quarta-feira, 22 de maio de 2024

Youssef e Linh


Filhos de imigrantes, Youssef e Linh trabalham no mesmo edifício de escritórios na rua Vodičkova. Nunca conversaram, o contato é só visual durante o café. Eventualmente se encontram no almoço na barraca de kebab da rua Štěpánská. Um balançar tímido de cabeça é o cumprimento entre eles. Gentil aceno, mas frio e distante.

Youssef começou a desenvolver sentimentos recônditos por Linh. Boca seca e batimentos acelerados ele começou a ter quando a via tomando cappuccino. Ela só toma cappuccino. Ele também.

Na noite gelada da última sexta, Youssef fez planos para se declarar e não mais passar fins de semana sozinho, lendo poesia às margens do Moldava.

Depois do expediente, ele a surpreendeu com um bouquet de tulipas rosas na estação Národní Třída. Linh gostou, claro, mas ela nada sente por ele. Pra ela, a saudação diária é meramente protocolar. Pra ele, era flerte.

Linh abraçou forte o ramalhete, talvez para inibir o abraço do pretendente, sinalizando que ali não havia espaço para outros abraços.

Youssef falou muito, ela só ouvia, constrangida, agarrada às flores, olhos ao longe. Ele avançou, arriscou um beijo. Linh virou o rosto, deu um passo atrás. O homem respeitou, disse que não ia insistir ainda que seu coração dissesse o contrário.

Ela reconheceu o cavalheirismo de Youssef e aceitou um beijo de despedida na face. Sem olhar pra trás, Linh subiu no bonde 22 rumo à parada Jana Masaryka. No coletivo, ainda enlaçada às tulipas, ela pensava em como explicar as lindas flores à namorada Kateřina.

((A cena, por mim testemunhada e furtivamente fotografada, inspirou a ficção cheia de temperos reais. A crônica foi escrita num trem entre Praga e Viena.))

segunda-feira, 20 de maio de 2024

Malte, lúpulo, espuma e sonhos

 

Na primeira década deste século, Alessandro Gonçalves auto-exilou-se na Espanha para um período de estudos. Entre um livro e outro, tapas e cervejas aliviavam a aridez da imersão acadêmica. Observando os múltiplos rótulos das brejas ibéricas, ele constatou que pequenas cervejarias se alastravam pelo país. 


Em meados de 2008, no retorno ao torrão natal, Poços de Caldas, Alessandro compartilhou com o mano Marcelo o desejo de empreender no ramo cervejeiro. O alto investimento necessário para concretizar a ideia fez o plano ser engavetado até 2012, quando eles compraram equipamentos caseiros e começaram a testar receitas. 


O retorno da brincadeira maltada foi um tonel de feedbacks positivos e pedidos de sabores diferentes. Amigos e familiares impulsionaram com elogios a profissionalização da promissora Cervejaria Gonçalves.


Ainda sem produção em escala comercial, em 2014, Alessandro e Marcelo submeteram a “filha” Pale Ale ao júri do concurso promovido pela Acerva Mineira. O rótulo da Gonçalves conquistou o terceiro lugar no certame. Era o empurrão que faltava para o negócio ganhar corpo. Fernanda, mulher de Marcelo, especializou-se nas provas da bebida e embarcou no projeto como sócia e sommelier. 


Nos anos seguintes, mais de uma dezena de estilos foram experimentados, tais como IPA, Stout, Witbier, Doppelbock etc. A German Pilsner, queridinha da marca, foi ensaiada mais de noventa vezes até chegar ao resultado que Fernanda e o mestre-cervejeiro Alessandro queriam. Informações detalhadas eram armazenadas em cada lote produzido. Dos processos de aprendizagem e ajustes constantes nasceu o portfólio da casa e a abertura para o grande público em 2016, quando o Bar da Fábrica foi inaugurado. O lugar foi concebido para mostrar a Poços o conceito Gonçalves e oferecer aos clientes petiscos e pratos harmônicos com as protagonistas de lúpulo e cevada da empresa.


