sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Objetivos para 2015

ano-2015
Beba muita água. 
Cerveja e refrigerante têm muita água, não se esqueça. 

Coma mais o que vem de árvores e plantas.
O boi come capim, logo, você comendo carne de boi está comendo capim.

Viva com os 3 E's: Energia, Entusiasmo e Empatia.
Mas não se esqueça dos 3 C’s: Churrasco, Cerveja e Chocolate.

Faça atividades que ativem seu cérebro.
Pense muito em atividade física, mas, se der vontade de exercitar-se, pare, pense, respire, conte até 10 e espere a vontade passar.

Leia mais livros em 2015.
Paulo Coelho não conta.

Sente-se em silêncio, pelo menos, 10 minutos por dia.
Na frente da TV, se esborrache no sofá. Assista aos programas que quiser, em silêncio, sem falar nada. A TV pode falar, você não.

Durma 8h por dia.
E pode dormir mais 8h por noite.

Faça caminhadas de 20 a 60 minutos por dia e, enquanto caminhar, sorria.
Prefira as de 20 minutos pra não se cansar muito e para sorrir carregue no iPod um show do Ary Toledo e outro do Juca Chaves.

Não compare a sua vida com a dos outros.
A galinha do vizinho vai ser sempre mais gorda e a mulher dele vai ser sempre mais magra. 

Não tenha pensamentos negativos.
Salvo pra amaldiçoar aquele cunhado que bebe sua cerveja e vive lhe pedindo dinheiro emprestado.

Não se exceda.
Exceto naquilo que valha muito a pena, ou seja, comida, bebida, mulheres.

Não se torne demasiadamente sério.
Mas também não seja um paspalho risonho. Gargalhadas em velórios e ouvindo histórias de tragédias alheias podem causar constrangimentos.

Inveja é uma perda de tempo. Agradeça a Deus pelo que possui.
Se possuir um carro velho, dívidas e doenças você fica dispensado de agradecer. 

Esqueça questões do passado. Jesus já jogou no mar do esquecimento, faça o mesmo.
Mas nunca se esqueça daquele colega de faculdade que roubou sua namorada tampouco daquela ex-mulher que espalhou sobre seu pífio desempenho na cama. 

Ninguém comanda a sua felicidade a não ser você.
Às vezes um bom pizzaiolo pode comandá-la.

A vida é uma escola e você está nela para aprender. Não fique repetindo o ano.
Exceto aquele ano em que você está saindo com a loira boazuda irmã do seu melhor amigo.

Entre mais em contato com sua família.
Cunhado e sogra não fazem parte da sua família.

Perdoe a todos por tudo.
Tá de brincadeira, né?

Não se importe com o que os outros pensam de você.
Se estão pensando que sua mulher manda em você, provavelmente eles têm razão.

O seu trabalho não tomará conta de você quando estiver doente. Não se estresse.
O seu chefe é um bom samaritano e vai perdoar todas as suas faltas. Papai Noel também.

Faça o que é correto.
Salvo se o incorreto fizer você pagar menos imposto de renda.

Por melhor ou pior que a situação seja, ela mudará, tudo passa.
Não, nem tudo, aquela adolescente apaixonada e cheia de viço não vai entrar novamente no corpo da sua mulher. 

Quando acordar de manhã, agradeça a Deus pela graça de estar vivo.
Se for muito cedo, agradeça e volte a dormir.

Mantenha seu coração sempre feliz.
Ao contrário do que dizem por aí, pode acreditar, torresmo e bacon alegram o seu coração.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Selfie stick

pau de selfie

O Robert de Niro ainda usa aquelas jurássicas máquinas fotográficas com filme. Não, ele não, quem a utiliza é o personagem Frank Goode, que de Niro, pra variar, magistralmente representa em “Estão Todos Bem”, uma belíssima película —em tempos digitais ainda posso falar “película”?— lançada em 2009. Divaguei rapidamente sobre foto-antiguidades para vaguear acerca de uma foto-bugiganga que tem dado o que falar. Vagueio abaixo, pois.

Entendidos de tudo e todos —grupo do qual me excluo— profetizaram: 2015 vai ser o ano do pau-de-selfie. Até a revista Time referendou o estrelato da geringonça pelos próximos 12 meses.

