quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sabores e tremores

alexandra-daddario

Fim de tarde de sexta-feira e o trabalho me manda à rua para colher negócios. O mundo fora do ambiente do ganha-pão areja, desintoxica da faina rotineira. Contato com o diferente pode ser um dos melhores nutrientes da existência. Contato com gente, também.

Por curiosidade, vício e gula, estou sempre aberto a descobrir novos sabores. Já encarei sarapatel, caldo de sururu, buchada de bode, peixes estranhos e outros bichos inusitados à mesa.

No mencionado crepúsculo da semana do primeiro parágrafo, acho que exagerei na coragem pra explorações gustativas.

Visitando o carismático cliente fabricante de incensos, ele nos diz que a resina —que na verdade é o produto em si— é comestível e que é relativamente comum a sua ingestão por alguns povos do norte da África. Falou isso e colocou à nossa frente uns "petiscos" da coisa.

O colega Guerino, mais educado e menos guloso, mastigou delicadamente uma pedrinha. O lambão aqui logo mandou três das graúdas à boca. O troço é sem gosto e quase impossível de engolir. Envergonhado para cuspir, fiquei mascando aquela goma insossa que gruda implacavelmente no vão dos dentes e, depois de alguns minutos de transpiração e luta, meu estômago recebeu aquela maçaroca triturada. Recebeu, mas não acolheu bem. Terminei a sexta e iniciei o sábado com um desconforto digestivo monumental.

Feliz ficou o Guerino que me disse em mensagem privada —agora caiu o segredo, meu amigo— que o incenso teve um efeito aromático muito agradável na fragrância dos seus flatos.

Ainda padecendo de azia pelo “aperitivo” vespertino, sob coação conjugal, o cinema foi o programa da noite. San Andreas estava em cartaz e a expectativa era de uma chacoalhante diversão. Hollywood sabe fazer melhor e a Califórnia não é merecedora da obra.

O filme não tem nada de entretenimento, não conta nenhuma história e é todo tenso no pior sentido da palavra. A fantasia é exagerada e não cola. Uma das cidades mais lindas do mundo, San Francisco, é inteira destruída enquanto o protagonista —Dwayne Johnson— tenta resolver seu combalido relacionamento conjugal. Ele pilota helicóptero, avião e lancha, mas é incapaz de transmitir qualquer emoção crível. Achei ofensivo e muito deprimente mostrar a Golden Gate destroçada num pseudo exercício de possibilidades geológicas. A maior tragédia no filme é ele próprio. 9,9 na escala "ruinchter".

Rola algo digno de deleite na película? Sim, um assombro de beleza perdido no meio de tanta patacoada: Alexandra Daddario.

Maguary de caju

comida congelada

—Comida congelada!?

—É... só tenho isso.

—Esperava algo mais... um macarrãozinho feito na hora, uma saladinha fresca, um franguinho refogado, sei lá, uma comidinha com gosto de aconchego, de after sex. Esse Escondidinho da Sadia é o ó! da culinária sem graça. E também vem muito pouco, quase nada, mal dá pra um.

—Quebra um galho...

—Pois é, quebra um galho. Pra você essa noite tem um quê de quebra-galho?

—Eu disse isso?

—Não disse, mas deu a entender. Você poderia ter pensado numa coisa mais caprichada, mais romântica.

—Não gostou da minha cueca de oncinha?

—Gostei, mas não tô falando do durante, tô falando do depois. Acho que eu merecia um pouco mais de consideração. Essa gororoba de micro-ondas serve pro dia a dia, não pra uma noite especial. Ou o que a gente teve agorinha não foi especial?

—Desencana, para de pensar bobagem. Vamos tomar alguma coisa...

—Um vinho!?

—Maguary de caju, pode ser?

—Edmilson Gustavo!, você só pode estar brincando... Maguary de caju é a puta que te pariu... nem uma bebida decente você foi capaz de providenciar?

—Quem está estragando a noite é você, com esse vocabulário ofensivo.

—Vocabulário ofensivo é o que vai acontecer daqui a pouco se você não largar a porra desse videogame e não me trouxer em trinta minutos um jantar que combine com a minha pessoa.

—E o que seria um jantar que combina com a sua pessoa?

