terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A Casa do Porco


Domingo chuvoso, fim de feriadão. O cinza pede um viagra para a alma. A magreza no ânimo pede calorias.

Antes do retorno à província, o repasto na capital é n’A Casa do Porco, do chef de São José do Rio Pardo, Jefferson Rueda, o Jeffinho.

Jeffinho, um sabe-tudo dos cortes suínos, entrou na cena gastronômica comandando por bons anos a cozinha do Attimo, trabalhando com primor num conceito que ele chama de ítalo-caipira.

Apesar de interiorano, ele é um apaixonado pelo velho centro da Pauliceia, onde mora e onde a esposa, a “Dona Onça” Janaína Rueda, serve caçarolas densas no pé do Copan.

Por isso, sair do reduto mauricinho —o Attimo fica na Vila Nova Conceição— pra cozinhar em oldtown foi mais do que natural.

A Casa do Porco foi “porcamente” pensada. O prédio, na degradada rua Araújo, preserva seu exterior detonadão. Dentro, a brigada jovem e bem treinada abraça o comensal num ambiente repaginado, informal e muito ajeitado. Uma coisa rústico-moderna, se é que isso existe. O cardápio é um fervoroso culto ao porco, concepção de quem conhece o bicho desde a roça.

Comida que ergue, que restaura, que extasia…


Minha emocionante e antológica experiência...

Entradas: pancetta com goiabada. Sim, é isso, pode acreditar: goiabada cremosa com um toque de pimenta cobrindo uma crocante barriga de porco frita. Um soco gordo na mesmice! 

Outro aperitivo: sushi de papada de porco com tucupi preto. O homem inventa, arrisca e acerta.

Principal: Porco à SanZé, o carro-chefe. A carne, lentamente assada, é servida tenra e desossada com couve, tartar de banana, farofa amanteigada e tutu de feijão. Uma "porca" poesia. 

Sobremesa: morangos frescos com fitas de salsão e sorbet de manjericão. Foda de bonito e de diferente. Muito foda!

É fato, este planeta está cada vez mais inóspito, mas ainda é o único lugar onde se pode comer o porco-arte do Jeffinho Rueda.



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Mundinho Facebook

papo de cozinha

Mídias sociais são espaços férteis para criação de lendas cibernéticas. Vez ou outra sou vítima e/ou beneficiário do personagem que brotou das atividades que perpetro na grande rede.

Por algumas fantasiosas deduções decorrentes das minhas digitais no Facebook, Instagram e afins, já fui alvo de pesadíssimas acusações.

Ser tachado de esportista foi uma das maiores barbaridades. Não obstante as múltiplas fotos que retratam um indivíduo notadamente fora dos padrões ditos saudáveis, eventuais postagens de finais de semana em que, enfiado em indumentárias fitness de cores berrantes, caminho ou pedalo em trilhas bucólicas do torrão Sanja-Prata, induzem os incautos a uma falsa visão atlética onde só há fagueiros passeios dominicais.

Publicações que narram viagens de recreio ou efemérides familiares em que sorrisos, poses e belos cenários abundam, também proporcionam divertidos ilusionismos. Família perfeita, digo sempre, só existe em publicidade de margarina. Expresso aqui toda a humanidade do meu clã para me livrar da falsa imputação de felicidade excessiva e ofensiva.

Useiro e vezeiro na produção de imagens e letras sobre os prazeres da mesa, não é raro, em razão disso, me atribuírem uma habilidade que eu definitivamente não tenho: cozinhar. Reconheço meu apreço pela pirotecnia gastronômica, mas assumo a destreza quase nula no fazer. Muito barulho pra pouca mão na massa.

Anos atrás um conhecido me convocou à sua casa. Ansioso, ele tirou do freezer um lindo pernil de cordeiro e intimou: "Sábado ele é todo seu. Me passe os ingredientes para o tempero que você vai preparar essa maravilha". Apavorado e sabedor do quão precioso era aquele tesouro ovino, é óbvio que recusei a tarefa. Recusei, mas implorei por um downgrade na patente: de cozinheiro para apenas comensal.

Dia destes, de novo, o escriba fanfarrão foi convidado para outra estripulia culinária. Fabiana Gimenes, a blondie carismática do programa Papo de Cozinha, encasquetou que eu seria o cara a pilotar o fogão na TV. Essa coisa embriagante chamada ego impediu-me de declinar o chamado.

Uma receita de fácil execução foi a primeira providência tomada pelo MasterFakeChef. Levar a esposa ao estúdio foi a segunda medida preventiva de desastres.

