sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eduardo & Sylvia

Comidaria

Depois de um rápido namorico adolescente, cada um tomou seu rumo na vida universitária.

Ele: Comércio Exterior e Turismo. Ela: Negócios da Moda, na conceituada Anhembi Morumbi.

Eduardo Pradella estudava uma coisa e pensava em outra. Enquanto cursava Turismo, não sossegou até ser admitido na cozinha do Casa Grande Hotel, no Guarujá. Lavar pratos não era bem o que ele queria, mas estar ali, na muvuca aromática e fascinante do mise en place à finalização, o fez definir seu norte profissional.

No mesmo litoral sul de SP, na UniMonte em Santos, diplomou-se em Gastronomia.

Canudo na mão, era hora de ralar e praticar. De ajudante de cozinha à sous(segundo) chef, perambulou, entre outros restaurantes brasucas, pelo Sofitel, Kaá, Essence Maison Degaine...

A pátria gastronômica gaulesa é o sonho de quem quer ganhar o pão sob a coifa. Eduardo, em 2013, zarpou para uma temporada no sul da França —em Molitg-les-Bains— e foi beber na fonte de Michel Guérard, chef do estrelado Château de Riell.

Sylvia Merlin, ao término da universidade, também tratou de buscar trabalho e realização. Em Sampa, na sua área de formação, laborou com criação e estilo, assessoria de imprensa e produção. Um negócio próprio era o que ela queria. Qual negócio ela não sabia.

Arriscou numa loja online de bijoux e depois numa doceria —ou doçaria como querem os ortodoxos do idioma. Erros, acertos, tombos, lições, experiência.

Eduardo voltou da França e reencontrou Sylvia. Do flerte da puberdade ainda saíam fagulhas. Mergulharam de novo numa relação, mais madura, mas não menos intensa.

Da metrópole para a província. Regressaram ao pé da Mantiqueira com convicções pessoais e necessidades profissionais. Destas convicções veio o casamento em novembro de 2013. Das necessidades, uma ideia.

A intenção se concretizou num pulo, conta Sylvia: “sem firulas, sem rodeios, direto e reto”. Aquele impulso de jovens que querem, sabem e precisam. Jovens com habilidades manuais, com veia artística, com senso estético e que cresceram na onda da revolução digital que marcou este inicio de século 21.

Nascia em Sanja a Comidaria, um baita nome legal para um conceito de delivery gastronômico. O cardápio, enxuto e ecumênico, tinha risoto, pasta, costelinha de porco, salada e fritas.

Por não receberem comensais in loco, o investimento inicial não foi tão alto. Por usarem sua própria cozinha doméstica na empreitada, a casa padeceu de um inevitável rebu.

A coisa engrenou, principalmente, pelo esmero do Eduardo na execução dos pratos. Mas, no conjunto da obra, também contribuíram para o êxito: embalagens bacanas e modernas, uma identidade visual original —um mix harmônico de clássico e hipster— e uma divulgação muito bem feita via redes sociais. Isso tudo concebido pela multimídia e superconectada Sylvia que, por isso, acrescentou talento publicitário ao seu currículo.

“Sugestão do Chef”, aquele item variável, extra-menu, que surpreende o cliente foi incorporado à proposta de serviços comideiros.

Em meados de 2014 —junho pra ser exato— ofertaram um hambúrguer homemade na “Indicação do Cozinheiro”. Os pedidos explodiram, o telefone não parava e fotos no Instagram mostravam que no torrão do bauru de lombo ainda havia espaço pra outros sandubas. No caso, um de inspiração ianque, confecção artesanal, lindo em calorias e pra lá de sedutor.

A criatura atingiu uma dimensão que botou pressão na cachola do criador. Era hora de mudar, era hora de crescer. Era e foi.

No corredor hamburgueiro da aldeia, a Avenida Oscar Pirajá Martins, um imóvel residencial foi adaptado pra acolher a Comidaria Burger.

Após pesquisar influências do ramo no circuito São Paulo-NYC-Chicago, Eduardo & Sylvia reabriram as portas neste comecinho de outono.

E reinauguraram presenteando a cidade com um lugar que é a cara deles: contemporâneo, permeado por referências, descontraído e, ao mesmo tempo, mainstream e underground, da moda e do gueto.

Nada congelado, tudo fresco. O redondo de carne definitivo —depois de várias combinações experimentais— é um blend de fraldinha e ponta de peito. 160 gramas de dignidade.

Tem o meu respeito um cara que regala os fregueses com um hambúrguer rosado por dentro, a léguas da secura. Tem o meu respeito o cara que corta uma batata asterix na faca e a serve crocante acompanhada de molho barbecue rústico. Tem o meu respeito o cara que espeta picles de pepino na cabeça do sanduíche. Tem o meu respeito o cara que traz brejas inusitadas do Pará. Tem o meu respeito o cara que amolece o brigadeiro com creme de leite e tem a pachorra de apresentá-lo na colher escoltado por uma cerveja encorpada. Tem o meu respeito...

Eduardo & Silvia voltaram pra terrinha/E vão trampar muito no verão/Nas próximas férias não vão viajar/Porque a “filhinha” do Eduardo tá na maior ferveção/E quem um dia irá dizer/Que não existe razão/Nas coisas feitas pelo coração?... (Russo, Lauro)

Go, guys, go!

Comidaria 2

Joint: dignidade absoluta, pra lá de sedutor

sábado, 18 de abril de 2015

Memórias do cárcere

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Istambul, segunda-feira, primeira manhã de viagem. Perto do hotel fica o inacreditável Grand Bazaar, no coração histórico da metrópole turca. É pra lá caminhando que nós vamos.