E, se tem alguém que ainda não sabe, o parvo escriba tenta explicar: pau-de-selfie é um bastonete de comprimento regulável que tem numa extremidade um suporte para encaixe de câmeras ou celulares. Serve o cacareco para propiciar enquadramentos aumentados em auto-retratos —as selfies.

Nosso tosco nacionalismo engoliu “selfie”, mas, sei lá o porquê, recusou “stick”. Botaram o “pau” no lugar e criaram este monstrengo vocabular.

E a feiúra extrapola a gramática. O objeto em si é horroroso. Vá lá que a coisa seja útil nestes tempos foto-narcisísticos de Facebook, Instagram, WhatsApp e afins, mas tanto a estética como o seu uso em público são de doer.

Hordas de turistas que não passam cinco minutos sem uma selfie, agora serão tomados por uma fúria de incivilidade espichando a vareta em narizes desavisados. Um vale tudo descortês pelo melhor auto-registro.

No que se refere a costumes, parece que a humanidade não consegue brecar a queda para buracos de disformidades, desrespeito e egoísmo cada vez mais fundos.

Num mundo com tantas carências, seria de se esperar anos vindouros com invenções mais, digamos, proveitosas. Como também seria de se esperar que o blogueiro ocupasse este espaço com escritos mais, digamos, proveitosos.

Em tempo 1: passado algum tempo, não muito, o pau-de-selfie vai ser lembrado como aqueles modismos que nos envergonham.

Em tempo 2: passado algum tempo, não muito, o escrevinhador vai se lembrar desta crônica como uma das muitas que o envergonham.

Em tempo 3: alguém já viu o Robert de Niro num filme ruim?

Clamores

prece

Confesso, ajoelho e rezo: sou um boçal. Ignoro a cultura popular do meu país. Minha sensibilidade auditiva está a um triz da nulidade.

Onde eu estava em 2014 pra não ouvir sequer uma vez a música mais executada do ano em terras tapuias? A melosa que estourou é “Domingo de Manhã”, da dupla —sertaneja?— Marcos & Belutti.

Na curiosa canção, o cara poderia estar velejando no Caribe ou num módulo lunar —juro!, num módulo lunar—, ou, ainda, num hotel mil estrelas em Dubai. Mas, paixão ao quadrado, ele prefere perturbar as domingueiras matinais da amada para ser, ao telefone, acarinhado pela voz de sono dela.

Ele aporrinha, gruda, mas se desculpa: “Foi mau se te acordei”. Sim, cara, foi mau. Pior ainda é rimar inverno com tédio e Caribe com livre. Mas muito, muito pior, é o abestado que duvida e corre pra assistir.

Confesso de novo: eu li e duvidei. Fui ao YouTube pra conferir e engordei as estatísticas de acesso. O clipe tem espantosas 54 milhões de visualizações.

Se o autor destas linhas tem algum crédito, rogo: não duvidem nem caiam em tentações. Só ajoelhem e rezem, rezem muuuuuito!

AquaPedro

E continuo descobrindo motivos prementes para pedir preces.

O espirituoso e religioso Ministro da Luz da dona Dilma, o amazônico Eduardo Braga, deu de ombros ao apagão da semana e clamou aos céus: “Deus é brasileiro e o chuveiro de ninguém vai esfriar”. Sem acesso ao passaporte do Criador, vou fazer força para crer na afirmação ministerial.

Nada de hidrelétricas ou termoelétricas. Pela declaração, o Brasil vai ser pioneiro num novo modelo de usina: a DivinoElétrica.

No plano estadual, vira e mexe São Pedro é responsabilizado pela seca —ou crise hídrica, no tucanês— que aflige os paulistas.

Com tanta divindade invocada nas duas esferas de governo, oremos irmãos!

Ainda o Charlie, ainda a França

torre eiffel

Até agora não tive forças para abandonar a discussão. Então, segue o andor...

