Cel. Ernesto de Oliveira, 204
São João da Boa Vista, SP
São João da Boa Vista, SP
Anos 1940, a labuta era dura nas minas de carvão da Fonte Platina. A mulher Josiane preparava diariamente o embornal do operário Lauro Borges.
Certa manhã, despensa vazia, ela fez um catadão com o que foi achando na cozinha. Lauro levou para a faina um punhado de macarrão seco, dois ovos, nacos de barriga de porco curada da Cascata e queijo meia-cura do empório do Zé do Carlito. Um caldeirãozinho e uma pequena frigideira de ferro completavam o arsenal para aquele modesto mineiro matar a fome.
Na hora do rancho, o fogareiro cozinhava a pasta e frigia o toucinho enquanto Lauro agregou o meia-cura picado aos ovos batidos. Tudo junto e misturado no calor da panela, o trabalhador atacou com volúpia a inusual massa com ovos, queijo e porco.
Umberto Lino, o italiano colega de serviço, fez troça ao ver as cinzas de carvão caírem sobre o prato de Lauro Borges: “ma che cosa strana, carbone nella pasta, quello non è cibo, quella è carbonara.”
É isso, o resto é história de quem, hoje, coloca pimenta do reino para parecer fuligem de carvão.
Provei! De verdade fui arrebatado pelos aromas e pela leveza da massa. Salteñas e empanadas inspiradoras da croniqueta abaixo, lavrada ainda sob o efeito do cominho.
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O boliviano Fernando Escobar aterrissou no Brasil na década de 1960 para estudar. Fisgado pela mineira Isabel, casou e aqui ficou. Os três filhos do casal —Valéria, Andrea e Arturo— nasceram no Rio de Janeiro. Aos oito anos do caçula Arturo, a família foi passar férias na Bolívia. O garoto se apaixonou pela salteña à primeira mordida: “eu queria comer a toda hora, mas lá salteñas só são servidas das dez ao meio-dia; nem os bolivianos sabem explicar direito o porquê desse hábito que se mantém até hoje.”
Em 2017, confabulando com um primo que o visitava no Brasil, Arturo reclamou da dificuldade de se achar uma boa salteña em São Paulo. Tentaram fazer, mas não deu muito certo, o sabor ficou muito diferente do original. Ouviu de um legítimo “salteñeiro” que a iguaria tinha um segredo. Frustrado e sem saber o tal segredo, ele voou para La Paz e se inscreveu num curso: “nas aulas descobri existir mais de trinta segredos e inúmeros macetes para a confecção de uma perfeita salteña.”
Voltou a Sampa e abriu o restaurante Ekeko no Paraíso. Colocou no cardápio também as famosas empanadas argentinas, cuja receita lhe foi passada por um chef porteño amigo. Nos três anos de portas abertas, a cozinha do Ekeko conquistou a comunidade boliviana (e parte da argentina) de São Paulo.
A pandemia antecipou o projeto de mudança para o interior de Arturo Kelmer, 50. A terra da mulher Silvana Vianna, 48, foi o solo eleito. O vento que não vem dos Andes é suprido pelo que vem da Serra da Paulista. Vai daí que esta Sanja de majestosos crepúsculos tem ao alcance do WhatsApp empanadas e salteñas cultivadas com pesquisa e paixão desde a infância do menino Arturo.
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19 3366-7500
Meados de 2019, primeiro ano de desgoverno do inominável. No grupo intermunicipal de amigos, eu, Josi e outra boa alma éramos os únicos a bater no Mal. As conversas, antes amistosas e bem temperadas, se transformaram em discussões pesadas, tóxicas, insalubres.
Saí daquele ambiente quando me mandaram à Venezuela, tacharam Luiza Trajano de comunista e Jair de ungido dos céus e defensor da família. Ali, ouvindo aquelas barbaridades de gente supostamente instruída, tive certeza da potência avassaladora da máquina de fake news do nazifascismo brasileiro.
Claro que algumas daquelas pessoas já estavam no armário, à espreita, só esperando um aceno das trevas para colocar pra fora discursos excludentes e odiosos, mas a força das notícias manipuladoras criadas no submundo da extrema-direita empoderou mais ainda a turba fanática.