Uma gafe ou uma trapalhada cinematográfica, resignado com o inevitável eu já estava, seria um bom mote de humor para a crônica da semana.

A coisa, surpresa!, rolou legal. Uma produção redondinha, uma direção paciente e uma apresentação descontraída. A Globo!

O êxito na empreitada televisiva, pensando bem, foi muito danoso. Roubou-me o gancho de gracejo para o texto. Obrigou-me a lavrar aquelas divagações sociológicas de almanaque nos primeiros parágrafos. E, por fim, contribuiu para pincelar com tintas definitivas o quadro deste embusteiro das comunidades virtuais.

Nasce o mito! Morre o mito!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Greve

GREVE
Economia ladeira abaixo. Crise política cada vez mais agravada pelos dramáticos desdobramentos no Legislativo e no Executivo. A nação se arrastando, por tudo isso e pela leseira que nos causam essas temperaturas diabólicas. Greves, protestos, motins e revoltas pipocam em todos os segmentos relevantes do país. O conhecimento da realidade obriga o cidadão a fazer um pequeno tour informativo por aí. Ouçamos atentamente algumas vozes do descontentamento.

Maçarico
Esse tal de leitão é muito arrogante. O suíno é gostoso, mas é muito marrento. Vá lá que a carne dele seja saborosa. E é. No entanto, caramba!, não custaria nada ele dividir os holofotes à mesa e me dar os créditos crocantes da pele. Só volto a prestar o fogoso acabamento pururucante depois do devido reconhecimento público do meu valor.

Borbulha

Sem graça e sem atrativo nenhum. Sem sal e sem açúcar. Ela só ganha um gingado quando eu entro com meus dotes efervescentes. A "patente" gasosa é por minha causa. Ingrato líquido H2O! Só retorno à garrafa se receber a merecida condecoração borbulhante.

Queijo

Sou o contraste pungente à melosidade excessiva da Julieta. Com meu branco láctico, trago também equilíbrio cromático à nossa dupla. Nada quero além do meu papel. Não sou estrela, mas também não aceito ser coadjuvante. Estou no mesmo nível dela e é assim que quero ser apresentado. Goiabada, a partir de agora, somente ao meu lado. Em cima, jamais. Estarei fora do prato se ela exigir o protagonismo.

Azeitona
Quem confere autenticidade a uma receita de empada? [gritando] Sou eu, porra! No boteco ou no buffet grã-fino, ela só impõe respeito se me tem no recheio. Juro que não comparecerei à próxima fornada se o mérito azeitonístico não for cantado em prosa e verso. Empadinhas, cansei!

Manteiga
Percebo o atrevimento de requeijões e geleias rodando bolsinhas por aí. Sei que o francês é volúvel e sucumbe ao desejo do miolo. Foda! Vou deixar bem claro que a virtude da untuosidade é minha. A gorda cremosidade que umidifica baguetes e afins é a razão d'eu existir. Me terás deliciosa no café da manhã se me for dada a exclusividade lubrificante das bengalas. E não peço perdão pelo duplo sentido, pois muito me orgulho das minhas outras utilidades. Aquele filme do Marlon Brando prova que não minto ao falar desta amanteigada versatilidade.

Couve
Não quero mais estar escondida no "completa" da feijoada. Ou melhor, não queremos. Vou pra essa briga com o apoio dos meus companheiros também ignorados: vinagrete, farofa e laranja. Sabemos do nosso status acessório. Respeitamos essa classificação, mas recusamos com veemência o limbo da não menção. Aceitamos o abrigo numa tipologia menor, mas exigimos nossa nominação expressa em cardápios, lousas, letreiros etc.

Pizza
Cariocada herege! Malemolência desgraçada a desse povo. Minhas napolitanas origens são reiteradamente vilipendiadas por essa turba praiana que me consome submersa em ketchup. Puta mau gosto! Azeite, sim, sempre. Só ele. Não serei mais assada no Rio se não houver pena de morte pra quem ousar me esfregar naquela assustadora pasta atomatada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Ray-Ban e chinelos

natureza

Estacionei o carro na lateral da estradinha de terra. Dali em diante, só caminhando. Fui...

A trilha até a cachoeira pode ser vencida com pouco esforço em míseros setenta passos. O terreno relativamente limpo, sem obstáculos, deixa mais agradável a vereda em seu suave declive. Aquela imensidão verde para no limite da estreita faixa onde os urbanoides circulam.