Na subjetividade das sátiras, charges, quem é o dono da razão? O retratista ou o retratado? Nenhum. Ou os dois, cada um é dono da sua razão. E no Estado Democrático de Direito, em nações civilizadas, estas "razões" não podem e não devem descambar para o terror. Contra-argumente na mesma moeda, via charges, crônicas, recorra até ao Judiciário, se necessário for. E o bom senso? O limite? Também subjetivo demais. O que é inofensivo pra uns pode não ser pra outros. E aí? E aí dá-lhe retórica contundente, boicotes, gritos, esperneios, Justiça, o diabo. Rasgue jornais, queime-os. Só não pode atentar contra a integridade física. Só não pode queimar e rasgar ninguém.

Sobre muitas charges publicadas no Charlie Hebdo: não faria, não gosto e não as acho engraçadas. Mas também não acho que charge tem que ser obrigatoriamente engraçada. Ela pode ter, também, crítica, sarcasmo, ironia, acidez, ternura. Ela pode ser controversa, agressiva, provocante, incômoda. E engraçada.

Por que podemos polemizar com paixões políticas e esportivas, por exemplo, e não com paixões religiosas? Por que podemos debochar de palmeirenses e corintianos e não de muçulmanos e católicos? Por que podemos desdenhar de petistas e tucanos e não de judeus e protestantes?

Não compactuo com a assertiva de que, vá lá, agressões satíricas podem colocar em risco a vida de pessoas inocentes. Não concebo a ideia de que, numa sociedade civilizada, o humor, inconsequente que seja, exponha vidas a sérios riscos. Se é assim, e eu acho que para alguns é mesmo assim, a banda dos que pelejam com papel e tinta não pode sucumbir àqueles insanos que provocam sangue e morte com a violência das armas de fogo. A barbárie não está nos cartuns, ela está em quem descarrega fuzis em cartunistas.

E é sempre bom relembrar o caso Salman Rushdie, o escritor britânico de origem indiana, autor d'Os Versos Satânicos, que recebeu uma fatwa —sentença de morte— do desmiolado Aiatolá Khomenini. Até hoje, desde 1989, Rushdie vive na clandestinidade, sob proteção policial, para não ser assassinado pelos extremistas islâmicos. Enclausurado e sempre escoltado, ele jamais capitulou ante as ameaças. Ele jamais permitiu que o fanatismo de alguns podasse sua liberdade de expressão.

Por valores pessoais intransigíveis, por Salman Rushdie, pelos mortos do Charlie Hebdo: Je suis Charlie, je veux la respect, je veux la liberté.

Ainda a França

Nestes dias em que o mundo, mais do que nunca, está reverenciando os valores franceses, eu também estou. Já cantei por aí a minha solidariedade aos mortos no massacre do Charlie Hebdo.

Agora, mais mundano, voltei à querida Pinhal City para buscar sabores franceses. Nenhuma decepção e muita empolgação com os crepes do Mundo dos Sabores. As caps da casa, Cris e Najara, trouxeram da Europa, onde moraram por anos, receitas corretíssimas e deliciosas do tradicional acepipe francês. A casa, aconchegante, muito bem montada, oferece uma carta de crepes com recheios de respeito. No paladar, na apresentação e na generosidade.

Este glutão, arremedo de colunista que vos fala, extasiado, comeu e recomenda o de camarão com catupiry —Champs-Élysées no menu— e o de banana e morango com Nutella, acompanhado por creme chantilly e sorvete de baunilha. #JeSuisComedorDeCrepe

sábado, 20 de dezembro de 2014

#PaiFresco

ivan prado

#1

3,3kg. Nasceu.

#2

Finalmente voltamos pra casa —odeio hospitais, mesmo sendo pela causa nobre que foi. Vítor perdeu 10% de peso, mas ganhou 15% em potência de choro. Patroa acabada, coitada. Passou a noite em claro e os pontos da cesárea estão ardendo um pouquinho. Ela consegue tirar cochilos de, no máximo, meia hora entre uma mamada e outra do pequeno vampirinho. Juro que na hora que estava tomando banho ouvi ela murmurando algo como "brains... brains...”

Bono —meu lhasa apso macho— está com ciúmes, se sentindo relegado ao último plano, como eu. Entendo seu drama, fio, mas não esquenta, quando o Vítor crescer vamos nos aliar, os três, para combater estas fêmeas egoístas! Agora, putz!, mesmo sabendo que se trata do meu filho, como choro de bebê recém-nascido é irritante! Preciso bater em algum petralha para relaxar. Luiz Angelo ou Breno, por gentileza, deem a cara aos tapas. Grato.

