quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Amendoim no pote

paçoquita

O assunto, importantíssimo para a nutrição do cidadão, fundamental para os destinos do país, tem gerado comoção e repercussão nas redes sociais e nos portais de notícias.

A tal Paçoquita cremosa é a bola da vez no mundo digital. Marketing agressivo na internet somado a um intencional desabastecimento do produto, viralizaram a peanut butter tupiniquim —dizem até que colunistas de pequenos jornais e blogueiros embolsam polpudos jabás pra falar dela. Sei não...

E em ano eleitoral, os candidatos têm que alinhar seus discursos aos clamores da sociedade, seja em entrevistas ou no horário político obrigatório.

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William Bonner, impiedoso, provoca a presidenta Dilma:

—Candidata, no exercício do seu primeiro mandato a senhora criou vários Ministérios. Nenhum, repito, nenhum foi dedicado à amendoinocultura. Como consequência, enfrentamos essa carência de Paçoquita que tanto tem afligido os brasileiros. Como encher as prateleiras dos supermercados com o produto?

—Veja, Bonner, muito oportuna a sua pergunta. O meu quadragésimo Ministério será o do Amendoim e Congêneres. E mais ainda: vou criar a AmendoBras, uma agência do governo que vai gerir a produção e distribuição da Paçoquita em todo território nacional. Também não descarto enviar ao Congresso um projeto de lei instituindo o Bolsa Paçoquita. Pelo dispositivo legal, famílias que ganham até um salário mínimo por mês teriam direito a dois potes gratuitos de Paçoquita.

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Paulo Maluf:

—Bandido bom, é bandido preso. Polícia boa, é polícia na rua, é a Rota na rua. Paçoquita boa, é Paçoquita na mesa do trabalhador que, depois de um dia cansativo na labuta, precisa de energia para cumprir a contento suas obrigações conjugais. São Paulo não pode parar, a Paçoquita não pode acabar.

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Marina Silva:

—Os ideais do Eduardo não morrem com ele. Vamos honrar esse legado. Não vamos desistir do Brasil, não vamos desistir da Paçoquita.

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—Meu nome é Aécio Neves, vamos conversar? Nestes doze anos de desgoverno do PT nada foi feito para resolver esse grave problema de desprovimento de Paçoquita nos lares brasileiros. A minha primeira medida como presidente da República vai ser privatizar empresas estatais ineficientes e obrigar os compradores a adaptar seus parques fabris para que se transformem em grandes produtoras de Paçoquita.

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José Serra:

—Como ministro da Saúde, eu criei o medicamento genérico. Como senador por São Paulo, vamos criar a Paçoquita genérica. A mesma qualidade da original por um preço bem mais em conta. A locomotiva do país vai ser movida por pasta de amendoim.

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Geraldo Alckmin:

—O Paçoquita Para Todos vai ser um marco para a população bandeirante. Se a falta de chuva castiga o Estado com uma terrível crise hídrica, São Paulo vai ter o maior programa de inclusão paçocal do planeta. Sem água, mas com paçoca.

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Levy Fidelix:

—Dane-se a Paçoquita, a minha bandeira de campanha ainda é o AeroTrem...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Leão Vermelho

gastronomia

A descoberta

Lendo a coluna da Alexandra Forbes, no caderno Comida da Folha, em dezembro de 2012, me deparo com isso:

“Restaurantes-miniatura oferecem algo mais valioso do que um menu bem-feito: a experiência de ser alimentado diretamente e intimamente por um cozinheiro interessante. Não são exclusividade parisiense. Vejo-os pipocando tanto em Nova York —Blanca, no Brooklyn— como em São João da Boa Vista, SP —onde Gabriel Vidolin, ex-estagiário do El Bulli, cozinha para quatro pessoas por noite em seu O Leão Vermelho. O fato de servirem poucos só aumenta o charme: nada como uma reserva difícil de conseguir para estimular a curiosidade de um gourmet…”

Decepção

Comida e Sanja, não necessariamente nessa ordem, atiçam vário instintos no autor destas mal-traçadas. Numa “googlada” achei o site e enviei mensagem ao chef pedindo um bate-papo pra conhecer esse inusitado restaurante. Uma assessora de imprensa, cujo nome afrancesado saiu da minha memória, respondeu-me via e-mail arrolando algumas excentricidades para que a entrevista acontecesse. A mais estapafúrdia —e aviltante— era submeter meu texto, antes de qualquer postagem ou publicação, à aprovação deles. É óbvio que, por isso, o colóquio não rolou naquele findar de 2012.

Mimo

Dia destes, um casal amigo, exilado nos EUA, investiu algumas verdinhas naqueles sofisticados condomínios mantiqueiros. Estava vigente a promoção: “Compre um lote e ganhe um jantar”. Este esfarrapado escriba e sua consorte foram mimoseados com os convites para repastar n’O Leão Vermelho. Presente a gente não recusa, agradece. Thank you, friends!

