segunda-feira, 7 de abril de 2014

Pílulas de viagem

Cidade-Luz

paris

O Sena, a torre, os queijos, o vinho, o Louvre, o metrô, a baguete...

As infinitas alamedas arborizadas, as pontes clássicas, as luminárias de ferro, os cafés cheios de charme, os prédios nunca exageradamente espichados, a Torre Eiffel iluminada ou não, os museus indescritíveis e os monumentos mais conhecidos do mundo, os crepes de chocolate na rua... Paris respeita seu passado, mas não abdica da constante renovação, de forma ponderada, prudente, associada sempre a um inimitável bom senso: elegância. Essa elegância, sofisticada sem ser arrogante, magnetiza qualquer visitante, em qualquer esquina da cidade, em qualquer época do ano.

Underground

metro

Nas inúmeras viagens que fizemos no fantástico metrô parisiense, eram raros os vagões que não tinham artistas de rua, cantores, se apresentando. Imigrantes na sua maioria.

Toda sorte de world-music nos repertórios. Roupas e instrumentos puídos, mas muita, muitíssima energia, nas performances.

Os aplausos ante as exibições eram raríssimos e o semblante indiferente, quando não de incômodo, dos passageiros imperava nos trens.

Apesar desse sentimento de rejeição, da acústica pouco adequada, do vai-e-vem extenuante entre as estações e dos míseros euros arrecadados em prosaicos copinhos, os cantantes mantém a altivez e soltam a voz com alma, dignificando a arte que, num ambiente hostil, leva o sustento a suas proles e alimenta o sonho remoto de, quem sabe, um dia retornar ao torrão natal.

Veneza

veneza

Patrimônio da humanidade, berço de seis Papas, de Tintoretto, de Vivaldi...

Foi uma pujante locomotiva comercial do planeta a partir do décimo século e, segundo alguns historiadores, foi também a primeira capital econômica do capitalismo. Hoje, graças!, vivas!, salve!, os encantos são menos monetários e mais históricos.

Desembarcar em Veneza pela primeira vez é de arrepiar. O pranto é certo até para o mais casca-dura dos viventes. As expectativas criadas em torno da cidade viram sombras diante dos espetáculos de desenhos, cores e luzes que se espalham ao longo dos canais que costuram a inusitada malha urbana. Zanzando sem rumo pelas vielas ou navegando nas gôndolas, é impossível passar sessenta segundos sem que esbarremos em novas e singulares atrações.

Veneza acolhe, ensina, inspira e emociona!

Grazie, Dio, grazie!

napoli

No penúltimo dia na Bota, a incrível Pompeia sob a sombra do finado(?) Vesúvio.

No trajeto de Roma, o pit-stop em Napoli é necessário para embarcar em outro trem. E Napoli traz redondos instintos.

Sigo indicações de blogueiros e críticos gastronômicos e, após dez minutos de caminhada da estação Centrale, entro na Trianon, uma pizzaria de 1923, bem defronte a famosa Da Michele. Esta última, conhecidíssima pelas pizzas e por servir de cenário para um filme da Julia Roberts —Comer, Rezar e Amar—, fecha aos domingos.

Voltemos à Trianon: poucas mesas, ambiente espartano e uma brigada de donos, garçons e pizzaiolos carismáticos. A escolha tem que ser ortodoxa. Dois discos, um pouco menores que as nossas pizzas grandes —é assim que os italianos pedem, individuais—, uma margherita tradicional e outra também margherita, com mozzarella de búfala.

Massa crocante por fora, macia por dentro, nem muito fina, tampouco alta. O molho, generoso sem ser demasiado, pouco ácido, não encharca a massa. O queijo, na quantidade perfeita pra você não sentir falta nem reclamar do excesso que desequilibra o conjunto. PRIMOROSA! SENSACIONAL! EMOCIONANTE!

A tarde andejando nas ruínas de Pompeia abre o apetite antes do retorno a Roma. E eu não voltaria pra capital italiana num domingo à noite sem outra napolitaníssima esfera. Resolvemos variar de casa. Mico, armadilha, pega-turista, uma arapuca chamada Le Sorelle Bandiera.

Atrasado para embarcar e revoltado com o engodo, esbaforido, parei de novo na Trianon e pedi uma take-away.

Enfim, um domingo inesquecível neste naco de chão abençoado e sofrido que é o sul da Itália, na mítica Pompeia, e em Napoli com uma overdose do maior legado dos napolitanos a este maltratado planeta: a PIZZA.

Grazie, Dio, grazie!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Theatro, 100: heresias e bênçãos

theatro

Criança nos 70 e adolescente nos 80, destas épocas recordo-me de um Theatro que não era bem um teatro.

Na fachada o luminoso da Coca-Cola anunciava o botequim em letras imodestas. O velho bar que roubava espaço do foyer tinha lá suas tradições gastro-etílicas, mas destoava estética e conceitualmente de uma casa de espetáculos.

Minhas primeiras incursões por ali foram para beber conhecimento na Biblioteca Municipal. Sim, o prédio histórico também abrigou o conjunto de livros públicos deste torrão da Beloca. No térreo, goles mais mundanos nos puídos copos americanos do Bar Teatro. No pavimento superior, absorções mais literárias na Biblioteca Jaçanã Altair.

