sábado, 20 de dezembro de 2014

#PaiFresco

ivan prado

#1

3,3kg. Nasceu.

#2

Finalmente voltamos pra casa —odeio hospitais, mesmo sendo pela causa nobre que foi. Vítor perdeu 10% de peso, mas ganhou 15% em potência de choro. Patroa acabada, coitada. Passou a noite em claro e os pontos da cesárea estão ardendo um pouquinho. Ela consegue tirar cochilos de, no máximo, meia hora entre uma mamada e outra do pequeno vampirinho. Juro que na hora que estava tomando banho ouvi ela murmurando algo como "brains... brains...”

Bono —meu lhasa apso macho— está com ciúmes, se sentindo relegado ao último plano, como eu. Entendo seu drama, fio, mas não esquenta, quando o Vítor crescer vamos nos aliar, os três, para combater estas fêmeas egoístas! Agora, putz!, mesmo sabendo que se trata do meu filho, como choro de bebê recém-nascido é irritante! Preciso bater em algum petralha para relaxar. Luiz Angelo ou Breno, por gentileza, deem a cara aos tapas. Grato.

#3

O pânico se transformou em resignação. Dormir não é mais uma opção. Agora, os ciúmes tomaram conta dos meus três cachorros, não só do macho. Finalmente, uma foto recente que tirei de minha esposa e minha sogra. Acho que há algo errado, mas pode ser só impressão. De qualquer maneira, vou trancar todos os outros seres vivos de casa no quarto durante esta noite.

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#4

Não confundir "colostro" com "mecônio". Estão em extremidades opostas do mesmo bebê.

#5

GASES! Caraca, esse moleque é podre, vai vendo.

#6

Tivemos de desentupir o Vítor na base da nitroglicerina —mentira, foi só glicerina mesmo. O primeiro supositório a gente nunca esquece! O seu sistema de "drenagem" voltou a funcionar satisfatoriamente. Uma paz parcial reinou nesta casa. Todos conseguiram dormir um pouquinho, até os cachorros.

#7

Acabou a licença-paternidade! Mas, no fim das contas, graças à ajuda inestimável da super-master-blaster-linda-maravilhosa-diva-poderosa-vitaminada-salve-salve, Dona Sogra Ivani, não cheguei destruído. Hoje foi o dia do famigerado teste do pezinho ampliado no Vítor. Detalhe: o sangue é colhido do braço. Que p... é essa?! Em aproximadamente um mês saberei se ele é mutante ou não.

#8

Hoje acordei chocando gripe, com tosse e mal-estar. Será alguma somatização da carência e ciúmes que estou sentindo pelo fato de minha mulher ter me trocado por um cara 45 anos mais jovem do que eu?

Em tempo: Ivan Bonora Prado, o mascarado da foto, é o pai fresco autor destas hilárias “reflexões” postadas no Facebook. Este escriba relapso, empanturrado com tantas confraternizações, recebeu dele a devida autorização para publicá-las. Obrigado, Ivan! Saúde, Vítor!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Mexericos do Tom

N5-01

Jean Tortellini, hoje em dia, é o cara. Protagonista da novela das oito, foi entrevistado duas vezes pelo Jô. Saiu na capa da Veja e é figurinha carimbada nos cadernos de TV dos grandes jornais.

Tem feito um bom pé-de-meia com comerciais —aquele da FriBoi em que ele atira uma granada num restaurante vegetariano ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O anúncio já teve mais de 23 milhões de ‘views’ no YouTube. Dizem que o próximo vai ser rodado no Japão. A coluna apurou que a nova peça publicitária vai ter mais um roteiro de impacto: Jean, vestido de samurai, vai decapitar nas ruas de Osaka o presidente de uma fábrica de tofu. O bordão “tuuuuudo pela carne” caiu na boca do povo.

Ocupadíssimo, ele aceitou falar comigo num táxi, correndo do Projac ao set de uma gravação, em Copacabana.

Segue o pingue-pongue, profundo, fundamental para entender um artista tão complexo:

—Uma água sanitária?

—Cândida, claro. Além de ser a melhor tem o mesmo nome da tia Candinha, a suuuuuuper boleira de Guaxupé.

—Um amortecedor?

—Monroe, óbvio. Nas curvas ousadas eu quero segurança sem esquecer da Marilyn. [em off the records ele me pergunta se ficou claro o link entre curvas ousadas e Marilyn Monroe]

—Uma loja?

