fresco, suculento e frito!

🐠🍺🐠🍺

Fish Bar

📍Av. Profª Isette C. Fontão, 1088, Jardim das Flores

São João da Boa Vista, SP

🕰️ Sexta e sábado, a partir das 17 horas


domingo, 16 de março de 2025

Fazenda Chiqueirão e o fermento das origens

 

— Mãe, podemos nadar na piscina do tio Xixo? —pedia a caçula Elena à matriarca, dona Augusta. 

— Podem, mas só depois das dez. Primeiro, venham me ajudar com os doces.


Um tanto contrariadas, as crianças, em férias de verão, invadiam a cozinha da Fazenda Chiqueirão para descascar goiabas, bananas, peras, marmelos, figos; despejar açúcar, mexer o tacho, envasar, embrulhar...


Assim, Elena Stein Carvalho Dias e seus nove irmãos cresceram, aprendendo as durezas e as belezas do fogão materno, de onde também saíam bolos, pães, queijos e toda sorte de iguarias típicas das roças de antigamente.


A televisão só chegou à casa de Ernesto Carvalho Dias —o pai— quando Elena tinha quatorze anos. Sem TV, a criançada corria pelos campos, subia em árvores, se deliciava no pomar, brincava, lia, admirava a mãe pintando —dona Augusta relaxava com pincéis e telas.


A prole também testemunhou o sucesso do trabalho do genitor, que se tornou o maior produtor de leite de gado Caracu do Brasil. As 1.600 cabeças da propriedade são totalmente criadas no pasto. Desde 1947, o rebanho é fechado, ou seja, não entra nenhum animal de fora, e a reprodução utiliza apenas touros do próprio plantel, o que proporciona uma padronização genética dos bovinos da estância de 400 alqueires. No limiar de um século de jornada —ele faz 100 em maio próximo—, seu Ernesto continua ativo, dominando os números e outras variáveis do negócio.


Elena saiu de Poços ainda adolescente. Aos 16, que choque térmico!, foi cursar o último período do ensino médio em Ribeirão Preto. Logo depois, sentou-se nos bancos universitários em São Paulo para conquistar o diploma de Artes Plásticas pela FAAP. A faculdade foi interrompida por dois anos, quando ela viajou para o Canadá na bagagem da irmã mais velha, Matilde, cujo marido, engenheiro, conseguiu uma colocação profissional em Vancouver.


Na volta à capital paulista, Elena uniu a influência culinária de dona Augusta, a vocação artística e algumas receitas canadenses para empreender num ateliê de bolos sofisticados. Por mais de uma década, ela literalmente meteu a mão na massa e encantou uma clientela de paulistanos exigentes.


A avançada idade dos pais —dona Augusta também chega aos 100 neste 2025—, um chamamento sentimental das raízes e o companheirismo do parceiro de vida, Fernando, fizeram a poços-caldense retornar ao solo vulcânico natal. Era 2018.


O então “menino” de 93 anos, seu Ernesto, incentivou sua menina: “Elena, nosso leite é bom, gordo, forte. Vá depressa fazer queijo.” Ela foi.


O arquiteto Fernando Costa Sousa abraçou o projeto da mulher e imergiu no universo queijeiro da Canastra. Ganharam o pingo e começaram a produção no embalo: testando, aprendendo, errando, conversando com produtores experientes. O terroir vulcânico, não sem muita pesquisa, vingou. A queijaria artesanal Pátio de Pedra nasceu para ser o único selo brasileiro que fabrica queijo de leite 100% da raça Caracu.


A coisa deu tão certo que os clientes iniciaram um desembarque intenso na Chiqueirão para adquirir o queijo cuja fama se espalhava rapidamente pela região. Café e pão de queijo entraram no cardápio da lojinha por clamores da freguesia, seduzida pela atmosfera rural do lugar.


Queijo curado, café coado e pão de queijo assado. Precisa mais? Elena, novamente iluminada pela cozinha da mãe e pelo tempero da existência, achou que sim, o menu poderia ser maior e melhor.


Tirando o pão de lenta fermentação da padaria Nita, tudo o que é servido no Pátio de Pedra é feito ali mesmo: bolos, doces, coalhada, geleias, quiches, pão de queijo etc. Uma combinação caseira e harmoniosa de aromas, cores, texturas e sabores.


Dessa forma, entre memórias afetivas, paladares ancestrais e a força das origens, Elena transportou o passado para o presente e fez da queijaria não apenas um comércio, mas um acolhedor refúgio onde o queijo descansa e as panelas borbulham, fermentadas por histórias, ternura e tradição.