quinta-feira, 13 de junho de 2013

Federais do Distrito

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Três dias de labuta na capital brasuca não vão desviar o escriba rechonchudo do seu reto caminho em busca de mais saúde e menos arrobas. Vaguear é preciso!

Noite de segunda-feira, pouco político e baixa temperatura em Brasília. E um macaúbico desejoso de mexer o esqueleto aproveitando a visão das sedutoras edificações do Eixo Monumental.

Saio do Setor Hoteleiro Norte com o obstinado propósito de marchar até a Praça dos Três Poderes. Coisa de pouco mais de oito quilômetros entre a ida e a volta.

Primeira parada: Catedral Metropolitana. Uma prece silenciosa contemplando as incríveis colunas em formato hiperboloide genialmente projetadas pelo ateu Oscar Niemeyer. Rogo pouco, quase nada, pelas grandes causas que afligem a humanidade. Minhas súplicas espirituais têm mais a ver com as particulares pretensões salubres mencionadas no primeiro parágrafo destas toscas linhas.

Da virtude para o pecado, ops!, ato falho, quero dizer, da igreja para a Esplanada dos Ministérios. Aquela sequência paradoxalmente monótona e harmônica de prédios idênticos. Passa muito das 20h e em todos eles há muitas luzes acesas. As conjecturas são inevitáveis. Servidores públicos abnegados trabalhando exageradamente por um país melhor? Gente mal intencionada usando o pós-expediente para engendrar falcatruas com dinheiro público? Ou simplesmente pessoas indolentes, inimigas da tarefa hercúlea que é pressionar um interruptor?

Itamaraty, o QG da nossa política externa. O palácio reflete suas belas linhas curvas no espelho d'água e proporciona uma fértil colheita de imagens para este “instagranzeiro" compulsivo. E provoca também algumas indagações. Continuariam os diplomatas brasucas a granjear argumentos em defesa da moribunda ditadura cubana dos irmãos Castro? E a democracia de fachada da Venezuela de mãos dadas com a vizinha Cristina Kirchner, cujo esporte preferido atualmente é tentar calar a imprensa livre da Argentina. Por que nenhuma palavra mais incisiva dos nossos homens de relações exteriores contra estes arroubos reiterados de totalitarismo? Seria por que urgem preocupações essenciais com os rótulos dos champanhes franceses e com a quantidade do caviar iraniano servidos nos suntuosos banquetes diplomáticos?

O STF e seu quase solitário cavaleiro da Justiça, Joaquim. Conseguirá esse magistrado que é referência de probidade conter as manobras espúrias de bastidores tendentes a "empizzar" as condenações dos mensaleiros? Ah!, claro, a sede da corte maior da nação também é monumento da arquitetura desta cidade que é um museu a céu aberto. E dá-lhe postagens cheias de efeitos na rede social de fotografias!

No Planalto arrisquei com o porteiro: "Sou o Lauro, de São João, filho da Ana Maria e neto do professor Augusto. Faço parte da Academia de Letras de lá. O Dulcídio Braz, o Marcelo Sguassábia e o Walther Castelli são meus amigos. Será que a presidenta pode me receber pra um naco de prosa?" O cara anotou tudo e interfonou para o gabinete da chefe-mor. "Senhor Borges, suas credenciais impressionam, mas a presidenta Dilma está em Portugal, numa missão importantíssima de degustação de bacalhau. Quem sabe na sua próxima vez no Distrito Federal", justificou quase pedindo perdão o leão-de-chácara do palácio.

Sobre o Congresso é desnecessário cantar em prosa e verso mais uma vez sobre magnitude das viagens em concreto armado do maior arquiteto brasileiro. Acerca dos parlamentares, um relato. Voei de volta a Viracopos numa quinta-feira, 10:50. Da manhã, diga-se. A aeronave estava abarrotada de deputados federais da região de Campinas. Desde que o mundo é mundo sabe-se que a semana de "trabalho" deles em Brasília começa na terça e termina na quinta. A novidade foi descobrir como o expediente acaba rapidinho na quinta-feira.

