sábado, 11 de abril de 2020

Pausa


O homem enxergou as vísceras de sua vulnerabilidade. O ritmo cotidiano diminui. A reeducação é forçosa. Revalorizamos o ecossistema planetário. Vemos, no sentido real e metafórico, o que era oculto pelas engrenagens incessantes. A natureza nos mostra mais do seu vigor quando menos interferimos nos sopros divinos. A vida, mais do que nunca, pede passagem. 

sábado, 4 de abril de 2020

Lamúria


O vírus à espreita nos espirros dos seres mais insuspeitos. Não, não há mais insuspeitos numa época de pandemia. Senhoras nas janelas amedrontadas com o que está além do portão. Ruas desoladas. O tráfego diminuto remete a tempos idos. Pessoas não flanam mais. As poucas que andam nas calçadas o fazem por necessidade imediata e específica. Visitam o mercado ou a farmácia e se recolhem novamente. Suas casas viraram bunkers antivirais. O convívio doméstico se mistura com uma nova forma de trabalhar. A mesa de jantar divide sua prazerosa finalidade com documentos e computadores. Varandas e quintais são o máximo possível de lufadas de ar. Usar a voz ao telefone voltou à moda. As motos de delivery entregam o que retirávamos nos balcões. É preciso ouvir, ao menos, quem víamos com frequência. Esteiras e bicicletas ergométricas foram reavivadas para cumprirem sua missão fundamental. Netflix e livros nos salvam do tédio. Escrever espanta nossas angústias. A música alivia nossa tristeza. Fanáticos gritando mentiras e insanidades escancaram nossa mediocridade como espécie. Dizer “estamos perdidos” nunca foi tão literal. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Verme


Quero luta
Necessidade
Varrer o biruta
Não à maldade

Praga, tormento 
Estupidez 
Sujo, nojento
Insensatez

Inepto, fraco
Sem norte
Bruto, velhaco
Cheiro de morte

Flores e cores
Viva!, virão
Ódio e dores
Passarão 

sábado, 7 de março de 2020

Restaurante Sítio Fortaleza

Comida caipira, comida da roça, comida rancheira, comida rústica...

Vários são os nomes que batizam o mesmo tipo de rango servido nos restaurantes localizados em áreas rurais. Nesse modelo de estabelecimento, quase sempre a família proprietária faz tudo: compra os insumos, limpa o salão, cozinha, recebe os comensais, serve mesas, repõe a comida, fecha a conta...

Fincado na Serra da Paulista, esse pedacinho de exuberância verde que conecta São João a São Roque da Fartura, o Restaurante Sítio Fortaleza regala com uma comida camponesa que agrada matutos pelas raízes e saudade e urbanoides pelo sabor e abundância. O pururucar da leitoa, o estalar da mandioca, o amargar do jiló, o roncar da feijoada, o queimar da lenha...

O repasto fresco, fumegando e cheiroso, evoca fogões do passado em casas de mulheres queridas —mães, tias e avós— que nos beijavam sem tirar o avental. O molho de pimenta artesanal e os doces caseiros com queijo denotam um cuidado também nos detalhes.

As portas estão abertas há quase vinte anos, e esta longevidade, penso eu, também se deve à geografia que proporciona uma visão cinematográfica dos arredores. O panorama contemplado dali sintetiza a singularidade desta Mantiqueira de tantas exclamações.

E por falar em mantiqueirices: a propriedade é agraciada, ainda, com uma cachoeira belíssima, cujo acesso é exclusivo aos clientes.

🥘🍗🍺 🍌🌳💦 
👉🏻Onde? Restaurante Sítio Fortaleza.
👉🏻Como? Acesso pelo km 4 da Estrada da Serra da Paulista (o Waze faz a rota sem erro).
👉🏻Quando? Sábados, domingos e feriados, das 12 às 15h.
👉🏻Quanto? Mastigue sem limites pagando 45 polentas por pessoa.
👉🏻Dinheiro de plástico? Deixe em casa essa modernidade e leve as antigas notas de real ou os esquecidos talões de cheque.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Cantina Galo de Ouro


A poesia na simplicidade. O encanto nos pequenos prazeres da vida. A surpresa nos recônditos da Mantiqueira.

Entrego-me, não raras vezes, às dicas de amigos quando estas trazem algum tesouro gastronômico da região. 