—Armarinhos Fernando! Pego a ponte aérea só para comprar lá. Aaaaamo a Vinte e Cinco de Março!

—Um ditado?

—Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana. [gargalhadas]

—Uma marca de cueca?

—Calvin Klein. Gostava da Armani, mas os últimos lotes têm vindo com elástico ruim. Esgarça em dois meses. [faz careta de reprovação]

—Uma filosofia de vida?

—Melhor uma pizza na mesa do que duas no forno. Sou muuuuuito ansioso!

—Uma cidade?

—Londres, sem dúvida. [“meu público quer ouvir isso, mas, cá entre nós, não troco minha Guaxupé por naaaada”]

—Um lugar pra meditar?

—Machu Picchu. [“acho mais cool falar assim, mas nada melhor do que o vaso Deca, linha Niemeyer Confort Plus”]

—Um restaurante?

—Cupim Tolá. Aaaaamo de paixão!

—Um perfume?

—Chanel n° 5. Não vai perguntar sobre minha roupa de dormir?

—Roupa de dormir?

— Chanel n° 5. [gargalhadas]

—Banda dos anos 80?

—Biquíni Cavadão. Não vai perguntar sobre minha roupa de banho? [gargalhadas]

—Apple ou Samsung? [ele faz pose, finge morder uma maçã e dá-lhe gargalhadas].

—A última, essencial: PT ou PSDB?

—Ai, querido, essa eu pulo. Odeio, odeio mesmo, falar da minha intimidade. [semblante sério, nada de gargalhadas]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O “jornalismo” engajado de Veja

capa de veja

Antes de tudo, para esclarecer quaisquer eventuais acusações de motivações político-partidárias, revelo: votei com convicção em Aécio Neves.

Escolhi o tucano por várias razões, a saber: a necessidade da alternância de poder —um partido governar por dezesseis anos não é saudável em nenhuma democracia do mundo—, o desavergonhado aparelhamento do Estado por filiados e militantes petistas, a gestão temerária e politizada na Petrobras, os rumos erráticos na economia do país e o desastre que é a política de relações exteriores da gestão Dilma —apoiar com farto dinheiro do contribuinte brasileiro a ditadura cubana e manter relações estreitas com, seja lá que diabo é isso, o populista socialismo bolivariano na Venezuela. Isso sem falar na proposta de diálogo com o grupo, ou melhor, quadrilha, nominado Estado Islâmico, que são esses radicais muçulmanos impiedosos que decapitam sem piedade cidadãos de países ocidentais e compartilham as barbaridades na internet. E, claro, a corrupção entranhada e institucionalizada nos porões de ministérios e empresas estatais.

Votei em Aécio, sim, mas repudio o “jornalismo” tendencioso da revista VEJA. Não vejo mal nenhum no fato da publicação manifestar em editoriais e através dos seus colunistas opiniões reacionárias e anti-PT, mas no território sagrado das matérias/reportagens isso é inadmissível e tira qualquer credibilidade do veículo. Isso é canalhice. Torpeza, pra dizer o mínimo, foi a capa da revista no fim de semana do pleito do segundo turno. Primeiro, anteciparam a circulação da edição e fizeram um marketing agressivo com a capa que aludia a um suposto conhecimento prévio de Lula e Dilma do escândalo na Petrobras. A informação foi baseada num hipotético testemunho do doleiro Alberto Youssef, criminoso confesso, enjaulado e com confiabilidade nula.

Se comprovado o alegado por Youssef, aí sim o Congresso tem o dever político de pedir o impeachment da presidente da República.

Em 1989 já testemunhamos tentativas espúrias de manipular o eleitorado: a edição picareta, feita pela Globo, do debate Lula X Collor. Nos telejornais da emissora, o collorido de Alagoas massacrou o petista, o que não correspondeu à realidade da contenda verbal. Também, na mesma eleição, a polícia quercista de São Paulo apresentou à imprensa os sequestradores do empresário Abílio Diniz trajando camisetas do PT.

Outrossim, não compactuo com o vandalismo perpetrado contra a editora Abril pela militância petista, bem como a tentativa da campanha de Dilma para retirar a revista de circulação. Censura não, nunca, jamais. Tratem a VEJA pelo que ela é, assumidamente: um panfleto ideológico que propaga uma doutrina conservadora de direita que representa parcela significativa da população brasileira. A Constituição consagra a liberdade de expressão.