O sítio da AMITE conta que na década de 1930 o Theatro passou também a funcionar como cinema. E em razão dos filmes as nádegas deste inepto cronista repousaram pela primeira vez sobre as então poltronas nada confortáveis do Cine Theatro.

Naquelas programações especiais da semana da criança, o Theatro era invadido no mês de outubro por hordas de estudantes ávidos para a diversão com as projeções de películas açucaradas do tipo Lassie. A molecada delirava com as peripécias da cadela da raça collie.

Fora estes cartazes infanto-juvenis ocasionais, a agenda era permeada pela agilidade do Bruce Lee e congêneres em fitas B de kung-fu.

Vieram os 80’s e, aos montes, cinemas interioranos decadentes fecharam as portas. O Cine Theatro foi um deles.

No período, os púberes desta Sanja ocupavam diariamente o foyer do espaço. O motivo tinha pouco a ver com arte. O magnetismo que os atraía pra lá era viciante, colorido e barulhento: um fliperama mal ajambrado se aboletou por ali. O signatário destas linhas era um dos habitués nas maquininhas eletrônicas.

Uma providencial canetada do prefeito Nelson Nicolau, no seu primeiro mandato, declarando a utilidade pública do Theatro, deu início à recolocação do espaço nos trilhos da sua vocação cênica-musical.

O tombamento em 1987, a Fundação Oliveira Neto, a AMITE, a reforma, muita gente abnegada, muita briga em prol da cultura destas plagas macaúbicas. Uma sucessão de atos e fatos que ressuscitaram o Theatro para a arte.

Pano rápido. Salto no tempo para outubro de 2013.

Arteira, irrequieta, multifacetada, a confreira Maria Célia Marcondes roteiriza uma homenagem da Academia de Letras de São João da Boa Vista ao centenário do poetinha Vinicius de Moraes.

Exclamações e interrogações apoquentaram a cachola deste aparvalhado escriba, assombrado com o convite para, absurdo dos absurdos!, ser ele a encarnar no tablado um dos maiores nomes da cena poética e musical brasileira. Miseravelmente, caminhávamos para um desastre.

Vinte de outubro último, um pouco alto pelas doses do Red Label que aliviaram seus temores, o herege que vos fala, medíocre na arte dramática, ali sobre a piso sacro do palco do Theatro Municipal de São João da Boa Vista, representando Vinicius de Moraes, entre boquiaberto e perplexo, percebeu que sua performance iluminada tinha inequívocos sinais das bênçãos de Apolo.

vinicius

domingo, 22 de setembro de 2013

Habibi, Tenda do

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Pego a rodovia rumo à província poçoscaldélica buscando alívio no incomodamento causado pela quentura climática.
E vou também para reencontrar os deleitamentos apetitosos do chef Rafael Moisés, esse neto de libaneses que realiza com primor temperístico a cozinha milenar dos seus ancestrais.

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A Tenda do Habibi, cravada no coração da agitada e charmosística urbe mineira, está mais bem fornida de detalhismos estéticos, mas continua fiel às origens ofertando aos comensais pratos deliciosos em porções generosas, visualmente sedutores, acompanhados de um atendimento simpático.

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E todo esse conjunto de corretismos no bem servir não avança com ganancismo nos seus níqueis. O preço é justíssimo.
A sugestão para uma sequência de mastigamentos jubilantes: quibe cru sob cebolas caramelizadas, babaganoush, uma sagrada coalhada seca com figo ramy, charutinhos e, o gran e dulcíssimo finale, doce de semolina, uma sobremesa de encantamento inergaláctico feita de sêmola de trigo, ameixas, ovos, assada lentamente para manter a cremosidade, e que aterrissa à mesa submersa numa sutil calda cítrica.

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Confetes e confetes, Rafael, e que o seu entusiasmo pelas tentações paladarísticas perdure por mil gerações.

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https://www.facebook.com/tendadohabibi

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Carlos, Henrique e Jorge

foto P&A_PB-PARA JORNAL

Nos ramos paterno e materno da família de Carlos havia cafeicultores. Até a vida acadêmica, no entanto, nunca se interessou pela cultura do grão que sustentava vários da sua casta.

O avô de Henrique foi o médico, daqueles devotados clínicos gerais das antigas, Dr. Paschoal. Apaixonado pelo ofício e por literatura, quando morreu deixou nos arquivos do consultório as fichas de mais de dez mil pacientes. Milhares também foram os livros deixados por ele, que tanto fascinaram o neto na infância e adolescência. A biblioteca ecumênica do ascendente era mais sedutora que as brincadeiras de rua.

Comerciante, o pai de Jorge foi um visionário. A Casa Brasileira, fundada nos anos 1950, foi uma precursora do que são hoje as lojas de departamento. No estabelecimento, Rogério vendia de aviamentos a ferramentas, passando por presentes, papelaria e uma infinidade de utilidades domésticas e miudezas.

Na tradicional —e pública— escola Cardeal Leme, Carlos cursou da primeira série ao fim do hoje chamado ensino médio. A professora Joanna Di Felippe o marcou. Marcou pela compulsão com que enchia a lousa de lições —ela não usava cartilhas— e pela vara de madeira que, entre outras serventias, repreendia pupilos relapsos.

