sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sobre asas e cafezais

IMG_3672

Como muitos pinhalenses, ele nasceu e foi criado nas lavouras de café. O mato, os bichos, as pastagens e a rusticidade da vida rural sempre o arrebataram. Só no ginásio o meio urbano veio como habitat do adolescente Plínio Marcelo Florence Fernandes.

E veio também junto uma vontade de estudar na cidade grande. E lá foi ele do solo cafeeiro da provinciana Pinhalópolis para o piso asfáltico da Paulicéia despudorada e cheia de portas abertas. O jovem escolheu Administração de Empresas e foi morar numa modesta república nas imediações da Consolação.

1971 marcou esse início de vida universitária e, sem demora, também foi o ano do primeiro carimbo na sua carteira de trabalho. A Varig foi a empregadora e o então glamouroso Aeroporto de Congonhas era o local de trabalho. Na função de recepcionista —ou despachante de voo— Plínio labutou por pouco mais de doze meses. Carismático e curioso, foi promovido ao setor de vendas. Responsável pelo interior de São Paulo, ele conheceu muita gente e todas as regiões do estado mais rico do país.

Em razão de circunstâncias familiares deixou a capital em 1976 para socorrer um parente. Na urbe bandeirante de Lençóis Paulista, Plínio ajudou a reerguer a propriedade do tio Cory Porto Fernandes, à época dizimada por uma geada que queimou milhares de pés de café. E o fez única e exclusivamente pela solidariedade afetiva e sanguínea, pois nada embolsou pela dura faina. Missão cumprida com bravura em três longos anos.

A metrópole das oportunidades o chamou de novo e o bom filho a casa voltou em 1979. Varig, Varig, Varig... Mais calejado, foi recolocado na superintendência nacional de vendas daquela que era uma das melhores companhias aéreas do planeta. Explorou profundamente todas as unidades da federação. E viajou, também, para a totalidade dos destinos internacionais atendidos pela empresa. Idealizou e implantou a rota São Paulo-Cancun. Este último, nos anos 80, era um balneário desconhecido dos sul-americanos.

De olho no promissor mercado brasileiro, a United Airlines aterrissou por aqui em 1992 e, três anos depois, contratava o executivo pinhalense para comandar a operação comercial da empresa no país. Sobre a entrevista em Chicago que selou sua admissão, Plinio conta às gargalhadas:

“Como meu inglês era limitado, não muito fluente, falei pouco e dei respostas curtas e diretas. O recrutador elogiou minha ‘objetividade’ pouco latina. Mal sabia ele que essa ‘objetividade’ era pra maquiar meu restrito domínio do idioma”.

A cada quinze dias ele se reunia com a cúpula da corporação em alguma das mais de 600 cidades servidas pela companhia no mundo. O labor pesado tinha como recompensa as viagens, quase sempre na mordomia da primeira classe, ao redor do globo.

Uma das principais marcas da sua gestão na United do Brasil foi o pioneirismo em vender passagens internacionais em 10 parcelas sem juros. Estratégia que foi um estrondoso sucesso. Os brasucas começavam a descobrir Nova York e Miami em suaves prestações.

Da experiência na empresa americana, o nativo de PinhalCity relembra:

“Aprendi com eles a importância do planejamento, da disciplina financeira e que o futuro estava no uso intenso dos recursos de informática”.

A morte do pai em 2004 foi um baque e um motivo para retornar às raízes da Fazenda Santa Agueda. E voltou com propósitos claros: reestruturar e modernizar a cultura do fruto da rubiácea. Já na quarta geração dos Fernandes cafeicultores, Plínio queria mais, muito mais que simplesmente vender o grão verde. Estudou muito, calçou as botinas e foi à briga.

Por um breve período entre 2007 e 2009, uma proposta financeira irrecusável o lançou de novo aos ares. Dirigiu comercialmente a Ocean Air/Avianca no Brasil. O programa de fidelidade Amigo foi mais um dos vanguardistas legados dele para o segmento do transporte aéreo de passageiros.

