sexta-feira, 13 de março de 2015

#15deMarçoDe2015

panela

Panelaços e buzinaços sacudiram a noite do último domingo em diversas localidades do país. Enquanto a inquilina do Alvorada fazia um pronunciamento débil na TV, brasileiros muitos cravaram decibéis nas latas num protesto insuflado via redes sociais. No decorrer da semana em São Paulo, a presidente levou outra bordoada ruidosa das indignadas gentes.

Estas manifestações são prenúncios claros para o dia quinze vindouro.

E por que o Brasil vai pra rua?

Porque existe um justo repúdio ao bando de malfeitores que assaltou —ainda assalta?— desavergonhadamente o Estado brasileiro.

Porque uma sociedade vigilante —e barulhenta quando necessário— é pilar de um regime democrático.

Porque a Petrobras, patrimônio da nação, está sendo corroída por ações e omissões criminosas que destroçaram sua credibilidade e, consequentemente, seu valor de mercado.

Porque, pela vastidão de indícios e engodos sacramentados, é legítimo discutir política e juridicamente a capacidade de governar do mandatário maior da República.

Porque é intolerável que compromissos de palanque sejam rasgados com a maior cara-de-pau depois da posse.

Porque a participação política do povo não se resume ao ato de votar.

Porque os interesses de um partido político não podem ser misturados às políticas de Estado.

Porque protestar não é golpismo.

Porque ventilar sobre dispositivos constitucionais não é terceiro turno.

Porque liberdade de imprensa é outro pilar de nações democráticas.

Porque o Brasil é muito maior que a peleja tucanos X petistas.

Porque só fama não alça ninguém ao posto de gerente competente.

Porque a economia de um gigante precisa de um timoneiro que saiba navegar também em mares revoltos.

Porque Cuba e Venezuela têm muito de ditadura e pouco de liberdade.

Porque a contrariedade ao governo também está nas periferias e nos rincões do país.

Porque pedir mudança não significa vestir o traje da elite golpista, tampouco farda e bolsonarices alegóricas.

Porque existe corneta vigorosa —e livre— muito além da CUT e dos movimentos sociais.

Porque a vaca tossiu.

Em tempo: convicto estou dos propósitos da passeata como convicto estou da baixeza de protestar com linguajar de rasteiro calão e com desejos estúpidos de sangramento.

sábado, 7 de março de 2015

Walther

“Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas. E os momirratos davam grilvos.”

Tradução de Jabberwacky de Lewis Carroll, por Augusto de Campos

Melódico, complexo, hermético, sonoro. São eles, o poema e o Walther.

Walther

Segundo post consecutivo, por Deus!, para lamentar a morte de um querido. Os Castelli, Walther e Nando, irmãos de sangue, se foram em menos de duas semanas. Chorei pelo Nando dias atrás e, ainda dilacerado, republico linhas de boas-vindas ao Walther, quando ele palestrou, em novembro de 2012, na Academia de Letras de São João da Boa Vista. Assim o recebi naquele sábado chuvoso.

""Noite festiva nesta fecunda Casa de Letras.

Uma efeméride em que tenho a agradável incumbência de apresentar e dar as boas-vindas ao palestrante Walther Castelli Júnior.

Agradável porque o Walther, além de sanjoanense, literato maior, orgulho da terrinha, é amigo desde sempre.

Desde a vizinhança na residencial Tereziano Vallim dos anos 1970, depois em Campinas, onde na minha adolescência era eu generosamente acolhido na sua república. República essa culturalmente bem movimentada, multifacetada, efervescente e, por isso, frequentada por pessoas bem estranhas aos olhos de um jovem provinciano.
Junto com o Nando, irmão caçula do Walther e meu camarada do peito, passei finais de semana inesquecíveis bebendo o caldo de novidades daquela casa agitada na Guanabara campineira.

Naquela época, confesso, eu bebia muito também, além das novidades, caldos mais etílicos.

E o generoso que eu digo é muito mais do que a simples hospedagem: Walther me apresentou a um mundo muito além das macaúbas. Através dele conheci, entre tantas coisas, o cinema de Godard, a música de Caetano, a poesia concreta, o porre de vomitar e a gastronomia japonesa.

O primeiro wasabi —aquele condimento extra-forte da cozinha nipônica que os incautos lambuzam no sashimi como se fosse patê— a gente nunca esquece.

Uma passagem da casa que gosto de rememorar. Tarde de sábado e o Walther chega trazendo uma fita K7. Ele pede a atenção dos presentes e dá um play no toca-fitas do três em um. O som era chatíssimo, incompreensível. Ante a cara de enfado de todos, ele mete o dedo no stop e explica aos entediados: “é poesia medieval!”

Sanjoanisticamente, não resisti e cochichei pro Nando: “Poesia medieval!? Puta que pariu!, seu irmão é inteligente por bosta!”

Dez anos mais novo que a geração do Walther, o macaúbico aqui, moleque intruso, não era muito ouvido pelos intelectuais amigos dele. Eu é que ouvia e aprendia muito.
Ultimamente nossos encontros têm sido no refúgio da sua família, aqui nos arredores de Sanja. Sob as bênçãos do mato platino-pratense, o Walther vai pro fogão a lenha reger memoráveis esbórnias de comida, bebida e prosa. E é claro que nessa prosa reinam reminiscências deste torrão da Beloca.