#3

O pânico se transformou em resignação. Dormir não é mais uma opção. Agora, os ciúmes tomaram conta dos meus três cachorros, não só do macho. Finalmente, uma foto recente que tirei de minha esposa e minha sogra. Acho que há algo errado, mas pode ser só impressão. De qualquer maneira, vou trancar todos os outros seres vivos de casa no quarto durante esta noite.

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#4

Não confundir "colostro" com "mecônio". Estão em extremidades opostas do mesmo bebê.

#5

GASES! Caraca, esse moleque é podre, vai vendo.

#6

Tivemos de desentupir o Vítor na base da nitroglicerina —mentira, foi só glicerina mesmo. O primeiro supositório a gente nunca esquece! O seu sistema de "drenagem" voltou a funcionar satisfatoriamente. Uma paz parcial reinou nesta casa. Todos conseguiram dormir um pouquinho, até os cachorros.

#7

Acabou a licença-paternidade! Mas, no fim das contas, graças à ajuda inestimável da super-master-blaster-linda-maravilhosa-diva-poderosa-vitaminada-salve-salve, Dona Sogra Ivani, não cheguei destruído. Hoje foi o dia do famigerado teste do pezinho ampliado no Vítor. Detalhe: o sangue é colhido do braço. Que p... é essa?! Em aproximadamente um mês saberei se ele é mutante ou não.

#8

Hoje acordei chocando gripe, com tosse e mal-estar. Será alguma somatização da carência e ciúmes que estou sentindo pelo fato de minha mulher ter me trocado por um cara 45 anos mais jovem do que eu?

Em tempo: Ivan Bonora Prado, o mascarado da foto, é o pai fresco autor destas hilárias “reflexões” postadas no Facebook. Este escriba relapso, empanturrado com tantas confraternizações, recebeu dele a devida autorização para publicá-las. Obrigado, Ivan! Saúde, Vítor!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Mexericos do Tom

N5-01

Jean Tortellini, hoje em dia, é o cara. Protagonista da novela das oito, foi entrevistado duas vezes pelo Jô. Saiu na capa da Veja e é figurinha carimbada nos cadernos de TV dos grandes jornais.

Tem feito um bom pé-de-meia com comerciais —aquele da FriBoi em que ele atira uma granada num restaurante vegetariano ganhou a Palma de Ouro em Cannes. O anúncio já teve mais de 23 milhões de ‘views’ no YouTube. Dizem que o próximo vai ser rodado no Japão. A coluna apurou que a nova peça publicitária vai ter mais um roteiro de impacto: Jean, vestido de samurai, vai decapitar nas ruas de Osaka o presidente de uma fábrica de tofu. O bordão “tuuuuudo pela carne” caiu na boca do povo.

Ocupadíssimo, ele aceitou falar comigo num táxi, correndo do Projac ao set de uma gravação, em Copacabana.

Segue o pingue-pongue, profundo, fundamental para entender um artista tão complexo:

—Uma água sanitária?

—Cândida, claro. Além de ser a melhor tem o mesmo nome da tia Candinha, a suuuuuuper boleira de Guaxupé.

—Um amortecedor?

—Monroe, óbvio. Nas curvas ousadas eu quero segurança sem esquecer da Marilyn. [em off the records ele me pergunta se ficou claro o link entre curvas ousadas e Marilyn Monroe]

—Uma loja?

—Armarinhos Fernando! Pego a ponte aérea só para comprar lá. Aaaaamo a Vinte e Cinco de Março!

—Um ditado?

—Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana. [gargalhadas]

—Uma marca de cueca?

—Calvin Klein. Gostava da Armani, mas os últimos lotes têm vindo com elástico ruim. Esgarça em dois meses. [faz careta de reprovação]

—Uma filosofia de vida?

—Melhor uma pizza na mesa do que duas no forno. Sou muuuuuito ansioso!

—Uma cidade?

—Londres, sem dúvida. [“meu público quer ouvir isso, mas, cá entre nós, não troco minha Guaxupé por naaaada”]

—Um lugar pra meditar?

—Machu Picchu. [“acho mais cool falar assim, mas nada melhor do que o vaso Deca, linha Niemeyer Confort Plus”]

—Um restaurante?