O magnetismo da aviação perdera definitivamente a graça. E a graça —leia-se desafio— estava nas terras da infância, nas bordas SP-Minas, na Espírito Santo do Pinhal de tantas lembranças. O voo mais alto estaria no torrão natal.

Já conhecedor do meio e da dificuldade em manter os cafezais, o neo-empreendedor sabia que agregar valor era questão de sobrevivência. Plantar era pouco. Ele queria o domínio completo da cadeia do produto. Plantar, torrar, moer e empacotar um café de qualidade superior. O lucro seria a natural e necessária decorrência do negócio.

Produzidos de forma quase artesanal, e somente processados após o pedido do cliente, o que garante sempre uma bebida fresquíssima à mesa, os rótulos “Aí” e “A2” são reconhecidamente cafés gourmet na avaliação de baristas e experts do ramo. A seriedade na condução da torrefação propiciou uma carteira —em expansão— de exigentes compradores corporativos do eixo Campinas-SP.

Dono de uma bagagem profissional e pessoal admirável, Plínio, 60, diz que a vida foi generosa com ele. O entusiasmo e a gratidão estão no seu DNA:

“Ainda tenho muita lenha pra queimar, ainda almejo novos céus para triunfar. A prosperidade precisa de dinheiro, mas hoje o que me move está muito além dos cifrões. Quero, e como quero, enaltecer ainda mais o café de Pinhal e região, reconhecidamente o melhor do Brasil”.

http://www.cafea2.com.br/novo/

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Academia em revista

Estação de Trem - estilo HonzaKov - P&B

O culto à palavra, a reverência ao bom verbo, a difusão da escrita. Nobres razões para a existência de uma Confraria de Letras. Articulados e idealistas, Octávio da Silva Bastos e Milton Duarte Segurado, depois de propósitos brotados num colóquio informal, conceberam na primavera de 1971 a Academia de Letras de São João da Boa Vista.

Culto, respeitado e aglutinador, o então bispo diocesano Dom Tomás Vaquero foi o nome de consenso para presidir as três primeiras gestões da Arcádia sanjonense. Sereno sem deixar de ser firme, seu comando no grupo literário foi marcado pela consolidação da instituição na sociedade organizada desta urbe tão luminosamente localizada, tão crepuscularmente sedutora.

Dotado de fala eloquente, orador apaixonado, Octávio Pereira Leite sucedeu Dom Tomás também por três períodos consecutivos. Zeloso do papel institucional da Academia, cumpriu com brilho a missão de gerir a associação de letrados.

Causídico de ofício e lírico por vocação, Wildes Antonio Bruscato usou seu sólido saber jurídico para propor e efetivar essenciais alterações no Estatuto. Seu triênio na condução trouxe notas melódicas à Casa, pois o confrade, entusiasta da música, foi um dos fundadores do Coral Vozes de São João da Boa Vista.

O médico, que também vigiava a saúde do léxico, José Edgar Simon Alonso substitui Wildes no mandato seguinte, mas faleceu precocemente antes de concluir sua administração. Maria Célia de Campos Marcondes, 2ª vice-presidente, assumiu o manche da aeronave dos eruditos mantiqueiros.

Maria Aparecida Pimentel Mangeon Oliveira, a Aparecidinha, educadora com inequívoca inclinação às artes, foi a gestora que imprimiu nos anos seguintes um modelo com ardoroso respeito ao protocolo nas cerimônias da Academia. Nos seus inúmeros e históricos discursos ela sempre ressaltava a importância de cultura na formação da cidadania.

O advogado forjado na lendária São Francisco, Sérgio Ayrton Meirelles de Oliveira, com o falecimento da confreira Aparecidinha, geriu até o fim o triênio 2005/2007. Proseador cheio de estilo, ele assim aclamou seus pares por ocasião do lançamento da 2ª Antologia: “Os acadêmicos são expertos nas técnicas literárias, cultos nas veredas da língua portuguesa e dotados de criatividade imprescindível”.