Os tapetes, voadores ou não, fascinam desde sempre os que botam os pés no Oriente. Nas mulheres, eternas sedentas por upgrades nos ornamentos domésticos, esse fascínio aumenta consideravelmente na Turquia, dada a magnífica oferta de capachos de todas as formas, tamanhos, preços e estampas.

E foi essa fraqueza feminina que atrasou nossa chegada ao Grand Bazaar. Explico.

Nos arredores do nosso destino, a senhora Borges insinua-se a um vendedor na rua demonstrando inequívocos desejos tapeteiros. Era a senha pra sermos conduzidos ao terceiro andar de um prédio abarrotado de alcatifas —existem poucos sinônimos para tapete, por isso me desculpo pelo horrendo “alcatifa”. Evitarei usá-lo novamente nesta crônica.

O local, um tanto mal-ventilado e sinistro, abrigava um exército de mercadores de alfombras —outro sinônimo igualmente pavoroso. Imagino que, exceto os quatro caipiras brasucas, não havia mais nenhum cliente naquela Galeria Pajé da Tabacow.

Essa escassez de compradores causou um vigoroso assédio mercantil aos únicos incautos, ali praticamente encarcerados.

A coisa foi de desnortear. Uns quinze homens misturando turco, espanhol, inglês, Ronaldo e Pelé, enaltecendo através de muitos decibéis as supostas qualidades dos tapetes que eram desenrolados aos borbotões. E dá-lhe bandejas e bandejas de tchai, a onipresente bebida turca. No auge da tensão cheguei a pensar que nas xícaras servidas haveria alguma erva causadora de efeitos perdulários a quem a ingerisse.

O escancarado espanto nosso pelos cifrõe$ cobrados pelos tapetes parecia enervar aquele batalhão de negociantes ávidos para ferir de morte o meu cartão de crédito.

Num inglês melhor que o meu —qual inglês seria pior que o meu?—, o jovem destemido Lauro Filho assume a transação e começa a falar mais grosso com a agressiva tropa de vendas.

Já antevendo um possível fracasso no ataque aos nossos bolsos, a turba fica ainda mais ensandecida com a brava resistência dos macaúbicos em plagas estrangeiras.

Aproveitando um cochilo dos sentinelas e o fogo no jovem very good english, sorrateiramente este escriba alcança a rua escorregando desesperadamente suas muitas arrobas pelas escadas do edifício.

Quando percebem que os três remanescentes acuados carecem do que os interessa —$$$$$$$—, a libertação deles foi questão de segundos. Os inimigos cessaram a artilharia quando o comandante, braço direito erguido, decretou: “No money!”

Aquele cárcere no alvorecer das férias teve três consequências: uma pedagógica, uma econômica e outra linguística.

A senhora Borges, passado o susto, ignorou solenemente qualquer tapete ou congênere nos vinte dias da nossa estada na Turquia e, por isso, minhas descontroladas finanças foram agraciadas com uma poupança de centenas de euros.

A consequência linguística? Meu inglês subiu de nível: de péssimo para ruim.

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Nobel II

ciència

E segue a minha gloriosa catança de inventos/pesquisas que mudarão os rumos da humanidade. Leiam, anotem , compartilhem.

Doutor Len Fisher, inglês, calculou o melhor modo de molhar um biscoito. Sem trocadilhos. Hoje ele está finalizando a equação para a fabricação de bules e chaleiras que não pinguem.

O coreano Hyuk-ho Kwon criou o terno executivo auto-perfumante.

George Blonsky e Charlotte Blonsky, de Nova York, conceberam um dispositivo para ajudar mulheres durante o parto —elas são amarradas em uma mesa circular e então esta é rodada em altíssima velocidade.

Ellen Greve, australiana, escreveu Living on Light, que versa sobre a não necessidade de algumas pessoas comerem.

De uma universidade holandesa, Andre Geim mostrou como usar imãs para levitar sapos.

Lesões causadas por cocos em queda, foi o impactante estudo médico do canadense Peter Barss, da MgGill University.

O beberrão germânico Arnd Leike provou que a espuma da cerveja obedece à lei matemática do decaimento exponencial.

Eleanor Maguire, David Gadian, Ingrid Johnsrude, Catriona Good, John Ashburner, Richard Frackowiak, e Christopher Frith, da University College London, demonstraram que o cérebro dos taxistas londrinos é mais desenvolvido que o de cidadãos normais. Disso depreende-se que taxista é um ser anormal.

John Trinkaus, da Zicklin School of Business de Nova York, coletou dados e publicou mais de 80 relatórios acadêmicos sobre assuntos que o incomodavam, tais como: 1- percentagem de jovens usando bonés com aba para trás; 2- pedestres com tênis brancos; 3- pessoas que só nadam na parte rasa da piscina; 4- percentagem de motoristas de automóveis que quase, mas não completamente, param em determinada placa de "pare"; 5- percentagem de viajantes carregando maletas; 6- percentagem de clientes de supermercado que excedem o número de itens do caixa rápido; 7- e percentagem de estudantes que não gostam de couve de Bruxelas.

Steven Stack, de Detroit, foi definitivo na obra “O Efeito da Música Country no Suicídio”.

Daniel Simons, da Universidade de Illinois, revelou que mulheres vestidas de gorilas são imperceptíveis para pessoas concentradas em algo.

Do Conselho Sueco de Pesca, Hakan Westerberg decifrou a comunicação por flatulências dos arenques do Mar do Norte.

Claire Rind e Peter Simmons, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, monitoraram a atividade cerebral de uma lagosta enquanto ela assistia a uma seleção dos melhores momentos de "Guerra nas Estrelas".

Gauri Nanda, do Massachusetts Institute of Technology, fabricou um relógio despertador que foge e se esconde para assegurar que as pessoas de fato saíam da cama.

Chico Ramon, editor deste semanário, catalogou as reações raivosas dos habitantes de Jacutinga ante as linhas torpes de cronistas ineptos.