—Cupim Tolá. Aaaaamo de paixão!

—Um perfume?

—Chanel n° 5. Não vai perguntar sobre minha roupa de dormir?

—Roupa de dormir?

— Chanel n° 5. [gargalhadas]

—Banda dos anos 80?

—Biquíni Cavadão. Não vai perguntar sobre minha roupa de banho? [gargalhadas]

—Apple ou Samsung? [ele faz pose, finge morder uma maçã e dá-lhe gargalhadas].

—A última, essencial: PT ou PSDB?

—Ai, querido, essa eu pulo. Odeio, odeio mesmo, falar da minha intimidade. [semblante sério, nada de gargalhadas]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

O “jornalismo” engajado de Veja

capa de veja

Antes de tudo, para esclarecer quaisquer eventuais acusações de motivações político-partidárias, revelo: votei com convicção em Aécio Neves.

Escolhi o tucano por várias razões, a saber: a necessidade da alternância de poder —um partido governar por dezesseis anos não é saudável em nenhuma democracia do mundo—, o desavergonhado aparelhamento do Estado por filiados e militantes petistas, a gestão temerária e politizada na Petrobras, os rumos erráticos na economia do país e o desastre que é a política de relações exteriores da gestão Dilma —apoiar com farto dinheiro do contribuinte brasileiro a ditadura cubana e manter relações estreitas com, seja lá que diabo é isso, o populista socialismo bolivariano na Venezuela. Isso sem falar na proposta de diálogo com o grupo, ou melhor, quadrilha, nominado Estado Islâmico, que são esses radicais muçulmanos impiedosos que decapitam sem piedade cidadãos de países ocidentais e compartilham as barbaridades na internet. E, claro, a corrupção entranhada e institucionalizada nos porões de ministérios e empresas estatais.

Votei em Aécio, sim, mas repudio o “jornalismo” tendencioso da revista VEJA. Não vejo mal nenhum no fato da publicação manifestar em editoriais e através dos seus colunistas opiniões reacionárias e anti-PT, mas no território sagrado das matérias/reportagens isso é inadmissível e tira qualquer credibilidade do veículo. Isso é canalhice. Torpeza, pra dizer o mínimo, foi a capa da revista no fim de semana do pleito do segundo turno. Primeiro, anteciparam a circulação da edição e fizeram um marketing agressivo com a capa que aludia a um suposto conhecimento prévio de Lula e Dilma do escândalo na Petrobras. A informação foi baseada num hipotético testemunho do doleiro Alberto Youssef, criminoso confesso, enjaulado e com confiabilidade nula.

Se comprovado o alegado por Youssef, aí sim o Congresso tem o dever político de pedir o impeachment da presidente da República.

Em 1989 já testemunhamos tentativas espúrias de manipular o eleitorado: a edição picareta, feita pela Globo, do debate Lula X Collor. Nos telejornais da emissora, o collorido de Alagoas massacrou o petista, o que não correspondeu à realidade da contenda verbal. Também, na mesma eleição, a polícia quercista de São Paulo apresentou à imprensa os sequestradores do empresário Abílio Diniz trajando camisetas do PT.

Outrossim, não compactuo com o vandalismo perpetrado contra a editora Abril pela militância petista, bem como a tentativa da campanha de Dilma para retirar a revista de circulação. Censura não, nunca, jamais. Tratem a VEJA pelo que ela é, assumidamente: um panfleto ideológico que propaga uma doutrina conservadora de direita que representa parcela significativa da população brasileira. A Constituição consagra a liberdade de expressão.

E, voltando para a província crepuscular, me lembra o episódio Laert na última eleição municipal. Na capa do maior jornal da cidade, O Município, foi publicada, no sábado anterior ao sufrágio, em manchete de primeira página uma enquete de pastelaria pró Laert. Verdade, sem metáforas, uma enquete de pastelaria desprovida de qualquer metodologia.

Palavras do Luís, amigo e dono da Pastelaria do Renato: "Fui usado pela assessoria do candidato. Jamais deixarei que usem novamente meu nome e do meu negócio para fins eleitorais".

Nos dois casos, da VEJA e d’O Município, um tiro desesperado nos próprios pés.