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Digna foi a perda calórica pela caminhada na chegada ao cerrado; e mais digna ainda foi a reposição energética dias depois. A ela.

Antes do retorno aos Crepúsculos, um happy-hour com os colegas no Bar Brasília, lugar bacaníssimo ornado com motivos retrô, uma mistura do Bar Brahma de Sampa com os botecos da Lapa carioca. O chope, muitíssimo bem tirado, é servido naqueles clássicos copos cervejeiros da década de 1970. O acepipe que reina ali é o bolinho de batata-baroa com carne-seca e catupiry.

O melhor dos quatro dias na capital da República: uma revelação que muda os rumos da minha insignificante existência. Batata-baroa, acreditem!, é o mesmo que mandioquinha-salsa.

E sobe foto dos bolinhos para o Instagram!

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http://www.barbrasilia.com/

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Kapadokya

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Agosto de 2011. Depois de Istambul, Kusadasi, Pamukkale, Alanya e Konya —ufa!, lugares e exclamações—, o destino é Göreme, na região da Turquia nominada Anatólia Central.

Finzinho de tarde e, após alguns embananamentos rodoviários de praxe, chegamos, os caipiras, à tão esperada Capadócia.

Antes de procurar hospedagem e restaurante, compramos, mais do que depressa e já para o dia seguinte, o obrigatório passeio de balão.

A van da Anatolian Ballons nos pega no hotel-caverna —sim, dormimos dentro de uma rocha— perto das 5 da matina. A causa nobre e a ansiedade despertam os dorminhocos.

Vamos para o pré-embarque num pavilhão turístico onde é servido o café da manhã, já incluso nos 100 euros por cabeça. E falando em desjejum, lembro-me de uma coisa que não falta na primeira refeição dos turcos: azeitonas. Verdes, pretas, saborosas e carnudas.

À época, bem antes de Salve Jorge, o folhetim global, os brasileiros não pagavam tão caro pelo tour. Parece que a novela da Glória Perez inflacionou estratosfericamente os preços na Capadócia.

Organizados e etiquetados, saímos para o local da decolagem e, ainda meio escuro, o ar quente dos maçaricos faz dezenas de balões subirem sequencialmente numa das cenas mais espetaculares que estes cansados olhos já viram.

Viajam, apertadas e boquiabertas, em cada brinquedinho, umas doze pessoas, incluindo o condutor.

Lá em cima, em quase uma hora de voo, o campo visual contempla uma geografia extraordinária com formações rochosas indescritíveis e, durante o devaneio no céu, o astro-rei surge no horizonte, deixando o vivente mais espantado ainda com tal e tamanha beleza.

De volta, 7 da manhã, depois da aterrissagem cirúrgica na traseira de uma caminhonete, comandante e passageiros cumprem a tradição e brindam com champagne. A sensação é de embriaguez, não pela taça do espumante, mas pela experiência única neste singular painel cinematográfico que é a Capadócia.

E dá-lhe exclamação!!!!!!!!!

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quinta-feira, 23 de maio de 2013

Genwa

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Los Angeles, segunda-feira, 18 de março de 2013.

Deixar a maior cidade da Califórnia sem levar na memória um sabor marcante seria herege para um comilão itinerante. A metrópole angelena tem uma absurda oferta de temperos étnicos.

Queríamos um oriental diferente dos que já conhecíamos [japonês, chinês, tailandês e vietnamita] e, com a ajuda de várias resenhas positivas no Google, decidimos por um coreano na Wilshire Boulevard. Genwa é o nome do restaurante, GENWA.

Sem reservas, chegamos às 9 da noite. A casa lotada, a maioria de olhos puxados, e 40 minutos de espera eram prenúncio de, no mínimo, uma comida correta, sem surpresas desagradáveis. O jantar foi bem mais do que o trivial coreano.

Salgado, doce, amargo, azedo e umami. Sensações do paladar numa única refeição. Por 50 doletas, quase de graça, duas pessoas são deslumbradas pelo menu que eles chamam de “course”.