A chegada

20:20, último sábado, estaciono meu carro num trecho residencial da rua Getúlio Vargas. A alameda deserta fica mais lúgubre com a densa arborização que mitiga os raios da iluminação pública. Dois outros veículos já estão no pedaço. Ninguém se arrisca antes da hora marcada. 20:30, eu puxo a fila e cruzo o gradil vermelho. A testada é pequena e um jardim de poucos metros separa a calçada da porta. Um sininho à esquerda da entrada funciona como campainha. Meio encabulado, badalo o negocinho umas três vezes. Gabriel, muito gentil, nos dá as boas-vindas. Enquanto lamenta a ausência da sommelier, “Carolina precisou viajar às pressas para Montevidéu e não estará conosco nesta noite”, ele nos conduz à biblioteca. Entre livros, a maioria de gastronomia, somos aboletados numa mesa para quatro pessoas. Os dois outros casais que entraram logo atrás são acomodados em ambientes distintos. A casa é antiga, simples, a decoração prima pela sobriedade sem nenhum traço de rebuscamento. Várias peças da mobília foram concebidas pelo chef.

O confisco

“Não permitimos o uso de celulares n’O Leão”, decreta Gabriel antes de aprisionar meu gadget numa caixinha de madeira. A experiência ali implica na renúncia compulsória e momentânea à vida digital.

A brigada

Vidolin só tem o auxílio de uma pessoa na arte de cozinhar e servir: Felipe, um chef aprendiz made in Belém do Pará. O serviço é polido e corretíssimo.

A sequência

Não há possibilidade de escolhas. A definição do menu, cujos pratos são apresentados de forma impecável, é prerrogativa exclusiva da casa. A sucessão degustativa foi assim, salvo lapsos de memória: um frisante de Bento Gonçalves anima o paladar para um pão saindo do forno, de massa muito leve, acompanhado de manteiga caseira. Ricota fica bem com os parceiros, pepino, menta e biscuit de casca de laranja, e também tem a companhia do borbulhante gaúcho. Um mix de pastas in brodo —uma espécie de sopa— enriquecido com linguiça defumada e abobrinha. Tilápia grelhada salpicada com amêndoas, sementes de abóbora e gerânio. Estes pratos são harmonizados com um riesling chileno. O tinto, também do Chile, escolta o protagonista: lombo bovino —muito similar ao boeuf bourguignon— com purê de grão de bico e batata assada. Sobremesas: coalhada frozen com abacaxi assado e sorvete de amendoim chuviscado com raspas de chocolate. Os chamados digestivos vêm em dose tripla: chá frutado, licor Frangelico —feito de nozes moídas, misturadas com cacau e baunilha— e licor de framboesa. A água Fonte Platina, gasosa ou não, fica ali, sempre à mão, para um hidratante e protocolar intervalo entre os vinhos.

O chef

Gabriel Vidolin, 25 anos, formado no SENAC de Águas de São Pedro, já estagiou e trabalhou em restaurantes estrelados no Brasil e no mundo —El Bulli é o mais famoso, mas é do Mugaritz, no País Basco, que ele mais gosta. Sua cozinha é rotulada como autoral ao extremo. Ele é um artista no seu métier e como tal tem as suas idiossincrasias. Ele enxerga tons rubros no Leão e, talentoso e inventivo como poucos, não seria surpresa se o felino surgisse tingido de verde-limão. Ele é excepcional. Ele pode.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Bento Experidião

bento

Imigrante libanês, o pai entrou no Brasil pela fronteira com o Uruguai. Tinha como referência alguns primos já estabelecidos em Cruz Alta. Nesta cidade do noroeste gaúcho, Hassem Experidião recebeu auxílio de parentes para começar a ganhar a vida naquilo que está no DNA dos árabes: vender.

Andejava por todo o Rio Grande do Sul, mascateando roupas, tecidos e armarinhos. Num destes périplos mercantes, conheceu aquela que seria sua esposa, Maria Fernandina. O casal trouxe ao mundo quatro filhos. Bento foi o caçula, irmão de três mulheres.

Bento pouco conheceu o pai, que morreu precocemente quando o filho mais novo ainda não tinha completado três anos.

A tradição libanesa privou o menino do convívio com a mãe. Separado das irmãs, ele foi criado por um primo do pai.

Aos dez anos, em razão do convívio difícil com a mãe postiça, Bento foi acolhido carinhosamente pela família de José Inácio Zenon, seu melhor amigo. Os Zenon, do patriarca Benjamin, eram proprietários de uma churrascaria. Bento mostrou sua gratidão labutando no estabelecimento de quem lhe deu teto e afeto. Lavar espetos foi sua primeira função. Dedicado e observador, não demorou a aprender os ofícios de assar e servir. Sua polidez e eficiência conquistavam os devoradores de carne. Fazia um bom dinheiro com gorjetas. Já envolvido com a arte do fogão, das bandejas e da boa comida, o garoto, então com doze anos, começou a sonhar com o trabalho na trattoria de Ettore Bonesso, à época, o melhor restaurante de Cruz Alta.

Em localidades pequenas, notícias pululam nas esquinas. E a vocação de Bento chegou aos ouvidos do italianíssimo Bonesso, que logo o convidou para entrar no mundo maravilhoso das pastas. As lasanhas protagonizavam o cardápio da trattoria.

Generoso, Benjamim Zenon não só abriu mão do seu competente auxiliar como incentivou-o a correr atrás do sonho. E mais: permitiu que Bento continuasse a morar com eles.

Com apenas doze anos, o filho de Hassem Experidião foi admitido como garçom numa das melhores cantinas do interior gaúcho. Do salão para a cozinha foi questão de pouco tempo. A gastronomia estava cada vez mais entranhada na vida dele. Sugava o que podia para aprender mais e mais.

