Há tempos, viajando com uma colega de trabalho, conversávamos sobre algumas peculiaridades crepusculares. Ela disse, entre umas e outras beloquices triviais, que o irmão quando universitário em São Carlos foi apelidado com a expressão que intitula este texto.
O mano da Tininha abusava do bordão para enfatizar suas teses: “cara, a prova foi difícil por bosta!”; “ontem, na festa, fiquei travado, bebi por bosta!”; “aquele professor é chato por bosta!”.
Depois da história da alcunha inusitada, fiquei com bosta na cabeça. Em amplas consultas nada científicas, com nativos e estrangeiros, me dei conta da origem macaúbica do “por bosta!”. Pensei em pedir auxílio a alguns colegas historiadores da Academia. Melhor não. O Falconi, o Lorette e o professor João Scannapieco têm resgates históricos bem mais importantes que o excremento verbal que permeia a cachola deste escriba.
O confrade Wildes Bruscato, compadecido pela enfezada pesquisa deste blogueiro, revelou sem maiores detalhes o autor do carimbo fecal: Neno Quessa.
E aí Neno, é verdade que você pariu mais essa? Meio irritado por ser despertado da sesta, ele contou que o “por bosta” deve ter sido cunhado pela primeira vez nos idos da década de 50. Neno nega a paternidade do advérbio de intensidade, mas assume a propagação radiofônica dele. Em meados dos anos 60, Compadre Fica-Fica acordava a audiência da Piratininga com o programa “Amanhecer na Roça”. Na época, quando um resfriado o impediu de empunhar o microfone, ele mandou o rebento Neno para apresentar a atração. No dia, as Casas Pernambucanas, patrocinadora, liquidava tecidos e retalhos. Depois de ler o script da propaganda, Neno arrematou com um caco antológico: “Comprem nas Pernambucanas, é barato por bosta!”.
Foi um bafafá. Alguns ouvintes indignados, Neno foi repreendido pela direção da emissora e o Dentel ameaçou suspender a programação por três dias. Se uns poucos se sentiram ofendidos, a maioria adorou ver a voz das esquinas nas ondas da Piratininga. Até então, o “por bosta” era mais popular nas bocas da plebe rude. Depois, e até hoje, o crepuscular, de qualquer classe, da gema ou por adoção, enche a boca pra falar da sua província: “São João, ô cidade boa por bosta!”