Nestes dias de temperaturas desérticas, o corredor descrito transporta o vivente da secura infernal para um recanto de água abundante, fresca e limpa. Banhos ali são mais do que refrescantes, são restauradores de civilidade. O mergulho na piscina natural resgata uma dignidade quase destruída pelo calor que não é de Deus.

Bicho do asfalto e gorducho, desço vagarosamente ao paraíso. Ressabiado com o cenário off-cidade, sou precavido para que peçonhas não estraguem o meu recreio. Observo muito e, perdão cachorrada, farejo idem.

PQP!!!! Tem veneno no pedaço!!!!

Um veneno com a substância letal da morenice brasuca.

No deck rochoso, uma beldade esculpida em harmônicas sinuosidades relaxa sem qualquer material têxtil ou sintético a cobrir-lhe as vergonhas. Seu traje se resume a um par de Havaianas num extremo e óculos ao estilo Jackie Kennedy no outro. Fones nos ouvidos e um geme-geme ritmado entregam que ela escuta Marisa Monte.

A pose de estátua erótica também se quebra com os lentos movimentos que a acomodam numa posição mais confortável. Lagartear ao léu é preciso...

Respeitoso com o repouso alheio, me abstive da aproximação que poderia provocar um afoito gesto para esconder pele e pelos.

Admirador da natureza bruta, camuflei-me nos arbustos como um paciente fotógrafo da National Geographic.

Buscador incansável da paz conjugal, foquei a câmera do meu iPhone na direção de paisagens menos insinuantes.

Faminto insaciável, depois de sessenta minutos plantado, abandonei a posição de voyeur para devorar um curau no bosque da Prata.

Entusiasta de gente bem resolvida, aplaudo a socialite sanjoanense que renunciou temporariamente ao universo do jet set crepuscular para, numa quinta-feira de primavera, se desnudar sozinha e despreocupada num torrão recôndito da floresta platino-pratense.

A mata densa, o canto das aves, o ruído da vigorosa catarata, a formiga operária, o milho verde e a moça nua se espreguiçando na pedra. Biodiversidade, eu curto!

jackie k

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Tabus e alicates

FERRAMENTAS
Charles Darwin, se vivo fosse, teria na figura deste roliço escriba uma prova cabal do acerto de suas conclusões evolucionistas.

Nenhuma vanglória, zero de autolouvações, tampouco jactâncias, caríssimos leitores. A constatação de um notável progresso pessoal não exclui o mea-culpa do quão retardado foi esse avanço. Um darwinismo terceiro-mundista, digamos. Um saltinho demorado, convenhamos.

Faz parte da cartilha de conquistas do homo medius alguns itens essenciais: diploma, família, casa, carro, emprego estável, conta no banco, cachorro, pijama de bolinhas, perfil no Facebook e uma caixa de ferramentas.

Atenho-me a esta última e importante menção: a fundamentalíssima caixa de ferramentas. Inatacável é o provedor do lar que tem na garagem um providencial estojo de apetrechos reparadores.

Cumpridor dos deveres de cidadão, temente a Deus, pagador de impostos, zeloso com a prole e marido fiel, são todos atributos desejáveis no homem de bem. Mas de nada adianta esse cesto de virtudes se o varão não for o legítimo possuidor de uma conveniente caixa de ferramentas.

Florear o verbo, repetir conceitos, abusar de sinônimos e arabescos do idioma, carecer de objetividade. São pedaladas marotas —vide parágrafos acima— que o cronista lança mão para encher linguiça, mas são também recursos retóricos para sublinhar momentos ímpares. E este descarado escrevinhador foi protagonista de uma vitória singular no comecinho da semana. Conto-lhes...

Cuidadoso com a integridade física da minha atlética esposa, arvorei-me naqueles magazines xinglings que invadiram a Adhemar de Barros para adquirir equipamentos de proteção para ciclistas.

Num daqueles corredores da Pequim de bugigangas, fui tomado por um devastador sentimento de omissão ao deparar com objetos que deveriam fazer parte da minha vida há mais de vinte e cinco anos —a maioridade dos dezoito seria uma idade razoável para esse batismo de civilidade e prudência. Alicates, martelos, chaves de fenda, aquele arsenal metálico pendurado imputava graves acusações ao paroquiano autor destas linhas: ele nunca teve colhões para ter a própria caixa de ferramentas.

Inimigo de trabalhos que exijam um mínimo de destreza manual, fui arrastado por mais de quarto de século através da generosidade da vizinhança que sempre me acudiu nas horas críticas. O sopro de ar vinha na forma de uma salvadora chave Philips.