Corajoso, Henrique muito provavelmente foi um dos pinhalenses pioneiros em programas de intercâmbio. No ano letivo 1968/69, uma família do estado norte-americano do Colorado o acolheu no último período da high-school. Dos EUA trouxe experiência de vida, fluência no inglês e a afeição dos que o hospedaram.

A província ficara pequena demais para os anseios universitários do jovem Jorge. Na excelência da Politécnica da Universidade de São Paulo, com brilhantismo, granjeou o canudo de engenheiro civil.

Por algum tempo, Carlos labutou no torrão natal. Ora com empreendimentos imobiliários na iniciativa privada, ora com planejamento urbano no setor público. Ainda, lecionou Hidráulica e Irrigação na Faculdade de Agronomia, onde conviveu com professores visitantes do renomado Instituto Agronômico de Campinas, o IAC. De pesquisas desta instituição campineira saiu a maior variedade de cafés plantados no mundo.

Henrique nunca perdeu a ambição por conhecimento em plagas estrangeiras. Atraído por um anúncio publicado no Estadão, voltou à América como o único brasileiro selecionado para um programa de estudos no MIT —Massachusetts Institute of Technology. Neste ultra-conceituado centro educacional, recebeu, após um ano, o convite para fazer doutorado. Na época, por conta do curso, a cada dois meses viajava ao Egito, onde ficava quinze dias engordando sua bagagem acadêmica estudando e propondo soluções para as mazelas urbanas da nação africana.

Amigo dos donos da Máquinas Pinhalense, Jorge, nas férias, auxiliava-os como intérprete no contato com clientes gringos. Mais que um tradutor, ele era um atento observador. Observava e falava com o estofo cartesiano de um diplomado pela Poli: “A empresa fabrica com competência, mas não tem muita visão para a realidade dos países compradores”. Das críticas assertivas veio a proposta para criar/organizar o departamento de exportação da companhia. Os equipamentos da empresa, à época, estavam presentes em 12 territórios além-fronteiras. O apuro da área técnica em conceber e aperfeiçoar equipamentos que revolucionavam o beneficiamento de café aliado a uma eficiente [nova] área de comércio exterior seria determinante para a expansão da Pinhalense. E foi. Hoje os produtos made in Pinhal estão espalhados em noventa países nos cinco continentes. Mais da metade do café consumido no mundo passa por pelo menos uma máquina Pinhalense.

Carlos Henrique Jorge Brando, fragmentado nos parágrafos acima num tosco exercício literário do signatário do blog, é o cara de currículo invejável responsável por mudar e modernizar processos de beneficiamento de café em grandes países produtores.

Em 1995 saiu da empresa, mas permaneceu na missão através da P&A, uma cria para prestar de forma terceirizada o que ele fazia de carteira assinada. Mais que um vendedor de máquinas, Carlos Brando passou a ser participante ativo do agronegócio e, por consequência, aprofundou sua dedicação para dominar ainda mais o conhecimento em todas as etapas de produção e comercialização do café.

Palestrante requisitado pelos principais eventos cafeeiros do mundo, Carlos Brando multiplicou os negócios. O grupo comandado por ele tem 30 colaboradores que pensam café 24 horas por dia. Vende máquinas e consultorias, exporta cafés especiais, torra e distribui um produto extra-qualidade no maior centro gastronômico do Brasil. Uma das quatro empresas da holding é a GSB2, uma agência de propaganda especializada em café.

Do seu seleto grupo de colaboradores sai um boletim mensal bilíngue —inglês e espanhol— que atinge sete mil pessoas ligadas ao ramo nos cinco continentes. Quando o assunto é café, Carlos Brando é fonte de importantes veículos de mídia planetários: seu nome é citado com frequência pelo Financial Times, pela Reuters, pela Bloomberg...

Ainda, sabe-se lá como, arranja tempo pra ser membro de vários conselhos, governamentais ou não, que discutem e norteiam o métier.

Seguro, ponderado, generoso, Carlos Brando rejeita individualismos e credita o êxito negocial ao trabalho da equipe.

Instável, doidivanas, egoísta, o autor destas linhas enxerga méritos incontestes no serviço dos sócios e funcionários, mas não pode se abster de reverenciar a sumidade cafeeira personificada no pinhalense Carlos Henrique Jorge Brando.

E arremato, indagando como um forasteiro: Espírito Santo do Pinhal reconhece como deveria os feitos extraordinários deste filho ilustre?

sábado, 17 de agosto de 2013

Pulperia do Moraes

antigamente botequim

Sérgio Moraes é um eterno devotado à cultura de boteco.

No bairro do Rosário de suas origens, a tubaína com furo na tampinha era sorvida nas tabernas do entorno. Bar do Didi, Bar do Monsueto, Bar Tiradentes e Bar 25 compunham a trilha de estufas abarrotadas de acepipes cheios de gordura e temperos.

O moleque tinha paixão por aqueles ambientes encardidos, um tanto desregrados, de prosa e bebidas sem limites. A paquera intensa tinha alvos certeiros: torresmos, ovos coloridos, linguiças e salsichas mergulhadas em molhos suspeitos.

Aos 11 anos enxugou a primeira caipirinha de limão-cavalo. Daí o primeiro porre e o início de uma jornada de prazeres belisco-etílicos.