Um macarrão artesanal tipo lamen, frio, meio adocicado, mais de 20 cumbuquinhas com peixes, pimentas, legumes, ervas, raízes, queijos, o escambau. Uma sequência inusual para ocidentais. Diria até estapafúrdia para os gostos mais ortodoxos.

Ainda bem que a covardia culinária não está entre os meus inúmeros defeitos.

O cardápio está grafado naqueles intraduzíveis ideogramas asiáticos e em inglês. Mesmo na língua anglo-saxônica não deu pra saber o nome de quase nada do que engolimos com curiosidade e prazer.

No centro da mesa há uma grelha a carvão para o preparo de mais de uma dúzia de rolinhos de carne, que é marmorizada no estilo Kobe Beef e cortada bem fininha.

A brigada, muito simpática, se esforça para agradar aos comensais. Um deles, tagarela, contou-nos em espanhol que seu “cumpleaños” foi comemorado numa churrascaria [Fogo de Chão] brasileira em LA: “Me gustó la picanha”.

O arremate, digestivo?!, é um chá que mistura os aromas peixe e doce. Tomei o meu e o da Josi, que entortou a boca e fez mil caretas ao experimentar o líquido.

Mesmo finalizando com essa controversa infusão lambari-caramelo, o jantar no Genwa foi para um lugar de destaque na minha modesta prateleira de experiências gustativas.

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domingo, 12 de maio de 2013

FIUCA, para todos

vó Fiuca
Quero homenagear as mães, TODAS, especialmente a minha, falando da mãe dela: vó FIUCA.

FIUCA é o apelido de infância de Ordália Figueiredo Ribeiro Bittencourt. Cognome este que extrapolou a intimidade dos próximos para deixar Ordália só no papelório da vida civil. FIUCA, para todos!

Convivi com ela até os meus doze anos. Intensamente!

Generosa! Trabalhadora! Uma mulher itinerante, viajante por vocação!

Muito, muitíssimo me influenciou! Aprendi com ela o equilíbrio entre trabalho e prazer.

Foi dos maiores nomes da alta costura de Sanja nos anos 1960/70. Do seu atelier, sempre na Tereziano Vallim, saíam os modelos sob medida que bem vestiam as damas da sociedade crepuscular.

Dedicava uma tarde semanal para coser em prol de entidades assistenciais.

O dinheiro que vinha da sua arte tinha destino: comer bem, mimar os netos e viajar. Viajar muito, pelos prazeres do turismo e pela afeição à família. Não tinha distância que a impedisse de rodar para abraçar irmãos e sobrinhos.

Em 1982, disse o neto numa crônica, ela foi costurar para os anjos na eternidade. Mais do que isso, completa o mesmo neto, as plagas celestiais nunca mais foram as mesmas depois da chegada da festeira e peregrina FIUCA.

Saudade, vó, saudade!

domingo, 5 de maio de 2013

Pedais, sorvetes e entusiasmo

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Papear com o Beto Mançanares é sempre cativante. De manhã, nós, eu e Josi, caminhando no Mantiqueira, ele passa de bike e para pra falar da causa que abraçou com paixão: a ciclovia São João-Prata. Agitador pelo bom combate, a primeira parte da ciclovia na Avenida Durval Nicolau vai sair do papel no meio do ano. E, diz com entusiasmo, as costuras e tratativas para o prolongamento da ciclofaixa até o Bosque de Águas da Prata estão bem adiantadas. Beto dá como certo esse projeto bacana que vai unir as duas cidades pela prática esportiva.

À noite, na sua "filha" de delícias geladas, a
Copabacana Sorvetes, mais entusiasmo falando da cria. Sem medo dos experimentos, Beto vai muito além do convencional nessa terra do icônico sorvete de macaúba. Os sabores tradicionais, claro, estão lá no seu múltiplo cardápio. Mas o que encanta esse glutão é o off-mesmice. Degustados na casquinha ou em taças, os sorvetes excêntricos também agradam vários chefs da região para acompanhar pratos salgados e sobremesas: agrião [pra acompanhar uma salada de manga], hortelã com mel [pra escoltar um cordeiro], parmesão [pra compor uma sobremesa com goiabada ou uma salada de folhas]. Tem ainda um sensacional de cerveja preta feito com a mogimiriana SauberBeer, que fica muito bom servido com calda de chocolate.