Ali, naquela alameda de comércio popular, sitiado por conflitos internos e dramas de consciência, acabei com um tabu existencial, libertei-me de um opressor paradigma de comportamento e, aliviado, comprei a minha primeira e redentora caixa de ferramentas.

Preparado estou ante a imprevisibilidade traiçoeira dos acidentes domésticos.

Ainda sem motivos para o uso inaugural —confesso até um certo receio pela chegada do instante crucial—, ela, a bem fornida caixa, numa prontidão diligente, repousa entre os meus guardados proporcionando uma sensação de segurança jamais sentida nos meus combalidos quinhentos e quarenta meses neste mundo. Alcancei, orgulhoso do feito, o patamar da dignidade entre os meus.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Botecando

radios

Quentura do cão pra não ver a rua nesta noite de primavera nascendo. Sair de casa é um eufemismo maroto pra comer e beber. Bora lá, véio!

Tem #SãoJoãoDaBoaMesa rolando. Tem boa cena de rango nas perifas de Sanja. Tem sanduba do melhor no circuito off-mauricinho. Há vida interessante muito além do mundinho Dona Gertrudes-Mantiqueira.

Paraki Lanchonete é o lugar eleito por este boquirroto glutão. Ali no Jardim Industrial, bordeando com o Durval Nicolau, de um lado, e com o Recanto do Jaguari, de outro.

Bar e/ou lancheteria que quer respeito cá no torrão da Beloca tem que botar bauru de lombo no cardápio. Não sabe fazer bauru? Ok, sem problema, sua praia é outra. Que tal abrir uma sorveteria?

Luiz Carlos Missassi Rivera, o Paraki Boss —ou Luizinho do Durva—, é digno de reverência por servir no seu estabelecimento o acepipe ícone das chapas crepusculares. Recebe, também, admiração pela ousadia nas releituras do sanduba. O bauru de lombo abre o pão para visitas inusitadas em conserva: abobrinha ou berinjela.

Bauru de lombo com abobrinha?! Yes, man, so good!
Berinja também na área? Of course, brother!

Ele ainda tem a pachorra de deixar nas mesas o clássico molho norte-americano de pimenta caiena: Frank’s Red Hot.

E pra acompanhar? Paredes revestidas com antiguidades. Quinquilharias nas prateleiras jogando charme aos comensais. Câmeras, eletrodomésticos, telefones, bugigangas e muitos, muuuitos —e lindos— robustos rádios de antanho.

Digno bauru, cerveja trincando, atendimento casual, objetos de valor histórico e de lambuja a skyline do centro da cidade.

Vou chamar de novo, vou intimar: bora lá, véio!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Estrambólicas

ovo cozido

Glória ouviu que praticar sexo por seis anos, dois meses, três dias, oito horas e quarenta e sete minutos, produz o calor necessário para cozinhar um ovo. Glória gosta de sexo e ovo cozido, mas, faminta e cansada, ela preferiu usar o velho fogão mesmo.
***
    Waltrudes afirma que o cérebro humano tem a mesma consistência que o tofu. Pessimista, ele tem certeza que, em alguns, o conteúdo também é igual.
***
    Ademir descobriu que um raio contém energia suficiente para fatiar cento e vinte mil cenouras. Ele não gosta de cenouras e acha que quem as come muito fica com uma cara alaranjada. Ademir já padeceu de hepatite e tem trauma de amarelão na bochecha.
***
    Fabíola leu que as mulheres gastam, em média, duzentos e doze dias de vida depilando as axilas. Ela não se importa com isso, mas muito se chateia com a conclusão de que torra o mesmo tempo raspando o buço. Fabíola não quis responder se descende de portugueses.
***
    Eduardo sabe que marsúpio é o nome daquela bolsa abdominal da mamãe canguru. Ele desconfia que a Louis Vuitton da vizinha do terceiro andar é usada para traficar recém-nascidos, sendo, portanto, um marsúpio do demônio.
***
    Aline pesquisou que sete pulôveres poderiam ser confeccionados com os pelos do corpo do Tony Ramos. Ela adora novela, suéteres coloridos e só compra carne Friboi. Aline é dona de uma malharia em Jacutinga.
***
    Padre Altair diz que o fruto bíblico proibido não é a maçã. Ele já foi missionário no sertão da Paraíba e conta que viu muito casamento desfeito por causa da graviola. Padre Altair quase pendurou a batina quando experimentou graviola.
***
    Giuseppe foi informado que em São Paulo são consumidos diariamente cem hectares de pizza. Ele é fã do Luís Fernando Veríssimo e concorda com o escritor ao tachar a pizza como “uma contravenção culinária”. Giuseppe pensa que hectare combina mais com capim.
***
    Ricardo nunca conseguiu lamber o próprio cotovelo. Ele é movido por desafios e matriculou-se numa escola de circo. Há dois anos cursando, Ricardo já pilota no globo da morte e faz incríveis acrobacias, mas, por enquanto, só encosta a língua nos lábios da gostosa bailarina espanhola.
***
    Amir aprendeu que os chimpanzés do norte do Congo são canhotos. Ele também é canhoto. Amir está juntando dinheiro para viajar ao Congo, mas ainda não tem a mínima ideia do que vai fazer lá.
***
    Tereza dá como certo que cronistas gorduchos sofrem de parvoíce aguda. Ela nunca conheceu um que fosse mentalmente equilibrado. Tereza é piedosa com insanidades alheias.
***
    O cronista gorducho encontrou um propósito para sua insignificante existência: lamber o próprio cotovelo no norte do Congo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Disposições