Em tempo: falei da VEJA pela grande tiragem da revista e pela visibilidade, mas tem muitos órgãos de imprensa —revista Carta Capital, é um exemplo— e blogueiros, como Luís Nassif e Paulo Henrique Amorim, que fazem o mesmo jogo sujo a favor do PT.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Folheando

folha manchete

Um amigo de longa data, Luís Pio Magalhães, sabedor do meu apreço pela Folha de São Paulo e pelas crônicas do Xico Sá, instou-me a comentar o pedido de demissão do cronista. Explico: Xico, na sua última coluna, não publicada, declarou o voto em Dilma. O jornal, pela diretriz editorial, pediu que o texto se adequasse ao Manual de Redação —que veta o proselitismo político dos seus contratados— e ofereceu-lhe outro espaço (Tendências/Debates, página 3) para a publicação da lavra controversa. Como as partes foram irredutíveis, Xico pediu o boné e saiu gritando nas redes sociais.

Respondi ao querido Luís, com cópia para Vera Martins, ombudsman da Folha. Assim o fiz:

Meu amigo, tirando algumas pândegas e galhofas do Zé Simão e congêneres, não vou falar de eleição no Facebook. Prometi a mim mesmo esta abstinência depois de reler o discurso de posse do meu ídolo, Carlos Heitor Cony, na ABL, do qual destaco um trecho que muito me apraz:

"(...)Não tenho disciplina mental para ser de esquerda, nem firmeza monolítica para ser de direita. Tampouco me sinto confortável na imobilidade tática, muitas vezes oportunista, do centro. Tenho me tornado um vago anarquista, um anarquista entristecido, humilde e inofensivo(...)"

Fragilidades reveladas e idolatrias reiteradas, arvoro-me a falar um naco sobre as duas paixões mencionadas no primeiro parágrafo.

Com a Folha o caso é mais antigo —uns 35 anos. Comecei a paquera lendo as tirinhas da Ilustrada na casa da minha avó, Fiuca. Do Xico, me recordo de lê-lo pela primeira vez na Folha nos idos de 1996, cobrindo a morte de PC Farias. Um Xico sério, repórter fuçador, nada a ver com este genial cronista de cotidiano do presente. Óbvio que ele já tinha a veia cômica e apimentada. Ela, à época, só estava oculta pela pauta mais cinzenta do primeiro caderno. Ainda era um foca, acho eu, um foca que já mostrava argúcia.

Depois que descobriram seu talento para os motes futebolístico, sexual e futiba-sexual, junto, surubado, swingado, o homem saiu do Baixo Augusta para o Brasil. O homem que se inebria na fila da padaria com a "morena linda, cabelos molhados, cheirando Neutrox". O homem que hoje tá na Globo lançando devassos comentários no talk-sex da Fernanda Lima.

No caso em questão, a Folha pisou na bola e pisou porque negou-lhe um produto caro à cesta básica da existência: a liberdade de expressão no seu quintal. “Cesta básica da existência”, diga-se, é da grife do Xico.

Vários colunistas do jornal explicitaram ou sinalizaram seus votos nesta eleição. Na segunda-feira, Gregório Duvivier declarou seu voto na candidata petista em coluna na Ilustrada. Janio de Freitas, Antonio Prata, Ricardo Melo, entre outros, são muito claros no posicionamento pró Dilma/PT. Ao contrário, Reinaldo Azevedo, Demétrio Magnoli, Ferreira Gullar, fazem o contraponto a favor dos tucanos.

A diversidade de correntes me cativa na Folha. Muito. A militância do PT nas redes sociais —tão chata e marrenta quanto a dos corintianos— é useira e vezeira em ensacar a Folha junto com a Veja e a Globo. Errado. A Folha erra, sim, mas é exceção. Erra e assume, quase sempre. Ser um veículo plural, crítico e apartidário é a marca do jornal, diferentemente de todos os grandes veículos do país.

Há 25 anos a Folha trouxe para o Brasil o conceito de ombudsman. Conceito e prática. O ocupante tem estabilidade no cargo e sinal verde para baixar o porrete nas editorias. É a voz do leitor dentro da redação para criticar o próprio veículo. O ombudsman não foi fogo de palha de marqueteiro. Há 1/4 de século bate sem dó em quem lhe paga o salário. E pode ter certeza que a demissão do Xico vai estar na coluna dominical da ombudsman.