Filho da Therezinha Araújo, que os chegados conhecem como Tuta, e do saudoso Walther Castelli, Júnior, como a família o chama, nasceu em setembro de 1960.
Sedento por aumentar seus horizontes na estética da escrita, decolou de Sanja muito jovem.

Cursou Letras Clássicas e Vernáculas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a conceituada Fefeleche da USP; licenciou-se em Letras no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, onde desenvolveu dissertação de mestrado em Teoria e História Literária, estudando a obra de Dante Milano, sob orientação do Professor Dr. Paulo Franchetti.

De 1979 a 1996, atuou como professor de Língua e Literatura em instituições particulares de ensino médio e em cursos pré-vestibulares. E aqui cabe um parêntesis: em Itapetininga, na sala de aula de um cursinho, o professor Walther foi fisgado pela aluna Marinês. Casarem-se em 1995 e têm dois filhos, Mariana e Pedro. Fecha parêntesis.

Concluiu cursos de gestão de projetos editoriais ministrados no Brasil pelo Centro de Formación Publish, de Madri, e pela Bookhouse Training Center, de Londres.
Atuou de 1995 a 2012 como diretor editorial da Editora Companhia da Escola, de Campinas, que veio a se chamar posteriormente Integral Sistema de Ensino Ltda., onde desenvolveu também o trabalho de autoria de livros didáticos de Língua e Literatura Brasileira e Portuguesa.

É tradutor e comentarista, pela Verus Editora, de Campinas, da obra do educador americano John Holt, tendo traduzido os livros Aprendendo o tempo todo (Learning all the time), em 2006, e Como as crianças aprendem (How Children Learn) em 2009.

Bem sucedido nos negócios, Walther quer voltar a ter mais prazer no trabalho. Quer e vai ter. Aos 52 anos ele está voltando a fazer o que mais gosta: ler, escrever, lecionar, palestrar...

E nessa noite, creio eu, aqui em São João, na Academia de Letras, há um simbolismo de reencontro muito grande. O recomeço do Walther nas Letras é aqui, palestrando no pé da Mantiqueira, revendo amigos, família e trazendo um naco da poesia de Dante Milano aos presentes.

Zezinho Só, artista e arteiro, não economiza adjetivos ao falar do amigo: “Walther é o sanjoanense mais culto de todos os tempos”.""

Eu concordo e acrescento: culto, pai, marido, irmão, filho, amigo, genro, tio, poeta e generoso. Um ídolo. Uma referência. Do bem e do caralho! Warti, você partiu antes do combinado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Nando

Nando

Devastado! Uma tristeza agreste que seca até as lágrimas. Não consigo chorar, Goiaba.

Porrada da vida que é perder um amigo. Pancada forte, dor de não ter sido um amigo presente nos últimos meses. Meses difíceis pra você, Nando, irmão, que lutou contra traiçoeiros descaminhos do corpo e da mente.

Eu aqui insone e cheio de culpa, teimoso na Tereziano onde nos conhecemos lá nos longínquos anos 1970. Do olho-mágico da minha porta enxergo o outro lado da calçada, a casa 236. A casa onde você nasceu, na alameda onde nasceu nossa amizade de 40 e tantos anos.

Amizade de futebol de rua, do time do Pedrinho, de jogo de botão, de polícia & ladrão, de noitadas adolescentes em Campinas, de jornadas épicas no Morumbi, torcendo na arquibancada ao vivo para o Tricolor mais querido do mundo. Amizade de assistir aos jogos do São Paulo no sofá acolhedor da vó Nina.

Nando, meu padrinho de casamento, me levou à igreja do Perpétuo na Brasília da Tuta. Me honrou com sua presença e sua benção no altar.

Casamento seu em Minas. Eu estava lá. Exílio no Nordeste que você tanto amou. Eu passei por lá.

Mais recentemente sua paixão e talento pela cozinha me transformaram num aproveitador e fã dos seus dotes gastronômicos. Noites de panelanças em Águas da Prata. Eu me empanturrei por lá.

Nada de bom das nossas vidas vai sumir do meu baú de coisas boas. Nenhuma lembrança boa vai atenuar meu remorso por ter sido um amigo tão relapso no momento em que você mais precisava de um ombro. Talvez só de palavras. Talvez só de uma humana presença para aquecer de afeto suas noites frias na Fonte Platina.

Eu, miseravelmente, falhei.

Falamos pela última vez no seu aniversário, era abril de 2014. Seu lamento martela na minha cabeça desde então: “Pô, Laurão, achei que morando aqui a gente ia ser ver mais”.

Goiaba, você foi um cara intenso. Nas esbórnias, nas arquibancadas, nas brigas, nos casamentos, nas amizades, na imensa devoção paternal que você derramou na Ariela e na Heloísa. E, claro, no Gui enquanto você pôde.

Tive o privilégio de ser amado por você. Um generoso amigo. Tive o privilégio de conviver com você em épocas e momentos especiais das nossas vidas. E, também, em momentos simples, comuns, banais, demasiadamente humanos.

Descanse na eternidade, velho parça. Descanse num plano onde convenções sociais importem menos, muito menos, do que a vocação para ser feliz com o essencial. Só com o essencial. Livre de paulistices rígidas e cheio de nordestinices líricas.