“(...)Joaquim Levy, ministro da Fazenda, diz ter ‘certeza de que todo mundo está disposto’ a pagar ‘um pouquinho de imposto para o Brasil ser reconhecido como um país forte’.(...)”

Acabei de ler a notícia acima num sítio jornalístico. Fiquei estupefato e curioso. E disposto.

Homem culto, preparado, Levy é o cara que também entende das profundezas da alma do cidadão. Humanas disposições, penso eu, não são estados de espírito tão óbvios.

A declaração ministerial tirou-me da sonolência patológica e, cheio de disposição —a foto não me deixa mentir—, saí a pesquisar algumas inclinações surpreendentes do bicho homem.

Compartilho o resultado dessa busca com o leitorado.
   
    ++ Pela sustentabilidade do planeta, todo mundo está disposto a renunciar ao uso das abomináveis geladeiras. A carne será conservada numa lata de banha, legumes e frutas só serão consumidos frescos e bebidas sorvidas apenas na temperatura ambiente.

    ++ Pela preservação da harmonia conjugal, as esposas estão dispostas a abdicar de alguns valores demasiadamente femininos: 1) toalha molhada poderá repousar sobre a cama; 2) DRs não mais ocorrerão no horário do futebol na TV; 3) lugar de roupa suja será no chão do banheiro; 4) dor de cabeça não poderá ser usada como desculpa para nada.

    ++ Pela saúde, pela necessária dieta e pela alegria das mulheres, os homens estão dispostos a abrir mão de alguns prazeres mundanos: fora picanha e cerveja, viva o peito de frango com suco detox; futebol domingueiro 0 x 10 almoço na casa da sogra; passear entre as araras da C&A, da Renner, da Marisa e da Riachuelo, ufa!, será um ótimo entretenimento para as tardes de sábado.

    ++ Pelo respeito aos cofres públicos, políticos estão dispostos a recusar salários, verbas de representação, carro oficial e boquinhas para familiares.

    ++ Pelo sacrifício pessoal, mineiros estão dispostos a abolir o consumo de queijo. “Uai” e “trem” dizimados do vocabulário é outra disposição inesperada dos habitantes das Gerais.

    ++ Pela integridade dos canais de saída, baianos estão dispostos a banir o consumo de pimenta na Boa Terra.

    ++ Para corroborar as exóticas disposições mencionadas, o autor destas linhas irá mergulhar no regime “trio sabor”: soja, rúcula e gelo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Aylan

aylan

Tênis, bermuda azul-marinho e camiseta vermelha vestiam o corpinho de três anos de Aylan Kurdi, o garoto sírio cuja foto correu o mundo esta semana mostrando-o morto numa praia turca.

Aylan acompanhava sua família que, como tantas outras, buscava desesperadamente uma acolhida do Ocidente para fugir do regime de miséria, opressão e terror que castiga há muito a Síria.

O cadáver da criança refugiada, uma imagem tão triste quanto chocante, é uma das coisas que nos faz crer nos descaminhos irreversíveis da humanidade. É fato, nós erramos.

Lamentos sinceros povoaram as redes sociais. Alguns, ante o impacto do retrato, preferiram contestar a pertinência de publicá-lo.

Publicar e compartilhar, sim.