Desde então, os pontos de venda —que hoje passam de cem!— se multiplicaram e consolidaram a Gonçalves no mercado das cervejarias artesanais. O selo, em pouco tempo, tornou-se referência de qualidade nesta Mantiqueira de tantos encantos. Nunca mais os habitantes deste solo vulcânico padeceram de sede. 


Rafael Calle, contratado como vendedor nos primórdios da companhia, se destacou de tal forma na função que fez o trio poços-caldense de proprietários virar um quarteto. O talento para vender é tão natural que ele ainda exerce o ofício. 


Corta para 2024. Trinta e cinco mil litros mensais nos copos de bebedores exigentes levaram a Cervejaria Gonçalves ao vértice de Poços. No repaginado Parque do Cristo, na área cinematográfica da famosa plataforma de voo livre, está o novíssimo e lindo Restaurante da Rampa. Lá tem coquetéis com aperitivos, vinhos com pratos e, principalmente, cerveja com paisagem. Lá tem, ainda, sob o mais belo pôr do sol, muito mais do que Alessandro um dia sonhou. 



🍺🍺🍺

Restaurante da Rampa

Parque do Cristo
Poços de Caldas, MG
Segunda à quinta, das 11 às 19h
Sexta, das 11 às 22h
Sábado, das 10 às 22h
Domingo, das 10 às 20h


🍺🍺🍺

Bar da Fábrica

Av. Mansur Frayha, 647
Poços de Caldas, MG
Quarta à sexta, das 15 às 23h
Sábado, das 10 às 23h
Domingo, das 10 às 17h




quinta-feira, 2 de maio de 2024

Nosso Bar e o bauru de lombo

 

José Tarciso de Carvalho do Nosso Bar, da velha-guarda baurueira


Ensanduichado fiquei ante o desafio de escrever algo sobre manjares deste rincão de ribeirinhos do Jaguari. Não conseguiria, jamais, ser objetivo sem simultaneamente navegar pelos meus humanos devaneios, pelas minhas sentimentais experiências.


A cena a seguir descrita aconteceu não raras vezes entre o fim dos anos 1970 e começo dos 1980. Bar do Formiga, rua Coronel Ernesto de Oliveira, por volta das 18h45. Minha mãe estacionava a Variant defronte ao boteco e incumbia-me de fazer o pedido habitual: três baurus.


Na velha baiuca de mobiliário surrado, a lousa informava os resultados dos treze jogos da loteria esportiva, a TV em preto e branco passava algo que ninguém assistia. Cardoso e Formiga, os idosos proprietários que tinham na parede placas veiculares com seus nomes de guerra, olhares cansados ao longe, estavam sentados. “Três baurus, seu Formiga”, este já faminto moleque demandava ao senhor de semblante fechado. “Bauru eu só começo fazer às sete, espera um pouco”. Não havia outros fregueses no bar, eles não tinham afazeres, mas nada poderia subverter o ritual sagrado de só começar a faina dos baurus às dezenove horas, nem um minuto antes.


Os badalos do sino da igreja do Perpétuo anunciavam o momento crucial. A minúscula chapa era vigorosamente raspada e logo acesa. Lindeza era ver a habilidade do ancião —não tenho recordação de quem fazia os baurus, na verdade eu nem sabia quem era quem— fritando a carne de porco, derretendo o queijo prato, selando o tomate, recheando o pão francês, cortando a obra ao meio e embalando as delícias para viagem em papel pardo.


Adolescente, tempos depois, caí de paixão pelo bauru do Jorge, no velho Canecão, mas jamais minhas papilas sentiram algo parecido com o bauru do Formiga.


Convicção tenho de que o bauru de lombo é uma iguaria genuinamente crepuscular. Lombo, queijo prato ou mozzarella e tomate —cebola é opcional— no pão francês é acepipe que se vê há décadas em bares e lanchonetes desta província. Até nos botequins da periferia o bauru tem essa receita consagrada.