Por 21 anos ganhou o pão no Foto Real. O que lograva com retratos e revelações deixava nas tascas. E Sérgio foi fundo nas explorações taverneiras: da Tijuca e Vila Isabel, no meio da malandragem carioca, aos cafundós das Minas Gerais, passando, claro, por Belo Horizonte, a capital das alterosas e destino número um dos beberrões e comilões de bodegas.

A primeira aventura atrás do balcão foi o Villa Petiscos, ali na Campos Salles com Teófilo de Andrade. Pelo tamanho e pela estrutura a casa escapou um pouco do conceito do criador e, por essa e outras razões, encerrou as atividades prematuramente. Portas fechadas que deixaram lições ao empreendedor e um legado baiuqueiro a este torrão crepuscular.

Sujeito de convicções, Sérgio voltou ao métier dia destes com o Antigamente Botequim, onde propõe algumas de suas crenças: informalidade, improviso, desalinho, nada de garçons nem números nas mesas, freguês tem nome e apelido, cerveja estupidamente gelada, lousa tosca em vez de cardápios, atendimento caótico, preço justo, cachaça, costelinha de porco com mandioca, fígado acebolado com jiló, bolinho de batata com calabresa, dobradinha, bucho ao vinagrete, panceta, frango com quiabo, chouriço, pimentas várias e por aí segue nestas oleosas e rústicas veredas do paladar.

Que venha o M amarelo do Tio Sam. Os súditos da Beloca acolhem a diversidade, mas, matutos de alma, estão aí com o pé na terra aferrados ao melhor das suas tradições.

Essa vai pro santo!

E dá-lhe gole da marvada no chão áspero e puído do Antigamente.

Em tempo: a chafarica —salve Houaiss pela vastidão de sinônimos— fica na Avenida Oscar Pirajá Martins, 344, pertinho do Instituto.

domingo, 11 de agosto de 2013

Letras, aromas, pimentas e irreverência

Com muita honra fui incumbido de fazer o elóquio de saudação a João Batista Gregório. O amigo, por minha indicação, foi empossado na na noite de 10 de agosto de 2013 na cadeira 37 da Academia de Letras de São João da Boa Vista. Baita orgulho!

posse Tista

Boa noite, presidenta Lucelena Maia, componentes da mesa, confrades, confreiras e convidados. Boa noite, bardo Ademir Barbosa de Oliveira e boa noite ao amigo João Batista Gregório...

Na carência de dados para cometer esta peça retórica de boas-vindas ao neo-acadêmico, pedi para colhê-los in loco no sítio mais condimentado desta província crepuscular. Era noite de segunda-feira e sabendo de antemão que padeceria deveras com o estômago vazio no pós-trabalho, roguei ao anfitrião que me acudisse com um prosaico pão com ovo. O delicioso risoto Paris servido ao escriba e sua consorte, com champignons e presunto, foi bem mais restaurador que o trivial sanduíche.

Entre generosas garfadas no arroz arbóreo incrementado e algumas taças de vinho, ouvi muito e, em nome do protocolo e do decoro desta Casa de Letras, arvoro-me a contar um pouco da história de João Batista Gregório, com o zelo e a discrição de suprimir casos e causos impublicáveis.

A rua 14 de Julho e o bairro do Perpétuo Socorro viram nascer e crescer o caçula de seis rebentos, cinco meninos e uma menina, do casal luso-itálico Paschoal Gregório e Alzira Sansana Gregório.

O pai, comerciante, corretor, pecuarista, era um homem rígido, do tipo que exigia ser o primeiro a sentar-se à mesa e detentor de, entre tantas regalias patriarcais, a de sempre devorar as duas coxas do galináceo, quando este, assado, frito ou cozido, reinava na cozinha dos Gregório. Tista e seus irmãos, na meninice, não conheceram o gosto das ancas de uma penosa.

A comida sempre foi abundante no fogão da dona Alzira. Previdente e dotada de uma mão abençoada, o exagero era explicado porque o marido, não raras vezes, chegava de surpresa com fregueses para fechar negócios em torno de uma polenta cremosa, esparramada no tampo e cortada com linha. O arroz de forno da mãe, criativamente concebido com as frequentes sobras da véspera, está entre os sabores que mais marcaram a infância de João Batista.

A rua era o mundo de Tista fora do horário escolar. Traquinagens e brincadeiras de criança numa época em que poucas vias da cidade eram pavimentadas. No chão de terra, ele e os amigos perambulavam nas redondezas jogando bolinha de gude, brincando de pega-pega, caçando morcegos, armando estilingues para abater impiedosamente pardais e rolinhas e, supra-sumo das travessuras, invadindo o pomar da igreja do Perpétuo para furtar as sacras e polpudas frutas cuidadosamente cultivadas por padres e seminaristas.

Das noites de um tempo pré-televisão, ele guarda no seu baú nostálgico as memórias das comadres e compadres papeando e mexericando nas calçadas, enquanto a molecada gastava nas veredas o restinho da energia do dia.

Nove da noite, impreterivelmente, e a gurizada era recolhida pra dormir. No clã Gregório, os cinco garotos compartilhavam o mesmo quarto.

Estudioso, o mano Toninho, sonâmbulo, recitava, inconscientemente para desespero dos irmãos, as tarefas escolares: “Falésia é uma forma geográfica litoral, caracterizada por um abrupto encontro da terra com o mar. Formam-se escarpas na vertical que terminam ao nível do mar e encontram-se permanentemente sob a ação erosiva...”.