E ainda: com auxílio de uma alquimista do bem, vários dos seus itens aliam o prazer com a funcionalidade do alimento. Há complementos vitamínicos em alguns dos seus cremes gelados.

Taí o Betão, alma realizadora, músico virtuoso que largou a guitarra como meio de vida para fazer uns trocos nos EUA. Entregando pizza em Boston, fez mais que uns trocos ralando muito e poupando idem. Voltou para a família e para os Crepúsculos e, no circuito Prata-Bairro Alegre-Sanja-Aguaí [sim, tem Copabacana lá também], vai bem, vai muito bem pedalando nesse pé da Mantiqueira e deliciando os paladares macaúbicos.

Evoé, Beto! Evoé, Copabacana Sorvetes!

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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Detalhes

RC

Reincidente em buscar na Justiça [e conseguir!] censura a obras literárias que contenham menções/referências a ele, Roberto Carlos acha que é rei no sentido mais déspota da palavra. Sua realeza é musical e perece sempre que estas medidas arbitrárias são perpetradas pela sua, eternamente de plantão, equipe jurídica.

Cioso da sua responsabilidade na defesa da liberdade de expressão, e com uma queda irresistível por mexericos da intimidade de celebridades, o blogueiro, depois de intenso trabalho de investigação, traz à luz detalhes demasiadamente privados da vida de RC, só conhecidos até então por um restrito grupo de empregados e assessores do artista.

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Roberto come unhas. O estarrecedor é que não são as próprias. Ele dispõe de um time de beldades, cujas mãos são rigorosamente higienizadas, para saciar seu inusitado apetite. Sazonal, o cantor alterna suas preferências. Ultimamente sua predileção é pela lâmina de ceratina [tucanei a unha?] de uma professora primária de Madureira chamada Pâmela Falange. A poucos amigos ele revelou o motivo da atual primazia da professorinha: “As unhas de Pâmela são delicadas, têm refrescante aroma frutado, com toques cítricos e um marcante retrogosto de tangerina”.

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RC é um viciado em pó branco. Não, maldosos, não é aquele da Colômbia. O rei cheira diariamente cinquenta gramas da mais pura farinha de trigo. Exigente com a qualidade do produto, ele só consome a argentina da marca Estupenda. O incomum hábito vem da infância em Cachoeiro de Itapemirim, época em que ele passava as tardes na cozinha da voluptuosa boleira Marinalva, que o iniciou na mania de aspirar as partículas minúsculas do trigo. Perguntado sobre se mais alguma coisa acontecia na casa da confeiteira, ele encerrou a conversa: “Nada mais. Tentei inalar canela uma vez, mas achei muito forte. Só rolava farinha mesmo”.

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O rei esculpe nádegas femininas. Curiosa demais é a matéria-prima de sua arte. RC modela bundas juvenis em, acreditem!, muco nasal. Isso mesmo, catota, meleca, ranho... Pra dar conta da sua profícua, escatológica e libertina produção, quilos e quilos da secreção são comprados de diversos fornecedores nos cinco continentes. A massa chega como um mosaico de tons de verde e, por isso, passa por um processo de homogeneização da coloração. Na forma, ele prefere os salientes traseiros das africanas. Sobre o muco preferido, ele explica: “Gosto de um que vem de Aitutaki, uma ilha do Pacífico Sul. A massa deles não resseca fácil e tem uma textura boa para a modelagem. Com essa matéria, as nádegas parecem pintadas com tinta metálica. Os habitantes de Aitutaki produzem as melhores catotas do planeta”.