Velho, caralho!, que dor!, uma hora, em algum alugar a gente se reencontra. Eu te amo muito e vou lá nos jardins d’Ele tentar me redimir e pedir o seu perdão. Quem sabe no Projac celestial a gente possa reconstruir a Tereziano de 1972.

[Vieram as lágrimas! Muitas!]

Nando, um beijo na Nina, no seu pai, na Donana e no Leco. A mesa aí nas alturas vai estar celebrando sua chegada. E, não se iluda, você cozinha bem pra cacete, mas a Nina vai fazer aquele frango com polenta e não vai te deixar se aproximar do fogão. Chegue quietinho e faça a farofa. Ela deixa.

Chegue quietinho, Nandão. Fique na paz e olhe por nós nesse mundo cada vez mais inóspito, cada vez mais sem Nando.

“Impitimam”

lula dilma

A moça, ardida, chega na rede social toda voluntariosa. Incapaz de argumentar com mais de quinze palavras, ele desce o tacape do insulto em quem lhe contraria.

"Desonesto, ignorante em História, parvo em política, arrebanhador de incautos, escritor de asneiras e incapaz de interpretar um texto". O lombo arde e minha gaveta de adjetivos vai enchendo.

Assumo minha idiotice patológica, mas aponto que já fui alvejado com acusações mais criativas. E falando em imbecilidades, vou justificar meu “golpismo” incurável.

O impeachment é da regra do jogo democrático. Assim como uma eleição, é um julgamento político. Só que este último é decidido pelo Parlamento.

E lembrando 1992, Collor de Mello foi "impichado" pelo Parlamento com amplo apoio das ruas. Digo mais: o Parlamento decidiu pressionado pelas ruas.

Na oposição de antanho, sem o confortável abrigo do Estado de hoje, o lulopetismo lutava com as armas que tinha, quais sejam: movimentos sociais, sindicatos e imprensa. Mídia cujos jornalistas eram fartamente abastecidos por fontes do partido. Mesmo a revista Veja, antipetista no DNA, fazia suas capas com várias denúncias oriundas do PT. Contra o governo Collor, Veja e o PT atiravam num alvo comum.

Também o Congresso e as esquinas, eram legitimamente insuflados pelas cornetas potentes do PT. Dias de estilingue, dias de vidraça...

Para os estilingues, a imprensa é combativa, para as vidraças, ela é golpista, para a democracia, ela é necessária.

No momento atual, a popularidade baixíssima do governo Dilma decorre da sucessão de escândalos de corrupção na maior empresa brasileira. Existem fundamentos políticos e jurídicos mais do que relevantes para o pedido de impedimento da Presidente, mas que, como dito acima, essa intenção só pode prosperar se o indicado nas pesquisas se refletir também nas ruas do país.

A oposição e setores diversos da sociedade civil questionam, LEGITIMAMENTE, sobre a capacidade de Dilma Rousseff exercer a Presidência da República.

Queremos um Executivo que administre ou que esteja despejando sua energia em estratégias para se defender das cataratas de denúncias?

Este acirramento do debate, o calor, é bom para a democracia. Faz a gente pensar, ver as coisas por outros ângulos. E mesmo exageros que focam mais as pessoas e menos o país são inevitáveis efeitos colaterais nas contendas de opiniões.

Seria estimulante, e até divertido, embarcar numa guerrinha de palavras contra quem me adjetiva, mas acho perda de tempo e perda de foco nos assuntos que realmente interessam à nação.

Em tempo: a barulhentinha black bloc mencionada no primeiro parágrafo bateu e incendiou. Xingou que deu gosto. Caos instalado, ela faz um ar blasé, carimba um “fraquinho” no conteúdo do debate, recolhe seus petardos e vai causar em outra freguesia.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Zé, o imortal

Discurso de saudação ao amigo José Ricardo Bittencourt Noronha, empossado na Academia de Letras de São João da Boa Vista na noite de 31 de janeiro de 2015

academia2

Confreira Presidente, confrade José Ricardo Bittencourt Noronha, colegas de Diretoria, demais confrades e confreiras, autoridades presentes, convidados, familiares e amigos do empossado. Boa noite a todos!

Definitivamente, o personagem destas linhas é um cara que veio ao mundo para ser protagonista.

Zé, começo minha fala com uma curiosa revelação: a Diretoria desta Casa de Letras, hoje reempossada para mais um biênio à frente da instituição, quando do processo sucessório que o elegeu, respeitou o Estatuto e, por imperativos de lisura e transparência, cancelou a primeira votação. Embora cancelada, você já tinha o número de votos suficientes para a vaga. Então, meu caro, até nisso você é especial, pois hoje toma posse como o único acadêmico eleito e reeleito da História desta Arcádia.

Março de 1972, no dia 19 o casal Lalo e Beth Noronha celebra o nascimento do segundo filho, batizado como José Ricardo. Nome composto que a vida se encarregou de simplificar entre os queridos: Ricardo, JR ou simplesmente o brasileiríssimo Zé.

O pai, são-paulino fanático, de frequentar os bastidores do Morumbi, legou ao Zé a paixão pelo Tricolor paulista. A trilha nômade de vendedor —seu Lalo foi um conhecido e bem sucedido corretor de fazendas e equinos— e as temporadas constantes na fervilhante capital paulista sempre fascinaram o menino, que também admirava no genitor sua inabalável retidão de caráter.