Entrego-me, não raras vezes, ao apelo irresistível de um frango assando em slow motion naquilo que a genial sabedoria popular apelidou de “televisão de cachorro”. 

A entrega deste fim de semana foi na vizinha mineira Andradas. Conheci lá, no Centro da cidade, um inusitado boteco que serve um irretocável frango assado.

Picado, servido numa prosaica bandeja de papelão, o penoso, temperado à perfeição, chega à mesa para ser devorado da forma preferida do freguês: com talheres ou deliciosamente com as mãos. É regra, pela secura, minha rejeição à carne do peito do frango. Na Cantina Galo de Ouro, pelo ponto ideal, todas as partes têm a suculência desejada por este escriba glutão. 

Devem acompanhar a refeição acessórios que contribuem para a grandeza do momento: farofa e maionese da casa, tudo com aquele jeitão de almoço de domingo que os mineiros sabem tão bem fazer.

A taberna é democraticamente frequentada por trabalhadores que relaxam com uma cervejinha no balcão e por casais sentados para o lauto repasto.

Desde a década de 1980 nas mãos da família Pádua, o bar é tocado pelo casal João Vergílio e Abigail e pelo filho João Vítor. Na prosa com o clã, que transborda gentileza, é admirável ouvir a preocupação deles com cuidado no preparo e com a satisfação dos comensais. 

João Vítor, dezoito anos, brilho nos olhos, é quem vai manter a tradição no nobre oficio de assar mais de mil frangos por mês por mais algumas décadas.

🐓🍗🍺
Cantina Galo de Ouro
Rua Cel. Eduardo Amaral, 286, Centro
Andradas, MG
35 99930-1264
(o bar abre diariamente, mas o frango só é servido de sexta a domingo, das 8 às 23h)

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Sabores & Motores - Santa Fé Old Bar



Um barracão rústico que abriga preciosidades automobilísticas de clientes de todas as regiões do Brasil. Um casal forasteiro que escolheu Sanja pra viver. Um cara inventivo, que adora cozinhar, entusiasmado por comida de boteco. Uma mulher que abraça os projetos, arregaça as mangas e faz acontecer. Um bar ultrainformal com mesas espalhadas entre objetos antigos, Karmann-Ghias e Lambrettas. Uma coleção de vinis e CDs. Um som dominado por rock e MPB. Um torresmo de rolo, um pastel de feira, uma casquinha de siri, uma porção de camarão e uma cerveja estupidamente gelada.

Estrondoso sucesso nesta província crepuscular, o Santa Fé Old Bar está, em razão de alguns contratempos, momentaneamente com as portas cerradas.

Logo, deveras logo, sem deixar a paixão esfriar, ele vai renascer em outro local com o mesmo charme, com o mesmo DNA mesclando sabores e motores.

🚗 🐷 🍺 🎵 
E ele renasceu…
Outro prédio, a mesma atmosfera!
Agora no(a) Pratinha.
🚗 🐷 🍺 🎵
Rua David de Carvalho, 490
São João da Boa Vista, SP 
19 99471-5681


quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

No Quintal


Sei lá, aos 49 já me sinto um tiozão pra me arvorar em determinados estabelecimentos.

Por isso, embora fã do trabalho do Paulo Vieira Rosa e equipe desde os primórdios do Hills Burger, eu estava um tanto ressabiado pra baixar no novíssimo Quintal. 

Ver o bar bombando com uma juventude que curte bebericos desgarrada de mesas e cadeiras é um tanto fora do convencional —e até assustador— pra este roliço e velho cronista.

O gentil convite do Paulo pra conhecer a casa foi um providencial empurrão neste quase cinquentão crepuscular.

Visitar o local num fim de tarde de uma quarta-feira me livra da árdua tarefa de falar da programação musical que rola ali. Só garanto aos meus contemporâneos tiozões e tiozonas que na playlist —ou no palco— não vai rolar necas de MPB de barzinho. 

Informal, cheio de estilo, moderno com tempero retrô, o mantiqueiro boteco tem arroubos interessantes no cardápio. A talentosa —sou fã— chef Mariana Almeida comanda a cozinha e assina leituras e releituras de clássicos botequeiros. 


Legendando as fotos do post... 