Rodolpho Biasotto, pinhalense e engenheiro de produção, planilhou o estudo “Efeitos do Lombinho do Tonhecas no Sono de Homens Carecas Cinquentões”.

Nilsinho Heccus, cabeleireiro, registrou o libidinoso experimento que trata das consequências positivas do uso de xampu de camomila na performance sexual de funcionárias públicas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Aí…

mídias-sociais

Aí você entra na doideira passional do debate político e começa a se manifestar num tom acima do razoável, extrapolando um pouco os limites do civilizado.

Aí você lê algo que escreveu no calor da contenda e não se reconhece ali naquelas linhas permeadas por palavras ácidas, por petardos em embalagens adjetivadas.

Aí seu oponente, acuado, na defensiva, contra-ataca com um verbo ainda mais quente. A fogueira é alimentada pela gasosa de saliva de governistas, de um lado, e do resto do Brasil, do outro lado.

Aí você para, pensa, respira, reflete...

Aí você lê, relê, trelê...

Aí você traz pra frente do teclado um caldo do que tem ouvido nas últimas semanas.

Aí você percebe que há um sentimento comum, genuíno, de indignação na esmagadora maioria das pessoas do seu convívio pessoal e profissional.

Aí você se dá conta que algumas destas pessoas, íntegras e discretas, nunca tinham se manifestado como fazem agora. Com a intensidade que fazem agora. Com a convicção que fazem agora.

Aí você vê que aqueles que se achavam os donos dos gritos de rua estão desolados pelo despejo às avessas. Da rua pra casa.

Aí você descobre que muitos dos despejados não esperneiam por ideais. São militantes pagos, grudados na máquina, vivendo da máquina, cegos pela medo de perder a boquinha. Há exceções, poucas.

Aí você capta o desespero deles na vã tentativa de tentar direcionar a indignação para alvos outros, diferentes dos que têm brotado espontaneamente.

Aí você tem a certeza que [tentativas de] orquestração contra alguns entes passíveis de críticas não tem o condão de mandar o povo à rua.

Aí você sabe que há algo estranho quando se tenta demonizar um dispositivo constitucional com a máscara fake de um feioso golpista.

Aí cai a ficha que escaramuças e conflitos, por mais acirrados que sejam, ajudam na consolidação de instituições nas nações democráticas.

Aí, viva!, você agradece pelo contraponto raivoso, pelo contraditório azedo. Até pela confrontação lúcida, ponderada.

Aí você escorrega e não resiste na menção de um bordão de auto-ajuda, mas verdadeiro: “o que vem da adversidade só reforça nossa crença”. (Augusto, Lauro).

Aí finalmente você sai destas reflexões racionais e sente vontade de mandar alguns pra aquele lugar.

Aí você come um chocolate e espera a vontade passar. Aqui não!

Aí fica mais evidente o quão as pessoas, anônimas ou não, ficam mais exaltadas —inconvenientes, até— nas timelines das redes sociais. Para o bem e para o mal.

Nobel

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A despeito do pessimismo que grassa por aí, a humanidade tem motivos para se dar como salva. Leiam a boa nova que esteve nas manchetes da semana nos portais internéticos:

“Nova tecnologia evita sobra de ketchup dentro da embalagem”.

Combalida, a economia mundial vai voltar a crescer muito nos próximos meses com tão revolucionário invento.

E este derrubado escriba, apesar de tudo um otimista incorrigível, navegou nos mares virtuais para pescar outros achados fenomenais. Nossa frágil existência granjeou muitos séculos a mais.

Segue o rol da ciência para o novo mundo:

Josiah Carberry, professor, explorador eclético e buscador da verdade, desenvolveu uma pioneira pesquisa em psicocerâmica, analisando milhões de cacos de vasos quebrados.

Um quarteto nipônico de Yokohama desbravou fronteiras inóspitas do fedor e elucidou quais são os componentes químicos responsáveis pelo chulé.

A nutrição alegórica deve muito à Doutora Ivette Bassa, que conseguiu sintetizar a gelatina azul brilhante. Hoje ela trabalha muito para que vacas do Nepal produzam leite verde musgo.

Três médicos norte-americanos, misericordiosos, escreveram o tratado “Gestão Crítica do Pênis Preso no Zíper”. Projetam, em conjunto com um grupo de dentistas, um estudo sobre “Resíduos de Carne Encravados nos Vãos dos Dentes”.

Wayne Hansen mapeou e planilhou a frequência numérica e sonora dos movimentos intestinais dos soldados americanos no Golfo Pérsico.

Mestres da Universidade de Yale criaram um método que ensina pombos a identificarem pinturas de Picasso e Monet.

Hogne Sandvik, da Universidade de Bergen, na Noruega, escreveu a brilhante tese: “Efeito da Cerveja, Bacalhau, Alho e Creme Azedo no Apetite dos Pernilongos”.

Outro norueguês, este de Oslo, cravou um necessário alerta médico preventivo em “Transmissão da Gonorreia Através de uma Boneca Inflável”.

Em Massachusetts, Don Jacobson criou a mais fantástica ave decorativa do planeta: o flamingo rosa de plástico.

Cientistas suíços e japoneses conceberam em Zurique um robô que mede as ondas cerebrais de pessoas enquanto elas mascam diferentes tipos de chiclete.

A meteorologia encontrou seu máximo expoente em Bernard Vonnegut, por seu experimento “Depenagem de Galinhas Como Meio de Medir a Velocidade de Ventos e Tornados”.

Peter Fong, da Universidade da Pensilvânia, contribuiu com “Efeitos do Prozac no Humor dos Mexilhões”. Aqui cabe um parêntese local: Johnny Noronha, farmacêutico pinhalense, se inspirou na descoberta do acadêmico norte-americano e está lavrando “Efeitos do Rivotril na Personalidade do Lambari”.