A trajetória de Bento na trattoria terminou com o fechamento dela. Ettore Bonesso baixou as portas para acompanhar a filha a Santa Maria, onde ela cursaria a universidade.

O menino de Cruz Alta tinha quinze anos. Não tardou o surgimento de nova oportunidade no ramo que já o arrebatara definitivamente.

No Kalesch, teve o primeiro contato com pratos da alta gastronomia. Entre tantos clássicos, o menu internacional da casa servia coq au vin, boeuf bourguignon...

Essa cozinha requintada era comandada pela analfabeta e alcoólatra Rosa. Ela sabia tudo e mais um pouco e não economizou nos ensinamentos ao discípulo dedicado. A cozinheira recitava um mantra: “Cozinha que se preze tem que ter sempre água quente”.

Água fria na cabeça, Bento recebeu com pouco mais de ano no Kalesch. Wilson, o proprietário, perdeu o jovem profissional por ser inimigo do respeito e das boas maneiras.

Cruz Alta tornara-se miúda demais para as habilidades dele.

Gramado, na turística serra gaúcha, seria um destino perfeito para novos desafios em todas as funções dos operários do bem comer e beber. E assim foi.

Sua carteira de trabalho recebeu o carimbo do cinco estrelas Serra Azul, cuja cozinha era comandada pelo autoritário e muito competente chef Alejandro Diaz. Ali, apesar da dificuldade de comunicação com os colegas —só se falava alemão—, Bento foi agraciado com mais doses de conhecimento. Bem cedinho, antes da brigada alemã chegar, Dom Alejandro Diaz catequizava o promissor cruz-altino com segredos e macetes do sucesso nas caçarolas.

Dominando todos os fundamentos do bem cozinhar e servir, era hora de um aprendizado mais formal para mesclar com a prática. E foi no SENAC do Grande Hotel São Pedro que ele, aos 18 anos, mostrou suas virtudes fora das fronteiras do Rio Grande do Sul. Suas aptidões e empenho desmedido proporcionaram um estágio em toda a área de alimentos e bebidas do complexo São Pedro. Foram dezoito proveitosos meses no interior de São Paulo.

Da minúscula Águas de São Pedro foi alçado ao topo, literalmente, da maior cidade do país. Em 1975 foi ganhar e servir o pão no Terraço Itália, alto também na qualidade do serviço e da comida. No Terraço, conheceu gente importante e aumentou sua rede de contatos.

Na capital gastronômica brasileira, emprestou sua capacidade de trabalho a várias mesas sofisticadas, entre elas o conhecido La Tambouille do não menos conhecido Giancarlo Bolla.

Em todos os restaurantes, para não perder os cacoetes de todas as áreas do ofício, combinava com os chefes para, num dia da semana, inverter as funções.

Por curtos períodos, Maceió e Foz do Iguaçu também hospedaram e aplaudiram o engenho incomum de Bento Experidião.

Em 2003, por conta das origens da esposa Ivone, teve a ousadia de fincar em Espírito Santo do Pinhal o Opção Trattoria Bar, um restaurante com uma proposta ambiciosa para uma cidade de menos de 50 mil habitantes.

Foram nove anos deleitando paladares, formando talentos —Alessandra Lourenço é o maior exemplo— e consolidando um conceito de alta gastronomia em Pinhal e região. Descobrir, formar e lapidar gente com vocação para as panelas, diga-se, foi uma marca que o chef deixou nos lugares onde passou.

Nos idos de 2012, Bento resolveu vender a cria e migrar para a aldeia dos Crepúsculos. E nela, São João da Boa Vista, uma nova cria: o Bento’s, uma casa aconchegante, contemporânea, que sintetiza nos mínimos detalhes a trajetória notável deste obcecado pela excelência no fazer e satisfazer.

Numa época em que jovens chefs enxergam cores berrantes em felinos e pensam mais no marketing de suas esquisitices, sou mais o Bento que, discreto, peleja duro sob a coifa para honrar e perpetuar a clássica e irresistível boa mesa.

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Em tempo: O chef apresentou a sanjoanense Jéssica Taynara (foto) ao blogueiro. Mais uma preciosidade gastronômica da escola Bento Experidião. A garota —em fase de polimento— promete.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Samba X Tango

bra x arg

Das margens do rio Paraná para as águas do Jaguari. Alberto Enrique Umhof, argentino da cidade de Zárate, na província de Buenos Aires, escolheu o Brasil para ganhar a vida e criar seus filhos. Há algumas décadas no país, rodou um bocado pelo solo brasuca até ser seduzido pelos encantos deste torrão ao pé da Mantiqueira. No punhado de anos empreendendo em São João da Boa Vista, ganhou o reconhecimento da comunidade e desde 2010, “batizado” na Câmara Municipal, é cidadão sanjoanense.

Torcedor do Boca, o amigo aceitou o convite do blogueiro para um bate-bola abordando a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina, muito comentada e nos limites da fervura na última Copa do Mundo.

1- Por que essa reciprocidade turística e admiração mútua não se estende ao futebol, onde a rivalidade em alguns momentos beira a agressão verbal?

Não existe —ou não existia— do lado de lá animosidade pós-jogo e seria impensável torcer contra o Brasil na maioria das circunstâncias para qualquer argentino, admiradores que são do "país da alegria"; a coisa passa rapidamente —ou passava—, não sei mais. Os argentinos descobriram agora, horrorizados, esse ódio feroz do torcedor brasileiro, parte do ser brasileiro que passa despercebido, o "homem cordial" descrito pelo professor Sérgio Buarque de Holanda se esconde fundo quando de futebol se trata.