E, voltando para a província crepuscular, me lembra o episódio Laert na última eleição municipal. Na capa do maior jornal da cidade, O Município, foi publicada, no sábado anterior ao sufrágio, em manchete de primeira página uma enquete de pastelaria pró Laert. Verdade, sem metáforas, uma enquete de pastelaria desprovida de qualquer metodologia.

Palavras do Luís, amigo e dono da Pastelaria do Renato: "Fui usado pela assessoria do candidato. Jamais deixarei que usem novamente meu nome e do meu negócio para fins eleitorais".

Nos dois casos, da VEJA e d’O Município, um tiro desesperado nos próprios pés.

Em tempo: falei da VEJA pela grande tiragem da revista e pela visibilidade, mas tem muitos órgãos de imprensa —revista Carta Capital, é um exemplo— e blogueiros, como Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim, que fazem o mesmo jogo sujo a favor do PT.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Folheando

folha manchete

Um amigo de longa data, Luís Pio Magalhães, sabedor do meu apreço pela Folha de São Paulo e pelas crônicas do Xico Sá, instou-me a comentar o pedido de demissão do cronista. Explico: Xico, na sua última coluna, não publicada, declarou o voto em Dilma. O jornal, pela diretriz editorial, pediu que o texto se adequasse ao Manual de Redação —que veta o proselitismo político dos seus contratados— e ofereceu-lhe outro espaço (Tendências/Debates, página 3) para a publicação da lavra controversa. Como as partes foram irredutíveis, Xico pediu o boné e saiu gritando nas redes sociais.

Respondi ao querido Luís, com cópia para Vera Martins, ombudsman da Folha. Assim o fiz:

Meu amigo, tirando algumas pândegas e galhofas do Zé Simão e congêneres, não vou falar de eleição no Facebook. Prometi a mim mesmo esta abstinência depois de reler o discurso de posse do meu ídolo, Carlos Heitor Cony, na ABL, do qual destaco um trecho que muito me apraz:

"(...)Não tenho disciplina mental para ser de esquerda, nem firmeza monolítica para ser de direita. Tampouco me sinto confortável na imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro. Tenho me tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo(...)"

Fragilidades reveladas e idolatrias reiteradas, arvoro-me a falar um naco sobre as duas paixões mencionadas no primeiro parágrafo.

Com a Folha o caso é mais antigo —uns 35 anos. Comecei a paquera lendo as tirinhas da Ilustrada na casa da minha avó, Fiuca. Do Xico, me recordo de lê-lo pela primeira vez na Folha nos idos de 1996, cobrindo a morte de PC Farias. Um Xico sério, repórter fuçador, nada a ver com este genial cronista de cotidiano do presente. Óbvio que ele já tinha a veia cômica e apimentada. Ela, à época, só estava oculta pela pauta mais cinzenta do primeiro caderno. Ainda era um foca, acho eu, um foca que já mostrava argúcia.

Depois que descobriram seu talento para os motes futebolístico, sexual e futiba-sexual, junto, surubado, swingado, o homem saiu do Baixo Augusta para o Brasil. O homem que se inebria na fila da padaria com a "morena linda, cabelos molhados, cheirando Neutrox". O homem que hoje tá na Globo lançando devassos comentários no talk-sex da Fernanda Lima.

No caso em questão, a Folha pisou na bola e pisou porque negou-lhe um produto caro à cesta básica da existência: a liberdade de expressão no seu quintal. “Cesta básica da existência”, diga-se, é da grife do Xico.

Vários colunistas do jornal explicitaram ou sinalizaram seus votos nesta eleição. Na segunda-feira, Gregório Duvivier declarou seu voto na candidata petista em coluna na Ilustrada. Janio de Freitas, Antonio Prata, Ricardo Melo, entre outros, são muito claros no posicionamento pró Dilma/PT. Ao contrário, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Ferreira Gullar, fazem o contraponto a favor dos tucanos.

A diversidade de correntes me cativa na Folha. Muito. A militância do PT nas redes sociais —tão chata e marrenta quanto a dos corintianos— é useira e vezeira em ensacar a Folha junto com a Veja e a Globo. Errado. A Folha erra, sim, mas é exceção. Erra e assume, quase sempre. Ser um veículo plural, crítico e apartidário é a marca do jornal, diferentemente de todos os grandes veículos do país.