O bolovo —eu clamava por um bom na província— e a coxinha são feitos com uma puta massa leve e empanados com a flocada farinha panko. A coxinha, cujo recheio tem alho-poró e cebola no refogado do frango, é servida numa inusitada caixinha de ovos, em sêxtupla porção. O nome? “O ovo que deu certo”. Me diverti com o pândego batismo, mas penso que ovo é uma perfeição culinária que dá certo de qualquer jeito em qualquer circunstância.

Carne moída bem condimentada e (meio) ovo de gema mole recheiam o tradicional —bolovo— salgado de origem britânica. O miolo, super úmido, harmonizou à perfeição com a massa sequinha. Fodástico ao quadrado!

Bauru é item inegociável em qualquer carta que se preze em Sanja. O do Quintal se inspira no Philly Cheese Steak da Filadélfia. O pão ciabatta da Fornarii abraça rosbife, molho de queijo e tomates confitados. Outra lindeza arrojada e deliciosa.

Fim das legendas, segue o bonde...

Ah!, o mago dos drinks Roberto Merlin concebeu a coquetelaria da taberna. Só tem fera!

No escritório do Paulo há um prosaico quadrinho com um baita lema: “trabalhe duro e seja legal com as pessoas”.

É isso! A vida recompensa o fazer bem feito.

🍔🥪🥚🍺🥃🍹
Quintal
Av. Dr. Durval Nicolau, 1210
São João da Boa Vista, SP


segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Empório 3 - Linguiçaria


Uma essência da caipirice: o pão com linguiça. E bota também nesse sanduba no pão francês, sem miséria!, nacos generosos de queijo Minas, vinagrete e molho de pimenta caseiro. Ah, essa linguiça da foto é de puro pernil misturado com provolone e rúcula.

Renato Pires, vinte anos no ofício linguiceiro, abriu na 14 de Julho o “Empório 3 - Linguiçaria”, uma casa que faz e serve vários tipos de linguiça da melhor carne suína. Crua, defumada, seca, em porções, no sanduíche, na coxinha, na empada…

Chopinho Gorillaz hidrata com dignidade o comensal linguiceiro.

Minhas sugestões ao Renato, fiz no privado e reverbero aqui: meter um ovo caipira no sanduba e criar outras variações usando os defumados de porco de fabricação própria. 

🐽 🐷 🐖 
14 de Julho, 711
São João da Boa Vista, SP
19 98136-0653
De segunda a sábado até 21h, aos domingos, até 13h

domingo, 19 de janeiro de 2020

Sohho Gastronomia


Uma elegante e centenária casa numa área residencial do Centro de Poços. Um salão requintado, iluminado, arejado, ornado com móveis clássicos e sonorizado com música civilizada. Um piano de cauda. Um jardim lindo. Um garçom das antigas. Um jovem chef —Diego Arteiro— que já rodou o mundo. Um cardápio surpreendente. Um preço que não custa o seu rim.

Uma região, várias exclamações!

🥩🍤🍷🎹 
Sohho Gastronomia
Rua Corrêa Netto, 857 - Centro
Poços de Caldas, MG


domingo, 12 de janeiro de 2020

Gloc Villa


“Bom dia, Lauro”, 
“Bom dia, Josi”.

Os post-its manuscritos repousam na elegante mesa do café da manhã. A saudação matinal é uma das inúmeras gentilezas que o anfitrião Gil Sibin faz a todos os hóspedes do incrível Gloc Villa.

Gil, um inquieto com alma de artista, se reinventou como empresário criando, há quatro anos, uma pousada singular nesta Mantiqueira de verdes seduções.

O Gloc Villa tem nas minúcias e na prosa boa do proprietário um caldo de cultura decorrente de uma vida corporativa intensa permeada por viagens planetárias. 

A arquitetura rústica harmonizada com o entorno de natureza. Peças em madeira recuperadas de construções centenárias mescladas com objetos de decoração vindos de todas as partes do mundo. Um atendimento personalíssimo, sem formalidades, que proporciona a quem se hospeda uma estadia inesquecível.

As suítes, acolhedoras no conforto e no bom gosto, foram concebidas para causar diferentes sensações. Harmônicas, cada qual proporciona um impacto visual, seja pela paisagem fotografada na janela, seja pelos ricos detalhes ornamentais.

Ficar no Gloc é uma sucessão de encantos e, porque não dizer, de espantos.


🌳💦🍷🧀 
Rua Antônio Ortolan, 227
Águas da Prata, SP 
Contato direto com o Gil: (19) 98120-0703