sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Nonô e Berê

superman

Recém-casados, Antenor e Berenice voltaram da lua de mel exaustos. Nem tanto pelas fogosas recreações carnais, mas muito pela estrada esburacada e sinuosa que a Belina 1987 enfrentou sem muito vigor.

O apartamento financiado cheira tinta fresca. Os presentes estão esparramados no chão da sala.

—Berê, panela de pressão é muito útil, mas a sua tia Izildinha é uma muquirana. Montada na gaita como ela tá, poderia abrir bem mais a mão e brindar a sobrinha com algum cacareco de mais valor. Tipo uma TV daquelas grandonas, pra eu assistir aos jogos do Curíntia.

—Nonô, fala nada não, peralá, o seu primo Castor, com um monte de casa de aluguel, podre de rico, e me vem com esse joguinho americano chinfrim. Essa coisa tá tão demodé quanto a sua Belina.

—Alto lá, não fala assim da minha Belina, senão eu falo da sua Mobilete, que vive engasgada.

—Alto lá, digo eu, deixei de comprar uma moto maior pra ajudar você comprar aquela mesa de pebolim que nem cabe aqui no apartamento. Aliás, coisa estranha um marmanjão desse querer mesa de pebolim.

Antenor faz biquinho e puxa Berenice pela cintura soltando uns murmúrios no dialeto “bebê aprendendo a falar”:

—Ah Beiezinha, num vamo bigá não, agóia nói tamo zuntinho, vamo ficá di bem.

Berenice é uma mulher turrona, mas o idioma “neném” derrete sua alma renitente:

—Ah Nhonhozinho, páia vai, assim eu fico toda arrepiada!

Amassos e mãos bobas param quando Berê bota os olhos numa caixa embalada com motivos infantis:

—Ué, que será isso? Parece presente de criança! Deixa eu ver o cartão.

Antenor fica apreensivo, calado, e Berenice segue espantada:

—Quem será esse Time Warner que mandou o presente? Sabe quem é Nonô?

Ela estranha a sisudez do marido e cutuca:

—Diga, homem de Deus! Desembucha!

—Então... [longa pausa e coçada na cabeça] preciso conversar com você sobre isso...

—Fala logo, tô ficando nervosa.

Ela abre o pacote estraçalhando papel e caixa:

—Quê isso, Deus do céu, uma fantasia do Superman!

Mão no queixo e muito circunspecto, Antenor responde compassadamente:

—Senta, Berê, senta... [ele espera ela sentar e lhe serve um copo d’água, antes de prosseguir] Berê, eu sou o Super-Homem. Isso não é fantasia, é minha roupa de trabalho. Antes do nosso casamento, eu liguei pra meu Chefe e falei que um homem casado não poderia sair por aí salvando a humanidade com uma roupa velha e uma capa desbotada. Na verdade, tentei até mudar um pouco o estilo. Não me agrada muito essa sunga vermelha sobre a roupa, mas Ele não concordou. Eu até entendo, tradição, coisa e tal...

Berenice empalideceu e sua voz mal saía:

—E o emprego no escritório de contabilidade do seu tio?

—Tudo fachada. Eu estou no mundo pra lutar contra as forças do Mal.

—E o salário, é bom?

—Já foi melhor, mas dá pra ter uma vidinha boa, sem muito luxo. Tô tentando pedir um adicional de insalubridade. Pego cada bucha de malfeitor em cada beco imundo.

—Ah Nonô, tudo bem, o que importa é estar empregado. Todo trabalho tem a sua dignidade.

—Tem outra coisa muito importante que eu tenho pra te dizer. É sobre a minha roupa de trabalho: não usar amaciante e secar sempre na sombra. E quando for passar, nunca passe o ferro quente sobre o S.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Paulo Henrique

margarina

Sujeito bacana esse Paulo Henrique. Um homem que os cronistas de antanho rotulariam como “bem posto na vida”.

É chefe de uma família que os escribas de hoje carimbariam como “família comercial de margarina”. Casado com Maria Alice há mais de década, pai de Ana Luísa e João Fernando, mora com muito conforto num condomínio fechado.

É empresário de sucesso: controla  uma agência de publicidade e uma gráfica que não param de crescer.

Religiosamente, uma vez por ano, leva a família para os parques de Walt Disney. Os filhos se acabam no Magic Kingdom e no Epcot Center, e a esposa se acaba em compras nos malls e outlets da Flórida. Também não deixa de fazer uma viagem só com Maria Alice, sempre no mês do aniversário de casamento deles —outubro— e habitualmente para destinos românticos. No ano passado, foi Paris e Saint-Paul-de-Vence, neste, será Veneza e Firenze.

Católico fervoroso, assiste às missas dominicais na igrejinha de São Bom Jesus. Adora as homílias do padre Herculano e contribui com generosidade para as obras sociais da paróquia. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Valoriza muito a educação. Frequentou os melhores —e mais caros— colégios e se graduou em Administração de Empresas nos EUA —na Universidade da Pensilvânia. Pela vontade dele, Ana Luísa e João Fernando vão trilhar os mesmos passos acadêmicos que os seus.