Há 25 anos a Folha trouxe para o Brasil o conceito de ombudsman. Conceito e prática. O ocupante tem estabilidade no cargo e sinal verde para baixar o porrete nas editorias. É a voz do leitor dentro da redação para criticar o próprio veículo. O ombudsman não foi fogo de palha de marqueteiro. Há 1/4 de século bate sem dó em quem lhe paga o salário. E pode ter certeza que a demissão do Xico vai estar na coluna dominical da ombudsman.

Entre poucos erros, esse do Xico Sá foi doído, e muitos acertos, ainda vejo a Folha engajada na campanha das Diretas em 1984, bandeirando pela eleição de Tancredo Neves em 1985. Foi o primeiro veículo da grande mídia a mencionar PC Farias e nadar contra a onda farsesca do collorido caçador de marajás; denunciou a fraude na licitação da ferrovia Norte-Sul, acusou a compra de votos parlamentares na gestão FHC para aprovar a reeleição. Em 2005, publicou a entrevista-bomba de Roberto Jefferson que fez eclodir o mensalão. Luís Nassif, quando na Folha, foi a primeira voz a questionar o linchamento dos donos da Escola Base. Mais: aeroporto do Aécio, dentadura na eleitora da Dilma, lambança na Petrobras. Tem no time Juca Kfouri, o jornalista esportivo mais sério e combativo do Brasil, enfim, um jornal que se posiciona nos editoriais, que faz cobertura isenta, que tem cores múltiplas, que ouve o outro lado, que investiga...

Eu leio, sigo, critico, odeio e adoro a Folha. A partir desta semana, mais triste sem o Xico, mas ainda assim, a FOLHA.

Em tempo: a ombudsman, Vera Martins, assim respondeu ao escriba: Caríssimo Lauro, a esta altura do campeonato, é um bálsamo receber uma mensagem como a sua. Você está certo em sua certeza: o pedido de demissão do Xico vai estar na minha coluna de domingo. Abraços e até lá.”

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vanderbilt & Rockefeller

noiva
Depois de treze anos de um conturbado namoro, o empresário Carlos Alberto Vanderbilt, o Betinho da Borracharia, contraiu núpcias com a balconista Sandra Regina Rockefeller. No caso, o verbo contrair teve uma conotação mais ampla. Acometida de terrível conjuntivite, a noiva, ao trocar alianças, estava com os olhos rubros, lacrimejantes e remelentos. Este colunista apurou o estrago no day after: padre, noivo, daminha e quarenta e sete convidados foram contaminados.
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Prevenida com a possibilidade de infecção em massa, Sandrinha incluiu nas lembrancinhas, além do tradicional bem-casado, uma caixa de lenços de papel e um frasco do colírio Moura Brasil. Este colunista apurou o embuste no mimo medicamentoso: era água.
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Foram inevitáveis os mexericos na entrada da noiva. Ela trocou a marcha nupcial por “How Deep Is Your Love”. Não é segredo na cidade que, antes de conhecer Betinho, Sandrinha se relacionou com Johnny Goiabada, integrante da banda Doces Caseiros, cover dos Bee Gees. Este colunista apurou que os dois outros músicos da Doces Caseiros são Frank Abóbora e Bob Marmelada.
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Na recepção, a ala de parentes do noivo estava revoltada com o menu escolhido por dona Filomena, mãe de Sandrinha: risoto de frutos do mar. Um motim, liderado pelo primo Frederico, chegou a ser ventilado. O protesto fora motivado por aquilo que eles chamaram de “arroz empapado com sardinha”. O primo Leopoldo fuzilou sarcasmo: “Sandrinha combina com sardinha”. Este colunista apurou que, ao contrário do colírio, o risoto não era engodo. A família Vanderbilt conhece nada de gastronomia e muito de fuxicos.
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Dona Agadir, sogra, se insurgiu contra o vestido da nora: “Indecentemente decotado, vergonhoso”, cochichou para a irmã. “Meu menino não merece essa moça de reputação duvidosa”, ainda lamentou. Este colunista apurou que, de fato, o figurino era um tanto ousado nas fendas e transparências.
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Senhoritas casadoiras disputaram no corpo a corpo o tradicional buquê arremessado que, pasmem!, foi agarrado pela ágil —e casada— Gisela Silva Guggenheim. O burburinho correu o salão. Antenor, o marido, aumentou o bas-fond ao bradar carraspanas impublicáveis à ligeira Gigi. Este colunista apurou que o senhor Guggenheim só foi amansado horas depois, entre quatro paredes, pelas peripécias libertinas —e também impublicáveis— da mulher.
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Os noivos sonharam com uma lua de mel em Itanhaém. Os planos praianos foram frustrados em razão da baita grana injetada na festa. Cinco dias em Pocinhos do Rio Verde só foram possíveis graças aos caraminguás arrecadados com os picotes da gravata. Este colunista apurou que Betinho padeceu de insucessos eréteis nos dois primeiros dias da viagem. A partir do terceiro, aleluia!, a coisa engrenou e Sandrinha deu-se por satisfeita com o desempenho do rapaz.
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Sigilo da fonte é um princípio basilar para a prática do bom jornalismo. De antemão, este colunista bisbilhoteiro invoca-o.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Trevas