E por aí iam, noite após noite, tratados e decorebas de História, Física, Biologia, tabuada...

Da infância para a adolescência e os prazeres de ler e escrever contaminaram definitivamente João Batista. Influenciado pelas mestras Vera Gomes, Elza Zogbi e Olga Meirelles, ele subia intensamente em todas as vertentes literárias que lhe caíam às mãos: Eça de Queiroz, Machado de Assis, Érico Veríssimo, os clássicos franceses...

Inspirado, arriscou na dramaturgia e redigiu “Jassie, apenas uma lágrima”, uma obra chorosa, triste, encenada com êxito no Instituto de Educação e no Salão Diocesano.

Cheio de pretensões artísticas, também enveredou pela música como crooner da banda nominada, acreditem!, Os Apanágios —quero crer que a qualidade musical era inversamente proporcional ao horrendo nome do grupo. A trupe viajava numa velha Kombi embalando bailes e eventos em São João e região.

Uma passagem impagável do conjunto.

Num baile na vizinha Vargem Grande do Sul, Tista e a prima Neusa Sansana soltavam a voz na canção francesa “Je t'aime... Moi Non Plus”. A interpretação invocava alguns gemidos e, empolgados com a receptividade dos dançantes, os vocalistas se excederam no tom dos ganidos alusivos ao ato sexual. Inconformado com a sonoridade de alcova, com os uivos libidinosos, um diretor do clube onde ocorria a apresentação mandou cortar o som e enxotou Os Apanágios dali. “Isso aqui é um clube de família”, bradava o dirigente moralista.

O apelido Vassourinha decorreu da fama de namorador. Beldades de São João e região deixaram seus nomes no vasto rol das conquistas amorosas do então descompromissado João Batista. Foi uma fase em que ele conheceu sortidas ancas, não necessariamente das penosas.

Em certo período da juventude, aderiu ao estilo hippie. Porra-louca, ganhou algumas mulheres e perdeu alguns empregos por conta do cabelo comprido, sem trato, do sapato plataforma e das roupas extravagantes.

O primeiro flerte com Heliana Ciacco foi no Tekinfin, perto do Carnaval de 1975. Ele rememora a beleza da moça: “Era linda, vestia uma saia de veludo e tinha cabelo chanel”. Da recém-inaugurada lanchonete, cada um com sua turma, atravessaram a Dona Gertrudes e entraram no baile do antológico Palmeiras. Lá na pista do clube a troca de olhares continuou e, intermediado por uma amiga comum, o primeiro encontro foi marcado para o trajeto até a residência dela. Um pouco antes, na solidão da madrugada, Heliana saiu caminhando devagar a espera do pretendente que a resgataria para uma “conversa”. A coisa enrolou porque Tista, motorizado com o carro do pai que só pegava no tranco, percebeu que sua condução estava presa entre dois outros carros. Sozinha, Heliana chegou a sua casa maldizendo o tratante.

Imbróglio explicado, o namoro engatou dias depois. No mesmo 1975, João Batista ingressou na Caixa e assumiu na agência da Praça da Sé, onde foi destacado para trabalhar na área de Habitação.

A paixão era tanta que Heliana pegou a escova de dente e foi juntar os trapos com o neo-bancário na Pauliceia desvairada.

De São Paulo veio o convite para trabalhar na matriz do banco, na secura de Brasília. Especialista em financiamentos habitacionais, ele conheceu o país inteiro ministrando cursos e treinamentos.

Na época da capital federal, uma cidade de desterrados, Tista apurou a arte de receber e cozinhar para os amigos. Sua morada brasiliense ficou célebre pelas esbórnias etílico-gastronômicas.

Atingiu o ápice funcional na Caixa laborando como assessor de diretoria.

A saudade da Mantiqueira bateu avassaladoramente e ele, no impulso, voltou para trabalhar na agência de Poços de Caldas.

Amigos, vida social intensa, sucesso na faina e uma cidade que o acolheu muito bem. Nada disso prendeu o irrequieto por mais de três anos em Poços.

Brasília chamou e novamente ele, de afogadilho, foi com a família candangar no planalto central.

Nesta segunda vez no Distrito Federal cavoucou uma forma de engordar os ganhos. Nos finais de semana aterrissava em São Paulo para comprar joias. Com o horário flexível e bom de conversa, circulava pelos ministérios e repartições mercadejando peças de ouro e diamantes para abastadas funcionárias públicas.

A falta de esquinas se tornara insuportável depois de mais uns anos no centro político da República. Os recorrentes chamados das raízes o trouxeram de novo e definitivamente à região. Como Gerente Geral andejou por Aguaí, Limeira, Vargem Grande, Casa Branca, Mogi Mirim e São João. Em 2009 conquistou o dolce far niente da aposentadoria. Dolce, tudo bem, mas fazer nada não estava nos seus propósitos.

Começou a juntar a bagagem das múltiplas gentes, culturas e lugares que conheceu. Entabulou a registrar impagáveis histórias de vida, desde e infância na 14 de Julho até a trajetória rica e nômade de bancário.