—Quer saber, seu pão duro insensível, agora eu vou apelar. Pega o cartão de crédito porque a coisa vai engrossar pro seu bolso. Vai lá no Bento’s e me traga um badejo grelhado com amêndoas e arroz negro. Também quero um risoto de pera com gorgonzola e lombo de cordeiro com geleia de hortelã. De sobremesa, ouça bem, eu quero duas, duas sobremesas: um petit gâteau e uma banana flambada com sorvete.

—E a balança?

—Que balança, Edmilson Gustavo?

—Aquela que vai quebrar depois dessa comilança toda.

—@$%&@$%&@$%&

[Em respeito aos leitores o escriba se abstém de transcrever as palavras um tanto pesadas da transtornada moça depois da infame piadinha, também pesada, do cuca fresca Edmilson Gustavo].

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sabor foice

Bela Gil

Vistosa, sorriso fácil e simpática, Bela Gil perpetra estranhices na cozinha. Soube do trabalho dela quando bombou nas redes uma receita inusitada, muito sem graça: melancia grelhada com azeite, sal e pimenta. A moça, com essa abominável heresia, maculou a santidade da grelha.

O blogueiro Iran Giusti quis conceder o benefício da dúvida à cozinheira filha de Gilberto. Ele comprou uma robusta melança, temperou e tascou no fogo, tal como prescrito no programa do GNT. Seu veredito não foi lá muito positivo: “churrasco de melancia tem gosto de morte”. O colunista acredita na sentença do Iran e vai se abster de provar a iguaria sabor foice.

Não provei, mas, sei lá a razão, fiquei tentado a dar uma espiada nos pratos dela. Que fique bem claro a distância que nos separa: ela na TV e eu no sofá. Ela na soja e eu na panceta.

Num dos programas, Bela ensina a fazer umas tais “marmitas nutritivas” em que o ingrediente principal é, valha-me Deus, acreditem!, painço. Que eu me lembre, painço é parente do alpiste, ração de cereais pra alimentar passarinho. Um troço seco, miúdo, quebradiço, nada atraente.

Imaginem um trabalhador braçal acostumado a repor seu vigor com calóricas e homéricas marmitas. Imaginem a justa ira desse homem ao descobrir que sua refeição será uma gororoba sabor painço. Ele poderia matar e invocar legítima defesa do seu estômago. Seria indigno provê-lo com esse mousse da infelicidade.

“Os colegas vão invejar sua marmita”, disse a menina vangloriando-se da sugestão saudável. Eu, honestamente, sentiria dó.

Noutra edição, Bela se aventura a fazer um hambúrguer nada ortodoxo. Esqueça a carne e chore sem pudor: hambúrguer de feijão-preto. Nem nos piores pesadelos eu poderia imaginar o sacro nome do hambúrguer ser invocado com tamanho desrespeito.

Elias Gleizer, o ator, bonachão e bom de garfo, foi um dos convidados do programa. Ao vê-lo, lembrei de uma história que mostra seu apreço pela boa mesa. Gravando novela no Rio, Gleizer sentiu falta da pizza paulistana. Não padeceu pela vontade e, sozinho, pegou a ponte-aérea pra devorar uma redonda no Bixiga e, feliz, voltar na mesma noite.

Glutão assumido, Elias Gleizer foi obrigado a ser cobaia de um experimento natureba batizado kitchari. Gentil, ele não deu mais que três pescadas na mistura de gengibre, cominho, lentilhas e outros bichos. Aquele homem que fala de comida com alma, que é um devoto das mamas napolitanas, ali estava, murcho e educado, tentando entender por que diabos alguém jura ser feliz comendo cúrcuma, agrião e couve-flor.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eduardo & Sylvia

Comidaria

Depois de um rápido namorico adolescente, cada um tomou seu rumo na vida universitária.

Ele: Comércio Exterior e Turismo. Ela: Negócios da Moda, na conceituada Anhembi Morumbi.

Eduardo Pradella estudava uma coisa e pensava em outra. Enquanto cursava Turismo, não sossegou até ser admitido na cozinha do Casa Grande Hotel, no Guarujá. Lavar pratos não era bem o que ele queria, mas estar ali, na muvuca aromática e fascinante do mise en place à finalização, o fez definir seu norte profissional.