Entre poucos erros, esse do Xico Sá foi doído, e muitos acertos, ainda vejo a Folha engajada na campanha das Diretas em 1984, bandeirando pela eleição de Tancredo Neves em 1985. Foi o primeiro veículo da grande mídia a mencionar PC Farias e nadar contra a onda farsesca do collorido caçador de marajás; denunciou a fraude na licitação da ferrovia Norte-Sul, acusou a compra de votos parlamentares na gestão FHC para aprovar a reeleição. Em 2005, publicou a entrevista-bomba de Roberto Jefferson que fez eclodir o mensalão. Luís Nassif, quando na Folha, foi a primeira voz a questionar o linchamento dos donos da Escola Base. Mais: aeroporto do Aécio, dentadura na eleitora da Dilma, lambança na Petrobras. Tem no time Juca Kfouri, o jornalista esportivo mais sério e combativo do Brasil, enfim, um jornal que se posiciona nos editoriais, que faz cobertura isenta, que tem cores múltiplas, que ouve o outro lado, que investiga...

Eu leio, sigo, critico, odeio e adoro a Folha. A partir desta semana, mais triste sem o Xico, mas ainda assim, a FOLHA.

Em tempo: a ombudsman, Vera Martins, assim respondeu ao escriba: Caríssimo Lauro, a esta altura do campeonato, é um bálsamo receber uma mensagem como a sua. Você está certo em sua certeza: o pedido de demissão do Xico vai estar na minha coluna de domingo. Abraços e até lá.”

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Vanderbilt & Rockefeller

noiva
Depois de treze anos de um conturbado namoro, o empresário Carlos Alberto Vanderbilt, o Betinho da Borracharia, contraiu núpcias com a balconista Sandra Regina Rockefeller. No caso, o verbo contrair teve uma conotação mais ampla. Acometida de terrível conjuntivite, a noiva, ao trocar alianças, estava com os olhos rubros, lacrimejantes e remelentos. Este colunista apurou o estrago no day after: padre, noivo, daminha e quarenta e sete convidados foram contaminados.
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Prevenida com a possibilidade de infecção em massa, Sandrinha incluiu nas lembrancinhas, além do tradicional bem-casado, uma caixa de lenços de papel e um frasco do colírio Moura Brasil. Este colunista apurou o embuste no mimo medicamentoso: era água.
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Foram inevitáveis os mexericos na entrada da noiva. Ela trocou a marcha nupcial por “How Deep Is Your Love”. Não é segredo na cidade que, antes de conhecer Betinho, Sandrinha se relacionou com Johnny Goiabada, integrante da banda Doces Caseiros, cover dos Bee Gees. Este colunista apurou que os dois outros músicos da Doces Caseiros são Frank Abóbora e Bob Marmelada.
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Na recepção, a ala de parentes do noivo estava revoltada com o menu escolhido por dona Filomena, mãe de Sandrinha: risoto de frutos do mar. Um motim, liderado pelo primo Frederico, chegou a ser ventilado. O protesto fora motivado por aquilo que eles chamaram de “arroz empapado com sardinha”. O primo Leopoldo fuzilou sarcasmo: “Sandrinha combina com sardinha”. Este colunista apurou que, ao contrário do colírio, o risoto não era engodo. A família Vanderbilt conhece nada de gastronomia e muito de fuxicos.
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Dona Agadir, sogra, se insurgiu contra o vestido da nora: “Indecentemente decotado, vergonhoso”, cochichou para a irmã. “Meu menino não merece essa moça de reputação duvidosa”, ainda lamentou. Este colunista apurou que, de fato, o figurino era um tanto ousado nas fendas e transparências.
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Senhoritas casadoiras disputaram no corpo a corpo o tradicional buquê arremessado que, pasmem!, foi agarrado pela ágil —e casada— Gisela Silva Guggenheim. O burburinho correu o salão. Antenor, o marido, aumentou o bas-fond ao bradar carraspanas impublicáveis à ligeira Gigi. Este colunista apurou que o senhor Guggenheim só foi amansado horas depois, entre quatro paredes, pelas peripécias libertinas —e também impublicáveis— da mulher.
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Os noivos sonharam com uma lua de mel em Itanhaém. Os planos praianos foram frustrados em razão da baita grana injetada na festa. Cinco dias em Pocinhos do Rio Verde só foram possíveis graças aos caraminguás arrecadados com os picotes da gravata. Este colunista apurou que Betinho padeceu de insucessos eréteis nos dois primeiros dias da viagem. A partir do terceiro, aleluia!, a coisa engrenou e Sandrinha deu-se por satisfeita com o desempenho do rapaz.
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Sigilo da fonte é um princípio basilar para a prática do bom jornalismo. De antemão, este colunista bisbilhoteiro invoca-o.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Trevas