Que o simbolismo agressivo da imagem chacoalhe a opinião pública europeia. Que ela acorde definitivamente para a questão e pressione os governantes. Que estes pensem nada em cifrões e só no viés humanitário. Que eles sejam sensíveis aos gritos de socorro dos desterrados.

Bandeiras fortes como a foto de Aylan, sim, têm o poder de mudar o curso da história. Vide a foto de 1972 daquela menininha vietnamita correndo nua após um bombardeio na sua aldeia.

Os Kurdi, Aylan, a mãe Rihan e o irmão Galib, tombaram em fuga.

Fuga da guerra, fuga do estampido impiedoso de fuzis e canhões, fuga das privações das necessidades mais básicas, fuga do medo da mão pesada da ditadura.

A consciência planetária pesa como nunca. Fomos incapazes de segurá-lo.
Fomos incapazes de acolhê-lo. Fomos incapazes de proporcionar a ele uma sobrevivência digna. Fomos incapazes de lhe dar a expectativa de um futuro menos cinza.

Rabisco estas linhas revendo dolorosamente a foto a cada parágrafo. Minha dor é nada perto da realidade das hordas de Aylans que perecem por aí, no mar, na escuridão e na falta de horizonte.

Naquela areia quente em Bodrum, de bruços e sem vida, Aylan Kurdi nos mostrou de forma dura e inequívoca que um pouco do mundo, também prostrado e de bruços, morreu ali. Levaremos para sempre o calor incômodo da areia nas nossas caras.

Abdullah, o pai, único da família a sobreviver ao naufrágio, não se perdoava: “Meus filhos escorregaram das minhas mãos”.

Escorregaram, sim, Abdullah. Das mãos débeis e sujas do mundo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Carioca Café

Carioca

O amigo magistrado Christian Robinson Teixeira sentencia:

—Tem novidade na Prata. Novidade na cena gastronômica. O Carioca Café oferece um cardápio de poucos e surpreendentes sandubas. Vamos lá?!

Convite de magistrado não se discute, aceita-se de pronto, sem recorrer.

Luciano e Cláudia dirigem a casa. Ela, de Aguaí. Ele, do Rio. Baixaram na estância hidromineral para ele exercer o seu ofício: luthier, o profissional que fabrica e conserta instrumentos musicais. Alaúdes e guitarras de séculos passados puxavam o seu portfólio.

Ideias projetando novos negócios sempre pululam.

Planejaram ingressar no comércio moveleiro e locaram um ponto. Ventos e planos mudam. Nada mais de mesas e cadeiras, tudo de caçarolas e temperos.

Um salto da específica manufatura de objetos sonoros que alimentam o espírito para a elaboração não menos acurada de mimos de sabor para o corpo e também para a alma.

Luciano encasquetou com uma dupla de ícones cariocas: mate gelado e bolinho de bacalhau. Abrir um café virou o propósito.

650 bolinhos foram feitos para o fim de semana da inauguração. Encalharam. Com o passar dos meses, por sugestões e inspirações, o menu foi sendo moldado.

E a coisa vai indo. O boca a boca espalha que é um lugar pequeno, simples, arrumadinho, com uma carta enxuta de inesperados e deleitosos itens. O atendimento não é dos mais ágeis, mas a simpatia faz o comensal relevar qualquer desconforto.

E lá tem...

Tem hambúrgueres artesanais de fraldinha, tostados na fachada e suculentos na essência, servidos com cebolas caramelizadas flambadas com Jack Daniel’s. Tem outras variantes inusitadas de escolta: gorgonzola e/ou shitake. Tem uma kafta da mesma família dos burgers, que cai na mesa acompanhada de molho de coalhada, salada de pepino e tomate e pão sírio quentinho.

Tem fritas com alecrim que podem ser submersas no clássico ketchup Heinz. Submersos também, em coberturas várias, tem os bacanas waffles.

Tem a mineirice no sanduíche de linguiça. Tem pedigree de boteco no sanduba de pernil defumado com vinagrete. Tem aquele acepipe que mexe com a nossa memória afetiva: bolinho de chuva. Tem um quindim que não é deste mundo. Tem o mate gelado com limão que sobreviveu mesmo depois do melancólico fim do bolinho de bacalhau.

Tem lousa e conversa ao invés do cardápio de papel.

Para remédio dos glutões incorrigíveis, o torrão pratense tem dádivas calóricas que vão muito além do tradicional milho-verde e iguarias derivadas.

Fui, gostei, indico e vou voltar. Muitas vezes.

Carioca2