sábado, 31 de maio de 2014

Copas, lembranças

1978 – Argentina

copa 78

Quando os jogos do Brasil caíam em dias de semana, nós, alunos do Joaquim José, assistíamos as pelejas no corredor da escola, sentados no chão e tentando enxergar alguma coisa na imagem chuviscada de uma TV P&B de quatorze polegadas. As laterais das canchas argentinas tinham mais papel picado do que grama. Na disputa do terceiro lugar contra a Itália, um dos gols brasileiros mais bonitos em Copas do Mundo: Nelinho, uma bomba de fora da área e a bola fez uma curva inimaginável. Na gaveta! Antológico! —vale uma busca no YouTube pra quem quer ver ou rever. Só anos depois fui entender a armação da ditadura argentina para o caneco ficar com os donos da casa.

1982 – Espanha

copa 82

O jogo inaugural da Seleção em Sevilha, contra a URSS, uma virada sensacional com dois golaços de Sócrates e Éder —também prescrevo o YouTube para rever os tentos desta partida—, projetava que seríamos imbatíveis. ­Os três cotejos seguintes —massacres contra Escócia, Nova Zelândia e Argentina— confirmaram o favoritismo dos canarinhos em plagas ibéricas. Cinco de julho, Barcelona, estádio Sarriá: Paolo Rossi endiabrado e um Toninho Cerezo letárgico fizeram o Brasil, depois do Maracanazo em 1950, sofrer sua mais dolorosa derrota em Mundiais. Aos 12 anos, pela primeira vez, compreendi o significado de uma Copa do Mundo para quem ama o futebol.

1986 – México

copa 86

Telê Santana, novamente, convocou um escrete de respeito. Estávamos um pouco aquém de 1982, mas ainda contávamos com Sócrates, Júnior, Zico e o centroavante Careca numa fase espetacular. Lembranças marcantes: os gols extraordinários do lateral-surpresa Josimar —de novo, o YouTube—, contra Irlanda e Polônia, e o pênalti perdido por Zico, contra a França, no jogo que desclassificou o Brasil. Foi a primeira e única vez que chorei por uma derrota da Seleção. Lágrimas doídas e copiosas.

1990 – Itália

copa 90

Um Mundial pra ser esquecido pelos brasileiros. Um técnico embusteiro, Sebastião Lazaroni. Falava, falava e não dizia nada. A falta de comando provocou cisões e panelinhas no grupo. O futebol medíocre da época recebeu o carimbo de Era Dunga, uma alusão ao volante cujo estilo de jogo pouco técnico desagradava imprensa e torcida. Nas Oitavas de Final, contra a Argentina, Maradona e Caniggia selaram a eliminação de uma equipe que não tinha o menor futuro. Neste caso, fuja do YouTube.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Zé, um caipira vencedor

JR e Evelise - NYC

Definitivamente, o personagem destas linhas é um cara que veio ao mundo para ser protagonista.

Março de 1972, no dia 19 o casal Lalo e Beth Noronha celebra o nascimento do segundo filho, batizado como José Ricardo. Nome composto que a vida se encarregou de abreviar entre os queridos: Ricardo, JR ou simplesmente o brasileiríssimo Zé.

O pai, são-paulino fanático, de frequentar os bastidores do Morumbi, legou ao Zé essa paixão pelo Tricolor. A trilha nômade de vendedor —Lalo foi um conhecido corretor de fazendas e equinos— e as temporadas constantes na fervilhante capital paulista sempre fascinaram o menino, que também admirava no genitor sua inabalável retidão de caráter.

A mãe, educadora, mulher de fibra, por conta das viagens profissionais do marido, se desdobrava entre o trabalho, a atenção aos filhos e a administração da casa.

Da infância e adolescência na crepuscular São João da Boa Vista, levou amizades genuínas que ele cultiva até hoje. Levou também uma robusta educação básica dos bancos do Externato Santo Agostinho e do tradicional Grupo Escolar Joaquim José, quando este ainda era notável por um ensino público de excelência.

E levou pra onde? Pra São Paulo, para o Brasil, para o mundo...

Sempre valorizou esse solo macaúbico como um referencial de raízes e memórias afetivas, mas enxergou desde cedo que as oportunidades de ganhar a vida estavam na metrópole. De Sanja pra Sampa.

Na Pauliceia graduou-se em Direito pela PUC. Fez também MBA Executivo Internacional pela FIA/USP, além de uma enormidade de módulos internacionais e especializações na França, Inglaterra e Estados Unidos. A academia era importante, mas botar a mão na massa urgia para o jovem sanjoanense.

Uma época de planos e dificuldades. Empregos incertos que não emplacavam. Uma época em que fisgou na Grande São João das origens o coração da pratense Evelise Moreti. O casamento em 1999 juntou eternamente as escovas de dente.

Primeira metade dos anos 2000, junto a um pequeno time de cinco pessoas, participou do inicio das operações da EnglishTown no Brasil. Era a chegada pioneira do conceito de Inglês Online ao país.

Dedicado na labuta, estudioso e dono de um raro senso de marketing pessoal, recebeu em 2004 o convite para ser vendedor na GlobalEnglish. Conquistou, com o passar dos anos, o posto de Diretor Geral no Brasil, multiplicando por sessenta —60!— o faturamento da subsidiária brasileira e colocando-a como a maior unidade da empresa no mundo, com mais de 23.000 alunos. Em razão de prêmios por produtividade, seminários e treinamentos, conheceu o planeta em dezenas de eventos da corporação.