Desde 2018, estamos mergulhados num conflito político-institucional potencializado pela criminosa insensibilidade social do governo central. A pandemia, que poderia ter unido o país contra o vírus, escancarou a quem quis enxergar um presidente cruel, que debocha das vítimas, que nega vacina, que tira máscara de criança, que sabota medidas protetivas, que exalta medicamentos inócuos. Enfim, um sujeito desprezível desprovido de qualquer traço de humanidade.
De sete dias pra cá, depois do primeiro turno da eleição, a guerra de postagens eclodiu novamente nas redes sociais. Os cegos exaltados de sempre somados aos assumidamente fascistas dispararam, entre tantas mentiras e maldades, preconceito e xenofobia contra o povo nordestino. Testemunhamos um festival triste e intolerante que disse nada sobre o alvo dos insultos e muito sobre quem os proferiu. Detalhe: xingam nordestinos mas arrogam hipocritamente temor a Deus.
Intencionalmente ou não, tem muitos passando pano nas atrocidades perpetradas por esse ser ruim sem se dar conta do que está em jogo.
Fernando Abrucio escreveu no Valor: “Como a História verá quem optar pelo modelo bolsonarista? Será que os tucanos e afins que abraçam o bolsonarismo não percebem que os políticos, pesquisadores e a mídia internacionais estão dizendo que esta é a trilha certa para o precipício? Que poderemos sofrer sanções comerciais e políticas com efeitos danosos para a economia se continuarmos com as diretrizes ambientais e de direitos humanos atuais? Essa cegueira custará a carreira política de muitos políticos mais ao centro, mas principalmente terá consequências terríveis para toda a sociedade”.
É fato, não raras vezes me pego desolado ao descobrir alguém que um dia foi digno do meu apreço se revelar tão desalmado e absurdamente alienado. Aflição e desalento, sim, eu sinto, mas logo recupero o orgulho e a altivez por combater ao lado dos humanamente imperfeitos contra o incurável perverso.
Sem sigilo de 100 anos no meu voto: eu, sem vacilo, aperto 13! Com força!
Madrugamos em Málaga para chegar antes das 8h ao porto de Tarifa. Conseguimos, mas uma certa burocracia documental na compra dos (caros) bilhetes fez com que perdêssemos o primeiro ferry-boat do dia. Embarcamos só às 9h rumo a Tânger, rumo ao Marrocos, rumo à África.
Sob um céu esplendoroso e sobre um mar calmo, cruzamos o Estreito de Gibraltar em cinquenta tranquilos minutos. O visto marroquino é concedido dentro do próprio barco sem nenhuma dificuldade. Incômodo somente foi a longa fila. A ala de passageiros do ferry-boat, diga-se, é grande, confortável e conectada.
Badreddine, o motorista que nos levaria país adentro, atrasou o suficiente para sermos ostensivamente abordados por vendedores de passeios. Piedoso do camelo que estaria incluído no tour, recusei depositar minhas generosas arrobas nas suas corcovas. Saímos do porto de Tânger enxergando praias cheias, hotéis de luxo, prédios modernos e avenidas largas. As placas são grafadas em árabe e francês. Túnicas (djellabas) e burcas vestiam os nativos que se aventuravam na quentura nas ruas.
Pé pesado, Badreddine venceu em duas horas a distância até Chefchaouen. Dormi na maior parte do percurso, mas tive despertares para testemunhar a sinuosidade e a boa pavimentação da estrada. Josi se mostrou incrédula com meu sono profundo durante aquela condução veloz de um taxista desconhecido numa terra idem.
Quando Badreddine estacionou, a visão daquela escada sem fim assombrou-me. Quando derrotei aqueles cento e setenta degraus até a recepção, o suor fez-me proferir alguns palavrões em árabe. Quando a gentil Radia nos deu boas-vindas com uma limonada leitosa, eu ainda questionava-me a escolha daquele hotel. Quando me perguntarem sobre a hospedagem no Dar Jasmine, ainda vou falar mal da escada, mas vou falar excepcionalmente bem da suíte, da cama, do chuveiro, da decoração, da paisagem, do café da manhã, do jantar e do atendimento polido e simpático de toda a equipe. Que experiência única, arrebatadora, surpreendente!