Resta agora, depois desta descoberta, aguardar a reação do lado de lá, mas me parece que existirá a partir desta Copa a recíproca platina. Veremos como fica daqui em diante a relação com os turistas. Nunca houve dúvidas na Argentina sobre quem é o melhor quando de futebol-arte se trata, e isso faz com que a vitória contra os brasileiros seja sempre uma alegria extra, e perder é considerado normal, afinal o Brasil é pentacampeão.

Encontro na diferença idiomática, quando o amigo cita uma suposta “agressão verbal”, a causa da confusão. Afinal, o português tem inúmeros fonemas a mais que o espanhol, e desde que Rui Barbosa voltou de Buenos Aires com a expressão "nos chamam de macaquitos" e a internet popularizou depois do caso Grafite [num jogo da Copa Libertadores em 2005, o argentino Desábato, do Quilmes, saiu preso do Morumbi depois de ter chamado o sãopaulino Grafite de macaco]. Vivi na Argentina até quase meus trinta anos e posso garantir que a palavra macaco jamais foi usada para depreciar os brasileiros.

2- Via mídia, Pelé e Maradona vivem trocando “gentilezas”. Você acha que a linha editorial dos jornais Olé e Lance brotou desta rivalidade entre os ídolos maiores dos dois países?

Não. Acho que a responsabilidade é inversa. Pelé e Maradona são marcas, produtos de marqueteiros a serviço da FIFA, e que, de alguma forma, escaparam do controle, seguramente mais Maradona que Pelé. Os dois tem bandos de seguidores que compram jornais, essa é a causa real das diferenças, vender jornais, dar audiência a programas de TV, criar factoides em geral. E os dois ganham rios de dinheiro com isso. 

3- Neymar e Messi aparentemente são amigos, e já declararam torcer um pelo outro quando o confronto não envolver Brasil e Argentina. Esta postura menos bélica dos dois tende a atenuar a rivalidade ou pelo menos diminuir os exageros dos dois lados?

É um começo, depende de outros atores também. O indicador será a próxima Libertadores, inclusive hoje teremos uma amostra [essa resposta foi enviada na quarta-feira, 23/7, quando o Atlético Mineiro conquistou e Recopa Sul-Americana sobre o argentino Lanús, no Mineirão]. Galvão Bueno se aposentando ajudaria mais que a amizade destes dois guris [o locutor global é notório por botar lenha na rivalidade, repetindo à exaustão a célebre frase: “Ganhar é bom, ganhar da Argentina é muito melhor].

4- Como argentino radicado no Brasil há muitos anos, você em algum momento ou circunstância consegue torcer pela seleção brasileira?

Sempre que o rival não seja a Argentina, torço de coração pelo Brasil. Meus filhos são brasileiros.

5- Decime que se siente (diga-me o que sente) sobre o 7x1, o maior vexame na história do futebol brasileiro?

Sinto que está na hora de mudar conceitos no futebol brasileiro, principalmente na CBF e na TV Globo. O estado atual das coisas não está dando troféus e sim vergonha. Acho que foram sete porque Alemanha não quis machucar mais, até chego a imaginar alguma pressão no intervalo do jogo para isso acontecer. Foi mais doloroso o 0 x 3 contra a Holanda, porque confirmou a fragilidade de toda a estrutura. A recuperação será lenta e nada será como antes. Lamento muito o Barbosa [morto em 2000] não ter visto os dois últimos jogos do Brasil na Copa 2014. Teria sido libertador para o goleiro mais odiado do planeta.

Nota do blogueiro: o saudoso jornalista Armando Nogueira falando sobre Barbosa: “Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera”.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro

joao ubaldo

Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos Jogos Olímpicos não deve viajar do Rio de Janeiro a Berlim no que as companhias aéreas chamam de "classe econômica", embora saibam que se trata de um eufemismo para "vagão de búfalos" ­—exceção feita à comida, já que a dos búfalos é certamente melhor.

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Bem sei eu da imagem do Brasil. Falar em Brasil é evocar índios, a Amazônia e ditadores militares cobertos de medalhas do tamanho de panquecas, gritando ordens a pelotões de fuzilamento em espanhol de acentos bárbaros, nos intervalos de telefonemas nervosos para bancos suíços. O fato de um brasileiro, como eu, confessar que nunca esteve no Amazonas —viagenzinha de umas seis horas a jato, ou mais, a partir do Rio de Janeiro—, que só viu dois índios em toda a vida —um dos quais deputado federal, de terno e gravata— e que fala espanhol mal, eis que sua língua nativa é o português, deixa as pessoas dos outros países muito desapontadas, achando que estão lidando com um impostor, ou com um mentiroso cínico.

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Duas razões me fazem incompetente em matéria de dinheiro. A primeira vem da profissão, pois a opulência não costuma apanhar as letras. Lembro um outro escritor, respondendo sobre se livro dá dinheiro. “Dá, sim”, disse ele. “Contanto que não seja o escritor.”

A segunda razão é a minha condição de brasileiro. No Brasil, não há dinheiro. Há papéis coloridos e moedinhas talvez feitas de restos de panelas velhas. E isso vem de longe. Nasci quando o mil-réis foi substituído pelo cruzeiro.