Há cerca de dois anos, o maior conglomerado de educação mundial, o selo Pearson, comprou a GlobalEnglish. Almejando um crescimento ainda maior, os novos controladores continuaram depositando em JR Noronha absoluta confiança nas suas competências de líder e vendedor. O caminho natural para ele seria o mais alto cargo de gestão do grupo na América Latina.

Seria, mas não foi. Zé abriu mão de ganhos nada desprezíveis, de uma carreira consolidada e de uma promoção iminente. Pediu o desligamento da companhia para realizar um sonho.

O sonho de ser um palestrante profissional. O sonho de disseminar experiências de vida e de uma trajetória de sucesso para desenvolver nas organizações forças de vendas e formar dirigentes-líderes.

Obstinado e organizado, escreveu livros —Vendedores Vencedores foi o primeiro—, criou um site e perfis nas redes sociais, sacou sua network formada em mais de uma década e foi a campo oferecer sua envolvente oratória.

Foi, falou, vendeu, palestrou e venceu.

Sua promissora labuta de conferencista já angariou como clientes, entre outros, Alphaville, Banco do Brasil, Bradesco, Brasil Foods, Caixa, Gafisa, Natura, Perdigão, PizzaHut, Sadia, Starbucks…

Os alunos dos prestigiados MBAs Internacionais da FIA também bebem ao vivo a retórica rica de JR. Ele leciona lá.

Cosmopolita e bem sucedido, leva a esposa para uma lua de mel anual na Big Apple. Pai da Maria Eugênia e da Ana Cecília, suas fontes de inspiração, ele mora muito bem com a família num condomínio na Grande São Paulo.

Orgulhoso da caipirice do torrão natal, quando aterrissa em Sanja, não dispensa uma cerveja com petiscos de boteco, proseando solto junto aos amigos de décadas que tanto preza.

Arremato com um autoplágio. Fui um dos honrados a prefaciar o primeiro livro do Zé. Assim lavrei:

“Bairrista incorrigível, sou destes que se orgulham dos amigos que saem da província e vencem na metrópole. José Ricardo Noronha é um vencedor. Vencedor porque é um profissional de referência na área de vendas. Vencedor porque é um pai de família exemplar. Vencedor porque valoriza suas raízes. Vencedor porque não esconde suas emoções. Lê-lo e ouvi-lo é essencial pra quem quer vender e vencer”.

É, Zé, esse mundão é ‘véio’, surpreendente e não tem porteira!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Venezianas

veneza
Veneza, meados de março, fim de inverno. Clima gelado para viajantes dos trópicos, mas ameno para os nativos acostumados com os rigores da estação no hemisfério norte. 15oC com indumentária adequada é temperatura deliciosa pra bater perna no singular cenário de uma das cidades mais belas e surpreendentes do planeta.

Hordas de turistas de todos os cantos do mundo em todos os cantos da urbe italiana. As charmosas ruas estreitas e os canais testemunham os sons e cores da diversidade étnica.

Comércio sofisticado para bolsos abastados. Grifes em profusão. Africanos nas ruas oferecem peças fakes de bolsas de marca. As menos afortunadas também podem ostentar uma Louis Vuitton ou uma Prada. Piratas, também, em profusão.

Opções múltiplas para comer e beber. Desde pizzas e sandubas inofensivos nos cifrões até tabernas suntuosas onde o incauto deixa fácil três centenas de euros num repasto com sua amada. Estava nos meus planos devorar um carpaccio onde ele foi inventado, o Harry’s Bar. Um pouco de juízo impediu-me de trocar 100 euros por uma porção de carne crua fatiada. Confesso: mais do que o tino próprio, a sensatez alheia, da minha mulher, foi determinante para não cometer a extravagância.

Flashes
blondie
Uma doidinha ávida por holofotes. Não entendi a razão do exibicionismo, mas embarquei na onda e também a retratei. Explico: nos arredores da Piazza San Marco, uma loura de olhos claros, passando frio num minúsculo vestido de noiva, fazia caras, bocas e posições libidinosas. Desnecessário dizer o quanto os marmanjos focavam suas câmeras na inusitada performance da blondie insinuante.

Acaso
mainardi
São tantas as fotos dignas de nota, mas essa é especial pela figura e circunstância absolutamente casual.

Vagueando cheio de exclamações nos arredores da histórica Ponte dell’Accademia, falei pra Josi com uma ponta de inveja: "O Diogo Mainardi tem um vidão e um baita bom gosto. Vive de escrever, participa do Manhattan Connection e mora numa cidade inspiradora como esta".

E não é que nas proximidades da Basílica de Santa Maria della Salute, perto das 13h, ele acompanhava, na volta da escola, o seu caçula Nico. Segurava a mochila do garoto e andava a passos ligeiros. Distraído, não percebi quem era.

A Josi o reconheceu e cantou a bola. Quando ele já se afastava, eu gritei “Diogo” e pedi para registrar a imagem. Sempre ácido e contundente nos comentários na imprensa, Mainardi foi gentilíssimo, perguntou nossos nomes, de onde éramos e fez questão que o filho também fosse retratado conosco.

Parafraseando meu amigo João Fernando Palomo: os querubins da escrita conspiram pra esse tipo de encontro.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pílulas de viagem

Cidade-Luz

paris

O Sena, a torre, os queijos, o vinho, o Louvre, o metrô, a baguete...