Culta, líder e fervorosa defensora das tradições da Academia, Maria Célia de Campos Marcondes foi novamente uma realizadora presidente nos anos 2008/09/10 e, entre diversos feitos e eventos notáveis, inseriu a instituição na rede mundial de computadores. Ganhamos, finalmente, o nosso sítio virtual.

O mandato seguinte foi dirigido pelo jornalista, professor e então vereador, Francisco de Assis Carvalho Arten. Reformas importantes carimbaram o comando dele na Arcádia: a modernização do Estatuto e a remodelação da sede. Sua habilidade política foi fundamental nestas conquistas.

Lucelena Maia, irrequieta, é a atual presidente e faz uma gestão ambiciosa no empreender em prol das letras. Tomou posse já fincando uma dinâmica agenda de acontecimentos. Até o fim de 2014 o calendário é permeado por efemérides mensais. Este primeiro número da ARCA é um dos compromissos cumpridos da atual diretoria.

Nesta província de relevos geográficos insinuantes, a serra inspira e o crepúsculo abençoa. Em 42 anos de poucas turbulências e muitos êxitos, a Academia prestou, em incontáveis e nas mais diversas formas de homenagem ao idioma, inestimáveis serviços ao fomento da riqueza cultural da cidade.

Pela preservação das espécies, Noé abarcou muitos bichos na sua arca. Aqui nesta ARCA vocabular a PLURALIDADE de estilos é de outra natureza, mas o respeito a ela é o mesmo.

Habemus revista!

Em tempo 1: Este blogueiro foi honrosamente incumbido de lavrar o texto acima para e edição primeira da ARCA, uma publicação da Academia de Letras de São João da Boa Vista.

Em tempo 2: Mais triste e menos saborosa, Pinhal perdeu Tonheca, um personagem que fez história na cidade. Fez pelo empreendedorismo, pela longevidade da cria e pelos sanduíches que são ícones na gastronomia de toda a região. Morre o homem, o legado fica. As plagas celestiais ganham novos temperos a partir desta semana. E cá no plano terreno a prole dignifica a arte do pai. Jefferson e Jackson nunca deixaram a chapa esfriar e estão aí, há muito, deliciando os famintos desta urbe cafeeira com o clássico cardápio de lombinhos & afins.

Foto e arte: Silvia Ferrante – Estação Ferroviária de São João da Boa Vista

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Federais do Distrito

IMG_3376

Três dias de labuta na capital brasuca não vão desviar o escriba rechonchudo do seu reto caminho em busca de mais saúde e menos arrobas. Vaguear é preciso!

Noite de segunda-feira, pouco político e baixa temperatura em Brasília. E um macaúbico desejoso de mexer o esqueleto aproveitando a visão das sedutoras edificações do Eixo Monumental.

Saio do Setor Hoteleiro Norte com o obstinado propósito de marchar até a Praça dos Três Poderes. Coisa de pouco mais de oito quilômetros entre a ida e a volta.

Primeira parada: Catedral Metropolitana. Uma prece silenciosa contemplando as incríveis colunas em formato hiperboloide genialmente projetadas pelo ateu Oscar Niemeyer. Rogo pouco, quase nada, pelas grandes causas que afligem a humanidade. Minhas súplicas espirituais têm mais a ver com as particulares pretensões salubres mencionadas no primeiro parágrafo destas toscas linhas.

Da virtude para o pecado, ops!, ato falho, quero dizer, da igreja para a Esplanada dos Ministérios. Aquela sequência paradoxalmente monótona e harmônica de prédios idênticos. Passa muito das 20h e em todos eles há muitas luzes acesas. As conjecturas são inevitáveis. Servidores públicos abnegados trabalhando exageradamente por um país melhor? Gente mal intencionada usando o pós-expediente para engendrar falcatruas com dinheiro público? Ou simplesmente pessoas indolentes, inimigas da tarefa hercúlea que é pressionar um interruptor?