No mesmo litoral sul de SP, na UniMonte em Santos, diplomou-se em Gastronomia.

Canudo na mão, era hora de ralar e praticar. De ajudante de cozinha à sous(segundo) chef, perambulou, entre outros restaurantes brasucas, pelo Sofitel, Kaá, Essence Maison Degaine...

A pátria gastronômica gaulesa é o sonho de quem quer ganhar o pão sob a coifa. Eduardo, em 2013, zarpou para uma temporada no sul da França —em Molitg-les-Bains— e foi beber na fonte de Michel Guérard, chef do estrelado Château de Riell.

Sylvia Merlin, ao término da universidade, também tratou de buscar trabalho e realização. Em Sampa, na sua área de formação, laborou com criação e estilo, assessoria de imprensa e produção. Um negócio próprio era o que ela queria. Qual negócio ela não sabia.

Arriscou numa loja online de bijoux e depois numa doceria —ou doçaria como querem os ortodoxos do idioma. Erros, acertos, tombos, lições, experiência.

Eduardo voltou da França e reencontrou Sylvia. Do flerte da puberdade ainda saíam fagulhas. Mergulharam de novo numa relação, mais madura, mas não menos intensa.

Da metrópole para a província. Regressaram ao pé da Mantiqueira com convicções pessoais e necessidades profissionais. Destas convicções veio o casamento em novembro de 2013. Das necessidades, uma ideia.

A intenção se concretizou num pulo, conta Sylvia: “sem firulas, sem rodeios, direto e reto”. Aquele impulso de jovens que querem, sabem e precisam. Jovens com habilidades manuais, com veia artística, com senso estético e que cresceram na onda da revolução digital que marcou este inicio de século 21.

Nascia em Sanja a Comidaria, um baita nome legal para um conceito de delivery gastronômico. O cardápio, enxuto e ecumênico, tinha risoto, pasta, costelinha de porco, salada e fritas.

Por não receberem comensais in loco, o investimento inicial não foi tão alto. Por usarem sua própria cozinha doméstica na empreitada, a casa padeceu de um inevitável rebu.

A coisa engrenou, principalmente, pelo esmero do Eduardo na execução dos pratos. Mas, no conjunto da obra, também contribuíram para o êxito: embalagens bacanas e modernas, uma identidade visual original —um mix harmônico de clássico e hipster— e uma divulgação muito bem feita via redes sociais. Isso tudo concebido pela multimídia e superconectada Sylvia que, por isso, acrescentou talento publicitário ao seu currículo.

“Sugestão do Chef”, aquele item variável, extra-menu, que surpreende o cliente foi incorporado à proposta de serviços comideiros.

Em meados de 2014 —junho pra ser exato— ofertaram um hambúrguer homemade na “Indicação do Cozinheiro”. Os pedidos explodiram, o telefone não parava e fotos no Instagram mostravam que no torrão do bauru de lombo ainda havia espaço pra outros sandubas. No caso, um de inspiração ianque, confecção artesanal, lindo em calorias e pra lá de sedutor.

A criatura atingiu uma dimensão que botou pressão na cachola do criador. Era hora de mudar, era hora de crescer. Era e foi.

No corredor hamburgueiro da aldeia, a Avenida Oscar Pirajá Martins, um imóvel residencial foi adaptado pra acolher a Comidaria Burger.

Após pesquisar influências do ramo no circuito São Paulo-NYC-Chicago, Eduardo & Sylvia reabriram as portas neste comecinho de outono.

E reinauguraram presenteando a cidade com um lugar que é a cara deles: contemporâneo, permeado por referências, descontraído e, ao mesmo tempo, mainstream e underground, da moda e do gueto.

Nada congelado, tudo fresco. O redondo de carne definitivo —depois de várias combinações experimentais— é um blend de fraldinha e ponta de peito. 160 gramas de dignidade.

Tem o meu respeito um cara que regala os fregueses com um hambúrguer rosado por dentro, a léguas da secura. Tem o meu respeito o cara que corta uma batata asterix na faca e a serve crocante acompanhada de molho barbecue rústico. Tem o meu respeito o cara que espeta picles de pepino na cabeça do sanduíche. Tem o meu respeito o cara que traz brejas inusitadas do Pará. Tem o meu respeito o cara que amolece o brigadeiro com creme de leite e tem a pachorra de apresentá-lo na colher escoltado por uma cerveja encorpada. Tem o meu respeito...