As infinitas alamedas arborizadas, as pontes clássicas, as luminárias de ferro, os cafés cheios de charme, os prédios nunca exageradamente espichados, a Torre Eiffel iluminada ou não, os museus indescritíveis e os monumentos mais conhecidos do mundo, os crepes de chocolate na rua... Paris respeita seu passado, mas não abdica da constante renovação, de forma ponderada, prudente, associada sempre a um inimitável bom senso: elegância. Essa elegância, sofisticada sem ser arrogante, magnetiza qualquer visitante, em qualquer esquina da cidade, em qualquer época do ano.

Underground

metro

Nas inúmeras viagens que fizemos no fantástico metrô parisiense, eram raros os vagões que não tinham artistas de rua, cantores, se apresentando. Imigrantes na sua maioria.

Toda sorte de world-music nos repertórios. Roupas e instrumentos puídos, mas muita, muitíssima energia, nas performances.

Os aplausos ante as exibições eram raríssimos e o semblante indiferente, quando não de incômodo, dos passageiros imperava nos trens.

Apesar desse sentimento de rejeição, da acústica pouco adequada, do vai-e-vem extenuante entre as estações e dos míseros euros arrecadados em prosaicos copinhos, os cantantes mantém a altivez e soltam a voz com alma, dignificando a arte que, num ambiente hostil, leva o sustento a suas proles e alimenta o sonho remoto de, quem sabe, um dia retornar ao torrão natal.

Veneza

veneza

Patrimônio da humanidade, berço de seis Papas, de Tintoretto, de Vivaldi...

Foi uma pujante locomotiva comercial do planeta a partir do décimo século e, segundo alguns historiadores, foi também a primeira capital econômica do capitalismo. Hoje, graças!, vivas!, salve!, os encantos são menos monetários e mais históricos.

Desembarcar em Veneza pela primeira vez é de arrepiar. O pranto é certo até para o mais casca-dura dos viventes. As expectativas criadas em torno da cidade viram sombras diante dos espetáculos de desenhos, cores e luzes que se espalham ao longo dos canais que costuram a inusitada malha urbana. Zanzando sem rumo pelas vielas ou navegando nas gôndolas, é impossível passar sessenta segundos sem que esbarremos em novas e singulares atrações.

Veneza acolhe, ensina, inspira e emociona!

Grazie, Dio, grazie!

napoli

No penúltimo dia na Bota, a incrível Pompeia sob a sombra do finado(?) Vesúvio.

No trajeto de Roma, o pit-stop em Napoli é necessário para embarcar em outro trem. E Napoli traz redondos instintos.

Sigo indicações de blogueiros e críticos gastronômicos e, após dez minutos de caminhada da estação Centrale, entro na Trianon, uma pizzaria de 1923, bem defronte a famosa Da Michele. Esta última, conhecidíssima pelas pizzas e por servir de cenário para um filme da Julia Roberts —Comer, Rezar e Amar—, fecha aos domingos.

Voltemos à Trianon: poucas mesas, ambiente espartano e uma brigada de donos, garçons e pizzaiolos carismáticos. A escolha tem que ser ortodoxa. Dois discos, um pouco menores que as nossas pizzas grandes —é assim que os italianos pedem, individuais—, uma margherita tradicional e outra também margherita, com mozzarella de búfala.

Massa crocante por fora, macia por dentro, nem muito fina, tampouco alta. O molho, generoso sem ser demasiado, pouco ácido, não encharca a massa. O queijo, na quantidade perfeita pra você não sentir falta nem reclamar do excesso que desequilibra o conjunto. PRIMOROSA! SENSACIONAL! EMOCIONANTE!

A tarde andejando nas ruínas de Pompeia abre o apetite antes do retorno a Roma. E eu não voltaria pra capital italiana num domingo à noite sem outra napolitaníssima esfera. Resolvemos variar de casa. Mico, armadilha, pega-turista, uma arapuca chamada Le Sorelle Bandiera.

Atrasado para embarcar e revoltado com o engodo, esbaforido, parei de novo na Trianon e pedi uma take-away.

Enfim, um domingo inesquecível neste naco de chão abençoado e sofrido que é o sul da Itália, na mítica Pompeia, e em Napoli com uma overdose do maior legado dos napolitanos a este maltratado planeta: a PIZZA.

Grazie, Dio, grazie!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Theatro, 100: heresias e bênçãos

theatro

Criança nos 70 e adolescente nos 80, destas épocas recordo-me de um Theatro que não era bem um teatro.

Na fachada o luminoso da Coca-Cola anunciava o botequim em letras imodestas. O velho bar que roubava espaço do foyer tinha lá suas tradições gastro-etílicas, mas destoava estética e conceitualmente de uma casa de espetáculos.

Minhas primeiras incursões por ali foram para beber conhecimento na Biblioteca Municipal. Sim, o prédio histórico também abrigou o conjunto de livros públicos deste torrão da Beloca. No térreo, goles mais mundanos nos puídos copos americanos do Bar Teatro. No pavimento superior, absorções mais literárias na Biblioteca Jaçanã Altair.

O sítio da AMITE conta que na década de 1930 o Theatro passou também a funcionar como cinema. E em razão dos filmes as nádegas deste inepto cronista repousaram pela primeira vez sobre as então poltronas nada confortáveis do Cine Theatro.

Naquelas programações especiais da semana da criança, o Theatro era invadido no mês de outubro por hordas de estudantes ávidos para a diversão com as projeções de películas açucaradas do tipo Lassie. A molecada delirava com as peripécias da cadela da raça collie.