Itamaraty, o QG da nossa política externa. O palácio reflete suas belas linhas curvas no espelho d'água e proporciona uma fértil colheita de imagens para este “instagranzeiro" compulsivo. E provoca também algumas indagações. Continuariam os diplomatas brasucas a granjear argumentos em defesa da moribunda ditadura cubana dos irmãos Castro? E a democracia de fachada da Venezuela de mãos dadas com a vizinha Cristina Kirchner, cujo esporte preferido atualmente é tentar calar a imprensa livre da Argentina. Por que nenhuma palavra mais incisiva dos nossos homens de relações exteriores contra estes arroubos reiterados de totalitarismo? Seria por que urgem preocupações essenciais com os rótulos dos champanhes franceses e com a quantidade do caviar iraniano servidos nos suntuosos banquetes diplomáticos?

O STF e seu quase solitário cavaleiro da Justiça, Joaquim. Conseguirá esse magistrado que é referência de probidade conter as manobras espúrias de bastidores tendentes a "empizzar" as condenações dos mensaleiros? Ah!, claro, a sede da corte maior da nação também é monumento da arquitetura desta cidade que é um museu a céu aberto. E dá-lhe postagens cheias de efeitos na rede social de fotografias!

No Planalto arrisquei com o porteiro: "Sou o Lauro, de São João, filho da Ana Maria e neto do professor Augusto. Faço parte da Academia de Letras de lá. O Dulcídio Braz, o Marcelo Sguassábia e o Walther Castelli são meus amigos. Será que a presidenta pode me receber pra um naco de prosa?" O cara anotou tudo e interfonou para o gabinete da chefe-mor. "Senhor Borges, suas credenciais impressionam, mas a presidenta Dilma está em Portugal, numa missão importantíssima de degustação de bacalhau. Quem sabe na sua próxima vez no Distrito Federal", justificou quase pedindo perdão o leão-de-chácara do palácio.

Sobre o Congresso é desnecessário cantar em prosa e verso mais uma vez sobre magnitude das viagens em concreto armado do maior arquiteto brasileiro. Acerca dos parlamentares, um relato. Voei de volta a Viracopos numa quinta-feira, 10:50. Da manhã, diga-se. A aeronave estava abarrotada de deputados federais da região de Campinas. Desde que o mundo é mundo sabe-se que a semana de "trabalho" deles em Brasília começa na terça e termina na quinta. A novidade foi descobrir como o expediente acaba rapidinho na quinta-feira.

IMG_3371

Digna foi a perda calórica pela caminhada na chegada ao cerrado; e mais digna ainda foi a reposição energética dias depois. A ela.

Antes do retorno aos Crepúsculos, um happy-hour com os colegas no Bar Brasília, lugar bacaníssimo ornado com motivos retrô, uma mistura do Bar Brahma de Sampa com os botecos da Lapa carioca. O chope, muitíssimo bem tirado, é servido naqueles clássicos copos cervejeiros da década de 1970. O acepipe que reina ali é o bolinho de batata-baroa com carne-seca e catupiry.

O melhor dos quatro dias na capital da República: uma revelação que muda os rumos da minha insignificante existência. Batata-baroa, acreditem!, é o mesmo que mandioquinha-salsa.

E sobe foto dos bolinhos para o Instagram!

IMG_3436

http://www.barbrasilia.com/

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Kapadokya

DSC02554

Agosto de 2011. Depois de Istambul, Kusadasi, Pamukkale, Alanya e Konya —ufa!, lugares e exclamações—, o destino é Göreme, na região da Turquia nominada Anatólia Central.

Finzinho de tarde e, após alguns embananamentos rodoviários de praxe, chegamos, os caipiras, à tão esperada Capadócia.

Antes de procurar hospedagem e restaurante, compramos, mais do que depressa e já para o dia seguinte, o obrigatório passeio de balão.

A van da Anatolian Ballons nos pega no hotel-caverna —sim, dormimos dentro de uma rocha— perto das 5 da matina. A causa nobre e a ansiedade despertam os dorminhocos.