Eduardo & Silvia voltaram pra terrinha/E vão trampar muito no verão/Nas próximas férias não vão viajar/Porque a “filhinha” do Eduardo tá na maior ferveção/E quem um dia irá dizer/Que não existe razão/Nas coisas feitas pelo coração?... (Russo, Lauro)

Go, guys, go!

Comidaria 2

Joint: dignidade absoluta, pra lá de sedutor

sábado, 18 de abril de 2015

Memórias do cárcere

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Istambul, segunda-feira, primeira manhã de viagem. Perto do hotel fica o inacreditável Grand Bazaar, no coração histórico da metrópole turca. É pra lá caminhando que nós vamos.

Os tapetes, voadores ou não, fascinam desde sempre os que botam os pés no Oriente. Nas mulheres, eternas sedentas por upgrades nos ornamentos domésticos, esse fascínio aumenta consideravelmente na Turquia, dada a magnífica oferta de capachos de todas as formas, tamanhos, preços e estampas.

E foi essa fraqueza feminina que atrasou nossa chegada ao Grand Bazaar. Explico.

Nos arredores do nosso destino, a senhora Borges insinua-se a um vendedor na rua demonstrando inequívocos desejos tapeteiros. Era a senha pra sermos conduzidos ao terceiro andar de um prédio abarrotado de alcatifas —existem poucos sinônimos para tapete, por isso me desculpo pelo horrendo “alcatifa”. Evitarei usá-lo novamente nesta crônica.

O local, um tanto mal-ventilado e sinistro, abrigava um exército de mercadores de alfombras —outro sinônimo igualmente pavoroso. Imagino que, exceto os quatro caipiras brasucas, não havia mais nenhum cliente naquela Galeria Pajé da Tabacow.

Essa escassez de compradores causou um vigoroso assédio mercantil aos únicos incautos, ali praticamente encarcerados.

A coisa foi de desnortear. Uns quinze homens misturando turco, espanhol, inglês, Ronaldo e Pelé, enaltecendo através de muitos decibéis as supostas qualidades dos tapetes que eram desenrolados aos borbotões. E dá-lhe bandejas e bandejas de tchai, a onipresente bebida turca. No auge da tensão cheguei a pensar que nas xícaras servidas haveria alguma erva causadora de efeitos perdulários a quem a ingerisse.

O escancarado espanto nosso pelos cifrõe$ cobrados pelos tapetes parecia enervar aquele batalhão de negociantes ávidos para ferir de morte o meu cartão de crédito.

Num inglês melhor que o meu —qual inglês seria pior que o meu?—, o jovem destemido Lauro Filho assume a transação e começa a falar mais grosso com a agressiva tropa de vendas.

Já antevendo um possível fracasso no ataque aos nossos bolsos, a turba fica ainda mais ensandecida com a brava resistência dos macaúbicos em plagas estrangeiras.

Aproveitando um cochilo dos sentinelas e o fogo no jovem very good english, sorrateiramente este escriba alcança a rua escorregando desesperadamente suas muitas arrobas pelas escadas do edifício.

Quando percebem que os três remanescentes acuados carecem do que os interessa —$$$$$$$—, a libertação deles foi questão de segundos. Os inimigos cessaram a artilharia quando o comandante, braço direito erguido, decretou: “No money!”

Aquele cárcere no alvorecer das férias teve três consequências: uma pedagógica, uma econômica e outra linguística.

A senhora Borges, passado o susto, ignorou solenemente qualquer tapete ou congênere nos vinte dias da nossa estada na Turquia e, por isso, minhas descontroladas finanças foram agraciadas com uma poupança de centenas de euros.

A consequência linguística? Meu inglês subiu de nível: de péssimo para ruim.

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Nobel II

ciència

E segue a minha gloriosa catança de inventos/pesquisas que mudarão os rumos da humanidade. Leiam, anotem , compartilhem.

Doutor Len Fisher, inglês, calculou o melhor modo de molhar um biscoito. Sem trocadilhos. Hoje ele está finalizando a equação para a fabricação de bules e chaleiras que não pinguem.