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Formada em meio a esse ceticismo, a família estava, naturalmente, desprevenida para os rigores do inverno. Senti-me na obrigação de realizar pelo menos um seminário preparatório. Comecei com informações básicas, numa conferência preliminar em que abordei vários tópicos, tais como o que é o inverno, o que é frio —com uma aula prática mais ou menos dentro da geladeira—, o que é uma ceroula, por que não se pode passear no Halensee de bermudas e sem camisa em janeiro, como se explica que neve não é algodão nem tem açúcar, e assim por diante.

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Dir-se-ia então que é mais difícil um brasileiro ser atropelado em Berlim do que um nadador olímpico se afogar numa piscina infantil. Ledo engano, conclusão precipitada. Tanto eu quanto minha mulher, que sobrevivemos rotineiramente à travessia das ruas mais conflagradas do Rio de Janeiro, já fomos atropelados diversas vezes em Berlim. O recordista sou eu, com uns oito casos, todos sem maiores consequências, a não ser um machucadinho ou outro e protestos indignados por parte dos atropeladores. Sim, porque não fui atropelado por carros, ônibus ou caminhões, mas pelo mais terrível, impiedoso e ameaçador veículo que circula pelas ruas de Berlim: a bicicleta.

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Nota do blogueiro: Os trechos acima reproduzidos foram extraídos do livro “Um brasileiro em Berlim”, editora Objetiva. O autor, um dos maiores da língua portuguesa, contava histórias como ninguém. Irreverente, avesso a protocolos e formalismos, ele disparava para desencanto dos mais eruditos: “Encaro com muito tédio papo de literatura.” Quando ganhou o prêmio Camões, o escritor absteve-se de malabarismos explicativos e respondeu a um jornalista sobre o significado da homenagem: “Pra ser sincero, eu não acho nada demais. Ganhei porque eu mereço.” O signatário deste blog reverencia a genialidade do baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014).

Última crônica de João Ubaldo Ribeiro

Mário Prata fala do amigo

Fernanda Torres, na Folha, sobre João Ubaldo Ribeiro

um brasileiro em berlim

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Alinne: a paixão que virou ganha-pão

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Criada num ambiente doméstico onde se respirava o futebol vinte e quatro horas por dia —o avô e o tio jogaram como goleiros em times amadores e profissionais de São João da Boa Vista—, ela era, desde criança, habitué em canchas nos mais diversos gramados da cidade. Na TV, sempre assistindo aos jogos do Tricolor paulista, a paixão ludopédica nasceu ouvindo os comentários táticos e técnicos do patriarca vovô, Teté.

Aos 24 anos, Alinne Mariane Fanelli e Mastiguim, jornalista formada em 2010 pela UniFAE, já militou em diversos —jornais, rádio e TV— órgãos da imprensa sanjoanense.

Hoje, emprestando seu talento ao Grupo Folha, que edita o maior diário impresso do país, ela perdeu preciosos minutos do seu tempo para responder alguma inquirições deste arremedo de colunista.

Por que abraçar como profissão o jornalismo esportivo, uma área predominantemente masculina?

Apesar de amar o futebol e viver neste meio desde pequena, nunca pensei em trabalhar no jornalismo esportivo. Durante o ensino médio é que essa ideia se consolidou. Desde então, tudo o que fiz em relação aos trabalhos de faculdade foram relacionados ao futebol. Sempre ouço: “legal você querer trabalhar com esporte, uma área que está crescendo muito entre as mulheres”. Sim, é verdade, mas o espaço pra nós ainda é bem pequeno.

Quais são suas inspirações/referências profissionais na imprensa esportiva?

Minha grande referência é o narrador da Globo, Luís Roberto de Múcio, pela pessoa e pelo profissionalismo dele. Por ter trabalhado quatro anos na TV SerrAzul, acompanho muito a Renata Fan e gosto muito da postura e do carisma dela no vídeo. Aprendo muito com ela. Depois que comecei a trabalhar em São Paulo, conheci inúmeros jornalistas talentosos, admiráveis, mas que são pouco conhecidos na grande mídia.

Como surgiu a ideia de biografar o Luís Roberto de Múcio? Ele aceitou prontamente ou relutou?

Desde o meu ingresso na universidade, em 2007, eu já planejava o meu tema para o TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. Inicialmente tentei escrever um livro sobre o Rogério Ceni, mas nas tratativas com a assessoria dele vi que seria um projeto difícil de vingar. No começo de 2009, pensei numa obra sobre o Luís Roberto de Múcio, pelas suas origens na imprensa esportiva de São João e por ser um narrador da maior emissora do país. Naquele ano, quando ele ministrou uma palestra na UniFAE, abordei-o relatando minha intenção e, de pronto, ele se mostrou feliz e honrado. Disse-me que ajudaria no que fosse necessário, mas que a distância —ele mora no Rio— poderia ser um dificultador. E, de fato, foi muito difícil escrever o livro sem contatos pessoais com o biografado. Mas, graças a Deus e muito suor, o resultado foi muito bom. Ele adorou o livro [Lances de Uma Vida, editora Scortecci]. Gostou tanto que me ajudou a registrar e incorporar a obra no acervo da Biblioteca Nacional.

alinne e de mucio

Existe o preconceito por ser mulher numa área dominada pelos homens?