Vamos para o pré-embarque num pavilhão turístico onde é servido o café da manhã, já incluso nos 100 euros por cabeça. E falando em desjejum, lembro-me de uma coisa que não falta na primeira refeição dos turcos: azeitonas. Verdes, pretas, saborosas e carnudas.

À época, bem antes de Salve Jorge, o folhetim global, os brasileiros não pagavam tão caro pelo tour. Parece que a novela da Glória Perez inflacionou estratosfericamente os preços na Capadócia.

Organizados e etiquetados, saímos para o local da decolagem e, ainda meio escuro, o ar quente dos maçaricos faz dezenas de balões subirem sequencialmente numa das cenas mais espetaculares que estes cansados olhos já viram.

Viajam, apertadas e boquiabertas, em cada brinquedinho, umas doze pessoas, incluindo o condutor.

Lá em cima, em quase uma hora de voo, o campo visual contempla uma geografia extraordinária com formações rochosas indescritíveis e, durante o devaneio no céu, o astro-rei surge no horizonte, deixando o vivente mais espantado ainda com tal e tamanha beleza.

De volta, 7 da manhã, depois da aterrissagem cirúrgica na traseira de uma caminhonete, comandante e passageiros cumprem a tradição e brindam com champagne. A sensação é de embriaguez, não pela taça do espumante, mas pela experiência única neste singular painel cinematográfico que é a Capadócia.

E dá-lhe exclamação!!!!!!!!!

DSC02505

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Genwa

IMG_2657
Los Angeles, segunda-feira, 18 de março de 2013.

Deixar a maior cidade da Califórnia sem levar na memória um sabor marcante seria herege para um comilão itinerante. A metrópole angelena tem uma absurda oferta de temperos étnicos.

Queríamos um oriental diferente dos que já conhecíamos [japonês, chinês, tailandês e vietnamita] e, com a ajuda de várias resenhas positivas no Google, decidimos por um coreano na Wilshire Boulevard. Genwa é o nome do restaurante, GENWA.

Sem reservas, chegamos às 9 da noite. A casa lotada, a maioria de olhos puxados, e 40 minutos de espera eram prenúncio de, no mínimo, uma comida correta, sem surpresas desagradáveis. O jantar foi bem mais do que o trivial coreano.

Salgado, doce, amargo, azedo e umami. Sensações do paladar numa única refeição. Por 50 doletas, quase de graça, duas pessoas são deslumbradas pelo menu que eles chamam de “course”.

Um macarrão artesanal tipo lamen, frio, meio adocicado, mais de 20 cumbuquinhas com peixes, pimentas, legumes, ervas, raízes, queijos, o escambau. Uma sequência inusual para ocidentais. Diria até estapafúrdia para os gostos mais ortodoxos.

Ainda bem que a covardia culinária não está entre os meus inúmeros defeitos.

O cardápio está grafado naqueles intraduzíveis ideogramas asiáticos e em inglês. Mesmo na língua anglo-saxônica não deu pra saber o nome de quase nada do que engolimos com curiosidade e prazer.

No centro da mesa há uma grelha a carvão para o preparo de mais de uma dúzia de rolinhos de carne, que é marmorizada no estilo Kobe Beef e cortada bem fininha.

A brigada, muito simpática, se esforça para agradar aos comensais. Um deles, tagarela, contou-nos em espanhol que seu “cumpleaños” foi comemorado numa churrascaria [Fogo de Chão] brasileira em LA: “Me gustó la picanha”.

O arremate, digestivo?!, é um chá que mistura os aromas peixe e doce. Tomei o meu e o da Josi, que entortou a boca e fez mil caretas ao experimentar o líquido.

Mesmo finalizando com essa controversa infusão lambari-caramelo, o jantar no Genwa foi para um lugar de destaque na minha modesta prateleira de experiências gustativas.

IMG_2658

domingo, 12 de maio de 2013

FIUCA, para todos

vó Fiuca
Quero homenagear as mães, TODAS, especialmente a minha, falando da mãe dela: vó FIUCA.