figado

Inspiração zero, sensação ruim, teclas intocadas. Quarenta minutos olhando para a página vazia do Word. O cursor piscando irritantemente. Ouço um clamor embalado em timbres metalizados, robóticos:

—Preencha-me, busque ideias em portais de notícias, procure nesta cachola desmemoriada alguma reminiscência digna de nota. Se vira, cara, você tem compromisso. O pessoal do jornal não aguenta mais seus atrasos.

—Então... o UOL fala da corrida presidencial, da crise no Palmeiras, da taxa de desemprego e das decapitações no Oriente Médio.

—Não, acho que não. Estes temas já foram cantados e bisados por gente muito mais qualificada que um cronista provinciano. Acho que a coisa tem que ter uma pegada mais exótica.

—Ontem saiu na Folha sobre uma corrente na gastronomia que usa esperma humano nas receitas. Excêntrico, não?

—Escatológico demais. Não é por aí. Muita apelação. O mote pode até ser bizarro, mas sem agredir. Porra no pudim esbofeteia o leitor médio.

—Tem aquela reportagem do jornalista que foi contar a história de uma produtora pornô e atuou num dos filmes.

—Muito sensacionalista! E tem mais, a história é dele, não é sua. Até caberia se você também fizesse, narrando em primeira pessoa.

—Não dá pra mim. Até pensei, mas a confusão em casa seria grande. A patroa não entenderia a sacanagem fake que, diga-se, nem é tão fake.

—Pensando bem, taí um gancho. Enfiar-se numa atividade cotidiana que não é a sua e escrever contando a experiência. De novo, insisto na narrativa em primeira pessoa.

—Frentista de posto de gasolina, garçom, atendente de call center, vendedor de seguro...

—Sei não, sem tempero, sem sal nem açúcar. Tem que ser um troço mais polêmico, apimentado, uma coisa tipo stripper num clube de mulheres...

—Pô, meu, já falei que é rolo pro meu lado. Minha mulher é esquentada e isso não rola. E tem outra: que louco vai contratar como stripper um escriba sem ginga e dotado de uma pança descomunal?

—Verdade. Outro palpite: é pública e notória sua incivilidade à mesa. Todo mundo sabe que você mergulha em incursões calóricas nada comedidas. Passe uma semana num spa e conte sobre as privações em tons melodramáticos.

—Não dá tempo. Tenho duas horas para enviar o texto.

—Invente. Ficção com muito fundo de verdade.

—Pensar na ingestão de soja, rúcula, farelo de aveia e tofu castra mais a minha já escassa capacidade criativa. Tô fora. Spa e abdominais, nem na imaginação.

—O ódio, o ódio é estimulante. Pense em algo ou alguém que você abomine. Palavras amargas rendem boas crônicas. Sai até humor daí.

—Escute isto, então: “Levantei uma bandeira reprimida quando gritei minha aversão total e absoluta ao bife de fígado. Multidões nos cinco continentes odeiam bife de fígado. As manifestações só não ocorreram até agora porque faltava quem desse o primeiro brado contra estes detestáveis filés hepáticos. Eu sou o líder, eu estou na cabeça do movimento histórico que vai abolir de todas as mesas a glândula intragável...”.

—Não pare, toque em frente, em primeira pessoa, a toada tá boa e a carne é realmente ruim. Vai, insiste, divague, remoa a cólera que a crônica vai sair. Agite lá no Twitter, crie expectativa, arrebanhe seguidores para a causa, crave a hashtag #odeiofígado. Lá na frente, você mistura com soja, rúcula, farelo de aveia e tofu. Potencialize o rancor. Será antológico!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A retratista intrépida

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A fotógrafa, destemida, é destas que gostam de captar imagens étnicas e/ou de paisagens marcantes em regiões remotas do planeta.