figado

Inspiração zero, sensação ruim, teclas intocadas. Quarenta minutos olhando para a página vazia do Word. O cursor piscando irritantemente. Ouço um clamor embalado em timbres metalizados, robóticos:

—Preencha-me, busque ideias em portais de notícias, procure nesta cachola desmemoriada alguma reminiscência digna de nota. Se vira, cara, você tem compromisso. O pessoal do jornal não aguenta mais seus atrasos.

—Então... o UOL fala da corrida presidencial, da crise no Palmeiras, da taxa de desemprego e das decapitações no Oriente Médio.

—Não, acho que não. Estes temas já foram cantados e bisados por gente muito mais qualificada que um cronista provinciano. Acho que a coisa tem que ter uma pegada mais exótica.

—Ontem saiu na Folha sobre uma corrente na gastronomia que usa esperma humano nas receitas. Excêntrico, não?

—Escatológico demais. Não é por aí. Muita apelação. O mote pode até ser bizarro, mas sem agredir. Porra no pudim esbofeteia o leitor médio.

—Tem aquela reportagem do jornalista que foi contar a história de uma produtora pornô e atuou num dos filmes.

—Muito sensacionalista! E tem mais, a história é dele, não é sua. Até caberia se você também fizesse, narrando em primeira pessoa.

—Não dá pra mim. Até pensei, mas a confusão em casa seria grande. A patroa não entenderia a sacanagem fake que, diga-se, nem é tão fake.

—Pensando bem, taí um gancho. Enfiar-se numa atividade cotidiana que não é a sua e escrever contando a experiência. De novo, insisto na narrativa em primeira pessoa.

—Frentista de posto de gasolina, garçom, atendente de call center, vendedor de seguro...

—Sei não, sem tempero, sem sal nem açúcar. Tem que ser um troço mais polêmico, apimentado, uma coisa tipo stripper num clube de mulheres...

—Pô, meu, já falei que é rolo pro meu lado. Minha mulher é esquentada e isso não rola. E tem outra: que louco vai contratar como stripper um escriba sem ginga e dotado de uma pança descomunal?

—Verdade. Outro palpite: é pública e notória sua incivilidade à mesa. Todo mundo sabe que você mergulha em incursões calóricas nada comedidas. Passe uma semana num spa e conte sobre as privações em tons melodramáticos.

—Não dá tempo. Tenho duas horas para enviar o texto.

—Invente. Ficção com muito fundo de verdade.

—Pensar na ingestão de soja, rúcula, farelo de aveia e tofu castra mais a minha já escassa capacidade criativa. Tô fora. Spa e abdominais, nem na imaginação.

—O ódio, o ódio é estimulante. Pense em algo ou alguém que você abomine. Palavras amargas rendem boas crônicas. Sai até humor daí.

—Escute isto, então: “Levantei uma bandeira reprimida quando gritei minha aversão total e absoluta ao bife de fígado. Multidões nos cinco continentes odeiam bife de fígado. As manifestações só não ocorreram até agora porque faltava quem desse o primeiro brado contra estes detestáveis filés hepáticos. Eu sou o líder, eu estou na cabeça do movimento histórico que vai abolir de todas as mesas a glândula intragável...”.

—Não pare, toque em frente, em primeira pessoa, a toada tá boa e a carne é realmente ruim. Vai, insiste, divague, remoa a cólera que a crônica vai sair. Agite lá no Twitter, crie expectativa, arrebanhe seguidores para a causa, crave a hashtag #odeiofígado. Lá na frente, você mistura com soja, rúcula, farelo de aveia e tofu. Potencialize o rancor. Será antológico!