Paulo Henrique é muito preocupado com o bem-estar dos colaboradores. As empresas pagam salários acima do mercado, bancam planos de saúde completos e a cesta básica não tem nada de básica. Nas confraternizações de final de ano, todos os contratados são presenteados sem economia. Para agradar sua equipe, ele não olha para os cifrões. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Já foi um apaixonado por SUVs, aqueles veículos utilitários lindões, grandalhões e beberrões. Antenado com as questões ambientais, hoje, ele e a esposa dirigem carros menores, ecologicamente corretos. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Engajado, combatente nos bons combates, Paulo Henrique participa ativamente de vários conselhos municipais que discutem saúde, segurança, educação e infraestrutura urbana da comunidade onde vive. Sujeito bacana esse Paulo Henrique.

Torcedor fanático do Brooklyn Football Club, Paulo Henrique não perde nenhum jogo do time. Vai ao estádio quando o cotejo é em casa e gruda no pay-per-view da TV quando o BFC atua fora dos seus domínios.

Paulo Henrique, sem motivo aparente, vocifera insultos racistas aos negros das equipes adversárias. Quando erram jogadas, também os atletas negros do BFC são alvos das hostilidades discriminatórias de Paulo Henrique.

A casa enorme de Paulo Henrique tem muitos empregados. Faxineira, cozinheira, jardineiro e limpador de piscina. Paulo Henrique não admite nenhum negro para estas funções.

O grupo empresarial de Paulo Henrique emprega mais de 80 pessoas. Nenhuma é negra. Paulo Henrique acha que os negros não têm aptidão para o trabalho.

No seu meio social, Paulo Henrique é exemplo de pai de família e homem bem sucedido nos negócios. A embalagem vistosa mascara um cidadão de convicções abjetas, doutrinário de segregações raciais. Sujeito escroto esse Paulo Henrique.

Um pulha, definitivamente, Paulo Henrique NÃO é um sujeito bacana.

*imagens meramente ilustrativas

margarina2

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

As maçãs de Steve

maçãs

Steve é um produtor de maçãs. Mais: Steve produz várias qualidades de maçãs. Mais ainda: Steve produz maçãs e tem quitandas próprias que vendem suas maçãs no mundo inteiro. Steve refuta o termo quitanda; ele prefere Loja da Maçã.

Obcecado pela excelência, Steve investe pesado em pesquisas. Não passa ano sem que ele surpreenda o mercado. Ora cria novas espécies de maçãs, ora aprimora os atributos das já criadas.

Steve gosta de filosofar: “As pessoas não sabem quais maçãs querem, até que mostremos tipos diferentes a elas”. Steve entende de maçãs, mas Steve entende muito mais de gente.

A empresa de Steve fica longe daqui, num outro país. Nosso reino até produz algumas maçãs de Steve, mas as sementes vêm da terra dele.

No portfólio macieiro de Steve, as campeãs de vendas são a mAçã C e a mAçã S. Ele pouco explica a nomenclatura das suas frutas. Deduzo que o C é de comum e o S é de super. Minha dedução vale nada perto das convicções de Steve.

As mAçãs C e S têm sabor e tamanho muito parecidos. A modelo S, pela aparência mais robusta e polpa mais sumarenta, custa mais que a C. A diferença de preço nem é tanta, mas Steve encasquetou que os reinos menos afortunados iriam cair de amores pela mAçã C. Steve é um gênio, mas até os gênios se enganam. Os miseráveis rejeitaram a mAçã C de Steve.

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Orual, nativo do Reino das Bananas, é um pobretão inconformado. Sua birra tem a ver com o desapreço de Steve pelo seu torrão natal. As mAçãs novidadeiras só chegam à ilha de Bananal muitos meses após o lançamento na metrópole de Steve.

Os rompantes de impaciência de Orual beiram a insanidade. Mal tendo dinheiro pra comprar jiló na feira, ele voou para a Grande Maçã no intento inabalável de possuir a mAçã S.

O time de Steve é bem treinado para conter a turba de maltrapilhos ousados. O sotaque bananeiro entrega a origem e a Orual só é ofertada a mAçã C. Se os quitandeiros são bem amestrados, Orual é um jeca teimoso.

Na Grande Maçã, o caipira faz um périplo desesperado e passa por todas as lojas de Steve. Nada da S e tudo da C.

—Cê é o cacete! Eu quero a porra da esse!

O desabafo vigoroso sai no seu exótico dialeto aborígine. O brado ecoa até os ouvidos de um conterrâneo de Orual, infiltrado no exército de Steve, que se sensibiliza com o lamento.

O irmão-bugre acusa:

—A loja do Parque Central funciona vinte e quatro horas. Apareça lá zero hora que, na madrugada, chega uma carga extra de mAçãs S. No frio, antes do amanhecer, podemos vender a S aos descamisados dos trópicos.

Na sua distante hospedagem, Orual toma o trem das onze (Evoé!, Adoniran), viaja sessenta minutos no vagão vazio e, da Grande Estação, caminha mais sessenta minutos sob uma hostil temperatura polar para, glória!, finalmente receber a mAçã S dos branquelos assalariados de Steve.

Com a mAçã cobiçada na mochila, Orual vagueia pela grande cidade na companhia de artistas, bêbados e putas. Ele tem que matar o tempo até às seis da manhã, horário do primeiro trem de retorno.

Por alguma razão, ali, insignificante entre os arranha-céus, mal agasalhado, faminto e molambento, Orual amaldiçoou aquele casal desobediente do Jardim do Éden.

Em tempo: se alguém ainda tem dúvidas dos tons autobiográficos, o signatário do texto confessa sua busca desavergonhada por um iPhone 5S, no outono de 2013. E, convenhamos, truquinho manjado esse de grafar o nome de trás pra frente.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Amendoim no pote

paçoquita

O assunto, importantíssimo para a nutrição do cidadão, fundamental para os destinos do país, tem gerado comoção e repercussão nas redes sociais e nos portais de notícias.