Esta devoção de seu Lalo ao São Paulo Futebol Clube pode ser espirituosamente contada num episódio: Toquinho, genial cantor e compositor, além de corintiano notório, se arvorou a comentar jogos numa emissora de TV. Dando pitacos numa peleja do São Paulo, era perceptível seu olhar negativo, muito crítico ao time. Em dado momento, seu Lalo Noronha extrapolou na sua passionalidade e fez voar do sexto andar todos os LPs do Toquinho que havia na sua discoteca. Reza a lenda que as vizinhas, irmãs carmelitas, até hoje creditam aos céus a chuva de bolachões pretos.

A mãe, educadora, mulher de fibra, por conta das viagens profissionais do marido, se desdobrava entre o trabalho, a atenção aos filhos e a administração das casas. O conveniente apartamento na Dona Gertrudes e a acolhedora Chácara Santa Cristina foram os tetos da família naquele período. Mais tarde, o edifício Itaparica na rua Franklin Roosevelt, aquele dos LPs voadores, passou a ser a morada dos Bittencourt Noronha.

Zé, poucos anos mais velho, na infância, você bem sabe, eu era mais amigo do seu irmão Sérgio. O que você não sabe, e eu confesso aqui, é que a lembrança sua mais marcante que tenho de então, não é, digamos, uma lembrança de virtudes. Ao contrário, me lembro dos seus diminutos dotes com a bola nos pés. Quando iniciei estas linhas dizendo da sua vocação pra ser protagonista, você há de concordar comigo: excluo o futebol.

Dona Beth diz que o filho Zé Ricardo, centrado e comportado, não era dado a travessuras e indisciplinas. Quando as cometia, era por influência de traquinas mais espoletados; o irmão mais velho, Sérgio, certa vez o levou, sem o conhecimento dos pais, a Campinas. A carraspana do seu Lalo à viagem veio com uma mão pesada, não nos meninos, mas nos skates que foram comprados na rápida fuga e que viraram sucata.

Endiabrados colegas do Colégio Orion, no ápice da adolescência naturalmente transgressora, convenceram o Zé a embarcar em outra estripulia. Insatisfeitos com as velhas carteiras da escola, a turma decidiu dar um, digamos, incentivo à troca da mobília: jogaram-nas, todas, no Córrego São João.

Pra encerrar o rol de molecagens. A ansiedade pelo volante é certa nos púberes. E se o pai deste jovem tem, no começo da década de 1990, um Santana vermelho, a ansiedade vai pra estratosfera. Na época, a frente do Recreativo era a ferveção para impressionar as meninas. Zé, às escondidas, pega o lendário carro do pai e toma o rumo da rua Teófilo de Andrade. Ali, reinando no controle do bólido envenenado, ele, interrogação e exclamação, inventa de arrumar a meia e se distrai. Resultado: nenhum amasso nas meninas e pequenos amassados em, atenção!, três carros.

Da infância e adolescência aqui na nossa crepuscular São João da Boa Vista, levou amizades genuínas que ele cultiva até hoje. Levou também uma robusta educação básica dos bancos do Externato Santo Agostinho e do tradicional Grupo Escolar Joaquim José, quando este ainda era notável por um ensino público de excelência. No Colégio Orion, aquele das carteiras submersas no córrego, levou a bagagem do ensino médio.

E levou também técnicas e prazeres da boa e velha arte de redigir. Dona Vilma Nasser, amiga da família e dedicada mestra, apurou nele, em aulas privadas, o manejo do verbo.

E levou pra onde? Para São Paulo, para o Brasil, para o mundo...

Sempre valorizou este solo macaúbico como um referencial de raízes e memórias afetivas, mas enxergou desde cedo que as oportunidades de ganhar a vida estavam na metrópole. De Sanja pra Sampa.

Na Pauliceia graduou-se em Direito pela PUC. Fez também MBA Executivo Internacional pela FIA/USP, além de uma enormidade de módulos internacionais e especializações na França, Inglaterra e Estados Unidos. A academia era importante, mas botar a mão na massa urgia para o jovem sanjoanense.

Uma época de planos e dificuldades. Empregos incertos que não emplacavam. Patrões que enveredavam para a ilegalidade. O batismo na grande cidade também embriaga os jovens. Deslumbramento e pouco controle nas finanças pessoais também passaram pela vida dele.

O inglês fluente foi conquistado em breves exílios anglo-saxônicos. O primeiro em Swanage, uma cidade litorânea do sudeste da Inglaterra, onde Zé Ricardo, na lida pesada com o gado, lapidou o idioma numa propriedade rural. O segundo intercâmbio foi em Madison, no estado norte-americano de Wisconsin.

Na volta, fisgou na Grande São João das origens o coração da pratense Evelise Moreti. O casamento em 1999 juntou eternamente as escovas de dente. E também brecou os ímpetos perdulários e desregrados do caipira entre os arranha-céus.

Primeira metade dos anos 2000, junto a um pequeno time de cinco pessoas, participou do inicio das operações da English Town no Brasil. Era a chegada pioneira do conceito de Inglês Online ao país.

Dedicado na labuta, estudioso, disciplinado e dono de um raro senso de marketing pessoal, recebeu em 2004 o convite para ser vendedor na Global English. Conquistou, com o passar dos anos, o posto de Diretor Geral no Brasil, multiplicando por sessenta o faturamento da subsidiária brasileira e colocando-a como a maior unidade da empresa no mundo, com mais de 23 mil alunos. Em razão de prêmios —foi laureado várias vezes como o melhor homem de vendas da corporação—, seminários e treinamentos, conheceu o planeta em dezenas e dezenas de eventos.