Sim, existe. Não tanto entre os jornalistas. Quando você chega numa redação, mostra seu trabalho, se impõe, eles mostram respeito e o tratamento é profissional. Já quando o contato é com o público, leitores, o preconceito é grande. Críticas, xingamentos. Ainda por não ser tão conhecida, não fui vítima de uma discriminação mais explícita, mas tenho colegas de profissão que já ouviram coisas do tipo “teu lugar não é aqui, vai lavar louça”.

O Grupo Folha é um sonho de trabalho para muitos jornalistas. Como conseguiu ser contratada?

Consegui um contato com o editor do site da Folha no início de 2012 e disparava e-mails pra ele pra saber se tinha vaga. Depois de muita insistência, ele me ofereceu um trabalho temporário de quinze dias após os Jogos Olímpicos de Londres. Aceitei. Depois disso, me ofereceram uma oportunidade para trabalhar quinze dias por mês. Na ocasião, recusei por conta da minha pós-graduação. No final de 2012, veio outro convite. Aceitei novamente, alternando matérias para o site e para o jornal. Foi o período no qual comecei a cobrir os treinos dos times de SP. Ainda sem contrato de trabalho, era a freelancer que cobria as faltas de setoristas dos clubes paulistanos. Finalmente, no início deste ano, fui admitida pelo jornal Agora, do Grupo Folha, e, de acordo com as escalas, faço o trabalho em todos os Centros de Treinamentos das grandes agremiações de São Paulo.

Tem alguma coisa marcante pra contar desse seu início de carreira na grande imprensa?

Nunca escondi de ninguém o meu fanatismo pelo São Paulo Futebol Clube e minha idolatria pelo Rogério Ceni. Dia destes, andando pelo CT do Tricolor, cruzei com o Rogério e fui saudada com um gentil “bom dia”. Foi aquele momento mágico em que parei, respirei e pensei: “jamais poderia imaginar estar ao lado do Rogério, trabalhando, e receber dele um cumprimento cordial”. Por alguns momentos, mandei o profissionalismo às favas. Era eu, o Rogério Ceni e minha eterna paixão pelo SPFC.

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Copas, lembranças II

1994 – EUA

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Depois do fiasco do Mundial de 1990 e do jejum desde 1970, a pressão pela conquista era gigantesca. A escolha do treinador Carlos Alberto Parreira foi muito contestada pela torcida e por significativa parte da imprensa.

Estudioso aplicado de esquemas táticos, o técnico abdicou do futebol-arte para montar um time compactado e irritantemente obediente à sua doutrina. A preocupação excessiva em defender fazia a Seleção jogar um jogo feio, burocrático, antítese da cultura brasileira. Os gols saíam de lampejos da dupla Bebeto e Romário.

Na Califórnia, o jogo final contra os italianos retratou à perfeição o desempenho do Brasil naquela Copa: na História, foi o único 0 x 0 em decisões de Mundiais. Dunga, um personagem-símbolo daquela equipe, levantou a taça porque, nas penalidades terminais, Roberto Baggio chutou pra estratosfera. Dizem que a pelota foi achada, semanas depois, no Alasca.

Foi um time que não deixou saudades, mas, goste-se ou não de Parreira, ele foi coerente com seus princípios e suportou as potentes cornetas sem jamais incorrer em destemperos emocionais.

A maior feiura estava reservada para o retorno. Jogadores, comissão técnica e dirigentes abarrotaram o avião com 17 toneladas de eletrônicos e congêneres, sempre irresistíveis pra quem vai aos EUA. No desembarque, a delegação se recusou a permitir que a Receita Federal vistoriasse as bagagens. A CBF chantageou com ameaças de não levar a taça FIFA ao Planalto. Itamar Franco, presidente à época, capitulou e mandou liberar o contrabando.

Na minha memória, o voo da muamba é muito mais nítido que os gols do Romário.

 

1998 – França

zidane 1998

Mário Jorge Lobo Zagallo, ufanista até o último fio de cabelo, estava à frente do selecionado brasuca. Apesar de uma primeira fase vacilante, que findou com uma derrota ante a inexpressiva Noruega, os mata-matas foram jogos empolgantes, com destaques para a goleada sobre o Chile e a emocionante semifinal contra a Holanda, decidida nos penais. Taffarel defendeu duas cobranças dos laranjas.

A disputa pelo título foi com os donos da casa. Sem tradição na maior competição do futebol, os franceses foram menosprezados pelos tetracampeões. O pentacampeonato parecia inevitável.

Horas antes de entrar em campo, o ídolo Ronaldo sofreu uma convulsão, num episódio até hoje não esclarecido totalmente. Examinado e liberado por médicos de uma clínica parisiense, o atacante foi escalado.

Assustados com o ocorrido e divididos com a designação de Ronaldo entre os titulares, os brasileiros chegaram abalados ao Stade de France.

Os anfitriões gastaram a bola e o 3 x 0 acachapante escreveu nas estatísticas, em diferença de gols, o pior resultado da Seleção no livro das Copas.

Convulsão, corrupção, traição ou amarelão? Ainda pipocam por aí muitas conjecturas sobre o que aconteceu em 1998, de fato, com o principal goleador em Mundiais.