FIUCA é o apelido de infância de Ordália Figueiredo Ribeiro Bittencourt. Cognome este que extrapolou a intimidade dos próximos para deixar Ordália só no papelório da vida civil. FIUCA, para todos!

Convivi com ela até os meus doze anos. Intensamente!

Generosa! Trabalhadora! Uma mulher itinerante, viajante por vocação!

Muito, muitíssimo me influenciou! Aprendi com ela o equilíbrio entre trabalho e prazer.

Foi dos maiores nomes da alta costura de Sanja nos anos 1960/70. Do seu atelier, sempre na Tereziano Vallim, saíam os modelos sob medida que bem vestiam as damas da sociedade crepuscular.

Dedicava uma tarde semanal para coser em prol de entidades assistenciais.

O dinheiro que vinha da sua arte tinha destino: comer bem, mimar os netos e viajar. Viajar muito, pelos prazeres do turismo e pela afeição à família. Não tinha distância que a impedisse de rodar para abraçar irmãos e sobrinhos.

Em 1982, disse o neto numa crônica, ela foi costurar para os anjos na eternidade. Mais do que isso, completa o mesmo neto, as plagas celestiais nunca mais foram as mesmas depois da chegada da festeira e peregrina FIUCA.

Saudade, vó, saudade!

domingo, 5 de maio de 2013

Pedais, sorvetes e entusiasmo

IMG_3050

Papear com o Beto Mançanares é sempre cativante. De manhã, nós, eu e Josi, caminhando no Mantiqueira, ele passa de bike e para pra falar da causa que abraçou com paixão: a ciclovia São João-Prata. Agitador pelo bom combate, a primeira parte da ciclovia na Avenida Durval Nicolau vai sair do papel no meio do ano. E, diz com entusiasmo, as costuras e tratativas para o prolongamento da ciclofaixa até o Bosque de Águas da Prata estão bem adiantadas. Beto dá como certo esse projeto bacana que vai unir as duas cidades pela prática esportiva.

À noite, na sua "filha" de delícias geladas, a
Copabacana Sorvetes, mais entusiasmo falando da cria. Sem medo dos experimentos, Beto vai muito além do convencional nessa terra do icônico sorvete de macaúba. Os sabores tradicionais, claro, estão lá no seu múltiplo cardápio. Mas o que encanta esse glutão é o off-mesmice. Degustados na casquinha ou em taças, os sorvetes excêntricos também agradam vários chefs da região para acompanhar pratos salgados e sobremesas: agrião [pra acompanhar uma salada de manga], hortelã com mel [pra escoltar um cordeiro], parmesão [pra compor uma sobremesa com goiabada ou uma salada de folhas]. Tem ainda um sensacional de cerveja preta feito com a mogimiriana SauberBeer, que fica muito bom servido com calda de chocolate.

E ainda: com auxílio de uma alquimista do bem, vários dos seus itens aliam o prazer com a funcionalidade do alimento. Há complementos vitamínicos em alguns dos seus cremes gelados.

Taí o Betão, alma realizadora, músico virtuoso que largou a guitarra como meio de vida para fazer uns trocos nos EUA. Entregando pizza em Boston, fez mais que uns trocos ralando muito e poupando idem. Voltou para a família e para os Crepúsculos e, no circuito Prata-Bairro Alegre-Sanja-Aguaí [sim, tem Copabacana lá também], vai bem, vai muito bem pedalando nesse pé da Mantiqueira e deliciando os paladares macaúbicos.

Evoé, Beto! Evoé, Copabacana Sorvetes!

IMG_3059

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Detalhes

RC

Reincidente em buscar na Justiça [e conseguir!] censura a obras literárias que contenham menções/referências a ele, Roberto Carlos acha que é rei no sentido mais déspota da palavra. Sua realeza é musical e perece sempre que estas medidas arbitrárias são perpetradas pela sua, eternamente de plantão, equipe jurídica.