Há cerca de três anos, o maior conglomerado de educação mundial, o selo Pearson, comprou a Global English. Almejando um crescimento ainda maior, os novos controladores continuaram depositando no Zé absoluta confiança nas suas competências de líder e vendedor. O caminho natural para ele seria o mais alto cargo de gestão do grupo na América Latina.

Seria, mas não foi. Zé agradeceu, mas declinou o convite. Zé abriu mão de ganhos nada desprezíveis, de uma carreira consolidada e de uma promoção iminente. Pediu o desligamento da companhia para realizar um sonho.

O sonho de ser um palestrante profissional. O sonho de disseminar experiências de vida e de uma trajetória de sucesso para desenvolver nas organizações forças de vendas e formar dirigentes-líderes.

Obstinado e organizado, escreveu livros —Vendedores Vencedores foi o primeiro—, criou um site e perfis nas redes sociais, sacou sua network formada em mais de uma década e foi a campo oferecer sua envolvente oratória.

Foi, falou, vendeu, palestrou e venceu.

Sua já vitoriosa labuta de conferencista angariou como clientes, entre outros, Alphaville, Banco do Brasil, Bradesco, Brasil Foods, Caixa, Gafisa, Natura, Perdigão, PizzaHut, Sadia, Starbucks, CouroModa, Elinox, Marfrig, Oracle, Volkswagen, Herman Miller, Unimed, ufa!, e por aí vai.

Os alunos dos prestigiados MBAs Internacionais da FIA também bebem ao vivo a retórica rica do Zé. Ele leciona lá.

Cosmopolita e bem sucedido, leva a esposa para uma lua de mel anual na Grande Maçã. Pai da Maria Eugênia e da Ana Cecília, suas inesgotáveis fontes de inspiração, ele mora muito bem com a família num condomínio na Grande São Paulo.

Se o mote é família e viagens, não resisto em relatar uma inusitada passagem do seu último périplo de férias.

No embarque em Guarulhos com destino aos parques de Walt Disney, Zé Ricardo estava respondendo àqueles questionamentos de praxe no balcão de embarque: quem fez sua mala? Você está levando alguma encomenda que desconheça o conteúdo? Alguma arma? Líquido na bagagem de mão? Numa das respostas, inocente, a filha Ana Cecília entrega: “Tem sim, papai”. Incrédulo, papai retruca: “O que é isso, filha, o que você está falando?”. E aí? Aí o mal entendido estava carimbado no passaporte dele. Em todos os check-ins e check-outs da viagem, ele, Zé, foi, abre aspas, aleatoriamente, fecha aspas, eleito para minuciosos pente-finos na bagagem e documentação. Pode ser lenda, mas não é improvável: até o Mickey Mouse era um agente do FBI monitorando seus passeios. Um périplo divertido, sem dúvida, um périplo em que o macaúbico da Beloca carregou na mala a suspeita de ser terrorista. E por que Ana Cecília disse o “sim” da confusão? Ela não inventou. Havia, sim, líquido na bagagem de mão: água. Água Prata.

Orgulhoso da caipirice do torrão natal, quando aterrissa em Sanja, não dispensa uma cerveja com petiscos de boteco, proseando solto junto aos amigos de décadas que tanto preza.

E por falar em amigos, ouçam o testemunho que segue, que não tive coragem de sintetizar, tampouco editar. Abre aspas:

“Sou amigo do Zé desde a quarta série e desde então passamos praticamente todas ou quase todas aventuras juntos. Houve a fase das coisas erradas como roubar o carro do meu pai para irmos as festas de final de semana ou até mais moços ainda quebrando a cara com as meninas que paquerávamos na avenida em São João. Enfrentamos juntos os momentos de loucura em São Paulo com o deslumbramento e gastos desnecessários com o primeiro emprego do Zé, até seu amadurecimento passando por pesadas lições que a vida sem piedade mostra, talvez uma forma para mostrar o caminho certo e passarmos para uma nova fase. Lembro do Zé desesperado tomando tombo seguido de tombo e parecia que não acabaria mais! Nunca me preocupei, pois tinha certeza que o Zé era especial, diferente. Na pele dele naquela época ninguém gostaria de estar, mas eu tinha plena certeza que ele se reergueria pois o nanico do Zé é gigante para falar, memorizar pessoas como nunca vi na vida e sempre muito trabalhador. Defeitos tem um monte, acredito que não caberia nesta página ou mais cem iguais a esta. Só que estes defeitos que me fizeram ser tão leal a ele, pois sem eles acredito que ele não teria as qualidades que tem. Sou apaixonado pelo Zé, perde em todos os esportes para mim e isso me faz lembrar ainda mais dele, principalmente quando preciso treinar alguma coisa. Ficaria uma vida para escrever sobre o Zé, para falar a verdade não vejo a minha vida sem o Zé, sempre presente, padrinho da minha filha, pode acontecer qualquer coisa comigo que sei que ele vai estar lá, presente de corpo e alma! Não consigo entender o amor dele por mim, não sei se mereço, às vezes, mas agradeço muito por ele fazer parte da minha vida. Acho que resumindo é isso, não sei se ajuda, mas fica o meu registro deste nanico.” Fecha aspas. Marcellus Camarinha.