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Metrossexual como todo popstar, Roberto Carlos jura que Pitanguy nenhum usou o bisturi na sua cara ou em qualquer parte da sua anatomia. Sobre a cútis cada vez mais aveludada, ele esclarece: “Sou fissurado em cremes faciais e hidratantes. Uso os produtos milagrosos do selo Macaubeauty. A fábrica, totalmente artesanal, manufatura seus cosméticos com a polpa de um coquinho gosmento, e fica no interior de São Paulo, pertinho da divisa com Minas. Ouvi dizer que lá a fruta é muita apreciada como sabor de um sorvete. Sei não, prefiro minha pele impecável. Paladar frutal é bom e saudável, mas sou mais o das unhas da Pâmela”.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre trilhos, patetices e civilidade

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Grand Central Station, primeiro dia. O provinciano compra o tíquete para East Norwalk, pergunta dez vezes ao bilheteiro qual é o número da plataforma [track] de saída e, prudente, se dirige a ela com 15 minutos de antecedência. Track 26, ou coisa parecida.


Segundo dia. Quase nativo, vestindo um gorro com as iniciais NYC, andando com a ginga de um nativo do Harlem e um sentimento de “tá tudo dominado”, a passagem na mão é a segurança para perambular pela belíssima estação e só descer à plataforma no último minuto da prorrogação.


Não, seu aparvalhado! A track de saída varia diariamente, e há que se confirmar no painel o número conforme o horário de partida. Não, seu desnorteado! Presta atenção que a Quinta é um pouquinho diferente da Dona Gertrudes.


Uma desvairada correria e muito suor para chegar em tempo à plataforma correta [track 107, ou próximo disso] foram pedagógicas lambadas pro matuto deixar a sabichonice de araque e tomar as precauções necessárias para que uma pequena macaúba tenha o mínimo de percalços na Grande Maçã.


E, heroicamente embarcado, vamos para o interior do trem.


O silêncio no vagão é incômodo.


Absortos em seus problemas, alegrias, expectativas e frustrações, os passageiros não conversam entre si. Se o fazem no celular, o tom de voz soa num volume absurdamente civilizado.


Imagino que muitos tomem o trem no mesmo horário e até se conheçam, mas a cultura os trava pra jogar conversa fora e tornar a viagem mais agradável. Agradável, diga-se, do ponto de vista deste latino escriba.


Pra eles, a privacidade, a intimidade, mesmo que num veículo de transporte coletivo, são valores inegociáveis. Puxar papo seria uma tentativa de violação desses valores.


Todos usam dispositivos móveis. A leitura, a informação, o entretenimento e a socialização vêm via laptops, tablets ou smartphones [a cada quatro assentos, há tomadas para recarregar os superutilizados gadgets]. Algumas vezes, a mesma pessoa usa os três simultaneamente. Definitivamente, o papel em livros e jornais caminha pra uma quase extinção nos EUA.


O cachorro, devidamente licenciado e documentado, também pode viajar acompanhando o dono. Nenhum latido, nenhum ruído. O animal é educado pra respeitar o código de conduta.


O bicho-homem se acostuma, se adapta rapidamente ao diferente. Passados alguns dias, abasteci meu iPad com livros, jornais e revistas e, envolvido com a leitura, também comecei a achar que a privação do som ali nada tem de desconfortável. Bateu até a vontade de alugar um cão.

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domingo, 14 de abril de 2013

Aelton Flora

Aelton Flora

Nos anos 1980, a juventude de Sanja ia pra diversão e azaração nos históricos Bailes Eletrônicos promovidos pela CSB. A maioria deles era na Esportiva, mas o Recreativo e um modesto clube em Águas da Prata também, eventualmente, abrigavam os encontros sonorizados por César Gilmar Caslini e equipe com o melhor da música pop da época.

Quem frequentava aqueles bailes vai se lembrar de uma figura roliça, sempre solitária, de figurino apurado, que dançava com muito estilo, apesar do sobrepeso. Aelton Flora, ele mesmo, cujo nome tem um quê de artístico, monopolizava a atenção no salão.

Semanas atrás, tomando um shake-soja pra [tentar] mitigar o efeito das minhas homéricas comilanças, reencontrei Aelton Flora.