Takeshi Makino, de Osaka, inventou o Spray da Infidelidade. Esposas detectam as escapulidas do marido aplicando-o nas roupas de baixo dele. A cueca fica rosa se o bandido pulou a cerca.

No Reino Unido, Charles Deeming fez um magnífico relato da sua observação homem/animal em “Hábitos de Cortesia de Avestruzes com os Humanos em Fazendas da Bretanha”.

Lauro Augusto Bittencourt Borges, bancário de São João da Boa Vista, foi definitivo na sua brochura “Como Embromar Leitores do Blog Mesclando o Nada com Coisa Nenhuma”.

sexta-feira, 13 de março de 2015

#15deMarçoDe2015

panela

Panelaços e buzinaços sacudiram a noite do último domingo em diversas localidades do país. Enquanto a inquilina do Alvorada fazia um pronunciamento débil na TV, brasileiros muitos cravaram decibéis nas latas num protesto insuflado via redes sociais. No decorrer da semana em São Paulo, a presidente levou outra bordoada ruidosa das indignadas gentes.

Estas manifestações são prenúncios claros para o dia quinze vindouro.

E por que o Brasil vai pra rua?

Porque existe um justo repúdio ao bando de malfeitores que assaltou —ainda assalta?— desavergonhadamente o Estado brasileiro.

Porque uma sociedade vigilante —e barulhenta quando necessário— é pilar de um regime democrático.

Porque a Petrobras, patrimônio da nação, está sendo corroída por ações e omissões criminosas que destroçaram sua credibilidade e, consequentemente, seu valor de mercado.

Porque, pela vastidão de indícios e engodos sacramentados, é legítimo discutir política e juridicamente a capacidade de governar do mandatário maior da República.

Porque é intolerável que compromissos de palanque sejam rasgados com a maior cara-de-pau depois da posse.

Porque a participação política do povo não se resume ao ato de votar.

Porque os interesses de um partido político não podem ser misturados às políticas de Estado.

Porque protestar não é golpismo.

Porque ventilar sobre dispositivos constitucionais não é terceiro turno.

Porque liberdade de imprensa é outro pilar de nações democráticas.

Porque o Brasil é muito maior que a peleja tucanos X petistas.

Porque só fama não alça ninguém ao posto de gerente competente.

Porque a economia de um gigante precisa de um timoneiro que saiba navegar também em mares revoltos.

Porque Cuba e Venezuela têm muito de ditadura e pouco de liberdade.

Porque a contrariedade ao governo também está nas periferias e nos rincões do país.

Porque pedir mudança não significa vestir o traje da elite golpista, tampouco farda e bolsonarices alegóricas.

Porque existe corneta vigorosa —e livre— muito além da CUT e dos movimentos sociais.

Porque a vaca tossiu.

Em tempo: convicto estou dos propósitos da passeata como convicto estou da baixeza de protestar com linguajar de rasteiro calão e com desejos estúpidos de sangramento.

sábado, 7 de março de 2015

Walther

“Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas. E os momirratos davam grilvos.”

Tradução de Jabberwacky de Lewis Carroll, por Augusto de Campos

Melódico, complexo, hermético, sonoro. São eles, o poema e o Walther.

Walther

Segundo post consecutivo, por Deus!, para lamentar a morte de um querido. Os Castelli, Walther e Nando, irmãos de sangue, se foram em menos de duas semanas. Chorei pelo Nando dias atrás e, ainda dilacerado, republico linhas de boas-vindas ao Walther, quando ele palestrou, em novembro de 2012, na Academia de Letras de São João da Boa Vista. Assim o recebi naquele sábado chuvoso.

""Noite festiva nesta fecunda Casa de Letras.

Uma efeméride em que tenho a agradável incumbência de apresentar e dar as boas-vindas ao palestrante Walther Castelli Júnior.

Agradável porque o Walther, além de sanjoanense, literato maior, orgulho da terrinha, é amigo desde sempre.

Desde a vizinhança na residencial Tereziano Vallim dos anos 1970, depois em Campinas, onde na minha adolescência era eu generosamente acolhido na sua república. República essa culturalmente bem movimentada, multifacetada, efervescente e, por isso, frequentada por pessoas bem estranhas aos olhos de um jovem provinciano.
Junto com o Nando, irmão caçula do Walther e meu camarada do peito, passei finais de semana inesquecíveis bebendo o caldo de novidades daquela casa agitada na Guanabara campineira.

Naquela época, confesso, eu bebia muito também, além das novidades, caldos mais etílicos.

E o generoso que eu digo é muito mais do que a simples hospedagem: Walther me apresentou a um mundo muito além das macaúbas. Através dele conheci, entre tantas coisas, o cinema de Godard, a música de Caetano, a poesia concreta, o porre de vomitar e a gastronomia japonesa.

O primeiro wasabi —aquele condimento extra-forte da cozinha nipônica que os incautos lambuzam no sashimi como se fosse patê— a gente nunca esquece.

Uma passagem da casa que gosto de rememorar. Tarde de sábado e o Walther chega trazendo uma fita K7. Ele pede a atenção dos presentes e dá um play no toca-fitas do três em um. O som era chatíssimo, incompreensível. Ante a cara de enfado de todos, ele mete o dedo no stop e explica aos entediados: “é poesia medieval!”

Sanjoanisticamente, não resisti e cochichei pro Nando: “Poesia medieval!? Puta que pariu!, seu irmão é inteligente por bosta!”

Dez anos mais novo que a geração do Walther, o macaúbico aqui, moleque intruso, não era muito ouvido pelos intelectuais amigos dele. Eu é que ouvia e aprendia muito.
Ultimamente nossos encontros têm sido no refúgio da sua família, aqui nos arredores de Sanja. Sob as bênçãos do mato platino-pratense, o Walther vai pro fogão a lenha reger memoráveis esbórnias de comida, bebida e prosa. E é claro que nessa prosa reinam reminiscências deste torrão da Beloca.