Arremato com um autoplágio. Fui um dos honrados a prefaciar o primeiro livro do Zé. No meio de tantos cobrões do mundo empresarial, assim lavrei:

“Bairrista incorrigível, sou destes que se orgulham dos amigos que saem da província e vencem na metrópole. José Ricardo Noronha é um vencedor. Vencedor porque é um profissional de referência na área de vendas. Vencedor porque é um pai de família exemplar. Vencedor porque valoriza suas raízes. Vencedor porque não esconde suas emoções. Lê-lo e ouvi-lo é essencial pra quem quer vender e vencer”.

Pois é, amigo de sempre e agora confrade, que baita história de vida e magnífico currículo. Acho que, com o perdão do clichê, faltava a cereja neste bolo de incríveis recheios. Ou melhor, faltava a macaúba, que vem logo mais na forma de um medalhão.

Seu Lalo, bebericando seu uísque nos jardins celestiais, não cabe em si de contentamento pelo rebento. Cá às margens do Jaguari e da ferrovia Mogiana, para orgulho da mãe, dona Beth, da esposa Evelise, das filhas Maria Eugênia e Ana Cecília, dos irmãos Sérgio e Paulinho, de demais familiares e amigos, a Academia de Letras de São João da Boa Vista dá boas-vindas a seu novo membro, José Ricardo Bittencourt Noronha. Bem-vindo, Zé.

Do amigo, Lauro Augusto Bittencourt Borges,

São João da Boa Vista, 31 de janeiro de 2015

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Objetivos para 2015

ano-2015
Beba muita água. 
Cerveja e refrigerante têm muita água, não se esqueça. 

Coma mais o que vem de árvores e plantas.
O boi come capim, logo, você comendo carne de boi está comendo capim.

Viva com os 3 E's: Energia, Entusiasmo e Empatia.
Mas não se esqueça dos 3 C’s: Churrasco, Cerveja e Chocolate.

Faça atividades que ativem seu cérebro.
Pense muito em atividade física, mas, se der vontade de exercitar-se, pare, pense, respire, conte até 10 e espere a vontade passar.

Leia mais livros em 2015.
Paulo Coelho não conta.

Sente-se em silêncio, pelo menos, 10 minutos por dia.
Na frente da TV, se esborrache no sofá. Assista aos programas que quiser, em silêncio, sem falar nada. A TV pode falar, você não.

Durma 8h por dia.
E pode dormir mais 8h por noite.

Faça caminhadas de 20 a 60 minutos por dia e, enquanto caminhar, sorria.
Prefira as de 20 minutos pra não se cansar muito e para sorrir carregue no iPod um show do Ary Toledo e outro do Juca Chaves.

Não compare a sua vida com a dos outros.
A galinha do vizinho vai ser sempre mais gorda e a mulher dele vai ser sempre mais magra. 

Não tenha pensamentos negativos.
Salvo pra amaldiçoar aquele cunhado que bebe sua cerveja e vive lhe pedindo dinheiro emprestado.

Não se exceda.
Exceto naquilo que valha muito a pena, ou seja, comida, bebida, mulheres.

Não se torne demasiadamente sério.
Mas também não seja um paspalho risonho. Gargalhadas em velórios e ouvindo histórias de tragédias alheias podem causar constrangimentos.

Inveja é uma perda de tempo. Agradeça a Deus pelo que possui.
Se possuir um carro velho, dívidas e doenças você fica dispensado de agradecer. 

Esqueça questões do passado. Jesus já jogou no mar do esquecimento, faça o mesmo.
Mas nunca se esqueça daquele colega de faculdade que roubou sua namorada tampouco daquela ex-mulher que espalhou sobre seu pífio desempenho na cama. 

Ninguém comanda a sua felicidade a não ser você.
Às vezes um bom pizzaiolo pode comandá-la.

A vida é uma escola e você está nela para aprender. Não fique repetindo o ano.
Exceto aquele ano em que você está saindo com a loira boazuda irmã do seu melhor amigo.

Entre mais em contato com sua família.
Cunhado e sogra não fazem parte da sua família.

Perdoe a todos por tudo.
Tá de brincadeira, né?

Não se importe com o que os outros pensam de você.
Se estão pensando que sua mulher manda em você, provavelmente eles têm razão.

O seu trabalho não tomará conta de você quando estiver doente. Não se estresse.
O seu chefe é um bom samaritano e vai perdoar todas as suas faltas. Papai Noel também.

Faça o que é correto.
Salvo se o incorreto fizer você pagar menos imposto de renda.

Por melhor ou pior que a situação seja, ela mudará, tudo passa.
Não, nem tudo, aquela adolescente apaixonada e cheia de viço não vai entrar novamente no corpo da sua mulher. 

Quando acordar de manhã, agradeça a Deus pela graça de estar vivo.
Se for muito cedo, agradeça e volte a dormir.

Mantenha seu coração sempre feliz.
Ao contrário do que dizem por aí, pode acreditar, torresmo e bacon alegram o seu coração.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Selfie stick

pau de selfie

O Robert de Niro ainda usa aquelas jurássicas máquinas fotográficas com filme. Não, ele não, quem a utiliza é o personagem Frank Goode, que de Niro, pra variar, magistralmente representa em “Estão Todos Bem”, uma belíssima película —em tempos digitais ainda posso falar “película”?— lançada em 2009. Divaguei rapidamente sobre foto-antiguidades para vaguear acerca de uma foto-bugiganga que tem dado o que falar. Vagueio abaixo, pois.