Como o cascalho anda curto para seus rompantes de sebastiânicas salgadices, as expedições ficam restritas aos arredores da província macaúbica.

Uma câmera na mão, um insight, charanga na estrada e lá foi ela atrás de retratos exóticos nas bordas da trilha Sanja-Jardim (Santo Antônio do), onde tem —ou tinha— um acampamento cigano.

A coisa estava um tanto calma, quase silenciosa, enquanto a corajosa zanzava entre as barracas admirando o brilho das panelas areadas. Pela tradição, a luminância há que ser intensa nos utensílios metálicos do povo zíngaro.

Seguindo zumbidos de conversas, ela avistou pouco mais de meia dúzia de crianças e jovens mulheres.

Aproximou-se. O breve “oi” foi seguido de cliques frenéticos com a lente focada nos gitanos. A calmaria acabou ali. Uma cigana irada pisou firme, rodou o vestido vermelho-sangue e avisou-a de forma rude que fotos deles só seriam permitidas com a autorização e a presença do líder do clã. Mais: o chefão havia saído, sem previsão de retorno e, por isso, as imagens colhidas deveriam ser imediatamente deletadas.

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A visão de peixeiras nada nanicas dissipou qualquer intento argumentativo na atrevida Josi —sim, senhores, a cara-metade deste temente cronista é a protagonista da crônica.

Os ânimos arrefeceram à medida que os registros, um a um, iam sendo apagados sob a atenta observação da bravinha de sorriso dourado.

Pedidos de desculpas e uma saída —eu diria fuga—, rapidinha, revelaram um arremedo de receio na arrojada garimpeira de instantâneos não convencionais.

Jururu com a aventura infrutífera, ela logo percebeu que as adjacências ofereciam gente interessante e mais pacífica para o êxito do projeto Regional Geographic.

E assim foi, da ciganada para a tijolada, da gitanaria para as olarias.

Com as belas fotos que ilustram esta publicação, o escriba homenageia a mulher que lhe atura cotidianamente e a sofrida e gentil plebe que, literalmente, amassa o barro para sobreviver.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Nonô e Berê

superman

Recém-casados, Antenor e Berenice voltaram da lua de mel exaustos. Nem tanto pelas fogosas recreações carnais, mas muito pela estrada esburacada e sinuosa que a Belina 1987 enfrentou sem muito vigor.

O apartamento financiado cheira tinta fresca. Os presentes estão esparramados no chão da sala.

—Berê, panela de pressão é muito útil, mas a sua tia Izildinha é uma muquirana. Montada na gaita como ela tá, poderia abrir bem mais a mão e brindar a sobrinha com algum cacareco de mais valor. Tipo uma TV daquelas grandonas, pra eu assistir aos jogos do Curíntia.

—Nonô, fala nada não, peralá, o seu primo Castor, com um monte de casa de aluguel, podre de rico, e me vem com esse joguinho americano chinfrim. Essa coisa tá tão demodé quanto a sua Belina.

—Alto lá, não fala assim da minha Belina, senão eu falo da sua Mobilete, que vive engasgada.

—Alto lá, digo eu, deixei de comprar uma moto maior pra ajudar você comprar aquela mesa de pebolim que nem cabe aqui no apartamento. Aliás, coisa estranha um marmanjão desse querer mesa de pebolim.

Antenor faz biquinho e puxa Berenice pela cintura soltando uns murmúrios no dialeto “bebê aprendendo a falar”:

—Ah Beiezinha, num vamo bigá não, agóia nói tamo zuntinho, vamo ficá di bem.

Berenice é uma mulher turrona, mas o idioma “neném” derrete sua alma renitente:

—Ah Nhonhozinho, páia vai, assim eu fico toda arrepiada!

Amassos e mãos bobas param quando Berê bota os olhos numa caixa embalada com motivos infantis:

—Ué, que será isso? Parece presente de criança! Deixa eu ver o cartão.

Antenor fica apreensivo, calado, e Berenice segue espantada:

—Quem será esse Time Warner que mandou o presente? Sabe quem é Nonô?

Ela estranha a sisudez do marido e cutuca:

—Diga, homem de Deus! Desembucha!