Ainda bem gordo, seus 150 quilos eram resultados de meses e meses de tratamento nutricional bancado por um grupo de empresários/comerciantes locais. Depressivo com rompantes autodestrutivos, ao iniciar o acompanhamento Aelton pesava 225 quilos.

Ele estava bem, feliz com o peso perdido. Em pouco mais de uma hora, me contou um pouco da sua vida, seus trabalhos, suas expectativas, suas frustrações, seus períodos de mais prostração. Seu bem-estar ali, no entanto, não escondia uma ponta de preocupação.

Desempregado e sobrevivendo com uma pensão do INSS, Aelton não sabia se continuaria o tratamento, pois o grupo que pagava seus suplementos se comprometeu a fazê-lo por um ano e, em coisa de semanas, os 365 dias já teriam se passado.

Hoje, no mesmo shake-espaço, soube que Aelton não mais atende aos chamados da pessoa que articulou a ação dos benfeitores em prol da sua saúde.

Difícil não pensar no pior, numa recaída. Difícil não ficar triste e evocar lembranças do Aelton, um sujeito ao mesmo tempo tímido, sorridente, carismático que ditava o ritmo dançante dos embalos de sábado à noite de 30 anos atrás.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Sovacos queimados e caipiras lesados

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Marcos Carioca é outro amigo que nos anos 1990 foi para os EUA em busca do sonho além-Crepúsculos. Como quase todos que emigraram, penou muito, padeceu pelos primeiros [duros, duríssimos] trabalhos, pelo desconhecimento do idioma e na adaptação com a cultura daqueles que não muito tempo atrás eram chamados de ianques. Ianque?! No mundo pós Guerra Fria acho que o termo ficou um tanto démodé. Tão fora de moda como o escrevinhador que assina estas linhas.

Como nem quase todos, Marcolino conseguiu o seu espaço e hoje está dignamente estabelecido com a família em Norwalk, Connecticut, ali nas cercanias de Nova York.

Cervejando dias atrás na sua morada, o amigo me municiou com algumas histórias hilárias sobre brasucas que, como ele, chegaram ao quintal do Tio Sam com poucas verdinhas, nenhum inglês, mas muita coragem.

Não raras vezes os aventureiros tupiniquins baixavam nas emergências dos hospitais com os sovacos em carne viva. Zelosos com o asseio pessoal, o desodorante era item essencial nas compras. Nenhuma boa alma os avisou que nem todo spray serve pra perfumar as axilas. Há alguns que são usados para firmar o cabelo das mulheres vaidosas e que ardem diabolicamente quando encontram pele. Não vou usar aqui a palavra laquê, que também está pra lá de démodé. E dá-lhe rima pobre!

Prometo, se o Marcolino me ajudar com mais munição, voltar aqui com outros deslizes pândegos de emigrantes.

Caipiras lesados, metidos a viajantes, também perpetram trapalhadas aos borbotões. Olha uma delas aí.

Aluguei o carro com o tanque cheio em Las Vegas. Parti pra Los Angeles e, depois de muito rodar por lá, fui dar combustível ao beberrão em Santa Monica, uma simpática localidade litorânea da Califórnia. Já sabendo do sistema self-service dos postos, cheguei pra abastecer com o roteiro mental pronto pra não dar nenhuma mancada.

De pronto a bomba não leu meu cartão de crédito e me mandou ao caixa. Sim, é isso, lá as máquinas mandam em você. Já fiquei meio puto pela escorregada do script, mas, vá lá, fui ao atendente, paguei, falei o número da bomba e pedi pra botar 40 doletas.

Crédito liberado e volto pra bomba. Disparo o gatilho umas dez vezes e nenhuma gota pra saciar a sede do azulão. “Caramba, merda, o que eu tô fazendo de errado?”, resmunguei

Pedi socorro a uns hispanos numa velha caminhonete e um deles, percebendo meu inglês sofrível, foi gentil no idioma ibérico:

—Que pasa, hombre?