O coreano Hyuk-ho Kwon criou o terno executivo auto-perfumante.

George Blonsky e Charlotte Blonsky, de Nova York, conceberam um dispositivo para ajudar mulheres durante o parto —elas são amarradas em uma mesa circular e então esta é rodada em altíssima velocidade.

Ellen Greve, australiana, escreveu Living on Light, que versa sobre a não necessidade de algumas pessoas comerem.

De uma universidade holandesa, Andre Geim mostrou como usar imãs para levitar sapos.

Lesões causadas por cocos em queda, foi o impactante estudo médico do canadense Peter Barss, da MgGill University.

O beberrão germânico Arnd Leike provou que a espuma da cerveja obedece à lei matemática do decaimento exponencial.

Eleanor Maguire, David Gadian, Ingrid Johnsrude, Catriona Good, John Ashburner, Richard Frackowiak, e Christopher Frith, da University College London, demonstraram que o cérebro dos taxistas londrinos é mais desenvolvido que o de cidadãos normais. Disso depreende-se que taxista é um ser anormal.

John Trinkaus, da Zicklin School of Business de Nova York, coletou dados e publicou mais de 80 relatórios acadêmicos sobre assuntos que o incomodavam, tais como: 1- percentagem de jovens usando bonés com aba para trás; 2- pedestres com tênis brancos; 3- pessoas que só nadam na parte rasa da piscina; 4- percentagem de motoristas de automóveis que quase, mas não completamente, param em determinada placa de "pare"; 5- percentagem de viajantes carregando maletas; 6- percentagem de clientes de supermercado que excedem o número de itens do caixa rápido; 7- e percentagem de estudantes que não gostam de couve de Bruxelas.

Steven Stack, de Detroit, foi definitivo na obra “O Efeito da Música Country no Suicídio”.

Daniel Simons, da Universidade de Illinois, revelou que mulheres vestidas de gorilas são imperceptíveis para pessoas concentradas em algo.

Do Conselho Sueco de Pesca, Hakan Westerberg decifrou a comunicação por flatulências dos arenques do Mar do Norte.

Claire Rind e Peter Simmons, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, monitoraram a atividade cerebral de uma lagosta enquanto ela assistia a uma seleção dos melhores momentos de "Guerra nas Estrelas".

Gauri Nanda, do Massachusetts Institute of Technology, fabricou um relógio despertador que foge e se esconde para assegurar que as pessoas de fato saíam da cama.

Chico Ramon, editor deste semanário, catalogou as reações raivosas dos habitantes de Jacutinga ante as linhas torpes de cronistas ineptos.

Rodolpho Biasotto, pinhalense e engenheiro de produção, planilhou o estudo “Efeitos do Lombinho do Tonhecas no Sono de Homens Carecas Cinquentões”.

Nilsinho Heccus, cabeleireiro, registrou o libidinoso experimento que trata das consequências positivas do uso de xampu de camomila na performance sexual de funcionárias públicas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Aí…

mídias-sociais

Aí você entra na doideira passional do debate político e começa a se manifestar num tom acima do razoável, extrapolando um pouco os limites do civilizado.

Aí você lê algo que escreveu no calor da contenda e não se reconhece ali naquelas linhas permeadas por palavras ácidas, por petardos em embalagens adjetivadas.

Aí seu oponente, acuado, na defensiva, contra-ataca com um verbo ainda mais quente. A fogueira é alimentada pela gasosa de saliva de governistas, de um lado, e do resto do Brasil, do outro lado.

Aí você para, pensa, respira, reflete...

Aí você lê, relê, trelê...

Aí você traz pra frente do teclado um caldo do que tem ouvido nas últimas semanas.

Aí você percebe que há um sentimento comum, genuíno, de indignação na esmagadora maioria das pessoas do seu convívio pessoal e profissional.

Aí você se dá conta que algumas destas pessoas, íntegras e discretas, nunca tinham se manifestado como fazem agora. Com a intensidade que fazem agora. Com a convicção que fazem agora.

Aí você vê que aqueles que se achavam os donos dos gritos de rua estão desolados pelo despejo às avessas. Da rua pra casa.

Aí você descobre que muitos dos despejados não esperneiam por ideais. São militantes pagos, grudados na máquina, vivendo da máquina, cegos pela medo de perder a boquinha. Há exceções, poucas.