Filho da Therezinha Araújo, que os chegados conhecem como Tuta, e do saudoso Walther Castelli, Júnior, como a família o chama, nasceu em setembro de 1960.
Sedento por aumentar seus horizontes na estética da escrita, decolou de Sanja muito jovem.

Cursou Letras Clássicas e Vernáculas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, a conceituada Fefeleche da USP; licenciou-se em Letras no Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, onde desenvolveu dissertação de mestrado em Teoria e História Literária, estudando a obra de Dante Milano, sob orientação do Professor Dr. Paulo Franchetti.

De 1979 a 1996, atuou como professor de Língua e Literatura em instituições particulares de ensino médio e em cursos pré-vestibulares. E aqui cabe um parêntesis: em Itapetininga, na sala de aula de um cursinho, o professor Walther foi fisgado pela aluna Marinês. Casarem-se em 1995 e têm dois filhos, Mariana e Pedro. Fecha parêntesis.

Concluiu cursos de gestão de projetos editoriais ministrados no Brasil pelo Centro de Formación Publish, de Madri, e pela Bookhouse Training Center, de Londres.
Atuou de 1995 a 2012 como diretor editorial da Editora Companhia da Escola, de Campinas, que veio a se chamar posteriormente Integral Sistema de Ensino Ltda., onde desenvolveu também o trabalho de autoria de livros didáticos de Língua e Literatura Brasileira e Portuguesa.

É tradutor e comentarista, pela Verus Editora, de Campinas, da obra do educador americano John Holt, tendo traduzido os livros Aprendendo o tempo todo (Learning all the time), em 2006, e Como as crianças aprendem (How Children Learn) em 2009.

Bem sucedido nos negócios, Walther quer voltar a ter mais prazer no trabalho. Quer e vai ter. Aos 52 anos ele está voltando a fazer o que mais gosta: ler, escrever, lecionar, palestrar...

E nessa noite, creio eu, aqui em São João, na Academia de Letras, há um simbolismo de reencontro muito grande. O recomeço do Walther nas Letras é aqui, palestrando no pé da Mantiqueira, revendo amigos, família e trazendo um naco da poesia de Dante Milano aos presentes.

Zezinho Só, artista e arteiro, não economiza adjetivos ao falar do amigo: “Walther é o sanjoanense mais culto de todos os tempos”.""

Eu concordo e acrescento: culto, pai, marido, irmão, filho, amigo, genro, tio, poeta e generoso. Um ídolo. Uma referência. Do bem e do caralho! Warti, você partiu antes do combinado.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Nando

Nando

Devastado! Uma tristeza agreste que seca até as lágrimas. Não consigo chorar, Goiaba.

Porrada da vida que é perder um amigo. Pancada forte, dor de não ter sido um amigo presente nos últimos meses. Meses difíceis pra você, Nando, irmão, que lutou contra traiçoeiros descaminhos do corpo e da mente.

Eu aqui insone e cheio de culpa, teimoso na Tereziano onde nos conhecemos lá nos longínquos anos 1970. Do olho-mágico da minha porta enxergo o outro lado da calçada, a casa 236. A casa onde você nasceu, na alameda onde nasceu nossa amizade de 40 e tantos anos.

Amizade de futebol de rua, do time do Pedrinho, de jogo de botão, de polícia & ladrão, de noitadas adolescentes em Campinas, de jornadas épicas no Morumbi, torcendo na arquibancada ao vivo para o Tricolor mais querido do mundo. Amizade de assistir aos jogos do São Paulo no sofá acolhedor da vó Nina.

Nando, meu padrinho de casamento, me levou à igreja do Perpétuo na Brasília da Tuta. Me honrou com sua presença e sua benção no altar.

Casamento seu em Minas. Eu estava lá. Exílio no Nordeste que você tanto amou. Eu passei por lá.

Mais recentemente sua paixão e talento pela cozinha me transformaram num aproveitador e fã dos seus dotes gastronômicos. Noites de panelanças em Águas da Prata. Eu me empanturrei por lá.

Nada de bom das nossas vidas vai sumir do meu baú de coisas boas. Nenhuma lembrança boa vai atenuar meu remorso por ter sido um amigo tão relapso no momento em que você mais precisava de um ombro. Talvez só de palavras. Talvez só de uma humana presença para aquecer de afeto suas noites frias na Fonte Platina.

Eu, miseravelmente, falhei.

Falamos pela última vez no seu aniversário, era abril de 2014. Seu lamento martela na minha cabeça desde então: “Pô, Laurão, achei que morando aqui a gente ia ser ver mais”.

Goiaba, você foi um cara intenso. Nas esbórnias, nas arquibancadas, nas brigas, nos casamentos, nas amizades, na imensa devoção paternal que você derramou na Ariela e na Heloísa. E, claro, no Gui enquanto você pôde.

Tive o privilégio de ser amado por você. Um generoso amigo. Tive o privilégio de conviver com você em épocas e momentos especiais das nossas vidas. E, também, em momentos simples, comuns, banais, demasiadamente humanos.

Descanse na eternidade, velho parça. Descanse num plano onde convenções sociais importem menos, muito menos, do que a vocação para ser feliz com o essencial. Só com o essencial. Livre de paulistices rígidas e cheio de nordestinices líricas.

Velho, caralho!, que dor!, uma hora, em algum alugar a gente se reencontra. Eu te amo muito e vou lá nos jardins d’Ele tentar me redimir e pedir o seu perdão. Quem sabe no Projac celestial a gente possa reconstruir a Tereziano de 1972.

[Vieram as lágrimas! Muitas!]