Entendidos de tudo e todos —grupo do qual me excluo— profetizaram: 2015 vai ser o ano do pau-de-selfie. Até a revista Time referendou o estrelato da geringonça pelos próximos 12 meses.

E, se tem alguém que ainda não sabe, o parvo escriba tenta explicar: pau-de-selfie é um bastonete de comprimento regulável que tem numa extremidade um suporte para encaixe de câmeras ou celulares. Serve o cacareco para propiciar enquadramentos aumentados em auto-retratos —as selfies.

Nosso tosco nacionalismo engoliu “selfie”, mas, sei lá o porquê, recusou “stick”. Botaram o “pau” no lugar e criaram este monstrengo vocabular.

E a feiúra extrapola a gramática. O objeto em si é horroroso. Vá lá que a coisa seja útil nestes tempos foto-narcisísticos de Facebook, Instagram, WhatsApp e afins, mas tanto a estética como o seu uso em público são de doer.

Hordas de turistas que não passam cinco minutos sem uma selfie, agora serão tomados por uma fúria de incivilidade espichando a vareta em narizes desavisados. Um vale tudo descortês pelo melhor auto-registro.

No que se refere a costumes, parece que a humanidade não consegue brecar a queda para buracos de disformidades, desrespeito e egoísmo cada vez mais fundos.

Num mundo com tantas carências, seria de se esperar anos vindouros com invenções mais, digamos, proveitosas. Como também seria de se esperar que o blogueiro ocupasse este espaço com escritos mais, digamos, proveitosos.

Em tempo 1: passado algum tempo, não muito, o pau-de-selfie vai ser lembrado como aqueles modismos que nos envergonham.

Em tempo 2: passado algum tempo, não muito, o escrevinhador vai se lembrar desta crônica como uma das muitas que o envergonham.

Em tempo 3: alguém já viu o Robert de Niro num filme ruim?

Clamores

prece

Confesso, ajoelho e rezo: sou um boçal. Ignoro a cultura popular do meu país. Minha sensibilidade auditiva está a um triz da nulidade.

Onde eu estava em 2014 pra não ouvir sequer uma vez a música mais executada do ano em terras tapuias? A melosa que estourou é “Domingo de Manhã”, da dupla —sertaneja?— Marcos & Belutti.

Na curiosa canção, o cara poderia estar velejando no Caribe ou num módulo lunar —juro!, num módulo lunar—, ou, ainda, num hotel mil estrelas em Dubai. Mas, paixão ao quadrado, ele prefere perturbar as domingueiras matinais da amada para ser, ao telefone, acarinhado pela voz de sono dela.

Ele aporrinha, gruda, mas se desculpa: “Foi mau se te acordei”. Sim, cara, foi mau. Pior ainda é rimar inverno com tédio e Caribe com livre. Mas muito, muito pior, é o abestado que duvida e corre pra assistir.

Confesso de novo: eu li e duvidei. Fui ao YouTube pra conferir e engordei as estatísticas de acesso. O clipe tem espantosas 54 milhões de visualizações.

Se o autor destas linhas tem algum crédito, rogo: não duvidem nem caiam em tentações. Só ajoelhem e rezem, rezem muuuuuito!

AquaPedro

E continuo descobrindo motivos prementes para pedir preces.

O espirituoso e religioso Ministro da Luz da dona Dilma, o amazônico Eduardo Braga, deu de ombros ao apagão da semana e clamou aos céus: “Deus é brasileiro e o chuveiro de ninguém vai esfriar”. Sem acesso ao passaporte do Criador, vou fazer força para crer na afirmação ministerial.

Nada de hidrelétricas ou termoelétricas. Pela declaração, o Brasil vai ser pioneiro num novo modelo de usina: a DivinoElétrica.

No plano estadual, vira e mexe São Pedro é responsabilizado pela seca —ou crise hídrica, no tucanês— que aflige os paulistas.

Com tanta divindade invocada nas duas esferas de governo, oremos irmãos!

Ainda o Charlie, ainda a França

torre eiffel

Até agora não tive forças para abandonar a discussão. Então, segue o andor...

Na subjetividade das sátiras, charges, quem é o dono da razão? O retratista ou o retratado? Nenhum. Ou os dois, cada um é dono da sua razão. E no Estado Democrático de Direito, em nações civilizadas, estas "razões" não podem e não devem descambar para o terror. Contra-argumente na mesma moeda, via charges, crônicas, recorra até ao Judiciário, se necessário for. E o bom senso? O limite? Também subjetivo demais. O que é inofensivo pra uns pode não ser pra outros. E aí? E aí dá-lhe retórica contundente, boicotes, gritos, esperneios, Justiça, o diabo. Rasgue jornais, queime-os. Só não pode atentar contra a integridade física. Só não pode queimar e rasgar ninguém.

Sobre muitas charges publicadas no Charlie Hebdo: não faria, não gosto e não as acho engraçadas. Mas também não acho que charge tem que ser obrigatoriamente engraçada. Ela pode ter, também, crítica, sarcasmo, ironia, acidez, ternura. Ela pode ser controversa, agressiva, provocante, incômoda. E engraçada.