Da velha-guarda baurueira, digamos assim, Bar do Formiga, Bar Teatro, Bar da Rodoviária, o velho Canecão do Jorge Nicolau, Nosso Bar, todos merecem menção e ajudaram a construir a tradição do sanduíche de lombo em São João da Boa Vista. Dos citados, só o Nosso Bar permanece aberto, tocado pela mesma família e fiel às origens.


Não consegui apurar ao certo o ano de fundação do Nosso Bar na praça Governador Armando Salles de Oliveira. Foi aproximadamente entre o fim da década de 1950 e começo dos anos 1960.


Em 1974, o mineiro José Maria de Carvalho, o popular Zezinho, que tinha histórico de suor no ramo, comprou o estabelecimento. No pacote da aquisição estavam o bauru de lombo e o chapeiro Nelson Bastoni, que viria a ser um dos melhores amigos de Zezinho. Evidências existem indicando que, nalgum momento, intuitivamente ou por sugestão de frequentador, o talentoso Nelson forjou, sob a coifa do Nosso Bar, o lanche de carne suína que é um símbolo deste povoado do mais lindo sol poente.


Quando Zezinho tomou posse do Nosso Bar, ele reverenciou aquele sanduíche que reinava no balcão. O tempero do lombo foi levemente aperfeiçoado sem agredir a essência aromática que tanto deleitava.


Na praça, à sombra da torre da Catedral, Zezinho, desde sempre auxiliado pelo rebento Tarciso, comandou o Nosso Bar até 1980, quando o Bradesco comprou o imóvel. Com a forçosa saída veio o prédio próprio no número 226 rua Coronel Ernesto de Oliveira, onde o negócio funciona até hoje, onde o bauru continua reinando.


Zezinho faleceu precocemente em 1996. O filho que lidava a seu lado, o discreto José Tarciso de Carvalho, apoiado pelos irmãos Inez e Sílvio, assumiu o bar desde então. Nestes cinquenta anos sob a batuta do clã Carvalho, o Nosso Bar preserva dignamente esse sanduba que rompe gerações, que é um patrimônio cultural de São João da Boa Vista e que está definitivamente gravado no paladar afetivo de seus habitantes. Nosso é o Nosso Bar!

 

A iguaria de lombo, queijo e tomate no pão francês

quarta-feira, 27 de março de 2024

Garimpeiros de letras e sabores

 

Liliane Ormeneze, Josi Borges, Lauro e Luciano Mussolin

 Filhos de imigrantes italianos, Owen Ranieri Mussolin e Fanny Viti vieram de ancestrais que habitavam o mesmo pedaço de chão: a Toscana. Mas foi em Poços de Caldas, na década de 1950, que eles se conheceram. O encontro deu-se na então Chácara Guarani, onde a família Viti produzia o vinho Carlos Gomes, cujo rótulo homenageava o ilustre compositor campineiro. À época, o espaço era um dos pontos turísticos mais frequentados da cidade, paragem de amigos, prosa, flertes, taças e petiscos. Essa mistura prazerosa juntou os jovens Owen e Fanny, que se casaram em 1953 e deram ao mundo Luciano, Adriano, Sandra, Paula e Flávia.


Funcionário do Banespa, Owen decidiu conciliar as lides bancárias com uma paixão: o cruciverbalismo. Associado a dois colegas de trabalho, ele fundou A Recreativa, editora especializada em palavras cruzadas. A ideia veio da percepção de um nicho inexplorado no Brasil. Owen brincava com seu passatempo preferido em revistas estrangeiras.


Logo nos primeiros meses, os sócios desembarcaram da empreitada e o neo-empresário se viu sozinho entre a labuta no banco e a arte cruciverbalista (que vocábulo lindo!). A qualidade das criações cruciverbais (que sonoridade!) era notável, o que fez A Recreativa se consolidar no mercado num curto espaço de tempo. O negócio cresceu tanto que o patriarca colocou seus meninos na faina. Luciano e Adriano também se apaixonaram pelo garimpo vocabular. Garimpo vocabular, convenhamos, também é belo.