E a cidade? Uma localidade cravada nas encostas da cordilheira do Rife. Chefchaouen, no norte marroquino, a incrível Cidade Azul. As paredes são azuis, também azul é a simpatia do marroquino falando árabe, francês, inglês ou espanhol nas vielas movimentadas. Nelas, comerciantes expõem artesanatos e produtos da cultura local a turistas do mundo todo que buscam sem parar o melhor ângulo para a melhor foto no cenário mais azul.
Dizem que, no começo do século passado, os “chefchaouenses” acreditavam no poder da cor azul para repelir mosquitos, por isso a pintura no tom anil. Se funciona contra os insetos, não posso afirmar, mas tenho certeza da força da energia azulada para o turismo naquela remota urbe do norte da África.
William Gonçalves, que está há quinze anos na cena gastronômica poços-caldense com o Breja Gastrobar, decidiu fazer discos napolitanos por uma razão simples: “não tinha em Poços uma pizza que eu realmente gostasse”. Um tanto de pesquisas e um montão de testes precederam a abertura d’A Napoletana, uma casa de poucos meses com atmosfera cantineira que serve belas redondas cuja massa é de lenta fermentação e alta hidratação. O perfeito molho de tomate pelado completa o fundamento das impecáveis pizzas do lugar. Mais um bom e assado motivo pra subir a serra.
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A Napoletana
de terça a domingo, a partir das 18h
Av. João Pinheiro, 1033
Poços de Caldas, MG
Poeta incurável, escritor compulsivo e cronista irreversível, o amigo e confrade Fernando Dezena mencionou duas vezes este escriba glutão em seu texto dominical. As linhas dele, com a leveza habitual, passearam por bocas leoninas, mesas fartas, sítios elevados e almas idem. Sei lá o porquê (?), nas passagens em que ele cita-me há alusões a um café da manhã e uma leitoa desossada. Até parece que sou movido por compulsões gastronômicas! Isto posto, não quero aqui me gabar de ter sido o anfitrião do desjejum, tampouco o privilegiado convidado da pururucância suína n’altitude. Hoje, prefiro a vanglória nada vã dos duzentos mimos do Rubem Braga com que o Dezena agraciou-me. Ah, posso jactar-me da caneca de pingado como companheira matinal de lavras e leituras?
#ForaBolsonaro
Voltei ao bairro da Cascata, aquela provinciana fronteira paulista que beija Minas Gerais. Vi empórios e bares modestos, vi senhoras proseando na calçada e carros puídos estacionados, vi crianças brincando na rua e homens cobertos com chapéus ostentando canivetes na cintura, senti o cheiro de alho e cebola fritando e o aroma de lenha queimando, vi jovens nas portas de humildes casas vidrados nas telas de celulares nada humildes. Vi galinhas ciscando no asfalto…
E vi o Liti, entrei na inusitada morada de madeira do Liti. O registro civil revela que ele é Luís Antônio de Oliveira, 64 anos. Liti é um cascatense nativo, retireiro de toda uma vida nas fazendas do pedaço. Descobri o personagem em 2017, trilhando com Josi. Do nada, numa aparição típica de bons caçadores, ele surgiu do mato com seu pastor alemão, Lobo, e nos mostrou atalhos e picadas que só um matuto da montanha conhece. Pintor e escultor diletante, Liti faz suas obras com ossos de animais granjeados em suas intermináveis incursões pelas florestas e pastagens da região. Não há quem domine melhor as veredas destas selvas pratenses. Ele, ainda, é um poeta popular que escreve diariamente. Liti, o cara não para, é um difusor da cura com plantas e ervas que ele mesmo colhe nos bosques recônditos que só ele acha. O papo com a figura é eclético e recheado de histórias que trazem ovnis, espíritos, crendices, folclore e um profundo amor por este solo bendito.
Um brinde…
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…aos que resistem aos arroubos autoritários, aos que não perderam a humanidade, aos que acolhem e abraçam a diversidade, aos que não são insensíveis aos vulneráveis, aos que se norteiam pelo pensamento racional, aos que combatem os mercadores da fé, aos que rejeitam a pregação insana de pseudolíderes desalmados, aos que repelem o ódio de falsos moralistas, aos que condenam a violência de messias sebosos, aos que se indignam com a vagabundagem sobre duas rodas, aos que não compactuam com roubos rachados e propinas douradas, aos que não digerem chocolates lavados e mansões sujas, aos que lutam incansavelmente para destruir as novas câmaras de gás do nazifascismo. Saúde!