Cioso da sua responsabilidade na defesa da liberdade de expressão, e com uma queda irresistível por mexericos da intimidade de celebridades, o blogueiro, depois de intenso trabalho de investigação, traz à luz detalhes demasiadamente privados da vida de RC, só conhecidos até então por um restrito grupo de empregados e assessores do artista.

•••

Roberto come unhas. O estarrecedor é que não são as próprias. Ele dispõe de um time de beldades, cujas mãos são rigorosamente higienizadas, para saciar seu inusitado apetite. Sazonal, o cantor alterna suas preferências. Ultimamente sua predileção é pela lâmina de ceratina [tucanei a unha?] de uma professora primária de Madureira chamada Pâmela Falange. A poucos amigos ele revelou o motivo da atual primazia da professorinha: “As unhas de Pâmela são delicadas, têm refrescante aroma frutado, com toques cítricos e um marcante retrogosto de tangerina”.

•••

RC é um viciado em pó branco. Não, maldosos, não é aquele da Colômbia. O rei cheira diariamente cinquenta gramas da mais pura farinha de trigo. Exigente com a qualidade do produto, ele só consome a argentina da marca Estupenda. O incomum hábito vem da infância em Cachoeiro de Itapemirim, época em que ele passava as tardes na cozinha da voluptuosa boleira Marinalva, que o iniciou na mania de aspirar as partículas minúsculas do trigo. Perguntado sobre se mais alguma coisa acontecia na casa da confeiteira, ele encerrou a conversa: “Nada mais. Tentei inalar canela uma vez, mas achei muito forte. Só rolava farinha mesmo”.

•••

O rei esculpe nádegas femininas. Curiosa demais é a matéria-prima de sua arte. RC modela bundas juvenis em, acreditem!, muco nasal. Isso mesmo, catota, meleca, ranho... Pra dar conta da sua profícua, escatológica e libertina produção, quilos e quilos da secreção são comprados de diversos fornecedores nos cinco continentes. A massa chega como um mosaico de tons de verde e, por isso, passa por um processo de homogeneização da coloração. Na forma, ele prefere os salientes traseiros das africanas. Sobre o muco preferido, ele explica: “Gosto de um que vem de Aitutaki, uma ilha do Pacífico Sul. A massa deles não resseca fácil e tem uma textura boa para a modelagem. Com essa matéria, as nádegas parecem pintadas com tinta metálica. Os habitantes de Aitutaki produzem as melhores catotas do planeta”.

•••

Metrossexual como todo popstar, Roberto Carlos jura que Pitanguy nenhum usou o bisturi na sua cara ou em qualquer parte da sua anatomia. Sobre a cútis cada vez mais aveludada, ele esclarece: “Sou fissurado em cremes faciais e hidratantes. Uso os produtos milagrosos do selo Macaubeauty. A fábrica, totalmente artesanal, manufatura seus cosméticos com a polpa de um coquinho gosmento, e fica no interior de São Paulo, pertinho da divisa com Minas. Ouvi dizer que lá a fruta é muita apreciada como sabor de um sorvete. Sei não, prefiro minha pele impecável. Paladar frutal é bom e saudável, mas sou mais o das unhas da Pâmela”.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre trilhos, patetices e civilidade

IMG_2116


Grand Central Station, primeiro dia. O provinciano compra o tíquete para East Norwalk, pergunta dez vezes ao bilheteiro qual é o número da plataforma [track] de saída e, prudente, se dirige a ela com 15 minutos de antecedência. Track 26, ou coisa parecida.


Segundo dia. Quase nativo, vestindo um gorro com as iniciais NYC, andando com a ginga de um nativo do Harlem e um sentimento de “tá tudo dominado”, a passagem na mão é a segurança para perambular pela belíssima estação e só descer à plataforma no último minuto da prorrogação.


Não, seu aparvalhado! A track de saída varia diariamente, e há que se confirmar no painel o número conforme o horário de partida. Não, seu desnorteado! Presta atenção que a Quinta é um pouquinho diferente da Dona Gertrudes.