Corta para meados de 2008, por aí. Luciano, já cruciverbalista consagrado, propôs às tias Yolanda e Annita alugar o casarão da legendária Chácara Viti (antiga Chácara Guarani mencionada no primeiro parágrafo). Elas, que viviam dos doces caseiros e do pomar da propriedade, estavam com dificuldades no próprio sustento. As irmãs aceitaram e liberaram parte do grande imóvel ao sobrinho inquilino. Luciano Viti Mussolin, a mana Flávia e o cunhado Gabriel Bertozzi, preservando os barris de madeira e a alma da velha residência, inauguraram um charmoso empório para turistas. Como o genitor nos primórdios d’A Recreativa, Luciano viu os parceiros saírem da firma. Organicamente, a mercearia virou o restaurante que entraria para as antologias poços-caldenses. Nascia o Ollivia.


Conheci a casa ainda fresca, num jantar memorável concebido pelo chef Henrique Benedetti. Impossível não se sensibilizar com a experiência proporcionada pelo cozinheiro de pouca idade que perpetrava elegância e sofisticação com ingredientes dos arredores. Impossível não se sensibilizar com a amabilidade ímpar de Luciano e da mulher Liliane Ormeneze naquele prédio histórico, no qual as paredes testemunharam trajetórias de luta e mesas fartas de um clã que cruzou o Atlântico em busca da terra prometida.


Corta para meados de 2023, por aí. Rubens Mussolin Massa, empreendedor nato, docente na FGV, que iniciou a trilha profissional n’A Recreativa aos quinze anos e comprou a marca aos trinta e poucos, foi procurado pelo tio Luciano. Este, por circunstâncias particulares, queria vender o Ollivia, mas o desejo maior era legar o conceito gastronômico e a beleza do torrão dos Viti a alguém do sangue, alguém que tivesse respeito por tudo o que foi ali vivenciado e construído ao longo de mais de século.


De pronto, Rubens rechaçou a oferta com um protocolar “vou pensar”. Um retiro por algumas horas no Cristo de Poços e marteladas afetivas fizeram-no refletir, de verdade. No último inverno, o acelerado Massa assumiu a oportunidade negocial conectada a um genuíno apelo emocional. Nascia um novo Ollivia.


Nascia um Ollivia preponderantemente italiano em reverência aos antepassados Viti Mussolin. Nascia um Ollivia dos vinhos exclusivos que recebem nomes de familiares. Nascia um Ollivia classudamente musical. Nascia até um filhote napolitano, o cantineiro Ollivino, que forja pizzas com o rigor culinário do sul da Itália.


Corta para vinte e dois de março de dois mil e vinte e quatro. À primeira brisa do outono, entre relatos entrelaçados, o repasto com amigos no restaurante icônico foi um banquete de bem-estar para o espírito, onde, ao som do melhor jazz, os sabores da comida, o cheiro da chuva e o bouquet de Baco se misturaram com intensas memórias compartilhadas. No Ollivia, sob dezenove graus que refrescaram até a lava do vulcão. No Ollivia, cujo cardápio elenca tanto aromas quanto História(s).


🍷🍝 🍷🍝

Ollivia Gastronomia 

Av. João Pinheiro, 1135

Poços de Caldas, MG

Almoço, terça a domingo 

Jantar, quinta a domingo


O acelerado Rubens Mussolin Massa e o cronista 

segunda-feira, 18 de março de 2024

Carne, fogo, sal e serra


 Amigo de décadas, o elétrico Kico Pessanha comanda o Carnes Mantiqueira desde o último trimestre de 2021. Em razão da morte do pai, tempos atrás, ele passou a ser o gestor maior da longeva empresa familiar que produz artigos para festas. Numa convergência de relações, circunstâncias e vontades, o empresário aterrissou no mundo da alimentação conhecendo pouco as particularidades do segmento. Nada que não pudesse ser suprido por curiosidade, inquietude, experiência no universo corporativo e sensibilidade em gestão de pessoas. Kico pegou fácil a coisa. Ou nem tão fácil, sei lá, mas o fato é que hoje ele domina o negócio.