Por que podemos polemizar com paixões políticas e esportivas, por exemplo, e não com paixões religiosas? Por que podemos debochar de palmeirenses e corintianos e não de muçulmanos e católicos? Por que podemos desdenhar de petistas e tucanos e não de judeus e protestantes?

Não compactuo com a assertiva de que, vá lá, agressões satíricas podem colocar em risco a vida de pessoas inocentes. Não concebo a ideia de que, numa sociedade civilizada, o humor, inconsequente que seja, exponha vidas a sérios riscos. Se é assim, e eu acho que para alguns é mesmo assim, a banda dos que pelejam com papel e tinta não pode sucumbir àqueles insanos que provocam sangue e morte com a violência das armas de fogo. A barbárie não está nos cartuns, ela está em quem descarrega fuzis em cartunistas.

E é sempre bom relembrar o caso Salman Rushdie, o escritor britânico de origem indiana, autor d'Os Versos Satânicos, que recebeu uma fatwa —sentença de morte— do desmiolado Aiatolá Khomenini. Até hoje, desde 1989, Rushdie vive na clandestinidade, sob proteção policial, para não ser assassinado pelos extremistas islâmicos. Enclausurado e sempre escoltado, ele jamais capitulou ante as ameaças. Ele jamais permitiu que o fanatismo de alguns podasse sua liberdade de expressão.

Por valores pessoais intransigíveis, por Salman Rushdie, pelos mortos do Charlie Hebdo: Je suis Charlie, je veux la respect, je veux la liberté.

Ainda a França

Nestes dias em que o mundo, mais do que nunca, está reverenciando os valores franceses, eu também estou. Já cantei por aí a minha solidariedade aos mortos no massacre do Charlie Hebdo.

Agora, mais mundano, voltei à querida Pinhal City para buscar sabores franceses. Nenhuma decepção e muita empolgação com os crepes do Mundo dos Sabores. As caps da casa, Cris e Najara, trouxeram da Europa, onde moraram por anos, receitas corretíssimas e deliciosas do tradicional acepipe francês. A casa, aconchegante, muito bem montada, oferece uma carta de crepes com recheios de respeito. No paladar, na apresentação e na generosidade.

Este glutão, arremedo de colunista que vos fala, extasiado, comeu e recomenda o de camarão com catupiry —Champs-Élysées no menu— e o de banana e morango com Nutella, acompanhado por creme chantilly e sorvete de baunilha. #JeSuisComedorDeCrepe

sábado, 20 de dezembro de 2014

#PaiFresco

ivan prado

#1

3,3kg. Nasceu.

#2

Finalmente voltamos pra casa —odeio hospitais, mesmo sendo pela causa nobre que foi. Vítor perdeu 10% de peso, mas ganhou 15% em potência de choro. Patroa acabada, coitada. Passou a noite em claro e os pontos da cesárea estão ardendo um pouquinho. Ela consegue tirar cochilos de, no máximo, meia hora entre uma mamada e outra do pequeno vampirinho. Juro que na hora que estava tomando banho ouvi ela murmurando algo como "brains... brains...”

Bono —meu lhasa apso macho— está com ciúmes, se sentindo relegado ao último plano, como eu. Entendo seu drama, fio, mas não esquenta, quando o Vítor crescer vamos nos aliar, os três, para combater estas fêmeas egoístas! Agora, putz!, mesmo sabendo que se trata do meu filho, como choro de bebê recém-nascido é irritante! Preciso bater em algum petralha para relaxar. Luiz Angelo ou Breno, por gentileza, deem a cara aos tapas. Grato.

#3

O pânico se transformou em resignação. Dormir não é mais uma opção. Agora, os ciúmes tomaram conta dos meus três cachorros, não só do macho. Finalmente, uma foto recente que tirei de minha esposa e minha sogra. Acho que há algo errado, mas pode ser só impressão. De qualquer maneira, vou trancar todos os outros seres vivos de casa no quarto durante esta noite.

clip_image002

#4

Não confundir "colostro" com "mecônio". Estão em extremidades opostas do mesmo bebê.

#5

GASES! Caraca, esse moleque é podre, vai vendo.

#6

Tivemos de desentupir o Vítor na base da nitroglicerina —mentira, foi só glicerina mesmo. O primeiro supositório a gente nunca esquece! O seu sistema de "drenagem" voltou a funcionar satisfatoriamente. Uma paz parcial reinou nesta casa. Todos conseguiram dormir um pouquinho, até os cachorros.

#7

Acabou a licença-paternidade! Mas, no fim das contas, graças à ajuda inestimável da super-master-blaster-linda-maravilhosa-diva-poderosa-vitaminada-salve-salve, Dona Sogra Ivani, não cheguei destruído. Hoje foi o dia do famigerado teste do pezinho ampliado no Vítor. Detalhe: o sangue é colhido do braço. Que p... é essa?! Em aproximadamente um mês saberei se ele é mutante ou não.

#8

Hoje acordei chocando gripe, com tosse e mal-estar. Será alguma somatização da carência e ciúmes que estou sentindo pelo fato de minha mulher ter me trocado por um cara 45 anos mais jovem do que eu?

Em tempo: Ivan Bonora Prado, o mascarado da foto, é o pai fresco autor destas hilárias “reflexões” postadas no Facebook. Este escriba relapso, empanturrado com tantas confraternizações, recebeu dele a devida autorização para publicá-las. Obrigado, Ivan! Saúde, Vítor!