A tal Paçoquita cremosa é a bola da vez no mundo digital. Marketing agressivo na internet somado a um intencional desabastecimento do produto, viralizaram a peanut butter tupiniquim —dizem até que colunistas de pequenos jornais e blogueiros embolsam polpudos jabás pra falar dela. Sei não...

E em ano eleitoral, os candidatos têm que alinhar seus discursos aos clamores da sociedade, seja em entrevistas ou no horário político obrigatório.

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William Bonner, impiedoso, provoca a presidenta Dilma:

—Candidata, no exercício do seu primeiro mandato a senhora criou vários Ministérios. Nenhum, repito, nenhum foi dedicado à amendoinocultura. Como consequência, enfrentamos essa carência de Paçoquita que tanto tem afligido os brasileiros. Como encher as prateleiras dos supermercados com o produto?

—Veja, Bonner, muito oportuna a sua pergunta. O meu quadragésimo Ministério será o do Amendoim e Congêneres. E mais ainda: vou criar a AmendoBras, uma agência do governo que vai gerir a produção e distribuição da Paçoquita em todo território nacional. Também não descarto enviar ao Congresso um projeto de lei instituindo o Bolsa Paçoquita. Pelo dispositivo legal, famílias que ganham até um salário mínimo por mês teriam direito a dois potes gratuitos de Paçoquita.

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Paulo Maluf:

—Bandido bom, é bandido preso. Polícia boa, é polícia na rua, é a Rota na rua. Paçoquita boa, é Paçoquita na mesa do trabalhador que, depois de um dia cansativo na labuta, precisa de energia para cumprir a contento suas obrigações conjugais. São Paulo não pode parar, a Paçoquita não pode acabar.

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Marina Silva:

—Os ideais do Eduardo não morrem com ele. Vamos honrar esse legado. Não vamos desistir do Brasil, não vamos desistir da Paçoquita.

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—Meu nome é Aécio Neves, vamos conversar? Nestes doze anos de desgoverno do PT nada foi feito para resolver esse grave problema de desprovimento de Paçoquita nos lares brasileiros. A minha primeira medida como presidente da República vai ser privatizar empresas estatais ineficientes e obrigar os compradores a adaptar seus parques fabris para que se transformem em grandes produtoras de Paçoquita.

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José Serra:

—Como ministro da Saúde, eu criei o medicamento genérico. Como senador por São Paulo, vamos criar a Paçoquita genérica. A mesma qualidade da original por um preço bem mais em conta. A locomotiva do país vai ser movida por pasta de amendoim.

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Geraldo Alckmin:

—O Paçoquita Para Todos vai ser um marco para a população bandeirante. Se a falta de chuva castiga o Estado com uma terrível crise hídrica, São Paulo vai ter o maior programa de inclusão paçocal do planeta. Sem água, mas com paçoca.

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Levy Fidelix:

—Dane-se a Paçoquita, a minha bandeira de campanha ainda é o AeroTrem...

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Leão Vermelho

gastronomia

A descoberta

Lendo a coluna da Alexandra Forbes, no caderno Comida da Folha, em dezembro de 2012, me deparo com isso:

“Restaurantes-miniatura oferecem algo mais valioso do que um menu bem-feito: a experiência de ser alimentado diretamente e intimamente por um cozinheiro interessante. Não são exclusividade parisiense. Vejo-os pipocando tanto em Nova York —Blanca, no Brooklyn— como em São João da Boa Vista, SP —onde Gabriel Vidolin, ex-estagiário do El Bulli, cozinha para quatro pessoas por noite em seu O Leão Vermelho. O fato de servirem poucos só aumenta o charme: nada como uma reserva difícil de conseguir para estimular a curiosidade de um gourmet…”

Decepção

Comida e Sanja, não necessariamente nessa ordem, atiçam vário instintos no autor destas mal-traçadas. Numa “googlada” achei o site e enviei mensagem ao chef pedindo um bate-papo pra conhecer esse inusitado restaurante. Uma assessora de imprensa, cujo nome afrancesado saiu da minha memória, respondeu-me via e-mail arrolando algumas excentricidades para que a entrevista acontecesse. A mais estapafúrdia —e aviltante— era submeter meu texto, antes de qualquer postagem ou publicação, à aprovação deles. É óbvio que, por isso, o colóquio não rolou naquele findar de 2012.

Mimo

Dia destes, um casal amigo, exilado nos EUA, investiu algumas verdinhas naqueles sofisticados condomínios mantiqueiros. Estava vigente a promoção: “Compre um lote e ganhe um jantar”. Este esfarrapado escriba e sua consorte foram mimoseados com os convites para repastar n’O Leão Vermelho. Presente a gente não recusa, agradece. Thank you, friends!