Aí você capta o desespero deles na vã tentativa de tentar direcionar a indignação para alvos outros, diferentes dos que têm brotado espontaneamente.

Aí você tem a certeza que [tentativas de] orquestração contra alguns entes passíveis de críticas não tem o condão de mandar o povo à rua.

Aí você sabe que há algo estranho quando se tenta demonizar um dispositivo constitucional com a máscara fake de um feioso golpista.

Aí cai a ficha que escaramuças e conflitos, por mais acirrados que sejam, ajudam na consolidação de instituições nas nações democráticas.

Aí, viva!, você agradece pelo contraponto raivoso, pelo contraditório azedo. Até pela confrontação lúcida, ponderada.

Aí você escorrega e não resiste na menção de um bordão de auto-ajuda, mas verdadeiro: “o que vem da adversidade só reforça nossa crença”. (Augusto, Lauro).

Aí finalmente você sai destas reflexões racionais e sente vontade de mandar alguns pra aquele lugar.

Aí você come um chocolate e espera a vontade passar. Aqui não!

Aí fica mais evidente o quão as pessoas, anônimas ou não, ficam mais exaltadas —inconvenientes, até— nas timelines das redes sociais. Para o bem e para o mal.

Nobel

78431525

A despeito do pessimismo que grassa por aí, a humanidade tem motivos para se dar como salva. Leiam a boa nova que esteve nas manchetes da semana nos portais internéticos:

“Nova tecnologia evita sobra de ketchup dentro da embalagem”.

Combalida, a economia mundial vai voltar a crescer muito nos próximos meses com tão revolucionário invento.

E este derrubado escriba, apesar de tudo um otimista incorrigível, navegou nos mares virtuais para pescar outros achados fenomenais. Nossa frágil existência granjeou muitos séculos a mais.

Segue o rol da ciência para o novo mundo:

Josiah Carberry, professor, explorador eclético e buscador da verdade, desenvolveu uma pioneira pesquisa em psicocerâmica, analisando milhões de cacos de vasos quebrados.

Um quarteto nipônico de Yokohama desbravou fronteiras inóspitas do fedor e elucidou quais são os componentes químicos responsáveis pelo chulé.

A nutrição alegórica deve muito à Doutora Ivette Bassa, que conseguiu sintetizar a gelatina azul brilhante. Hoje ela trabalha muito para que vacas do Nepal produzam leite verde musgo.

Três médicos norte-americanos, misericordiosos, escreveram o tratado “Gestão Crítica do Pênis Preso no Zíper”. Projetam, em conjunto com um grupo de dentistas, um estudo sobre “Resíduos de Carne Encravados nos Vãos dos Dentes”.

Wayne Hansen mapeou e planilhou a frequência numérica e sonora dos movimentos intestinais dos soldados americanos no Golfo Pérsico.

Mestres da Universidade de Yale criaram um método que ensina pombos a identificarem pinturas de Picasso e Monet.

Hogne Sandvik, da Universidade de Bergen, na Noruega, escreveu a brilhante tese: “Efeito da Cerveja, Bacalhau, Alho e Creme Azedo no Apetite dos Pernilongos”.

Outro norueguês, este de Oslo, cravou um necessário alerta médico preventivo em “Transmissão da Gonorreia Através de uma Boneca Inflável”.

Em Massachusetts, Don Jacobson criou a mais fantástica ave decorativa do planeta: o flamingo rosa de plástico.

Cientistas suíços e japoneses conceberam em Zurique um robô que mede as ondas cerebrais de pessoas enquanto elas mascam diferentes tipos de chiclete.

A meteorologia encontrou seu máximo expoente em Bernard Vonnegut, por seu experimento “Depenagem de Galinhas Como Meio de Medir a Velocidade de Ventos e Tornados”.

Peter Fong, da Universidade da Pensilvânia, contribuiu com “Efeitos do Prozac no Humor dos Mexilhões”. Aqui cabe um parêntese local: Johnny Noronha, farmacêutico pinhalense, se inspirou na descoberta do acadêmico norte-americano e está lavrando “Efeitos do Rivotril na Personalidade do Lambari”.