Fora estes cartazes infanto-juvenis ocasionais, a agenda era permeada pela agilidade do Bruce Lee e congêneres em fitas B de kung-fu.

Vieram os 80’s e, aos montes, cinemas interioranos decadentes fecharam as portas. O Cine Theatro foi um deles.

No período, os púberes desta Sanja ocupavam diariamente o foyer do espaço. O motivo tinha pouco a ver com arte. O magnetismo que os atraía pra lá era viciante, colorido e barulhento: um fliperama mal ajambrado se aboletou por ali. O signatário destas linhas era um dos habitués nas maquininhas eletrônicas.

Uma providencial canetada do prefeito Nelson Nicolau, no seu primeiro mandato, declarando a utilidade pública do Theatro, deu início à recolocação do espaço nos trilhos da sua vocação cênica-musical.

O tombamento em 1987, a Fundação Oliveira Neto, a AMITE, a reforma, muita gente abnegada, muita briga em prol da cultura destas plagas macaúbicas. Uma sucessão de atos e fatos que ressuscitaram o Theatro para a arte.

Pano rápido. Salto no tempo para outubro de 2013.

Arteira, irrequieta, multifacetada, a confreira Maria Célia Marcondes roteiriza uma homenagem da Academia de Letras de São João da Boa Vista ao centenário do poetinha Vinicius de Moraes.

Exclamações e interrogações apoquentaram a cachola deste aparvalhado escriba, assombrado com o convite para, absurdo dos absurdos!, ser ele a encarnar no tablado um dos maiores nomes da cena poética e musical brasileira. Miseravelmente, caminhávamos para um desastre.

Vinte de outubro último, um pouco alto pelas doses do Red Label que aliviaram seus temores, o herege que vos fala, medíocre na arte dramática, ali sobre a piso sacro do palco do Theatro Municipal de São João da Boa Vista, representando Vinicius de Moraes, entre boquiaberto e perplexo, percebeu que sua performance iluminada tinha inequívocos sinais das bênçãos de Apolo.

vinicius

domingo, 22 de setembro de 2013

Habibi, Tenda do

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Pego a rodovia rumo à província poçoscaldélica buscando alívio no incomodamento causado pela quentura climática.
E vou também para reencontrar os deleitamentos apetitosos do chef Rafael Moisés, esse neto de libaneses que realiza com primor temperístico a cozinha milenar dos seus ancestrais.

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A Tenda do Habibi, cravada no coração da agitada e charmosística urbe mineira, está mais bem fornida de detalhismos estéticos, mas continua fiel às origens ofertando aos comensais pratos deliciosos em porções generosas, visualmente sedutores, acompanhados de um atendimento simpático.

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E todo esse conjunto de corretismos no bem servir não avança com ganancismo nos seus níqueis. O preço é justíssimo.
A sugestão para uma sequência de mastigamentos jubilantes: quibe cru sob cebolas caramelizadas, babaganoush, uma sagrada coalhada seca com figo ramy, charutinhos e, o gran e dulcíssimo finale, doce de semolina, uma sobremesa de encantamento inergaláctico feita de sêmola de trigo, ameixas, ovos, assada lentamente para manter a cremosidade, e que aterrissa à mesa submersa numa sutil calda cítrica.

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Confetes e confetes, Rafael, e que o seu entusiasmo pelas tentações paladarísticas perdure por mil gerações.

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https://www.facebook.com/tendadohabibi

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Carlos, Henrique e Jorge

foto P&A_PB-PARA JORNAL

Nos ramos paterno e materno da família de Carlos havia cafeicultores. Até a vida acadêmica, no entanto, nunca se interessou pela cultura do grão que sustentava vários da sua casta.

O avô de Henrique foi o médico, daqueles devotados clínicos gerais das antigas, Dr. Paschoal. Apaixonado pelo ofício e por literatura, quando morreu deixou nos arquivos do consultório as fichas de mais de dez mil pacientes. Milhares também foram os livros deixados por ele, que tanto fascinaram o neto na infância e adolescência. A biblioteca ecumênica do ascendente era mais sedutora que as brincadeiras de rua.

Comerciante, o pai de Jorge foi um visionário. A Casa Brasileira, fundada nos anos 1950, foi uma precursora do que são hoje as lojas de departamento. No estabelecimento, Rogério vendia de aviamentos a ferramentas, passando por presentes, papelaria e uma infinidade de utilidades domésticas e miudezas.

Na tradicional —e pública— escola Cardeal Leme, Carlos cursou da primeira série ao fim do hoje chamado ensino médio. A professora Joanna Di Felippe o marcou. Marcou pela compulsão com que enchia a lousa de lições —ela não usava cartilhas— e pela vara de madeira que, entre outras serventias, repreendia pupilos relapsos.

Corajoso, Henrique muito provavelmente foi um dos pinhalenses pioneiros em programas de intercâmbio. No ano letivo 1968/69, uma família do estado norte-americano do Colorado o acolheu no último período da high-school. Dos EUA trouxe experiência de vida, fluência no inglês e a afeição dos que o hospedaram.

A província ficara pequena demais para os anseios universitários do jovem Jorge. Na excelência da Politécnica da Universidade de São Paulo, com brilhantismo, granjeou o canudo de engenheiro civil.