Pra este aparvalhado colunista isso é um debate secundário. A verdade é que os deuses do futebol são implacáveis com o salto alto e com quem despreza um gênio da magnitude de Zinedine Zidane.

sábado, 31 de maio de 2014

Copas, lembranças

1978 – Argentina

copa 78

Quando os jogos do Brasil caíam em dias de semana, nós, alunos do Joaquim José, assistíamos as pelejas no corredor da escola, sentados no chão e tentando enxergar alguma coisa na imagem chuviscada de uma TV P&B de quatorze polegadas. As laterais das canchas argentinas tinham mais papel picado do que grama. Na disputa do terceiro lugar contra a Itália, um dos gols brasileiros mais bonitos em Copas do Mundo: Nelinho, uma bomba de fora da área e a bola fez uma curva inimaginável. Na gaveta! Antológico! —vale uma busca no YouTube pra quem quer ver ou rever. Só anos depois fui entender a armação da ditadura argentina para o caneco ficar com os donos da casa.

1982 – Espanha

copa 82

O jogo inaugural da Seleção em Sevilha, contra a URSS, uma virada sensacional com dois golaços de Sócrates e Éder —também prescrevo o YouTube para rever os tentos desta partida—, projetava que seríamos imbatíveis. ­Os três cotejos seguintes —massacres contra Escócia, Nova Zelândia e Argentina— confirmaram o favoritismo dos canarinhos em plagas ibéricas. Cinco de julho, Barcelona, estádio Sarriá: Paolo Rossi endiabrado e um Toninho Cerezo letárgico fizeram o Brasil, depois do Maracanazo em 1950, sofrer sua mais dolorosa derrota em Mundiais. Aos 12 anos, pela primeira vez, compreendi o significado de uma Copa do Mundo para quem ama o futebol.

1986 – México

copa 86

Telê Santana, novamente, convocou um escrete de respeito. Estávamos um pouco aquém de 1982, mas ainda contávamos com Sócrates, Júnior, Zico e o centroavante Careca numa fase espetacular. Lembranças marcantes: os gols extraordinários do lateral-surpresa Josimar —de novo, o YouTube—, contra Irlanda e Polônia, e o pênalti perdido por Zico, contra a França, no jogo que desclassificou o Brasil. Foi a primeira e única vez que chorei por uma derrota da Seleção. Lágrimas doídas e copiosas.

1990 – Itália

copa 90

Um Mundial pra ser esquecido pelos brasileiros. Um técnico embusteiro, Sebastião Lazaroni. Falava, falava e não dizia nada. A falta de comando provocou cisões e panelinhas no grupo. O futebol medíocre da época recebeu o carimbo de Era Dunga, uma alusão ao volante cujo estilo de jogo pouco técnico desagradava imprensa e torcida. Nas Oitavas de Final, contra a Argentina, Maradona e Caniggia selaram a eliminação de uma equipe que não tinha o menor futuro. Neste caso, fuja do YouTube.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Zé, um caipira vencedor

JR e Evelise - NYC

Definitivamente, o personagem destas linhas é um cara que veio ao mundo para ser protagonista.

Março de 1972, no dia 19 o casal Lalo e Beth Noronha celebra o nascimento do segundo filho, batizado como José Ricardo. Nome composto que a vida se encarregou de abreviar entre os queridos: Ricardo, JR ou simplesmente o brasileiríssimo Zé.

O pai, são-paulino fanático, de frequentar os bastidores do Morumbi, legou ao Zé essa paixão pelo Tricolor. A trilha nômade de vendedor —Lalo foi um conhecido corretor de fazendas e equinos— e as temporadas constantes na fervilhante capital paulista sempre fascinaram o menino, que também admirava no genitor sua inabalável retidão de caráter.

A mãe, educadora, mulher de fibra, por conta das viagens profissionais do marido, se desdobrava entre o trabalho, a atenção aos filhos e a administração da casa.

Da infância e adolescência na crepuscular São João da Boa Vista, levou amizades genuínas que ele cultiva até hoje. Levou também uma robusta educação básica dos bancos do Externato Santo Agostinho e do tradicional Grupo Escolar Joaquim José, quando este ainda era notável por um ensino público de excelência.

E levou pra onde? Pra São Paulo, para o Brasil, para o mundo...

Sempre valorizou esse solo macaúbico como um referencial de raízes e memórias afetivas, mas enxergou desde cedo que as oportunidades de ganhar a vida estavam na metrópole. De Sanja pra Sampa.

Na Pauliceia graduou-se em Direito pela PUC. Fez também MBA Executivo Internacional pela FIA/USP, além de uma enormidade de módulos internacionais e especializações na França, Inglaterra e Estados Unidos. A academia era importante, mas botar a mão na massa urgia para o jovem sanjoanense.

Uma época de planos e dificuldades. Empregos incertos que não emplacavam. Uma época em que fisgou na Grande São João das origens o coração da pratense Evelise Moreti. O casamento em 1999 juntou eternamente as escovas de dente.

Primeira metade dos anos 2000, junto a um pequeno time de cinco pessoas, participou do inicio das operações da EnglishTown no Brasil. Era a chegada pioneira do conceito de Inglês Online ao país.

Dedicado na labuta, estudioso e dono de um raro senso de marketing pessoal, recebeu em 2004 o convite para ser vendedor na GlobalEnglish. Conquistou, com o passar dos anos, o posto de Diretor Geral no Brasil, multiplicando por sessenta —60!— o faturamento da subsidiária brasileira e colocando-a como a maior unidade da empresa no mundo, com mais de 23.000 alunos. Em razão de prêmios por produtividade, seminários e treinamentos, conheceu o planeta em dezenas de eventos da corporação.