Fluiu a publicação do primeiro livro, Crenças e Desavenças, veio o segundo, Qual Será o Sabor da Crônica; está pronto, quase no forno, o terceiro, por enquanto sem título. Dono de uma pena irreverente, Tista Gregório imprime nas suas crônicas um estilo singular, mordaz. Seus escritos vêm envoltos numa irresistível embalagem de humor e pimenta, retratando o bicho homem nas suas virtudes, sucessos, pecados e fraquezas. Ora melancólico, também deleita os leitores com prazerosas e poéticas reminiscências sobre queridos e tempos idos.

Internauta compulsivo, agita o Facebook no grupo Contos Curtos, Grandes Receitas. Compartilha acepipes, crônicas, humor e cultura inútil na mesma proporção. O grupo diverte várias tribos e aguça os mais diversos paladares.

Generoso com os menos favorecidos, ele dedicas as terças-feiras para preparar uma monumental sopa. Sozinho ou com o apoio de voluntários, Tista cozinha e distribui o sopão para as famílias mais pobres do bairro Santo Antônio.

A Pousada do Bosque, um lugar histórico e esplendoroso da confreira Maria Cecília Malheiro, acolhe periodicamente jantares temáticos superconcorridos capitaneados por ele.

Ainda, sua página semanal n’O Município é um caldo sedutor de letras e aromas.

Meu amigo João Batista, nove de março deste ano caiu num sábado. Um sábado gelado de inverno em Stamford no litoral de Connecticut, na costa leste dos EUA. Estávamos num restaurante cubano e, entre drinques e pratos com toques calientes da ilha de Fidel, eu tive o arroubo de instigá-lo à candidatura a uma das cadeiras vagas desta profícua Confraria de Letrados. Embalado pelo rum de primeiríssima que você sorveu em doses nada modestas, a concordância com a postulação veio mais ou menos assim: “Manda bala, meu amigo, seja o que Deus quiser”. E, pelo jeito, Ele quis.

Eu mandei bala e seu nome teve o apoio incontestável da maioria absoluta de confrades e confreiras.

Nesta noite festiva, 10 de agosto de 2013, exatos cinco meses após aquele inesquecível almoço no Dulce Cubano, estamos aqui, juntos, em outra celebração.

Para orgulho da esposa Heliana, dos filhos Thiago, Carol, Karen e Dani, dos netos Ana Carolina, João Victor, Yuri, Yan, Yago e Alissa, dos irmãos, dos amigos e ex-colegas de trabalho, a Academia de Letras de São João da Boa Vista, irremediavelmente, a partir de hoje, mais rica, mais dinâmica, mais temperada, mais picante e mais divertida, acolhe calorosamente seu mais novo imortal.

Bem-vindo, João Batista Gregório!

sábado, 3 de agosto de 2013

Aquele abraço!

vila do zeca

Nativo deste torrão de tantos talentos, o menino crepuscular cresceu nos antiquíssimos bairros do Rosário e Pratinha.

O gosto pela arte culinária sempre existiu, mas dele nunca decorreu nenhuma pretensão profissional. Mais velho de três irmãos, Muriel Filho, ainda criança, ia às panelas para saciar sua fome e dos dois caçulas. A necessidade do primogênito, que via os pais saírem cedo na busca do sustento da prole, o fez aprender a se virar no trivial da refeição cotidiana.

Na adolescência, a proximidade com a cozinha como meio de vida aconteceu intensamente: o pai, nos anos 1990, foi proprietário de uma rotisseria na rua Getúlio Vargas, a Sabor & Cia. Entregas em domicílio e compras de ingredientes eram as atribuições dele no estabelecimento da família. À época, fissurado por rodeios, Muriel não quis saber de trocar as montarias pelo fogão.

Vinte e poucos anos e o namoro com uma garota cuja família era habitué da boa mesa foi o estímulo para ver a comida sob uma ótica mais sofisticada. Os sogros, percebendo a habilidade do genro nas caçarolas, o incitaram na exploração de aromas e temperos. A despensa bem abastecida da residência foi fundamental para o apuro nos ofícios de fazer e servir.

O sopro foi forte o suficiente para trazer aos sânjicos a Confraria Olga, um restaurante pequeno, íntimo, que atendia vinte comensais nas noites de sexta e sábado. A vocação inequívoca foi, aos poucos, perdendo os timbres amadores. Essa lapidação derivou muito de saudáveis apontamentos críticos dos clientes. Pastas frescas —com o pedigree do gênio cantineiro Carlão Cardo—, peixes e frutos do mar compunham a linha mestra da carta de prazeres da casa. E o deleite vinha na simplicidade de um fettuccine ao azeite sob generosas porções do essencial grana padano. E vinha também no requinte de um robalo grelhado no molho cítrico acompanhado de farofa de pão com trio de cogumelos.

Rupturas vieram: fim do chamego e fim do ciclo da Confraria.

Vida que segue. E seguiu no O Grotto, aconchegantemente instalado na belíssima Pousada do Bosque. Consolidado na cena gastronômica de Sanja, Muriel tocou o empreendimento por seis meses. O fechamento prematuro sucedeu do conflito do funcionamento da taberna com a agenda de eventos do local.

A carteira assinada no Spaço fluiu positivamente nas experiências gerenciais e no convívio inspirador com Dona Salma e Fábio Perez.