—Então... [longa pausa e coçada na cabeça] preciso conversar com você sobre isso...

—Fala logo, tô ficando nervosa.

Ela abre o pacote estraçalhando papel e caixa:

—Quê isso, Deus do céu, uma fantasia do Superman!

Mão no queixo e muito circunspecto, Antenor responde compassadamente:

—Senta, Berê, senta... [ele espera ela sentar e lhe serve um copo d’água, antes de prosseguir] Berê, eu sou o Super-Homem. Isso não é fantasia, é minha roupa de trabalho. Antes do nosso casamento, eu liguei pra meu Chefe e falei que um homem casado não poderia sair por aí salvando a humanidade com uma roupa velha e uma capa desbotada. Na verdade, tentei até mudar um pouco o estilo. Não me agrada muito essa sunga vermelha sobre a roupa, mas Ele não concordou. Eu até entendo, tradição, coisa e tal...

Berenice empalideceu e sua voz mal saía:

—E o emprego no escritório de contabilidade do seu tio?

—Tudo fachada. Eu estou no mundo pra lutar contra as forças do Mal.

—E o salário, é bom?

—Já foi melhor, mas dá pra ter uma vidinha boa, sem muito luxo. Tô tentando pedir um adicional de insalubridade. Pego cada bucha de malfeitor em cada beco imundo.

—Ah Nonô, tudo bem, o que importa é estar empregado. Todo trabalho tem a sua dignidade.

—Tem outra coisa muito importante que eu tenho pra te dizer. É sobre a minha roupa de trabalho: não usar amaciante e secar sempre na sombra. E quando for passar, nunca passe o ferro quente sobre o S.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Paulo Henrique

margarina

Sujeito bacana esse Paulo Henrique. Um homem que os cronistas de antanho rotulariam como “bem posto na vida”.

É chefe de uma família que os escribas de hoje carimbariam como “família comercial de margarina”. Casado com Maria Alice há mais de década, pai de Ana Luísa e João Fernando, mora com muito conforto num condomínio fechado.

É empresário de sucesso: controla  uma agência de publicidade e uma gráfica que não param de crescer.

Religiosamente, uma vez por ano, leva a família para os parques de Walt Disney. Os filhos se acabam no Magic Kingdom e no Epcot Center, e a esposa se acaba em compras nos malls e outlets da Flórida. Também não deixa de fazer uma viagem só com Maria Alice, sempre no mês do aniversário de casamento deles —outubro— e habitualmente para destinos românticos. No ano passado, foi Paris e Saint-Paul-de-Vence, neste, será Veneza e Firenze.

Católico fervoroso, assiste às missas dominicais na igrejinha de São Bom Jesus. Adora as homílias do padre Herculano e contribui com generosidade para as obras sociais da paróquia. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Valoriza muito a educação. Frequentou os melhores —e mais caros— colégios e se graduou em Administração de Empresas nos EUA —na Universidade da Pensilvânia. Pela vontade dele, Ana Luísa e João Fernando vão trilhar os mesmos passos acadêmicos que os seus.

Paulo Henrique é muito preocupado com o bem-estar dos colaboradores. As empresas pagam salários acima do mercado, bancam planos de saúde completos e a cesta básica não tem nada de básica. Nas confraternizações de final de ano, todos os contratados são presenteados sem economia. Para agradar sua equipe, ele não olha para os cifrões. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Já foi um apaixonado por SUVs, aqueles veículos utilitários lindões, grandalhões e beberrões. Antenado com as questões ambientais, hoje, ele e a esposa dirigem carros menores, ecologicamente corretos. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Engajado, combatente nos bons combates, Paulo Henrique participa ativamente de vários conselhos municipais que discutem saúde, segurança, educação e infraestrutura urbana da comunidade onde vive. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Torcedor fanático do Brooklyn Football Club, Paulo Henrique não perde nenhum jogo do time. Vai ao estádio quando o cotejo é em casa e gruda no pay-per-view da TV quando o BFC atua fora dos seus domínios.

Paulo Henrique, sem motivo aparente, vocifera insultos racistas aos negros das equipes adversárias. Quando erram jogadas, também os atletas negros do BFC são alvos das hostilidades discriminatórias de Paulo Henrique.

A casa enorme de Paulo Henrique tem muitos empregados. Faxineira, cozinheira, jardineiro e limpador de piscina. Paulo Henrique não admite nenhum negro para estas funções.