Por algum tempo, Carlos labutou no torrão natal. Ora com empreendimentos imobiliários na iniciativa privada, ora com planejamento urbano no setor público. Ainda, lecionou Hidráulica e Irrigação na Faculdade de Agronomia, onde conviveu com professores visitantes do renomado Instituto Agronômico de Campinas, o IAC. De pesquisas desta instituição campineira saiu a maior variedade de cafés plantados no mundo.

Henrique nunca perdeu a ambição por conhecimento em plagas estrangeiras. Atraído por um anúncio publicado no Estadão, voltou à América como o único brasileiro selecionado para um programa de estudos no MIT —Massachusetts Institute of Technology. Neste ultra-conceituado centro educacional, recebeu, após um ano, o convite para fazer doutorado. Na época, por conta do curso, a cada dois meses viajava ao Egito, onde ficava quinze dias engordando sua bagagem acadêmica estudando e propondo soluções para as mazelas urbanas da nação africana.

Amigo dos donos da Máquinas Pinhalense, Jorge, nas férias, auxiliava-os como intérprete no contato com clientes gringos. Mais que um tradutor, ele era um atento observador. Observava e falava com o estofo cartesiano de um diplomado pela Poli: “A empresa fabrica com competência, mas não tem muita visão para a realidade dos países compradores”. Das críticas assertivas veio a proposta para criar/organizar o departamento de exportação da companhia. Os equipamentos da empresa, à época, estavam presentes em 12 territórios além-fronteiras. O apuro da área técnica em conceber e aperfeiçoar equipamentos que revolucionavam o beneficiamento de café aliado a uma eficiente [nova] área de comércio exterior seria determinante para a expansão da Pinhalense. E foi. Hoje os produtos made in Pinhal estão espalhados em noventa países nos cinco continentes. Mais da metade do café consumido no mundo passa por pelo menos uma máquina Pinhalense.

Carlos Henrique Jorge Brando, fragmentado nos parágrafos acima num tosco exercício literário do signatário do blog, é o cara de currículo invejável responsável por mudar e modernizar processos de beneficiamento de café em grandes países produtores.

Em 1995 saiu da empresa, mas permaneceu na missão através da P&A, uma cria para prestar de forma terceirizada o que ele fazia de carteira assinada. Mais que um vendedor de máquinas, Carlos Brando passou a ser participante ativo do agronegócio e, por consequência, aprofundou sua dedicação para dominar ainda mais o conhecimento em todas as etapas de produção e comercialização do café.

Palestrante requisitado pelos principais eventos cafeeiros do mundo, Carlos Brando multiplicou os negócios. O grupo comandado por ele tem 30 colaboradores que pensam café 24 horas por dia. Vende máquinas e consultorias, exporta cafés especiais, torra e distribui um produto extra-qualidade no maior centro gastronômico do Brasil. Uma das quatro empresas da holding é a GSB2, uma agência de propaganda especializada em café.

Do seu seleto grupo de colaboradores sai um boletim mensal bilíngue —inglês e espanhol— que atinge sete mil pessoas ligadas ao ramo nos cinco continentes. Quando o assunto é café, Carlos Brando é fonte de importantes veículos de mídia planetários: seu nome é citado com frequência pelo Financial Times, pela Reuters, pela Bloomberg...

Ainda, sabe-se lá como, arranja tempo pra ser membro de vários conselhos, governamentais ou não, que discutem e norteiam o métier.

Seguro, ponderado, generoso, Carlos Brando rejeita individualismos e credita o êxito negocial ao trabalho da equipe.

Instável, doidivanas, egoísta, o autor destas linhas enxerga méritos incontestes no serviço dos sócios e funcionários, mas não pode se abster de reverenciar a sumidade cafeeira personificada no pinhalense Carlos Henrique Jorge Brando.

E arremato, indagando como um forasteiro: Espírito Santo do Pinhal reconhece como deveria os feitos extraordinários deste filho ilustre?

sábado, 17 de agosto de 2013

Pulperia do Moraes

antigamente botequim

Sérgio Moraes é um eterno devotado à cultura de boteco.

No bairro do Rosário de suas origens, a tubaína com furo na tampinha era sorvida nas tabernas do entorno. Bar do Didi, Bar do Monsueto, Bar Tiradentes e Bar 25 compunham a trilha de estufas abarrotadas de acepipes cheios de gordura e temperos.

O moleque tinha paixão por aqueles ambientes encardidos, um tanto desregrados, de prosa e bebidas sem limites. A paquera intensa tinha alvos certeiros: torresmos, ovos coloridos, linguiças e salsichas mergulhadas em molhos suspeitos.

Aos 11 anos enxugou a primeira caipirinha de limão-cavalo. Daí o primeiro porre e o início de uma jornada de prazeres belisco-etílicos.

Por 21 anos ganhou o pão no Foto Real. O que lograva com retratos e revelações deixava nas tascas. E Sérgio foi fundo nas explorações taverneiras: da Tijuca e Vila Isabel, no meio da malandragem carioca, aos cafundós das Minas Gerais, passando, claro, por Belo Horizonte, a capital das alterosas e destino número um dos beberrões e comilões de bodegas.

A primeira aventura atrás do balcão foi o Villa Petiscos, ali na Campos Salles com Teófilo de Andrade. Pelo tamanho e pela estrutura a casa escapou um pouco do conceito do criador e, por essa e outras razões, encerrou as atividades prematuramente. Portas fechadas que deixaram lições ao empreendedor e um legado baiuqueiro a este torrão crepuscular.