Jantamos juntos noite destas. O repasto magnífico e nossa prosa eram interrompidos a todo momento. Antenado, Joaquim Pessanha Filho, 51, recepciona clientes, se despede deles, quer saber se tudo correu bem, orienta o time, organiza reservas, beberica chopes. Nunca sem ser gentil de uma maneira genuinamente sincera.

Carnes Mantiqueira é um conceito integrado de culto à carne. O açougue que tem uma steak house ou uma steak house que tem um açougue? Não importa, o que verdadeiramente importa é a qualidade suprema das carnes. O gado Angus da Fazenda Pratinha, hidratado com água mineral de Águas da Prata e alimentado com pastagens de solo vulcânico, reina soberano no açougue e na grelha char broiler do restaurante. Eles servem o melhor do pedaço quando o assunto é carnes marmorizadas.

E falando mais especificamente da steak house: o freguês pode escolher um corte do açougue e tê-lo à sua frente, lindamente grelhado, por uma modesta taxa de preparo. Tal como a proteína Angus destaque do cardápio, a maioria dos ingredientes tem o frescor local desta incrível Mantiqueira de tantos relevos e sabores. A riqueza e os aromas da região, orgulhosamente, estão nos pratos e nas taças do feliz comensal.

Este voraz e carnívoro cronista não pode deixar de mencionar, também, a grandeza do trabalho dos chefs Gui Ramos e Evandro Holanda. A dobradinha carne com pastas da casa, que eles fazem com rara perfeição, é algo que dignifica a boa mesa desta crepuscular província de São João da Boa Vista.

A propósito, nunca comi lá uma carne além ou aquém do (meu) ponto. É um respeito argentino, digamos assim, aos cortes Angus. Das pastas artesanais de produção própria, vou levar pra toda a vida a lembrança de um ravioli recheado com cabotiá e queijo meia-cura. Das carnes tenho poucas lembranças, só lembro-me da picanha, da fraldinha, da maminha, do contra-filé, do cupim, da costela, do neck steak, do miolo de acém, do bombom de alcatra, do tomahawk, do flat iron, do…


🥩🥩🥩

Carnes Mantiqueira

Av. Dr. Duval Nicolau, 2538

São João da Boa Vista, SP

Restaurante🍴
Almoço: terça a domingo
Jantar: sexta e sábado

Açougue 🥩
Terça a sábado, das 8 às 18h30

Domingo, das 8 às 14h


Inessa Carneiro e Josi Borges

Com o elétrico Kico Pessanha


domingo, 10 de março de 2024

Alma flecheira


 Nalgum dia da década passada, 18h30 em Poços, eu me abastecia na Panedota com as essenciais baguetes de levain. O horário do jantar se aproximava e comer na cidade era uma opção. Pedi à Fábia Batel, exímia padeira, uma dica de taberna para satisfazer meu apetite e minha necessidade de conhecer lugares inéditos. Ela não vacilou: “O Armazém da Vila, não tem erro, é a sua cara. Ah!, antes da refeição, o aperitivo pode ser no botequim que fica colado, a três passos, o Chico Biella”.

Minha fé em indicações para comer é cega. Tomei o rumo da Vila Cruz, um dos primeiros bairros de Poços, forjado com o desembarque maciço de imigrantes espanhóis. No século vinte, a elite do Centro da urbe alcunhava pejorativamente os habitantes da Vila Cruz de “flecheiros”, numa alusão jocosa a índios de tribos distantes. Hoje, o cidadão flecheiro se orgulha de suas origens, bate no peito e faz questão de ser assim chamado.