Uma desvairada correria e muito suor para chegar em tempo à plataforma correta [track 107, ou próximo disso] foram pedagógicas lambadas pro matuto deixar a sabichonice de araque e tomar as precauções necessárias para que uma pequena macaúba tenha o mínimo de percalços na Grande Maçã.


E, heroicamente embarcado, vamos para o interior do trem.


O silêncio no vagão é incômodo.


Absortos em seus problemas, alegrias, expectativas e frustrações, os passageiros não conversam entre si. Se o fazem no celular, o tom de voz soa num volume absurdamente civilizado.


Imagino que muitos tomem o trem no mesmo horário e até se conheçam, mas a cultura os trava pra jogar conversa fora e tornar a viagem mais agradável. Agradável, diga-se, do ponto de vista deste latino escriba.


Pra eles, a privacidade, a intimidade, mesmo que num veículo de transporte coletivo, são valores inegociáveis. Puxar papo seria uma tentativa de violação desses valores.


Todos usam dispositivos móveis. A leitura, a informação, o entretenimento e a socialização vêm via laptops, tablets ou smartphones [a cada quatro assentos, há tomadas para recarregar os superutilizados gadgets]. Algumas vezes, a mesma pessoa usa os três simultaneamente. Definitivamente, o papel em livros e jornais caminha pra uma quase extinção nos EUA.


O cachorro, devidamente licenciado e documentado, também pode viajar acompanhando o dono. Nenhum latido, nenhum ruído. O animal é educado pra respeitar o código de conduta.


O bicho-homem se acostuma, se adapta rapidamente ao diferente. Passados alguns dias, abasteci meu iPad com livros, jornais e revistas e, envolvido com a leitura, também comecei a achar que a privação do som ali nada tem de desconfortável. Bateu até a vontade de alugar um cão.

IMG_2184

domingo, 14 de abril de 2013

Aelton Flora

Aelton Flora

Nos anos 1980, a juventude de Sanja ia pra diversão e azaração nos históricos Bailes Eletrônicos promovidos pela CSB. A maioria deles era na Esportiva, mas o Recreativo e um modesto clube em Águas da Prata também, eventualmente, abrigavam os encontros sonorizados por César Gilmar Caslini e equipe com o melhor da música pop da época.

Quem frequentava aqueles bailes vai se lembrar de uma figura roliça, sempre solitária, de figurino apurado, que dançava com muito estilo, apesar do sobrepeso. Aelton Flora, ele mesmo, cujo nome tem um quê de artístico, monopolizava a atenção no salão.

Semanas atrás, tomando um shake-soja pra [tentar] mitigar o efeito das minhas homéricas comilanças, reencontrei Aelton Flora.

Ainda bem gordo, seus 150 quilos eram resultados de meses e meses de tratamento nutricional bancado por um grupo de empresários/comerciantes locais. Depressivo com rompantes autodestrutivos, ao iniciar o acompanhamento Aelton pesava 225 quilos.

Ele estava bem, feliz com o peso perdido. Em pouco mais de uma hora, me contou um pouco da sua vida, seus trabalhos, suas expectativas, suas frustrações, seus períodos de mais prostração. Seu bem-estar ali, no entanto, não escondia uma ponta de preocupação.

Desempregado e sobrevivendo com uma pensão do INSS, Aelton não sabia se continuaria o tratamento, pois o grupo que pagava seus suplementos se comprometeu a fazê-lo por um ano e, em coisa de semanas, os 365 dias já teriam se passado.

Hoje, no mesmo shake-espaço, soube que Aelton não mais atende aos chamados da pessoa que articulou a ação dos benfeitores em prol da sua saúde.

Difícil não pensar no pior, numa recaída. Difícil não ficar triste e evocar lembranças do Aelton, um sujeito ao mesmo tempo tímido, sorridente, carismático que ditava o ritmo dançante dos embalos de sábado à noite de 30 anos atrás.