Sujeito de convicções, Sérgio voltou ao métier dia destes com o Antigamente Botequim, onde propõe algumas de suas crenças: informalidade, improviso, desalinho, nada de garçons nem números nas mesas, freguês tem nome e apelido, cerveja estupidamente gelada, lousa tosca em vez de cardápios, atendimento caótico, preço justo, cachaça, costelinha de porco com mandioca, fígado acebolado com jiló, bolinho de batata com calabresa, dobradinha, bucho ao vinagrete, panceta, frango com quiabo, chouriço, pimentas várias e por aí segue nestas oleosas e rústicas veredas do paladar.

Que venha o M amarelo do Tio Sam. Os súditos da Beloca acolhem a diversidade, mas, matutos de alma, estão aí com o pé na terra aferrados ao melhor das suas tradições.

Essa vai pro santo!

E dá-lhe gole da marvada no chão áspero e puído do Antigamente.

Em tempo: a chafarica —salve Houaiss pela vastidão de sinônimos— fica na Avenida Oscar Pirajá Martins, 344, pertinho do Instituto.

domingo, 11 de agosto de 2013

Letras, aromas, pimentas e irreverência

Com muita honra fui incumbido de fazer o elóquio de saudação a João Batista Gregório. O amigo, por minha indicação, foi empossado na na noite de 10 de agosto de 2013 na cadeira 37 da Academia de Letras de São João da Boa Vista. Baita orgulho!

posse Tista

Boa noite, presidenta Lucelena Maia, componentes da mesa, confrades, confreiras e convidados. Boa noite, bardo Ademir Barbosa de Oliveira e boa noite ao amigo João Batista Gregório...

Na carência de dados para cometer esta peça retórica de boas-vindas ao neo-acadêmico, pedi para colhê-los in loco no sítio mais condimentado desta província crepuscular. Era noite de segunda-feira e sabendo de antemão que padeceria deveras com o estômago vazio no pós-trabalho, roguei ao anfitrião que me acudisse com um prosaico pão com ovo. O delicioso risoto Paris servido ao escriba e sua consorte, com champignons e presunto, foi bem mais restaurador que o trivial sanduíche.

Entre generosas garfadas no arroz arbóreo incrementado e algumas taças de vinho, ouvi muito e, em nome do protocolo e do decoro desta Casa de Letras, arvoro-me a contar um pouco da história de João Batista Gregório, com o zelo e a discrição de suprimir casos e causos impublicáveis.

A rua 14 de Julho e o bairro do Perpétuo Socorro viram nascer e crescer o caçula de seis rebentos, cinco meninos e uma menina, do casal luso-itálico Paschoal Gregório e Alzira Sansana Gregório.

O pai, comerciante, corretor, pecuarista, era um homem rígido, do tipo que exigia ser o primeiro a sentar-se à mesa e detentor de, entre tantas regalias patriarcais, a de sempre devorar as duas coxas do galináceo, quando este, assado, frito ou cozido, reinava na cozinha dos Gregório. Tista e seus irmãos, na meninice, não conheceram o gosto das ancas de uma penosa.

A comida sempre foi abundante no fogão da dona Alzira. Previdente e dotada de uma mão abençoada, o exagero era explicado porque o marido, não raras vezes, chegava de surpresa com fregueses para fechar negócios em torno de uma polenta cremosa, esparramada no tampo e cortada com linha. O arroz de forno da mãe, criativamente concebido com as frequentes sobras da véspera, está entre os sabores que mais marcaram a infância de João Batista.

A rua era o mundo de Tista fora do horário escolar. Traquinagens e brincadeiras de criança numa época em que poucas vias da cidade eram pavimentadas. No chão de terra, ele e os amigos perambulavam nas redondezas jogando bolinha de gude, brincando de pega-pega, caçando morcegos, armando estilingues para abater impiedosamente pardais e rolinhas e, supra-sumo das travessuras, invadindo o pomar da igreja do Perpétuo para furtar as sacras e polpudas frutas cuidadosamente cultivadas por padres e seminaristas.

Das noites de um tempo pré-televisão, ele guarda no seu baú nostálgico as memórias das comadres e compadres papeando e mexericando nas calçadas, enquanto a molecada gastava nas veredas o restinho da energia do dia.

Nove da noite, impreterivelmente, e a gurizada era recolhida pra dormir. No clã Gregório, os cinco garotos compartilhavam o mesmo quarto.

Estudioso, o mano Toninho, sonâmbulo, recitava, inconscientemente para desespero dos irmãos, as tarefas escolares: “Falésia é uma forma geográfica litoral, caracterizada por um abrupto encontro da terra com o mar. Formam-se escarpas na vertical que terminam ao nível do mar e encontram-se permanentemente sob a ação erosiva...”.

E por aí iam, noite após noite, tratados e decorebas de História, Física, Biologia, tabuada...

Da infância para a adolescência e os prazeres de ler e escrever contaminaram definitivamente João Batista. Influenciado pelas mestras Vera Gomes, Elza Zogbi e Olga Meirelles, ele subia intensamente em todas as vertentes literárias que lhe caíam às mãos: Eça de Queiroz, Machado de Assis, Érico Veríssimo, os clássicos franceses...

Inspirado, arriscou na dramaturgia e redigiu “Jassie, apenas uma lágrima”, uma obra chorosa, triste, encenada com êxito no Instituto de Educação e no Salão Diocesano.

Cheio de pretensões artísticas, também enveredou pela música como crooner da banda nominada, acreditem!, Os Apanágios —quero crer que a qualidade musical era inversamente proporcional ao horrendo nome do grupo. A trupe viajava numa velha Kombi embalando bailes e eventos em São João e região.