A chegada

20:20, último sábado, estaciono meu carro num trecho residencial da rua Getúlio Vargas. A alameda deserta fica mais lúgubre com a densa arborização que mitiga os raios da iluminação pública. Dois outros veículos já estão no pedaço. Ninguém se arrisca antes da hora marcada. 20:30, eu puxo a fila e cruzo o gradil vermelho. A testada é pequena e um jardim de poucos metros separa a calçada da porta. Um sininho à esquerda da entrada funciona como campainha. Meio encabulado, badalo o negocinho umas três vezes. Gabriel, muito gentil, nos dá as boas-vindas. Enquanto lamenta a ausência da sommelier, “Carolina precisou viajar às pressas para Montevidéu e não estará conosco nesta noite”, ele nos conduz à biblioteca. Entre livros, a maioria de gastronomia, somos aboletados numa mesa para quatro pessoas. Os dois outros casais que entraram logo atrás são acomodados em ambientes distintos. A casa é antiga, simples, a decoração prima pela sobriedade sem nenhum traço de rebuscamento. Várias peças da mobília foram concebidas pelo chef.

O confisco

“Não permitimos o uso de celulares n’O Leão”, decreta Gabriel antes de aprisionar meu gadget numa caixinha de madeira. A experiência ali implica na renúncia compulsória e momentânea à vida digital.

A brigada

Vidolin só tem o auxílio de uma pessoa na arte de cozinhar e servir: Felipe, um chef aprendiz made in Belém do Pará. O serviço é polido e corretíssimo.

A sequência

Não há possibilidade de escolhas. A definição do menu, cujos pratos são apresentados de forma impecável, é prerrogativa exclusiva da casa. A sucessão degustativa foi assim, salvo lapsos de memória: um frisante de Bento Gonçalves anima o paladar para um pão saindo do forno, de massa muito leve, acompanhado de manteiga caseira. Ricota fica bem com os parceiros, pepino, menta e biscuit de casca de laranja, e também tem a companhia do borbulhante gaúcho. Um mix de pastas in brodo —uma espécie de sopa— enriquecido com linguiça defumada e abobrinha. Tilápia grelhada salpicada com amêndoas, sementes de abóbora e gerânio. Estes pratos são harmonizados com um riesling chileno. O tinto, também do Chile, escolta o protagonista: lombo bovino —muito similar ao boeuf bourguignon— com purê de grão de bico e batata assada. Sobremesas: coalhada frozen com abacaxi assado e sorvete de amendoim chuviscado com raspas de chocolate. Os chamados digestivos vêm em dose tripla: chá frutado, licor Frangelico —feito de nozes moídas, misturadas com cacau e baunilha— e licor de framboesa. A água Fonte Platina, gasosa ou não, fica ali, sempre à mão, para um hidratante e protocolar intervalo entre os vinhos.

O chef

Gabriel Vidolin, 25 anos, formado no SENAC de Águas de São Pedro, já estagiou e trabalhou em restaurantes estrelados no Brasil e no mundo —El Bulli é o mais famoso, mas é do Mugaritz, no País Basco, que ele mais gosta. Sua cozinha é rotulada como autoral ao extremo. Ele é um artista no seu métier e como tal tem as suas idiossincrasias. Ele enxerga tons rubros no Leão e, talentoso e inventivo como poucos, não seria surpresa se o felino surgisse tingido de verde-limão. Ele é excepcional. Ele pode.

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Bento Experidião

bento

Imigrante libanês, o pai entrou no Brasil pela fronteira com o Uruguai. Tinha como referência alguns primos já estabelecidos em Cruz Alta. Nesta cidade do noroeste gaúcho, Hassem Experidião recebeu auxílio de parentes para começar a ganhar a vida naquilo que está no DNA dos árabes: vender.

Andejava por todo o Rio Grande do Sul, mascateando roupas, tecidos e armarinhos. Num destes périplos mercantes, conheceu aquela que seria sua esposa, Maria Fernandina. O casal trouxe ao mundo quatro filhos. Bento foi o caçula, irmão de três mulheres.

Bento pouco conheceu o pai, que morreu precocemente quando o filho mais novo ainda não tinha completado três anos.

A tradição libanesa privou o menino do convívio com a mãe. Separado das irmãs, ele foi criado por um primo do pai.

Aos dez anos, em razão do convívio difícil com a mãe postiça, Bento foi acolhido carinhosamente pela família de José Inácio Zenon, seu melhor amigo. Os Zenon, do patriarca Benjamin, eram proprietários de uma churrascaria. Bento mostrou sua gratidão labutando no estabelecimento de quem lhe deu teto e afeto. Lavar espetos foi sua primeira função. Dedicado e observador, não demorou a aprender os ofícios de assar e servir. Sua polidez e eficiência conquistavam os devoradores de carne. Fazia um bom dinheiro com gorjetas. Já envolvido com a arte do fogão, das bandejas e da boa comida, o garoto, então com doze anos, começou a sonhar com o trabalho na trattoria de Ettore Bonesso, à época, o melhor restaurante de Cruz Alta.

Em localidades pequenas, notícias pululam nas esquinas. E a vocação de Bento chegou aos ouvidos do italianíssimo Bonesso, que logo o convidou para entrar no mundo maravilhoso das pastas. As lasanhas protagonizavam o cardápio da trattoria.

Generoso, Benjamim Zenon não só abriu mão do seu competente auxiliar como incentivou-o a correr atrás do sonho. E mais: permitiu que Bento continuasse a morar com eles.

Com apenas doze anos, o filho de Hassem Experidião foi admitido como garçom numa das melhores cantinas do interior gaúcho. Do salão para a cozinha foi questão de pouco tempo. A gastronomia estava cada vez mais entranhada na vida dele. Sugava o que podia para aprender mais e mais.

A trajetória de Bento na trattoria terminou com o fechamento dela. Ettore Bonesso baixou as portas para acompanhar a filha a Santa Maria, onde ela cursaria a universidade.