O labor com essa dupla tão competente no engenho do bem nutrir acabou. E rematou com a proposta de um Big empresário: Rafael Antonelli. O guaçuano supermercadista aterrissou nestas margens do Jaguari botando pra quebrar. Vultosos investimentos num mega centro de compras revitalizaram uma área degradada da cidade. E no entorno da loja os negócios pululam: banco, lotérica, café, fast-food, perfumaria, farmácia e... a Vila.

Martinho da Vila e Zeca Pagodinho são símbolos de brasilidade, de informalidade. São ícones da alma botequeira, do jeito despojado de bem receber. Sobre esse conceito, Rafael e Muriel —com o perdão da rima pobre— engendraram a Vila do Zeca, um bar que oferece croquete, pastel, polenta e cachaças de responsa. Um botequim samba-jazz ornado com mobiliário bacana e detalhes acolhedores. Uma tasca ajeitada com toques ecumênicos que tem ainda hambúrguer caseiro, bruschettas, cervejas importadas e um sanduba que simboliza à perfeição essa mescla de opções, o Sertanejo, um acepipe em que o pão francês abraça dignamente a linguiça artesanal, o queijo, o tomate e a rúcula.

E quem ama esse pé da Mantiqueira também deve se sentir abraçado. Abraçado pela capacidade realizadora de Rafael Antonelli e pelo instinto criativo do chef Muriel Filho.

Saúde!

http://www.viladozeca.com.br/

croquete

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Sobre asas e cafezais

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Como muitos pinhalenses, ele nasceu e foi criado nas lavouras de café. O mato, os bichos, as pastagens e a rusticidade da vida rural sempre o arrebataram. Só no ginásio o meio urbano veio como habitat do adolescente Plínio Marcelo Florence Fernandes.

E veio também junto uma vontade de estudar na cidade grande. E lá foi ele do solo cafeeiro da provinciana Pinhalópolis para o piso asfáltico da Paulicéia despudorada e cheia de portas abertas. O jovem escolheu Administração de Empresas e foi morar numa modesta república nas imediações da Consolação.

1971 marcou esse início de vida universitária e, sem demora, também foi o ano do primeiro carimbo na sua carteira de trabalho. A Varig foi a empregadora e o então glamouroso Aeroporto de Congonhas era o local de trabalho. Na função de recepcionista —ou despachante de voo— Plínio labutou por pouco mais de doze meses. Carismático e curioso, foi promovido ao setor de vendas. Responsável pelo interior de São Paulo, ele conheceu muita gente e todas as regiões do estado mais rico do país.

Em razão de circunstâncias familiares deixou a capital em 1976 para socorrer um parente. Na urbe bandeirante de Lençóis Paulista, Plínio ajudou a reerguer a propriedade do tio Cory Porto Fernandes, à época dizimada por uma geada que queimou milhares de pés de café. E o fez única e exclusivamente pela solidariedade afetiva e sanguínea, pois nada embolsou pela dura faina. Missão cumprida com bravura em três longos anos.

A metrópole das oportunidades o chamou de novo e o bom filho a casa voltou em 1979. Varig, Varig, Varig... Mais calejado, foi recolocado na superintendência nacional de vendas daquela que era uma das melhores companhias aéreas do planeta. Explorou profundamente todas as unidades da federação. E viajou, também, para a totalidade dos destinos internacionais atendidos pela empresa. Idealizou e implantou a rota São Paulo-Cancun. Este último, nos anos 80, era um balneário desconhecido dos sul-americanos.

De olho no promissor mercado brasileiro, a United Airlines aterrissou por aqui em 1992 e, três anos depois, contratava o executivo pinhalense para comandar a operação comercial da empresa no país. Sobre a entrevista em Chicago que selou sua admissão, Plinio conta às gargalhadas:

“Como meu inglês era limitado, não muito fluente, falei pouco e dei respostas curtas e diretas. O recrutador elogiou minha ‘objetividade’ pouco latina. Mal sabia ele que essa ‘objetividade’ era pra maquiar meu restrito domínio do idioma”.

A cada quinze dias ele se reunia com a cúpula da corporação em alguma das mais de 600 cidades servidas pela companhia no mundo. O labor pesado tinha como recompensa as viagens, quase sempre na mordomia da primeira classe, ao redor do globo.

Uma das principais marcas da sua gestão na United do Brasil foi o pioneirismo em vender passagens internacionais em 10 parcelas sem juros. Estratégia que foi um estrondoso sucesso. Os brasucas começavam a descobrir Nova York e Miami em suaves prestações.

Da experiência na empresa americana, o nativo de PinhalCity relembra:

“Aprendi com eles a importância do planejamento, da disciplina financeira e que o futuro estava no uso intenso dos recursos de informática”.

A morte do pai em 2004 foi um baque e um motivo para retornar às raízes da Fazenda Santa Agueda. E voltou com propósitos claros: reestruturar e modernizar a cultura do fruto da rubiácea. Já na quarta geração dos Fernandes cafeicultores, Plínio queria mais, muito mais que simplesmente vender o grão verde. Estudou muito, calçou as botinas e foi à briga.

Por um breve período entre 2007 e 2009, uma proposta financeira irrecusável o lançou de novo aos ares. Dirigiu comercialmente a Ocean Air/Avianca no Brasil. O programa de fidelidade Amigo foi mais um dos vanguardistas legados dele para o segmento do transporte aéreo de passageiros.