Há cerca de dois anos, o maior conglomerado de educação mundial, o selo Pearson, comprou a GlobalEnglish. Almejando um crescimento ainda maior, os novos controladores continuaram depositando em JR Noronha absoluta confiança nas suas competências de líder e vendedor. O caminho natural para ele seria o mais alto cargo de gestão do grupo na América Latina.

Seria, mas não foi. Zé abriu mão de ganhos nada desprezíveis, de uma carreira consolidada e de uma promoção iminente. Pediu o desligamento da companhia para realizar um sonho.

O sonho de ser um palestrante profissional. O sonho de disseminar experiências de vida e de uma trajetória de sucesso para desenvolver nas organizações forças de vendas e formar dirigentes-líderes.

Obstinado e organizado, escreveu livros —Vendedores Vencedores foi o primeiro—, criou um site e perfis nas redes sociais, sacou sua network formada em mais de uma década e foi a campo oferecer sua envolvente oratória.

Foi, falou, vendeu, palestrou e venceu.

Sua promissora labuta de conferencista já angariou como clientes, entre outros, Alphaville, Banco do Brasil, Bradesco, Brasil Foods, Caixa, Gafisa, Natura, Perdigão, PizzaHut, Sadia, Starbucks…

Os alunos dos prestigiados MBAs Internacionais da FIA também bebem ao vivo a retórica rica de JR. Ele leciona lá.

Cosmopolita e bem sucedido, leva a esposa para uma lua de mel anual na Big Apple. Pai da Maria Eugênia e da Ana Cecília, suas fontes de inspiração, ele mora muito bem com a família num condomínio na Grande São Paulo.

Orgulhoso da caipirice do torrão natal, quando aterrissa em Sanja, não dispensa uma cerveja com petiscos de boteco, proseando solto junto aos amigos de décadas que tanto preza.

Arremato com um autoplágio. Fui um dos honrados a prefaciar o primeiro livro do Zé. Assim lavrei:

“Bairrista incorrigível, sou destes que se orgulham dos amigos que saem da província e vencem na metrópole. José Ricardo Noronha é um vencedor. Vencedor porque é um profissional de referência na área de vendas. Vencedor porque é um pai de família exemplar. Vencedor porque valoriza suas raízes. Vencedor porque não esconde suas emoções. Lê-lo e ouvi-lo é essencial pra quem quer vender e vencer”.

É, Zé, esse mundão é ‘véio’, surpreendente e não tem porteira!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Venezianas

veneza
Veneza, meados de março, fim de inverno. Clima gelado para viajantes dos trópicos, mas ameno para os nativos acostumados com os rigores da estação no hemisfério norte. 15oC com indumentária adequada é temperatura deliciosa pra bater perna no singular cenário de uma das cidades mais belas e surpreendentes do planeta.

Hordas de turistas de todos os cantos do mundo em todos os cantos da urbe italiana. As charmosas ruas estreitas e os canais testemunham os sons e cores da diversidade étnica.

Comércio sofisticado para bolsos abastados. Grifes em profusão. Africanos nas ruas oferecem peças fakes de bolsas de marca. As menos afortunadas também podem ostentar uma Louis Vuitton ou uma Prada. Piratas, também, em profusão.

Opções múltiplas para comer e beber. Desde pizzas e sandubas inofensivos nos cifrões até tabernas suntuosas onde o incauto deixa fácil três centenas de euros num repasto com sua amada. Estava nos meus planos devorar um carpaccio onde ele foi inventado, o Harry’s Bar. Um pouco de juízo impediu-me de trocar 100 euros por uma porção de carne crua fatiada. Confesso: mais do que o tino próprio, a sensatez alheia, da minha mulher, foi determinante para não cometer a extravagância.

Flashes
blondie
Uma doidinha ávida por holofotes. Não entendi a razão do exibicionismo, mas embarquei na onda e também a retratei. Explico: nos arredores da Piazza San Marco, uma loura de olhos claros, passando frio num minúsculo vestido de noiva, fazia caras, bocas e posições libidinosas. Desnecessário dizer o quanto os marmanjos focavam suas câmeras na inusitada performance da blondie insinuante.

Acaso
mainardi
São tantas as fotos dignas de nota, mas essa é especial pela figura e circunstância absolutamente casual.

Vagueando cheio de exclamações nos arredores da histórica Ponte dell’Accademia, falei pra Josi com uma ponta de inveja: "O Diogo Mainardi tem um vidão e um baita bom gosto. Vive de escrever, participa do Manhattan Connection e mora numa cidade inspiradora como esta".

E não é que nas proximidades da Basílica de Santa Maria della Salute, perto das 13h, ele acompanhava, na volta da escola, o seu caçula Nico. Segurava a mochila do garoto e andava a passos ligeiros. Distraído, não percebi quem era.

A Josi o reconheceu e cantou a bola. Quando ele já se afastava, eu gritei “Diogo” e pedi para registrar a imagem. Sempre ácido e contundente nos comentários na imprensa, Mainardi foi gentilíssimo, perguntou nossos nomes, de onde éramos e fez questão que o filho também fosse retratado conosco.

Parafraseando meu amigo João Fernando Palomo: os querubins da escrita conspiram pra esse tipo de encontro.