O menino de Cruz Alta tinha quinze anos. Não tardou o surgimento de nova oportunidade no ramo que já o arrebatara definitivamente.

No Kalesch, teve o primeiro contato com pratos da alta gastronomia. Entre tantos clássicos, o menu internacional da casa servia coq au vin, boeuf bourguignon...

Essa cozinha requintada era comandada pela analfabeta e alcoólatra Rosa. Ela sabia tudo e mais um pouco e não economizou nos ensinamentos ao discípulo dedicado. A cozinheira recitava um mantra: “Cozinha que se preze tem que ter sempre água quente”.

Água fria na cabeça, Bento recebeu com pouco mais de ano no Kalesch. Wilson, o proprietário, perdeu o jovem profissional por ser inimigo do respeito e das boas maneiras.

Cruz Alta tornara-se miúda demais para as habilidades dele.

Gramado, na turística serra gaúcha, seria um destino perfeito para novos desafios em todas as funções dos operários do bem comer e beber. E assim foi.

Sua carteira de trabalho recebeu o carimbo do cinco estrelas Serra Azul, cuja cozinha era comandada pelo autoritário e muito competente chef Alejandro Diaz. Ali, apesar da dificuldade de comunicação com os colegas —só se falava alemão—, Bento foi agraciado com mais doses de conhecimento. Bem cedinho, antes da brigada alemã chegar, Dom Alejandro Diaz catequizava o promissor cruz-altino com segredos e macetes do sucesso nas caçarolas.

Dominando todos os fundamentos do bem cozinhar e servir, era hora de um aprendizado mais formal para mesclar com a prática. E foi no SENAC do Grande Hotel São Pedro que ele, aos 18 anos, mostrou suas virtudes fora das fronteiras do Rio Grande do Sul. Suas aptidões e empenho desmedido proporcionaram um estágio em toda a área de alimentos e bebidas do complexo São Pedro. Foram dezoito proveitosos meses no interior de São Paulo.

Da minúscula Águas de São Pedro foi alçado ao topo, literalmente, da maior cidade do país. Em 1975 foi ganhar e servir o pão no Terraço Itália, alto também na qualidade do serviço e da comida. No Terraço, conheceu gente importante e aumentou sua rede de contatos.

Na capital gastronômica brasileira, emprestou sua capacidade de trabalho a várias mesas sofisticadas, entre elas o conhecido La Tambouille do não menos conhecido Giancarlo Bolla.

Em todos os restaurantes, para não perder os cacoetes de todas as áreas do ofício, combinava com os chefes para, num dia da semana, inverter as funções.

Por curtos períodos, Maceió e Foz do Iguaçu também hospedaram e aplaudiram o engenho incomum de Bento Experidião.

Em 2003, por conta das origens da esposa Ivone, teve a ousadia de fincar em Espírito Santo do Pinhal o Opção Trattoria Bar, um restaurante com uma proposta ambiciosa para uma cidade de menos de 50 mil habitantes.

Foram nove anos deleitando paladares, formando talentos —Alessandra Lourenço é o maior exemplo— e consolidando um conceito de alta gastronomia em Pinhal e região. Descobrir, formar e lapidar gente com vocação para as panelas, diga-se, foi uma marca que o chef deixou nos lugares onde passou.

Nos idos de 2012, Bento resolveu vender a cria e migrar para a aldeia dos Crepúsculos. E nela, São João da Boa Vista, uma nova cria: o Bento’s, uma casa aconchegante, contemporânea, que sintetiza nos mínimos detalhes a trajetória notável deste obcecado pela excelência no fazer e satisfazer.

Numa época em que jovens chefs enxergam cores berrantes em felinos e pensam mais no marketing de suas esquisitices, sou mais o Bento que, discreto, peleja duro sob a coifa para honrar e perpetuar a clássica e irresistível boa mesa.

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Em tempo: O chef apresentou a sanjoanense Jéssica Taynara (foto) ao blogueiro. Mais uma preciosidade gastronômica da escola Bento Experidião. A garota —em fase de polimento— promete.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Samba X Tango

bra x arg

Das margens do rio Paraná para as águas do Jaguari. Alberto Enrique Umhof, argentino da cidade de Zárate, na província de Buenos Aires, escolheu o Brasil para ganhar a vida e criar seus filhos. Há algumas décadas no país, rodou um bocado pelo solo brasuca até ser seduzido pelos encantos deste torrão ao pé da Mantiqueira. No punhado de anos empreendendo em São João da Boa Vista, ganhou o reconhecimento da comunidade e desde 2010, “batizado” na Câmara Municipal, é cidadão sanjoanense.

Torcedor do Boca, o amigo aceitou o convite do blogueiro para um bate-bola abordando a rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina, muito comentada e nos limites da fervura na última Copa do Mundo.

1- Por que essa reciprocidade turística e admiração mútua não se estende ao futebol, onde a rivalidade em alguns momentos beira a agressão verbal?

Não existe —ou não existia— do lado de lá animosidade pós-jogo e seria impensável torcer contra o Brasil na maioria das circunstâncias para qualquer argentino, admiradores que são do "país da alegria"; a coisa passa rapidamente —ou passava—, não sei mais. Os argentinos descobriram agora, horrorizados, esse ódio feroz do torcedor brasileiro, parte do ser brasileiro que passa despercebido, o "homem cordial" descrito pelo professor Sérgio Buarque de Holanda se esconde fundo quando de futebol se trata.