Uma passagem impagável do conjunto.

Num baile na vizinha Vargem Grande do Sul, Tista e a prima Neusa Sansana soltavam a voz na canção francesa “Je t'aime... Moi Non Plus”. A interpretação invocava alguns gemidos e, empolgados com a receptividade dos dançantes, os vocalistas se excederam no tom dos ganidos alusivos ao ato sexual. Inconformado com a sonoridade de alcova, com os uivos libidinosos, um diretor do clube onde ocorria a apresentação mandou cortar o som e enxotou Os Apanágios dali. “Isso aqui é um clube de família”, bradava o dirigente moralista.

O apelido Vassourinha decorreu da fama de namorador. Beldades de São João e região deixaram seus nomes no vasto rol das conquistas amorosas do então descompromissado João Batista. Foi uma fase em que ele conheceu sortidas ancas, não necessariamente das penosas.

Em certo período da juventude, aderiu ao estilo hippie. Porra-louca, ganhou algumas mulheres e perdeu alguns empregos por conta do cabelo comprido, sem trato, do sapato plataforma e das roupas extravagantes.

O primeiro flerte com Heliana Ciacco foi no Tekinfin, perto do Carnaval de 1975. Ele rememora a beleza da moça: “Era linda, vestia uma saia de veludo e tinha cabelo chanel”. Da recém-inaugurada lanchonete, cada um com sua turma, atravessaram a Dona Gertrudes e entraram no baile do antológico Palmeiras. Lá na pista do clube a troca de olhares continuou e, intermediado por uma amiga comum, o primeiro encontro foi marcado para o trajeto até a residência dela. Um pouco antes, na solidão da madrugada, Heliana saiu caminhando devagar a espera do pretendente que a resgataria para uma “conversa”. A coisa enrolou porque Tista, motorizado com o carro do pai que só pegava no tranco, percebeu que sua condução estava presa entre dois outros carros. Sozinha, Heliana chegou a sua casa maldizendo o tratante.

Imbróglio explicado, o namoro engatou dias depois. No mesmo 1975, João Batista ingressou na Caixa e assumiu na agência da Praça da Sé, onde foi destacado para trabalhar na área de Habitação.

A paixão era tanta que Heliana pegou a escova de dente e foi juntar os trapos com o neo-bancário na Pauliceia desvairada.

De São Paulo veio o convite para trabalhar na matriz do banco, na secura de Brasília. Especialista em financiamentos habitacionais, ele conheceu o país inteiro ministrando cursos e treinamentos.

Na época da capital federal, uma cidade de desterrados, Tista apurou a arte de receber e cozinhar para os amigos. Sua morada brasiliense ficou célebre pelas esbórnias etílico-gastronômicas.

Atingiu o ápice funcional na Caixa laborando como assessor de diretoria.

A saudade da Mantiqueira bateu avassaladoramente e ele, no impulso, voltou para trabalhar na agência de Poços de Caldas.

Amigos, vida social intensa, sucesso na faina e uma cidade que o acolheu muito bem. Nada disso prendeu o irrequieto por mais de três anos em Poços.

Brasília chamou e novamente ele, de afogadilho, foi com a família candangar no planalto central.

Nesta segunda vez no Distrito Federal cavoucou uma forma de engordar os ganhos. Nos finais de semana aterrissava em São Paulo para comprar joias. Com o horário flexível e bom de conversa, circulava pelos ministérios e repartições mercadejando peças de ouro e diamantes para abastadas funcionárias públicas.

A falta de esquinas se tornara insuportável depois de mais uns anos no centro político da República. Os recorrentes chamados das raízes o trouxeram de novo e definitivamente à região. Como Gerente Geral andejou por Aguaí, Limeira, Vargem Grande, Casa Branca, Mogi Mirim e São João. Em 2009 conquistou o dolce far niente da aposentadoria. Dolce, tudo bem, mas fazer nada não estava nos seus propósitos.

Começou a juntar a bagagem das múltiplas gentes, culturas e lugares que conheceu. Entabulou a registrar impagáveis histórias de vida, desde e infância na 14 de Julho até a trajetória rica e nômade de bancário.

Fluiu a publicação do primeiro livro, Crenças e Desavenças, veio o segundo, Qual Será o Sabor da Crônica; está pronto, quase no forno, o terceiro, por enquanto sem título. Dono de uma pena irreverente, Tista Gregório imprime nas suas crônicas um estilo singular, mordaz. Seus escritos vêm envoltos numa irresistível embalagem de humor e pimenta, retratando o bicho homem nas suas virtudes, sucessos, pecados e fraquezas. Ora melancólico, também deleita os leitores com prazerosas e poéticas reminiscências sobre queridos e tempos idos.

Internauta compulsivo, agita o Facebook no grupo Contos Curtos, Grandes Receitas. Compartilha acepipes, crônicas, humor e cultura inútil na mesma proporção. O grupo diverte várias tribos e aguça os mais diversos paladares.

Generoso com os menos favorecidos, ele dedicas as terças-feiras para preparar uma monumental sopa. Sozinho ou com o apoio de voluntários, Tista cozinha e distribui o sopão para as famílias mais pobres do bairro Santo Antônio.

A Pousada do Bosque, um lugar histórico e esplendoroso da confreira Maria Cecília Malheiro, acolhe periodicamente jantares temáticos superconcorridos capitaneados por ele.

Ainda, sua página semanal n’O Município é um caldo sedutor de letras e aromas.