Astrud Gilberto nos recebeu com bossa nova no boteco. “Água de Beber” rolava gostoso na playlist. Rolaram também as sugestões do garçom: chips de jiló, coxinhas (a melhor da galáxia!) e caipirinha de três limões com rapadura. A tasca flecheira da avenida Champagnat flechou meu coração. O Chico Biella, intencionalmente ou não, trouxe um quê do espírito carioca à beira do vulcão.

A mesa ao lado, n’O Armazém, ficava também despojadamente na calçada. Vanessa da Mata cantava suave a minha dúvida ao passear pelo cardápio: “O Que Será?”. Foi spaghetti ao alho e óleo com steak au poivre. O êxtase foi tal que raras vezes me permiti ser apresentado a outros itens da carta. A definição da cozinha heterodoxa d’O Armazém da Vila? Não tem, mas eu arrisco: cozinha contemporânea e ecumênica que congrega as crenças do dono.

E quais são as crenças do dono? Não ser chamado de dono é uma delas. Novamente, eu me atrevo e divago: Flávio Molinari é o cara que está de passagem por lugares bacanas, juntando, aprimorando e compartilhando suas experiências e prazeres. Reservado, ele resiste ao protagonismo pessoal e prefere os holofotes voltados para sua comida, sua proposta e seu restaurante. Ok, Flávio, perdoe-me então minha breve indiscrição.

Filho de restaurateurs, a afinidade com as panelas veio do negócio dos pais e da independência que a mãe lhe concedia para preparar seus próprios repastos. Quando voou com as próprias asas no métier, de alguns tombos brotou a vontade de montar um bar de vinhos. “Era minha paixão desde os dezesseis anos, eu queria um espaço pra curtir o vinho de forma descomplicada.” Era O Armazém da Vila nascendo em 2016. Depois veio o Chico Biella e a Hamburgueria Villa Lobos, todos no quarteirão flecheiro da Champagnat. O sujeito boêmio que estuda música desde a infância —reza a lenda que ele já tocou clarinete com um trompetista n’O Armazém— e que adora charutos, discretamente, vai escrevendo nas páginas das enciclopédias de Poços um conceito ímpar de fazer e servir rangos. E a saga continua…

Vinícius Beretens, andradense, operário do mercado financeiro e residente em Poços, foi outro impiedosamente flechado pela esquina d’O Armazém. Habitué da casa, tantas foram as idas, que a amizade com Flávio decorreu das conexões recíprocas e das bençãos de Bacco. “Vamos abrir um restaurante italiano?”, provocou Vinícius.

Vai daí que no nada flecheiro cruzamento da rua Mato Grosso com a rua Ceará, o porão repaginado de um magnífico casarão centenário abriga o novíssimo e promissor Polenta, cuja culinária italiana tradicional tem no cardápio um respeitável rol de pastas e antepastos. Aquela Bota fundamental da mamma, de afetos e emoções, abraça no Polenta com uma arquitetura esplendorosa, elegante, ornada com arte e referências à pátria da lasagna. Mas o que envolve mesmo é a clássica receita, o prato generoso, o carbonara, o puttanesca, o matriciana, o cacio e pepe, o molho bolognesa, o pecorino, o guanciale, o parmegiano, o prosciutto, o tomate, a manteiga, o azeite, o pão, a sardela, o vinho, a polenta...

Enfim, naquele ambiente sofisticado de um imóvel aristocrático, o que sai das caçarolas tem a alma flecheira dos fogões domésticos, tem a beleza simples das ceias lautas que nutrem, aquecem, reúnem e encantam. 


🇮🇹🍝🧀🍷
Polenta
Rua Mato Grosso, 121
Poços de Caldas, MG
Quarta à sexta, das 18 às 23h
Sábado, das 11 às 23h
Domingo, das 12 às 16h





steak tartare com polenta frita




domingo, 3 de março de 2024

Gerações, aromas e paixões

 

Laurinha Tassi e Otávio Leite


Camerino Togo Nogueira da Silva e seus irmãos, Greenhal e Maurity, abriram, na década de 1950, a Casa Minerva de Secos e Molhados. Na esquina da Assis com a Prefeito Chagas, o estabelecimento abastecia a elite poços-caldense com aquilo que a crônica do passado chamava de mantimentos. Sacos de estopa, dispostos à frente do balcão principal, exibiam aos fregueses feijão, arroz, açúcar, fubá, farinha, entre outros. Vinhos e latarias eram expostos em prateleiras.