Takeshi Makino, de Osaka, inventou o Spray da Infidelidade. Esposas detectam as escapulidas do marido aplicando-o nas roupas de baixo dele. A cueca fica rosa se o bandido pulou a cerca.

No Reino Unido, Charles Deeming fez um magnífico relato da sua observação homem/animal em “Hábitos de Cortesia de Avestruzes com os Humanos em Fazendas da Bretanha”.

Lauro Augusto Bittencourt Borges, bancário de São João da Boa Vista, foi definitivo na sua brochura “Como Embromar Leitores do Blog Mesclando o Nada com Coisa Nenhuma”.

sexta-feira, 13 de março de 2015

#15deMarçoDe2015

panela

Panelaços e buzinaços sacudiram a noite do último domingo em diversas localidades do país. Enquanto a inquilina do Alvorada fazia um pronunciamento débil na TV, brasileiros muitos cravaram decibéis nas latas num protesto insuflado via redes sociais. No decorrer da semana em São Paulo, a presidente levou outra bordoada ruidosa das indignadas gentes.

Estas manifestações são prenúncios claros para o dia quinze vindouro.

E por que o Brasil vai pra rua?

Porque existe um justo repúdio ao bando de malfeitores que assaltou —ainda assalta?— desavergonhadamente o Estado brasileiro.

Porque uma sociedade vigilante —e barulhenta quando necessário— é pilar de um regime democrático.

Porque a Petrobras, patrimônio da nação, está sendo corroída por ações e omissões criminosas que destroçaram sua credibilidade e, consequentemente, seu valor de mercado.

Porque, pela vastidão de indícios e engodos sacramentados, é legítimo discutir política e juridicamente a capacidade de governar do mandatário maior da República.

Porque é intolerável que compromissos de palanque sejam rasgados com a maior cara-de-pau depois da posse.

Porque a participação política do povo não se resume ao ato de votar.

Porque os interesses de um partido político não podem ser misturados às políticas de Estado.

Porque protestar não é golpismo.

Porque ventilar sobre dispositivos constitucionais não é terceiro turno.

Porque liberdade de imprensa é outro pilar de nações democráticas.

Porque o Brasil é muito maior que a peleja tucanos X petistas.

Porque só fama não alça ninguém ao posto de gerente competente.

Porque a economia de um gigante precisa de um timoneiro que saiba navegar também em mares revoltos.

Porque Cuba e Venezuela têm muito de ditadura e pouco de liberdade.

Porque a contrariedade ao governo também está nas periferias e nos rincões do país.

Porque pedir mudança não significa vestir o traje da elite golpista, tampouco farda e bolsonarices alegóricas.

Porque existe corneta vigorosa —e livre— muito além da CUT e dos movimentos sociais.

Porque a vaca tossiu.

Em tempo: convicto estou dos propósitos da passeata como convicto estou da baixeza de protestar com linguajar de rasteiro calão e com desejos estúpidos de sangramento.

sábado, 7 de março de 2015

Walther

“Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas. E os momirratos davam grilvos.”

Tradução de Jabberwacky de Lewis Carroll, por Augusto de Campos

Melódico, complexo, hermético, sonoro. São eles, o poema e o Walther.

Walther

Segundo post consecutivo, por Deus!, para lamentar a morte de um querido. Os Castelli, Walther e Nando, irmãos de sangue, se foram em menos de duas semanas. Chorei pelo Nando dias atrás e, ainda dilacerado, republico linhas de boas-vindas ao Walther, quando ele palestrou, em novembro de 2012, na Academia de Letras de São João da Boa Vista. Assim o recebi naquele sábado chuvoso.

""Noite festiva nesta fecunda Casa de Letras.

Uma efeméride em que tenho a agradável incumbência de apresentar e dar as boas-vindas ao palestrante Walther Castelli Júnior.

Agradável porque o Walther, além de sanjoanense, literato maior, orgulho da terrinha, é amigo desde sempre.

Desde a vizinhança na residencial Tereziano Vallim dos anos 1970, depois em Campinas, onde na minha adolescência era eu generosamente acolhido na sua república. República essa culturalmente bem movimentada, multifacetada, efervescente e, por isso, frequentada por pessoas bem estranhas aos olhos de um jovem provinciano.
Junto com o Nando, irmão caçula do Walther e meu camarada do peito, passei finais de semana inesquecíveis bebendo o caldo de novidades daquela casa agitada na Guanabara campineira.