Resta agora, depois desta descoberta, aguardar a reação do lado de lá, mas me parece que existirá a partir desta Copa a recíproca platina. Veremos como fica daqui em diante a relação com os turistas. Nunca houve dúvidas na Argentina sobre quem é o melhor quando de futebol-arte se trata, e isso faz com que a vitória contra os brasileiros seja sempre uma alegria extra, e perder é considerado normal, afinal o Brasil é pentacampeão.

Encontro na diferença idiomática, quando o amigo cita uma suposta “agressão verbal”, a causa da confusão. Afinal, o português tem inúmeros fonemas a mais que o espanhol, e desde que Rui Barbosa voltou de Buenos Aires com a expressão "nos chamam de macaquitos" e a internet popularizou depois do caso Grafite [num jogo da Copa Libertadores em 2005, o argentino Desábato, do Quilmes, saiu preso do Morumbi depois de ter chamado o sãopaulino Grafite de macaco]. Vivi na Argentina até quase meus trinta anos e posso garantir que a palavra macaco jamais foi usada para depreciar os brasileiros.

2- Via mídia, Pelé e Maradona vivem trocando “gentilezas”. Você acha que a linha editorial dos jornais Olé e Lance brotou desta rivalidade entre os ídolos maiores dos dois países?

Não. Acho que a responsabilidade é inversa. Pelé e Maradona são marcas, produtos de marqueteiros a serviço da FIFA, e que, de alguma forma, escaparam do controle, seguramente mais Maradona que Pelé. Os dois tem bandos de seguidores que compram jornais, essa é a causa real das diferenças, vender jornais, dar audiência a programas de TV, criar factoides em geral. E os dois ganham rios de dinheiro com isso. 

3- Neymar e Messi aparentemente são amigos, e já declararam torcer um pelo outro quando o confronto não envolver Brasil e Argentina. Esta postura menos bélica dos dois tende a atenuar a rivalidade ou pelo menos diminuir os exageros dos dois lados?

É um começo, depende de outros atores também. O indicador será a próxima Libertadores, inclusive hoje teremos uma amostra [essa resposta foi enviada na quarta-feira, 23/7, quando o Atlético Mineiro conquistou e Recopa Sul-Americana sobre o argentino Lanús, no Mineirão]. Galvão Bueno se aposentando ajudaria mais que a amizade destes dois guris [o locutor global é notório por botar lenha na rivalidade, repetindo à exaustão a célebre frase: “Ganhar é bom, ganhar da Argentina é muito melhor].

4- Como argentino radicado no Brasil há muitos anos, você em algum momento ou circunstância consegue torcer pela seleção brasileira?

Sempre que o rival não seja a Argentina, torço de coração pelo Brasil. Meus filhos são brasileiros.

5- Decime que se siente (diga-me o que sente) sobre o 7x1, o maior vexame na história do futebol brasileiro?

Sinto que está na hora de mudar conceitos no futebol brasileiro, principalmente na CBF e na TV Globo. O estado atual das coisas não está dando troféus e sim vergonha. Acho que foram sete porque Alemanha não quis machucar mais, até chego a imaginar alguma pressão no intervalo do jogo para isso acontecer. Foi mais doloroso o 0 x 3 contra a Holanda, porque confirmou a fragilidade de toda a estrutura. A recuperação será lenta e nada será como antes. Lamento muito o Barbosa [morto em 2000] não ter visto os dois últimos jogos do Brasil na Copa 2014. Teria sido libertador para o goleiro mais odiado do planeta.

Nota do blogueiro: o saudoso jornalista Armando Nogueira falando sobre Barbosa: “Certamente, a criatura mais injustiçada na história do futebol brasileiro. Era um goleiro magistral. Fazia milagres, desviando de mão trocada bolas envenenadas. O gol de Ghiggia, na final da Copa de 50, caiu-lhe como uma maldição. E quanto mais vejo o lance, mais o absolvo. Aquele jogo o Brasil perdeu na véspera”.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro

joao ubaldo

Quem não estiver apto a disputar o pentatlo nos Jogos Olímpicos não deve viajar do Rio de Janeiro a Berlim no que as companhias aéreas chamam de "classe econômica", embora saibam que se trata de um eufemismo para "vagão de búfalos" ­—exceção feita à comida, já que a dos búfalos é certamente melhor.

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Bem sei eu da imagem do Brasil. Falar em Brasil é evocar índios, a Amazônia e ditadores militares cobertos de medalhas do tamanho de panquecas, gritando ordens a pelotões de fuzilamento em espanhol de acentos bárbaros, nos intervalos de telefonemas nervosos para bancos suíços. O fato de um brasileiro, como eu, confessar que nunca esteve no Amazonas —viagenzinha de umas seis horas a jato, ou mais, a partir do Rio de Janeiro—, que só viu dois índios em toda a vida —um dos quais deputado federal, de terno e gravata— e que fala espanhol mal, eis que sua língua nativa é o português, deixa as pessoas dos outros países muito desapontadas, achando que estão lidando com um impostor, ou com um mentiroso cínico.

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Duas razões me fazem incompetente em matéria de dinheiro. A primeira vem da profissão, pois a opulência não costuma apanhar as letras. Lembro um outro escritor, respondendo sobre se livro dá dinheiro. “Dá, sim”, disse ele. “Contanto que não seja o escritor.”