O grupo empresarial de Paulo Henrique emprega mais de 80 pessoas. Nenhuma é negra. Paulo Henrique acha que os negros não têm aptidão para o trabalho.

No seu meio social, Paulo Henrique é exemplo de pai de família e homem bem sucedido nos negócios. A embalagem vistosa mascara um cidadão de convicções abjetas, doutrinário de segregações raciais. Sujeito escroto esse Paulo Henrique.

Um pulha, definitivamente, Paulo Henrique NÃO é um sujeito bacana.

*imagens meramente ilustrativas

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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

As maçãs de Steve

maçãs

Steve é um produtor de maçãs. Mais: Steve produz várias qualidades de maçãs. Mais ainda: Steve produz maçãs e tem quitandas próprias que vendem suas maçãs no mundo inteiro. Steve refuta o termo quitanda; ele prefere Loja da Maçã.

Obcecado pela excelência, Steve investe pesado em pesquisas. Não passa ano sem que ele surpreenda o mercado. Ora cria novas espécies de maçãs, ora aprimora os atributos das já criadas.

Steve gosta de filosofar: “As pessoas não sabem quais maçãs querem, até que mostremos tipos diferentes a elas”. Steve entende de maçãs, mas Steve entende muito mais de gente.

A empresa de Steve fica longe daqui, num outro país. Nosso reino até produz algumas maçãs de Steve, mas as sementes vêm da terra dele.

No portfólio macieiro de Steve, as campeãs de vendas são a mAçã C e a mAçã S. Ele pouco explica a nomenclatura das suas frutas. Deduzo que o C é de comum e o S é de super. Minha dedução vale nada perto das convicções de Steve.

As mAçãs C e S têm sabor e tamanho muito parecidos. A modelo S, pela aparência mais robusta e polpa mais sumarenta, custa mais que a C. A diferença de preço nem é tanta, mas Steve encasquetou que os reinos menos afortunados iriam cair de amores pela mAçã C. Steve é um gênio, mas até os gênios se enganam. Os miseráveis rejeitaram a mAçã C de Steve.

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Orual, nativo do Reino das Bananas, é um pobretão inconformado. Sua birra tem a ver com o desapreço de Steve pelo seu torrão natal. As mAçãs novidadeiras só chegam à ilha de Bananal muitos meses após o lançamento na metrópole de Steve.

Os rompantes de impaciência de Orual beiram a insanidade. Mal tendo dinheiro pra comprar jiló na feira, ele voou para a Grande Maçã no intento inabalável de possuir a mAçã S.

O time de Steve é bem treinado para conter a turba de maltrapilhos ousados. O sotaque bananeiro entrega a origem e a Orual só é ofertada a mAçã C. Se os quitandeiros são bem amestrados, Orual é um jeca teimoso.

Na Grande Maçã, o caipira faz um périplo desesperado e passa por todas as lojas de Steve. Nada da S e tudo da C.

—Cê é o cacete! Eu quero a porra da esse!

O desabafo vigoroso sai no seu exótico dialeto aborígine. O brado ecoa até os ouvidos de um conterrâneo de Orual, infiltrado no exército de Steve, que se sensibiliza com o lamento.

O irmão-bugre acusa:

—A loja do Parque Central funciona vinte e quatro horas. Apareça lá zero hora que, na madrugada, chega uma carga extra de mAçãs S. No frio, antes do amanhecer, podemos vender a S aos descamisados dos trópicos.

Na sua distante hospedagem, Orual toma o trem das onze (Evoé!, Adoniran), viaja sessenta minutos no vagão vazio e, da Grande Estação, caminha mais sessenta minutos sob uma hostil temperatura polar para, glória!, finalmente receber a mAçã S dos branquelos assalariados de Steve.

Com a mAçã cobiçada na mochila, Orual vagueia pela grande cidade na companhia de artistas, bêbados e putas. Ele tem que matar o tempo até às seis da manhã, horário do primeiro trem de retorno.

Por alguma razão, ali, insignificante entre os arranha-céus, mal agasalhado, faminto e molambento, Orual amaldiçoou aquele casal desobediente do Jardim do Éden.

Em tempo: se alguém ainda tem dúvidas dos tons autobiográficos, o signatário do texto confessa sua busca desavergonhada por um iPhone 5S, no outono de 2013. E, convenhamos, truquinho manjado esse de grafar o nome de trás pra frente.