Meu amigo João Batista, nove de março deste ano caiu num sábado. Um sábado gelado de inverno em Stamford no litoral de Connecticut, na costa leste dos EUA. Estávamos num restaurante cubano e, entre drinques e pratos com toques calientes da ilha de Fidel, eu tive o arroubo de instigá-lo à candidatura a uma das cadeiras vagas desta profícua Confraria de Letrados. Embalado pelo rum de primeiríssima que você sorveu em doses nada modestas, a concordância com a postulação veio mais ou menos assim: “Manda bala, meu amigo, seja o que Deus quiser”. E, pelo jeito, Ele quis.

Eu mandei bala e seu nome teve o apoio incontestável da maioria absoluta de confrades e confreiras.

Nesta noite festiva, 10 de agosto de 2013, exatos cinco meses após aquele inesquecível almoço no Dulce Cubano, estamos aqui, juntos, em outra celebração.

Para orgulho da esposa Heliana, dos filhos Thiago, Carol, Karen e Dani, dos netos Ana Carolina, João Victor, Yuri, Yan, Yago e Alissa, dos irmãos, dos amigos e ex-colegas de trabalho, a Academia de Letras de São João da Boa Vista, irremediavelmente, a partir de hoje, mais rica, mais dinâmica, mais temperada, mais picante e mais divertida, acolhe calorosamente seu mais novo imortal.

Bem-vindo, João Batista Gregório!

sábado, 3 de agosto de 2013

Aquele abraço!

vila do zeca

Nativo deste torrão de tantos talentos, o menino crepuscular cresceu nos antiquíssimos bairros do Rosário e Pratinha.

O gosto pela arte culinária sempre existiu, mas dele nunca decorreu nenhuma pretensão profissional. Mais velho de três irmãos, Muriel Filho, ainda criança, ia às panelas para saciar sua fome e dos dois caçulas. A necessidade do primogênito, que via os pais saírem cedo na busca do sustento da prole, o fez aprender a se virar no trivial da refeição cotidiana.

Na adolescência, a proximidade com a cozinha como meio de vida aconteceu intensamente: o pai, nos anos 1990, foi proprietário de uma rotisseria na rua Getúlio Vargas, a Sabor & Cia. Entregas em domicílio e compras de ingredientes eram as atribuições dele no estabelecimento da família. À época, fissurado por rodeios, Muriel não quis saber de trocar as montarias pelo fogão.

Vinte e poucos anos e o namoro com uma garota cuja família era habitué da boa mesa foi o estímulo para ver a comida sob uma ótica mais sofisticada. Os sogros, percebendo a habilidade do genro nas caçarolas, o incitaram na exploração de aromas e temperos. A despensa bem abastecida da residência foi fundamental para o apuro nos ofícios de fazer e servir.

O sopro foi forte o suficiente para trazer aos sânjicos a Confraria Olga, um restaurante pequeno, íntimo, que atendia vinte comensais nas noites de sexta e sábado. A vocação inequívoca foi, aos poucos, perdendo os timbres amadores. Essa lapidação derivou muito de saudáveis apontamentos críticos dos clientes. Pastas frescas —com o pedigree do gênio cantineiro Carlão Cardo—, peixes e frutos do mar compunham a linha mestra da carta de prazeres da casa. E o deleite vinha na simplicidade de um fettuccine ao azeite sob generosas porções do essencial grana padano. E vinha também no requinte de um robalo grelhado no molho cítrico acompanhado de farofa de pão com trio de cogumelos.

Rupturas vieram: fim do chamego e fim do ciclo da Confraria.

Vida que segue. E seguiu no O Grotto, aconchegantemente instalado na belíssima Pousada do Bosque. Consolidado na cena gastronômica de Sanja, Muriel tocou o empreendimento por seis meses. O fechamento prematuro sucedeu do conflito do funcionamento da taberna com a agenda de eventos do local.

A carteira assinada no Spaço fluiu positivamente nas experiências gerenciais e no convívio inspirador com Dona Salma e Fábio Perez.

O labor com essa dupla tão competente no engenho do bem nutrir acabou. E rematou com a proposta de um Big empresário: Rafael Antonelli. O guaçuano supermercadista aterrissou nestas margens do Jaguari botando pra quebrar. Vultosos investimentos num mega centro de compras revitalizaram uma área degradada da cidade. E no entorno da loja os negócios pululam: banco, lotérica, café, fast-food, perfumaria, farmácia e... a Vila.

Martinho da Vila e Zeca Pagodinho são símbolos de brasilidade, de informalidade. São ícones da alma botequeira, do jeito despojado de bem receber. Sobre esse conceito, Rafael e Muriel —com o perdão da rima pobre— engendraram a Vila do Zeca, um bar que oferece croquete, pastel, polenta e cachaças de responsa. Um botequim samba-jazz ornado com mobiliário bacana e detalhes acolhedores. Uma tasca ajeitada com toques ecumênicos que tem ainda hambúrguer caseiro, bruschettas, cervejas importadas e um sanduba que simboliza à perfeição essa mescla de opções, o Sertanejo, um acepipe em que o pão francês abraça dignamente a linguiça artesanal, o queijo, o tomate e a rúcula.

E quem ama esse pé da Mantiqueira também deve se sentir abraçado. Abraçado pela capacidade realizadora de Rafael Antonelli e pelo instinto criativo do chef Muriel Filho.

Saúde!

http://www.viladozeca.com.br/

croquete