A segunda razão é a minha condição de brasileiro. No Brasil, não há dinheiro. Há papéis coloridos e moedinhas talvez feitas de restos de panelas velhas. E isso vem de longe. Nasci quando o mil-réis foi substituído pelo cruzeiro.

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Formada em meio a esse ceticismo, a família estava, naturalmente, desprevenida para os rigores do inverno. Senti-me na obrigação de realizar pelo menos um seminário preparatório. Comecei com informações básicas, numa conferência preliminar em que abordei vários tópicos, tais como o que é o inverno, o que é frio —com uma aula prática mais ou menos dentro da geladeira—, o que é uma ceroula, por que não se pode passear no Halensee de bermudas e sem camisa em janeiro, como se explica que neve não é algodão nem tem açúcar, e assim por diante.

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Dir-se-ia então que é mais difícil um brasileiro ser atropelado em Berlim do que um nadador olímpico se afogar numa piscina infantil. Ledo engano, conclusão precipitada. Tanto eu quanto minha mulher, que sobrevivemos rotineiramente à travessia das ruas mais conflagradas do Rio de Janeiro, já fomos atropelados diversas vezes em Berlim. O recordista sou eu, com uns oito casos, todos sem maiores consequências, a não ser um machucadinho ou outro e protestos indignados por parte dos atropeladores. Sim, porque não fui atropelado por carros, ônibus ou caminhões, mas pelo mais terrível, impiedoso e ameaçador veículo que circula pelas ruas de Berlim: a bicicleta.

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Nota do blogueiro: Os trechos acima reproduzidos foram extraídos do livro “Um brasileiro em Berlim”, editora Objetiva. O autor, um dos maiores da língua portuguesa, contava histórias como ninguém. Irreverente, avesso a protocolos e formalismos, ele disparava para desencanto dos mais eruditos: “Encaro com muito tédio papo de literatura.” Quando ganhou o prêmio Camões, o escritor absteve-se de malabarismos explicativos e respondeu a um jornalista sobre o significado da homenagem: “Pra ser sincero, eu não acho nada demais. Ganhei porque eu mereço.” O signatário deste blog reverencia a genialidade do baiano João Ubaldo Ribeiro (1941-2014).

Última crônica de João Ubaldo Ribeiro

Mário Prata fala do amigo

Fernanda Torres, na Folha, sobre João Ubaldo Ribeiro

um brasileiro em berlim

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Alinne: a paixão que virou ganha-pão

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Criada num ambiente doméstico onde se respirava o futebol vinte e quatro horas por dia —o avô e o tio jogaram como goleiros em times amadores e profissionais de São João da Boa Vista—, ela era, desde criança, habitué em canchas nos mais diversos gramados da cidade. Na TV, sempre assistindo aos jogos do Tricolor paulista, a paixão ludopédica nasceu ouvindo os comentários táticos e técnicos do patriarca vovô, Teté.

Aos 24 anos, Alinne Mariane Fanelli e Mastiguim, jornalista formada em 2010 pela UniFAE, já militou em diversos —jornais, rádio e TV— órgãos da imprensa sanjoanense.

Hoje, emprestando seu talento ao Grupo Folha, que edita o maior diário impresso do país, ela perdeu preciosos minutos do seu tempo para responder alguma inquirições deste arremedo de colunista.

Por que abraçar como profissão o jornalismo esportivo, uma área predominantemente masculina?

Apesar de amar o futebol e viver neste meio desde pequena, nunca pensei em trabalhar no jornalismo esportivo. Durante o ensino médio é que essa ideia se consolidou. Desde então, tudo o que fiz em relação aos trabalhos de faculdade foram relacionados ao futebol. Sempre ouço: “legal você querer trabalhar com esporte, uma área que está crescendo muito entre as mulheres”. Sim, é verdade, mas o espaço pra nós ainda é bem pequeno.

Quais são suas inspirações/referências profissionais na imprensa esportiva?

Minha grande referência é o narrador da Globo, Luís Roberto de Múcio, pela pessoa e pelo profissionalismo dele. Por ter trabalhado quatro anos na TV SerrAzul, acompanho muito a Renata Fan e gosto muito da postura e do carisma dela no vídeo. Aprendo muito com ela. Depois que comecei a trabalhar em São Paulo, conheci inúmeros jornalistas talentosos, admiráveis, mas que são pouco conhecidos na grande mídia.

Como surgiu a ideia de biografar o Luís Roberto de Múcio? Ele aceitou prontamente ou relutou?

Desde o meu ingresso na universidade, em 2007, eu já planejava o meu tema para o TCC [Trabalho de Conclusão de Curso]. Inicialmente tentei escrever um livro sobre o Rogério Ceni, mas nas tratativas com a assessoria dele vi que seria um projeto difícil de vingar. No começo de 2009, pensei numa obra sobre o Luís Roberto de Múcio, pelas suas origens na imprensa esportiva de São João e por ser um narrador da maior emissora do país. Naquele ano, quando ele ministrou uma palestra na UniFAE, abordei-o relatando minha intenção e, de pronto, ele se mostrou feliz e honrado. Disse-me que ajudaria no que fosse necessário, mas que a distância —ele mora no Rio— poderia ser um dificultador. E, de fato, foi muito difícil escrever o livro sem contatos pessoais com o biografado. Mas, graças a Deus e muito suor, o resultado foi muito bom. Ele adorou o livro [Lances de Uma Vida, editora Scortecci]. Gostou tanto que me ajudou a registrar e incorporar a obra no acervo da Biblioteca Nacional.

alinne e de mucio

Existe o preconceito por ser mulher numa área dominada pelos homens?