Não só a necessária ração diária era alcançada na Casa Minerva. Intelectuais, poetas e escritores também frequentavam o armazém para descontraídos dedos de prosa. Não sei dizer o que embalava o falatório, mas arrisco com grande chance de acerto: cachaça. Política da cidade, futebol, adultérios, furto de galinhas, amenidades, nada deixava de ser pautado nos colóquios acalorados da freguesia do senhor Camerino. Em 1960, a venda passou para novo endereço: rua Barros Cobra, também cruzamento com a Assis. Funcionou até baixar as portas definitivamente em 1976.


Bisneta pelo lado materno do legendário Camerino, Maria Laura Tassi é engenheira de produção diplomada pelo Mackenzie. Exilada em São Paulo no começo deste século para os estudos, ela, depois de formada, ficou na metrópole labutando por mais dez anos em um banco.


Em meados de 2016, as raízes chamaram e a capital paulista ficou para trás. Associada ao mano João Francisco, Laurinha ergueu um prédio comercial no mesmo terreno onde morou o patriarca Camerino. No número 253 da rua Barros Cobra, a Casa Minerva renasceu. Era fevereiro de 2019.


A proposta inicial, um empório requintado nos moldes da Mercearia Líder, tinha um diferencial: massas de produção própria e algumas mesas para degustação no local. Saladas, bruschettas, petiscos, frios e queijos fatiados na hora e antepastos. O atraente cardápio e a confecção das pastas tinham a assinatura de um jovem chef: Otávio Leite.


Abre parênteses. Otávio foi apresentado a Laurinha por um amigo comum. À época, ele trabalhava no Ollivia, cuja cozinha era comandada pelo talentosíssimo Henrique Benedetti. Ele, Otávio, considera o período no Ollivia e a mentoria do chef Benedetti os grandes estímulos que definiram sua vocação entre as panelas. Fecha parênteses.


Clientes mais assíduos da nova Casa Minerva começaram a pedir massas preparadas na hora e alguns itens fora do menu. Aos poucos, o restaurante foi ganhando corpo e tomando o espaço da mercearia.


Corta para 2024. Conhecemos a Casa Minerva no sábado do último Carnaval. Poços bombava com música e foliões nas praças enquanto aquele trecho da rua Barros Cobra estava espantosamente tranquilo. Facilidade para estacionar e uma refeição em slow motion, era o que buscávamos. Foi o que encontramos. Descobrimos mais, descobrimos um baita restaurante em que o trabalho do chef aparece no conjunto e nos detalhes, nos aromas e na apresentação, no preparo e na harmonização.


Vou narrar a experiência de nossa segunda visita aos domínios do casal Laurinha e Otávio. Sim, um casal, o tempero do cozinheiro encantou em demasia a proprietária.


Tentem sentir isso. Entradas: trio de bolinhos (costela com gorgonzola, cremoso de milho e coxinha de pernil com queijo Canastra); cream cheese sob geleia de pimentão amarelo e vermelho servido com torradas de ciabatta. Principal: robalo grelhado com camarões ao molho bisque servido com arroz de castanhas; filé mignon alto com crosta de ervas servido com tortelli de cogumelos. Sobremesas: petit gâteau de goiabada com sorvete de queijo; brownie com mousse gelado de chocolate branco. Bebidas: chopp Stella Artois, aperol spritz, mojito e tupiniquim (cachaça, manjericão, limão e xarope de cumaru). Tudo lindo e estupidamente gostoso à temperatura de civilizados 22ºC.