Nando, um beijo na Nina, no seu pai, na Donana e no Leco. A mesa aí nas alturas vai estar celebrando sua chegada. E, não se iluda, você cozinha bem pra cacete, mas a Nina vai fazer aquele frango com polenta e não vai te deixar se aproximar do fogão. Chegue quietinho e faça a farofa. Ela deixa.

Chegue quietinho, Nandão. Fique na paz e olhe por nós nesse mundo cada vez mais inóspito, cada vez mais sem Nando.

“Impitimam”

lula dilma

A moça, ardida, chega na rede social toda voluntariosa. Incapaz de argumentar com mais de quinze palavras, ele desce o tacape do insulto em quem lhe contraria.

"Desonesto, ignorante em História, parvo em política, arrebanhador de incautos, escritor de asneiras e incapaz de interpretar um texto". O lombo arde e minha gaveta de adjetivos vai enchendo.

Assumo minha idiotice patológica, mas aponto que já fui alvejado com acusações mais criativas. E falando em imbecilidades, vou justificar meu “golpismo” incurável.

O impeachment é da regra do jogo democrático. Assim como uma eleição, é um julgamento político. Só que este último é decidido pelo Parlamento.

E lembrando 1992, Collor de Mello foi "impichado" pelo Parlamento com amplo apoio das ruas. Digo mais: o Parlamento decidiu pressionado pelas ruas.

Na oposição de antanho, sem o confortável abrigo do Estado de hoje, o lulopetismo lutava com as armas que tinha, quais sejam: movimentos sociais, sindicatos e imprensa. Mídia cujos jornalistas eram fartamente abastecidos por fontes do partido. Mesmo a revista Veja, antipetista no DNA, fazia suas capas com várias denúncias oriundas do PT. Contra o governo Collor, Veja e o PT atiravam num alvo comum.

Também o Congresso e as esquinas, eram legitimamente insuflados pelas cornetas potentes do PT. Dias de estilingue, dias de vidraça...

Para os estilingues, a imprensa é combativa, para as vidraças, ela é golpista, para a democracia, ela é necessária.

No momento atual, a popularidade baixíssima do governo Dilma decorre da sucessão de escândalos de corrupção na maior empresa brasileira. Existem fundamentos políticos e jurídicos mais do que relevantes para o pedido de impedimento da Presidente, mas que, como dito acima, essa intenção só pode prosperar se o indicado nas pesquisas se refletir também nas ruas do país.

A oposição e setores diversos da sociedade civil questionam, LEGITIMAMENTE, sobre a capacidade de Dilma Rousseff exercer a Presidência da República.

Queremos um Executivo que administre ou que esteja despejando sua energia em estratégias para se defender das cataratas de denúncias?

Este acirramento do debate, o calor, é bom para a democracia. Faz a gente pensar, ver as coisas por outros ângulos. E mesmo exageros que focam mais as pessoas e menos o país são inevitáveis efeitos colaterais nas contendas de opiniões.

Seria estimulante, e até divertido, embarcar numa guerrinha de palavras contra quem me adjetiva, mas acho perda de tempo e perda de foco nos assuntos que realmente interessam à nação.

Em tempo: a barulhentinha black bloc mencionada no primeiro parágrafo bateu e incendiou. Xingou que deu gosto. Caos instalado, ela faz um ar blasé, carimba um “fraquinho” no conteúdo do debate, recolhe seus petardos e vai causar em outra freguesia.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Zé, o imortal

Discurso de saudação ao amigo José Ricardo Bittencourt Noronha, empossado na Academia de Letras de São João da Boa Vista na noite de 31 de janeiro de 2015

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Confreira Presidente, confrade José Ricardo Bittencourt Noronha, colegas de Diretoria, demais confrades e confreiras, autoridades presentes, convidados, familiares e amigos do empossado. Boa noite a todos!

Definitivamente, o personagem destas linhas é um cara que veio ao mundo para ser protagonista.

Zé, começo minha fala com uma curiosa revelação: a Diretoria desta Casa de Letras, hoje reempossada para mais um biênio à frente da instituição, quando do processo sucessório que o elegeu, respeitou o Estatuto e, por imperativos de lisura e transparência, cancelou a primeira votação. Embora cancelada, você já tinha o número de votos suficientes para a vaga. Então, meu caro, até nisso você é especial, pois hoje toma posse como o único acadêmico eleito e reeleito da História desta Arcádia.

Março de 1972, no dia 19 o casal Lalo e Beth Noronha celebra o nascimento do segundo filho, batizado como José Ricardo. Nome composto que a vida se encarregou de simplificar entre os queridos: Ricardo, JR ou simplesmente o brasileiríssimo Zé.

O pai, são-paulino fanático, de frequentar os bastidores do Morumbi, legou ao Zé a paixão pelo Tricolor paulista. A trilha nômade de vendedor —seu Lalo foi um conhecido e bem sucedido corretor de fazendas e equinos— e as temporadas constantes na fervilhante capital paulista sempre fascinaram o menino, que também admirava no genitor sua inabalável retidão de caráter.

Esta devoção de seu Lalo ao São Paulo Futebol Clube pode ser espirituosamente contada num episódio: Toquinho, genial cantor e compositor, além de corintiano notório, se arvorou a comentar jogos numa emissora de TV. Dando pitacos numa peleja do São Paulo, era perceptível seu olhar negativo, muito crítico ao time. Em dado momento, seu Lalo Noronha extrapolou na sua passionalidade e fez voar do sexto andar todos os LPs do Toquinho que havia na sua discoteca. Reza a lenda que as vizinhas, irmãs carmelitas, até hoje creditam aos céus a chuva de bolachões pretos.