Sim, existe. Não tanto entre os jornalistas. Quando você chega numa redação, mostra seu trabalho, se impõe, eles mostram respeito e o tratamento é profissional. Já quando o contato é com o público, leitores, o preconceito é grande. Críticas, xingamentos. Ainda por não ser tão conhecida, não fui vítima de uma discriminação mais explícita, mas tenho colegas de profissão que já ouviram coisas do tipo “teu lugar não é aqui, vai lavar louça”.

O Grupo Folha é um sonho de trabalho para muitos jornalistas. Como conseguiu ser contratada?

Consegui um contato com o editor do site da Folha no início de 2012 e disparava e-mails pra ele pra saber se tinha vaga. Depois de muita insistência, ele me ofereceu um trabalho temporário de quinze dias após os Jogos Olímpicos de Londres. Aceitei. Depois disso, me ofereceram uma oportunidade para trabalhar quinze dias por mês. Na ocasião, recusei por conta da minha pós-graduação. No final de 2012, veio outro convite. Aceitei novamente, alternando matérias para o site e para o jornal. Foi o período no qual comecei a cobrir os treinos dos times de SP. Ainda sem contrato de trabalho, era a freelancer que cobria as faltas de setoristas dos clubes paulistanos. Finalmente, no início deste ano, fui admitida pelo jornal Agora, do Grupo Folha, e, de acordo com as escalas, faço o trabalho em todos os Centros de Treinamentos das grandes agremiações de São Paulo.

Tem alguma coisa marcante pra contar desse seu início de carreira na grande imprensa?

Nunca escondi de ninguém o meu fanatismo pelo São Paulo Futebol Clube e minha idolatria pelo Rogério Ceni. Dia destes, andando pelo CT do Tricolor, cruzei com o Rogério e fui saudada com um gentil “bom dia”. Foi aquele momento mágico em que parei, respirei e pensei: “jamais poderia imaginar estar ao lado do Rogério, trabalhando, e receber dele um cumprimento cordial”. Por alguns momentos, mandei o profissionalismo às favas. Era eu, o Rogério Ceni e minha eterna paixão pelo SPFC.

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Copas, lembranças II

1994 – EUA

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Depois do fiasco do Mundial de 1990 e do jejum desde 1970, a pressão pela conquista era gigantesca. A escolha do treinador Carlos Alberto Parreira foi muito contestada pela torcida e por significativa parte da imprensa.

Estudioso aplicado de esquemas táticos, o técnico abdicou do futebol-arte para montar um time compactado e irritantemente obediente à sua doutrina. A preocupação excessiva em defender fazia a Seleção jogar um jogo feio, burocrático, antítese da cultura brasileira. Os gols saíam de lampejos da dupla Bebeto e Romário.

Na Califórnia, o jogo final contra os italianos retratou à perfeição o desempenho do Brasil naquela Copa: na História, foi o único 0 x 0 em decisões de Mundiais. Dunga, um personagem-símbolo daquela equipe, levantou a taça porque, nas penalidades terminais, Roberto Baggio chutou pra estratosfera. Dizem que a pelota foi achada, semanas depois, no Alasca.

Foi um time que não deixou saudades, mas, goste-se ou não de Parreira, ele foi coerente com seus princípios e suportou as potentes cornetas sem jamais incorrer em destemperos emocionais.

A maior feiura estava reservada para o retorno. Jogadores, comissão técnica e dirigentes abarrotaram o avião com 17 toneladas de eletrônicos e congêneres, sempre irresistíveis pra quem vai aos EUA. No desembarque, a delegação se recusou a permitir que a Receita Federal vistoriasse as bagagens. A CBF chantageou com ameaças de não levar a taça FIFA ao Planalto. Itamar Franco, presidente à época, capitulou e mandou liberar o contrabando.

Na minha memória, o voo da muamba é muito mais nítido que os gols do Romário.

 

1998 – França

zidane 1998

Mário Jorge Lobo Zagallo, ufanista até o último fio de cabelo, estava à frente do selecionado brasuca. Apesar de uma primeira fase vacilante, que findou com uma derrota ante a inexpressiva Noruega, os mata-matas foram jogos empolgantes, com destaques para a goleada sobre o Chile e a emocionante semifinal contra a Holanda, decidida nos penais. Taffarel defendeu duas cobranças dos laranjas.

A disputa pelo título foi com os donos da casa. Sem tradição na maior competição do futebol, os franceses foram menosprezados pelos tetracampeões. O pentacampeonato parecia inevitável.

Horas antes de entrar em campo, o ídolo Ronaldo sofreu uma convulsão, num episódio até hoje não esclarecido totalmente. Examinado e liberado por médicos de uma clínica parisiense, o atacante foi escalado.

Assustados com o ocorrido e divididos com a designação de Ronaldo entre os titulares, os brasileiros chegaram abalados ao Stade de France.

Os anfitriões gastaram a bola e o 3 x 0 acachapante escreveu nas estatísticas, em diferença de gols, o pior resultado da Seleção no livro das Copas.

Convulsão, corrupção, traição ou amarelão? Ainda pipocam por aí muitas conjecturas sobre o que aconteceu em 1998, de fato, com o principal goleador em Mundiais.

Pra este aparvalhado colunista isso é um debate secundário. A verdade é que os deuses do futebol são implacáveis com o salto alto e com quem despreza um gênio da magnitude de Zinedine Zidane.