Em cada prato elaborado servido, Laurinha honra o nome Casa Minerva, homenageia o bisavô e reverencia o legado familiar de gerações passadas que fizeram História no comércio de Poços de Caldas. 

 

 🥩🍤🍹🍸🍨🍮

Casa Minerva

Rua Barros Cobra, 253

Poços de Caldas, MG

terça à quinta, a partir das 16h

sexta a domingo, a partir das 11h30

 

Em tempo: o grupo Citur, que administra sob concessão os principais pontos turísticos de Poços de Caldas, fez uma coletânea do melhor da cidade para replicar nas alturas, no novíssimo Mercado do Cristo; o belíssimo trabalho do chef Otávio Leite foi reconhecido e a Casa Minerva também está no topo de Poços.





domingo, 25 de fevereiro de 2024

O triunfo da borda tostadinha

Analu e uma de suas obras

Em Poços, frequentei o Katharino no começo deste século. Bar bacana, mainstream, lugar para ver e ser visto. Vou usar jargões da época para definir o público “katharinense”: mauricinhos e patricinhas. Tenho nenhuma lembrança do cardápio da casa, ou melhor, tenho uma única: o show pirotécnico que era a banana flambada preparada à mesa do freguês. O salão parava ante o espetáculo.


Ano passado, redondas e napolitanas razões levaram-me de volta à rua Santa Catarina. Ali, na esquina com a XV de Novembro, encontrei uma cena noturna bem diversa do extinto Katharino. Descobri uma Poços off-turismo, underground, colorida, alternativa. Ambiente multifacetado e ultrainformal. A cerveja artesanal (Borderbrew) é bebida ao ar livre, na calçada de piso irregular, enquanto playlists nada ortodoxas embalam os goles da etílica e democrática clientela.


O Bar XV de Novembro, botequim de estética old fashion, conserva o layout de priscas eras, mas o novo dono e jovens frequentadores estão em sintonia com a atmosfera plural do entorno. A taberna serve aqueles espetinhos do tipo churrasquinho de gato, cujo cheiro exalado faz o vivente perder a compostura.


O gentil atendente que mata minha sede na Borderbrew, Bruno, contou-me mais uma do pedaço: “Ovelha Negra é um pub bem legal. Rolam vários estilos de rock. Som no talo e uma discotecagem da hora”. Acho ousada e admiro a ideia, mas ainda não tenho o espírito liberto que me faça ser o tiozão roqueiro da pista. Pra ser sincero, nem sei bem o que é uma “discotecagem da hora”.


Voltemos então às redondas e napolitanas razões do segundo parágrafo. Elas são obras de Ana Luísa Scala, pizzaiola poços-caldense forjada em São Paulo na fantástica Iza Padaria Artesanal. Ela, vejam só, é filha dos donos do mencionado e extinto Katharino. “Eu meio que cresci inserida nesse meio”, assim Ana Luísa me responde sobre o estímulo para empreender no ramo gastronômico.


Era fim de 2022. Ela e o namorado Thom carregaram o carro em Sampa com forno, batedeira e outros utensílios. A proposta era fazer pizzas em pequenas reuniões privadas na cidade natal dela. Antes de caírem na estrada, o veículo estacionado na rua foi arrombado e todos os equipamentos foram furtados. Mantiveram o plano, mas recomprar o arsenal perdido foi necessário. As prestações das reaquisições foram pagas com a renda dos eventos que pipocaram com sucesso.


O êxito foi tal que abrir a pizzaria decorreu naturalmente. Tão natural quanto a longa fermentação e as bordas tostadinhas das impecáveis redondas da Furto Pizza. Sim, esse é o nome da rústica e despojada porta da menina Analu, que voou para estudar Gastronomia, cresceu e voltou às origens para assar espantosos discos napolitanos que fascinam todas as tribos.


🍕🍕🍕

Furto Pizza

Rua Santa Catarina, 663

Poços de Caldas, MG

De quarta a domingo, a partir das 18h