Meu espanhol quase perfeito proporcionou isso:

—No pasa! No pasa mi cartón e la buemba no funciona!

Volto ao caixa e finalmente o funcionário sai do guichê, mexe na coisa e me absolve de qualquer responsabilidade. Minha primeira vez como frentista não foi das melhores, mas, acreditem!, a culpa foi do equipamento.

Em tempo: falei de spray aí em cima. Desodorantes e laquês têm suas serventias, mas o spray que ganhou minha adoração nos EUA foi o de manteiga. Prático demais pra untar assadeiras e sanduicheiras e, tirando a gordura, inofensivo para sovacos de forasteiros monoglotas.

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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Miguelzinho, o grande

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Do Brasa para os States. De São João para Connecticut. Brilha muito o Miguelzinho na gastronomia da costa leste dos EUA.

Miguelzinho é Miguel Angelo D’Onofrio, um moleque que cresceu maquinando traquinagens na então tranquilíssima Sanja de antanho.

Fisgado pela também macaúbica Gizeli Rossi, o casal foi para o altar no já longínquo 1987.

A inquietude de infância e adolescência não arrefeceu no jovem recém-casado. Buscando um maior conforto para a nova família, sem muitas perspectivas profissionais por aqui, ele emigrou para os domínios do Tio Sam na invasão brasuca do fim dos anos 1980, começo dos 90.

Pertinho de New York City, a rica cidade de Greenwich no estado de Connecticut foi o seu primeiro destino profissional em solo norte-americano. No restaurante La Strada, uma casa cinco estrelas do italiano Mike Mormando, Miguel laborou duro lavando pratos.

Observador e apaixonado pelas caçarolas, ele bebeu na fonte de Giuseppe Capobianco, o chef do La Strada que percebeu o talento de Miguel para a arte culinária e generosamente lhe ensinou vários segredos da boa cozinha.

Em Chicago, Mr. Mormando abriu outro La Strada e convidou Miguelzinho para comandar a cozinha. O trabalho foi bom, reconhecido pela crítica e público, porém o chef, depois de alguns meses, decidiu que a maior cidade de Illinois não era lugar pra ele viver com a família. Voltou com o clã para Connecticut, um estado com um nome complicado de pronunciar, mas muito bom pra viver.

Outros restaurantes vieram, sociedades feitas e desfeitas, altos e baixos, uma tentativa de voltar a viver no Brasil, desassossegos e experimentos.

Desse caldo de vida, dessa trajetória de trabalho, calos e glórias, hoje os D’Onofrio recebem em Westport os comensais no estabelecimento que é a realização do sonho da família: Rustico Trattoria. O local é muito bacana, aconchegante, com poucas mesas, perfeito para a cozinha “home made” que o chef propõe.

Dia destes, este caipira metido a cronista, aterrissou em Connecticut para degustar a obra do Miguel. Experimentei, e mais do que aprovei, o Orecchiete Toscano, uma pasta inesquecível puxada no alho e azeite, que também vem à mesa com figo seco, alcachofra e raspas de trufa negra. Resenhas da imprensa nova-iorquina colocam o prato como um dos 50 que você deve provar antes de morrer.

O sucesso do Rustico, algumas doletas no bolso, um Porsche conversível, as filhas casando e o filho Lucas herdando sua vocação sob a coifa.

Tranquilidade? Nada, nada disso! O homem é agitado e não sossega por nada.

Em busca de mais cultura gastronômica, Miguel esteve recentemente na Itália e aproveitou para pesquisar sobre os antepassados. Achadas suas origens, acreditem!, ele comprou a casa que pertenceu a seus avós.

Adquiriu o imóvel e já planeja morada e business na Velha Bota.

Grande Miguelzinho! Travessuras infantes nas alamedas mantiqueiras, a coragem para o exílio na América, o talento para vencer cozinhando, a inquietação de, beirando cinco décadas, atravessar o Atlântico para buscar sua história e, sabe Deus, ainda ter fôlego para novos projetos.

http://www.rusticotrattoria.com/

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