A mãe, educadora, mulher de fibra, por conta das viagens profissionais do marido, se desdobrava entre o trabalho, a atenção aos filhos e a administração das casas. O conveniente apartamento na Dona Gertrudes e a acolhedora Chácara Santa Cristina foram os tetos da família naquele período. Mais tarde, o edifício Itaparica na rua Franklin Roosevelt, aquele dos LPs voadores, passou a ser a morada dos Bittencourt Noronha.

Zé, poucos anos mais velho, na infância, você bem sabe, eu era mais amigo do seu irmão Sérgio. O que você não sabe, e eu confesso aqui, é que a lembrança sua mais marcante que tenho de então, não é, digamos, uma lembrança de virtudes. Ao contrário, me lembro dos seus diminutos dotes com a bola nos pés. Quando iniciei estas linhas dizendo da sua vocação pra ser protagonista, você há de concordar comigo: excluo o futebol.

Dona Beth diz que o filho Zé Ricardo, centrado e comportado, não era dado a travessuras e indisciplinas. Quando as cometia, era por influência de traquinas mais espoletados; o irmão mais velho, Sérgio, certa vez o levou, sem o conhecimento dos pais, a Campinas. A carraspana do seu Lalo à viagem veio com uma mão pesada, não nos meninos, mas nos skates que foram comprados na rápida fuga e que viraram sucata.

Endiabrados colegas do Colégio Orion, no ápice da adolescência naturalmente transgressora, convenceram o Zé a embarcar em outra estripulia. Insatisfeitos com as velhas carteiras da escola, a turma decidiu dar um, digamos, incentivo à troca da mobília: jogaram-nas, todas, no Córrego São João.

Pra encerrar o rol de molecagens. A ansiedade pelo volante é certa nos púberes. E se o pai deste jovem tem, no começo da década de 1990, um Santana vermelho, a ansiedade vai pra estratosfera. Na época, a frente do Recreativo era a ferveção para impressionar as meninas. Zé, às escondidas, pega o lendário carro do pai e toma o rumo da rua Teófilo de Andrade. Ali, reinando no controle do bólido envenenado, ele, interrogação e exclamação, inventa de arrumar a meia e se distrai. Resultado: nenhum amasso nas meninas e pequenos amassados em, atenção!, três carros.

Da infância e adolescência aqui na nossa crepuscular São João da Boa Vista, levou amizades genuínas que ele cultiva até hoje. Levou também uma robusta educação básica dos bancos do Externato Santo Agostinho e do tradicional Grupo Escolar Joaquim José, quando este ainda era notável por um ensino público de excelência. No Colégio Orion, aquele das carteiras submersas no córrego, levou a bagagem do ensino médio.

E levou também técnicas e prazeres da boa e velha arte de redigir. Dona Vilma Nasser, amiga da família e dedicada mestra, apurou nele, em aulas privadas, o manejo do verbo.

E levou pra onde? Para São Paulo, para o Brasil, para o mundo...

Sempre valorizou este solo macaúbico como um referencial de raízes e memórias afetivas, mas enxergou desde cedo que as oportunidades de ganhar a vida estavam na metrópole. De Sanja pra Sampa.

Na Pauliceia graduou-se em Direito pela PUC. Fez também MBA Executivo Internacional pela FIA/USP, além de uma enormidade de módulos internacionais e especializações na França, Inglaterra e Estados Unidos. A academia era importante, mas botar a mão na massa urgia para o jovem sanjoanense.

Uma época de planos e dificuldades. Empregos incertos que não emplacavam. Patrões que enveredavam para a ilegalidade. O batismo na grande cidade também embriaga os jovens. Deslumbramento e pouco controle nas finanças pessoais também passaram pela vida dele.

O inglês fluente foi conquistado em breves exílios anglo-saxônicos. O primeiro em Swanage, uma cidade litorânea do sudeste da Inglaterra, onde Zé Ricardo, na lida pesada com o gado, lapidou o idioma numa propriedade rural. O segundo intercâmbio foi em Madison, no estado norte-americano de Wisconsin.

Na volta, fisgou na Grande São João das origens o coração da pratense Evelise Moreti. O casamento em 1999 juntou eternamente as escovas de dente. E também brecou os ímpetos perdulários e desregrados do caipira entre os arranha-céus.

Primeira metade dos anos 2000, junto a um pequeno time de cinco pessoas, participou do inicio das operações da English Town no Brasil. Era a chegada pioneira do conceito de Inglês Online ao país.

Dedicado na labuta, estudioso, disciplinado e dono de um raro senso de marketing pessoal, recebeu em 2004 o convite para ser vendedor na Global English. Conquistou, com o passar dos anos, o posto de Diretor Geral no Brasil, multiplicando por sessenta o faturamento da subsidiária brasileira e colocando-a como a maior unidade da empresa no mundo, com mais de 23 mil alunos. Em razão de prêmios —foi laureado várias vezes como o melhor homem de vendas da corporação—, seminários e treinamentos, conheceu o planeta em dezenas e dezenas de eventos.

Há cerca de três anos, o maior conglomerado de educação mundial, o selo Pearson, comprou a Global English. Almejando um crescimento ainda maior, os novos controladores continuaram depositando no Zé absoluta confiança nas suas competências de líder e vendedor. O caminho natural para ele seria o mais alto cargo de gestão do grupo na América Latina.

Seria, mas não foi. Zé agradeceu, mas declinou o convite. Zé abriu mão de ganhos nada desprezíveis, de uma carreira consolidada e de uma promoção iminente. Pediu o desligamento da companhia para realizar um sonho.

O sonho de ser um palestrante profissional. O sonho de disseminar experiências de vida e de uma trajetória de sucesso para desenvolver nas organizações forças de vendas e formar dirigentes-líderes.

Obstinado e organizado, escreveu livros —Vendedores Vencedores foi o primeiro—, criou um site e perfis nas redes sociais, sacou sua network formada em mais de uma década e foi a campo oferecer sua envolvente oratória.