Naquela época, confesso, eu bebia muito também, além das novidades, caldos mais etílicos.

E o generoso que eu digo é muito mais do que a simples hospedagem: Walther me apresentou a um mundo muito além das macaúbas. Através dele conheci, entre tantas coisas, o cinema de Godard, a música de Caetano, a poesia concreta, o porre de vomitar e a gastronomia japonesa.

O primeiro wasabi —aquele condimento extra-forte da cozinha nipônica que os incautos lambuzam no sashimi como se fosse patê— a gente nunca esquece.

Uma passagem da casa que gosto de rememorar. Tarde de sábado e o Walther chega trazendo uma fita K7. Ele pede a atenção dos presentes e dá um play no toca-fitas do três em um. O som era chatíssimo, incompreensível. Ante a cara de enfado de todos, ele mete o dedo no stop e explica aos entediados: “é poesia medieval!”

Sanjoanisticamente, não resisti e cochichei pro Nando: “Poesia medieval!? Puta que pariu!, seu irmão é inteligente por bosta!”

Dez anos mais novo que a geração do Walther, o macaúbico aqui, moleque intruso, não era muito ouvido pelos intelectuais amigos dele. Eu é que ouvia e aprendia muito.
Ultimamente nossos encontros têm sido no refúgio da sua família, aqui nos arredores de Sanja. Sob as bênçãos do mato platino-pratense, o Walther vai pro fogão a lenha reger memoráveis esbórnias de comida, bebida e prosa. E é claro que nessa prosa reinam reminiscências deste torrão da Beloca.

Filho da Therezinha Araújo, que os chegados conhecem como Tuta, e do saudoso Walther Castelli, Júnior, como a família o chama, nasceu em setembro de 1960.
Sedento por aumentar seus horizontes na estética da escrita, decolou de Sanja muito jovem.

Cursou Letras Clássicas e Vernáculas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a conceituada Fefeleche da USP; licenciou-se em Letras no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, onde desenvolveu dissertação de mestrado em Teoria e História Literária, estudando a obra de Dante Milano, sob orientação do Professor Dr. Paulo Franchetti.

De 1979 a 1996, atuou como professor de Língua e Literatura em instituições particulares de ensino médio e em cursos pré-vestibulares. E aqui cabe um parêntesis: em Itapetininga, na sala de aula de um cursinho, o professor Walther foi fisgado pela aluna Marinês. Casarem-se em 1995 e têm dois filhos, Mariana e Pedro. Fecha parêntesis.

Concluiu cursos de gestão de projetos editoriais ministrados no Brasil pelo Centro de Formación Publish, de Madri, e pela Bookhouse Training Center, de Londres.
Atuou de 1995 a 2012 como diretor editorial da Editora Companhia da Escola, de Campinas, que veio a se chamar posteriormente Integral Sistema de Ensino Ltda., onde desenvolveu também o trabalho de autoria de livros didáticos de Língua e Literatura Brasileira e Portuguesa.

É tradutor e comentarista, pela Verus Editora, de Campinas, da obra do educador americano John Holt, tendo traduzido os livros Aprendendo o tempo todo (Learning all the time), em 2006, e Como as crianças aprendem (How Children Learn) em 2009.

Bem sucedido nos negócios, Walther quer voltar a ter mais prazer no trabalho. Quer e vai ter. Aos 52 anos ele está voltando a fazer o que mais gosta: ler, escrever, lecionar, palestrar...

E nessa noite, creio eu, aqui em São João, na Academia de Letras, há um simbolismo de reencontro muito grande. O recomeço do Walther nas Letras é aqui, palestrando no pé da Mantiqueira, revendo amigos, família e trazendo um naco da poesia de Dante Milano aos presentes.

Zezinho Só, artista e arteiro, não economiza adjetivos ao falar do amigo: “Walther é o sanjoanense mais culto de todos os tempos”.""

Eu concordo e acrescento: culto, pai, marido, irmão, filho, amigo, genro, tio, poeta e generoso. Um ídolo. Uma referência. Do bem e do caralho! Warti, você partiu antes do combinado.