Foi, falou, vendeu, palestrou e venceu.

Sua já vitoriosa labuta de conferencista angariou como clientes, entre outros, Alphaville, Banco do Brasil, Bradesco, Brasil Foods, Caixa, Gafisa, Natura, Perdigão, PizzaHut, Sadia, Starbucks, CouroModa, Elinox, Marfrig, Oracle, Volkswagen, Herman Miller, Unimed, ufa!, e por aí vai.

Os alunos dos prestigiados MBAs Internacionais da FIA também bebem ao vivo a retórica rica do Zé. Ele leciona lá.

Cosmopolita e bem sucedido, leva a esposa para uma lua de mel anual na Grande Maçã. Pai da Maria Eugênia e da Ana Cecília, suas inesgotáveis fontes de inspiração, ele mora muito bem com a família num condomínio na Grande São Paulo.

Se o mote é família e viagens, não resisto em relatar uma inusitada passagem do seu último périplo de férias.

No embarque em Guarulhos com destino aos parques de Walt Disney, Zé Ricardo estava respondendo àqueles questionamentos de praxe no balcão de embarque: quem fez sua mala? Você está levando alguma encomenda que desconheça o conteúdo? Alguma arma? Líquido na bagagem de mão? Numa das respostas, inocente, a filha Ana Cecília entrega: “Tem sim, papai”. Incrédulo, papai retruca: “O que é isso, filha, o que você está falando?”. E aí? Aí o mal entendido estava carimbado no passaporte dele. Em todos os check-ins e check-outs da viagem, ele, Zé, foi, abre aspas, aleatoriamente, fecha aspas, eleito para minuciosos pente-finos na bagagem e documentação. Pode ser lenda, mas não é improvável: até o Mickey Mouse era um agente do FBI monitorando seus passeios. Um périplo divertido, sem dúvida, um périplo em que o macaúbico da Beloca carregou na mala a suspeita de ser terrorista. E por que Ana Cecília disse o “sim” da confusão? Ela não inventou. Havia, sim, líquido na bagagem de mão: água. Água Prata.

Orgulhoso da caipirice do torrão natal, quando aterrissa em Sanja, não dispensa uma cerveja com petiscos de boteco, proseando solto junto aos amigos de décadas que tanto preza.

E por falar em amigos, ouçam o testemunho que segue, que não tive coragem de sintetizar, tampouco editar. Abre aspas:

“Sou amigo do Zé desde a quarta série e desde então passamos praticamente todas ou quase todas aventuras juntos. Houve a fase das coisas erradas como roubar o carro do meu pai para irmos as festas de final de semana ou até mais moços ainda quebrando a cara com as meninas que paquerávamos na avenida em São João. Enfrentamos juntos os momentos de loucura em São Paulo com o deslumbramento e gastos desnecessários com o primeiro emprego do Zé, até seu amadurecimento passando por pesadas lições que a vida sem piedade mostra, talvez uma forma para mostrar o caminho certo e passarmos para uma nova fase. Lembro do Zé desesperado tomando tombo seguido de tombo e parecia que não acabaria mais! Nunca me preocupei, pois tinha certeza que o Zé era especial, diferente. Na pele dele naquela época ninguém gostaria de estar, mas eu tinha plena certeza que ele se reergueria pois o nanico do Zé é gigante para falar, memorizar pessoas como nunca vi na vida e sempre muito trabalhador. Defeitos tem um monte, acredito que não caberia nesta página ou mais cem iguais a esta. Só que estes defeitos que me fizeram ser tão leal a ele, pois sem eles acredito que ele não teria as qualidades que tem. Sou apaixonado pelo Zé, perde em todos os esportes para mim e isso me faz lembrar ainda mais dele, principalmente quando preciso treinar alguma coisa. Ficaria uma vida para escrever sobre o Zé, para falar a verdade não vejo a minha vida sem o Zé, sempre presente, padrinho da minha filha, pode acontecer qualquer coisa comigo que sei que ele vai estar lá, presente de corpo e alma! Não consigo entender o amor dele por mim, não sei se mereço, às vezes, mas agradeço muito por ele fazer parte da minha vida. Acho que resumindo é isso, não sei se ajuda, mas fica o meu registro deste nanico.” Fecha aspas. Marcellus Camarinha.

Arremato com um autoplágio. Fui um dos honrados a prefaciar o primeiro livro do Zé. No meio de tantos cobrões do mundo empresarial, assim lavrei:

“Bairrista incorrigível, sou destes que se orgulham dos amigos que saem da província e vencem na metrópole. José Ricardo Noronha é um vencedor. Vencedor porque é um profissional de referência na área de vendas. Vencedor porque é um pai de família exemplar. Vencedor porque valoriza suas raízes. Vencedor porque não esconde suas emoções. Lê-lo e ouvi-lo é essencial pra quem quer vender e vencer”.

Pois é, amigo de sempre e agora confrade, que baita história de vida e magnífico currículo. Acho que, com o perdão do clichê, faltava a cereja neste bolo de incríveis recheios. Ou melhor, faltava a macaúba, que vem logo mais na forma de um medalhão.

Seu Lalo, bebericando seu uísque nos jardins celestiais, não cabe em si de contentamento pelo rebento. Cá às margens do Jaguari e da ferrovia Mogiana, para orgulho da mãe, dona Beth, da esposa Evelise, das filhas Maria Eugênia e Ana Cecília, dos irmãos Sérgio e Paulinho, de demais familiares e amigos, a Academia de Letras de São João da Boa Vista dá boas-vindas a seu novo membro, José Ricardo Bittencourt Noronha. Bem-vindo, Zé.

Do amigo, Lauro Augusto Bittencourt Borges,

São João da Boa Vista, 31 de janeiro de 2015