O magnetismo da aviação perdera definitivamente a graça. E a graça —leia-se desafio— estava nas terras da infância, nas bordas SP-Minas, na Espírito Santo do Pinhal de tantas lembranças. O voo mais alto estaria no torrão natal.

Já conhecedor do meio e da dificuldade em manter os cafezais, o neo-empreendedor sabia que agregar valor era questão de sobrevivência. Plantar era pouco. Ele queria o domínio completo da cadeia do produto. Plantar, torrar, moer e empacotar um café de qualidade superior. O lucro seria a natural e necessária decorrência do negócio.

Produzidos de forma quase artesanal, e somente processados após o pedido do cliente, o que garante sempre uma bebida fresquíssima à mesa, os rótulos “Aí” e “A2” são reconhecidamente cafés gourmet na avaliação de baristas e experts do ramo. A seriedade na condução da torrefação propiciou uma carteira —em expansão— de exigentes compradores corporativos do eixo Campinas-SP.

Dono de uma bagagem profissional e pessoal admirável, Plínio, 60, diz que a vida foi generosa com ele. O entusiasmo e a gratidão estão no seu DNA:

“Ainda tenho muita lenha pra queimar, ainda almejo novos céus para triunfar. A prosperidade precisa de dinheiro, mas hoje o que me move está muito além dos cifrões. Quero, e como quero, enaltecer ainda mais o café de Pinhal e região, reconhecidamente o melhor do Brasil”.

http://www.cafea2.com.br/novo/

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Academia em revista

Estação de Trem - estilo HonzaKov - P&B

O culto à palavra, a reverência ao bom verbo, a difusão da escrita. Nobres razões para a existência de uma Confraria de Letras. Articulados e idealistas, Octávio da Silva Bastos e Milton Duarte Segurado, depois de propósitos brotados num colóquio informal, conceberam na primavera de 1971 a Academia de Letras de São João da Boa Vista.

Culto, respeitado e aglutinador, o então bispo diocesano Dom Tomás Vaquero foi o nome de consenso para presidir as três primeiras gestões da Arcádia sanjonense. Sereno sem deixar de ser firme, seu comando no grupo literário foi marcado pela consolidação da instituição na sociedade organizada desta urbe tão luminosamente localizada, tão crepuscularmente sedutora.

Dotado de fala eloquente, orador apaixonado, Octávio Pereira Leite sucedeu Dom Tomás também por três períodos consecutivos. Zeloso do papel institucional da Academia, cumpriu com brilho a missão de gerir a associação de letrados.

Causídico de ofício e lírico por vocação, Wildes Antonio Bruscato usou seu sólido saber jurídico para propor e efetivar essenciais alterações no Estatuto. Seu triênio na condução trouxe notas melódicas à Casa, pois o confrade, entusiasta da música, foi um dos fundadores do Coral Vozes de São João da Boa Vista.

O médico, que também vigiava a saúde do léxico, José Edgar Simon Alonso substitui Wildes no mandato seguinte, mas faleceu precocemente antes de concluir sua administração. Maria Célia de Campos Marcondes, 2ª vice-presidente, assumiu o manche da aeronave dos eruditos mantiqueiros.

Maria Aparecida Pimentel Mangeon Oliveira, a Aparecidinha, educadora com inequívoca inclinação às artes, foi a gestora que imprimiu nos anos seguintes um modelo com ardoroso respeito ao protocolo nas cerimônias da Academia. Nos seus inúmeros e históricos discursos ela sempre ressaltava a importância de cultura na formação da cidadania.

O advogado forjado na lendária São Francisco, Sérgio Ayrton Meirelles de Oliveira, com o falecimento da confreira Aparecidinha, geriu até o fim o triênio 2005/2007. Proseador cheio de estilo, ele assim aclamou seus pares por ocasião do lançamento da 2ª Antologia: “Os acadêmicos são expertos nas técnicas literárias, cultos nas veredas da língua portuguesa e dotados de criatividade imprescindível”.

Culta, líder e fervorosa defensora das tradições da Academia, Maria Célia de Campos Marcondes foi novamente uma realizadora presidente nos anos 2008/09/10 e, entre diversos feitos e eventos notáveis, inseriu a instituição na rede mundial de computadores. Ganhamos, finalmente, o nosso sítio virtual.

O mandato seguinte foi dirigido pelo jornalista, professor e então vereador, Francisco de Assis Carvalho Arten. Reformas importantes carimbaram o comando dele na Arcádia: a modernização do Estatuto e a remodelação da sede. Sua habilidade política foi fundamental nestas conquistas.

Lucelena Maia, irrequieta, é a atual presidente e faz uma gestão ambiciosa no empreender em prol das letras. Tomou posse já fincando uma dinâmica agenda de acontecimentos. Até o fim de 2014 o calendário é permeado por efemérides mensais. Este primeiro número da ARCA é um dos compromissos cumpridos da atual diretoria.

Nesta província de relevos geográficos insinuantes, a serra inspira e o crepúsculo abençoa. Em 42 anos de poucas turbulências e muitos êxitos, a Academia prestou, em incontáveis e nas mais diversas formas de homenagem ao idioma, inestimáveis serviços ao fomento da riqueza cultural da cidade.

Pela preservação das espécies, Noé abarcou muitos bichos na sua arca. Aqui nesta ARCA vocabular a PLURALIDADE de estilos é de outra natureza, mas o respeito a ela é o mesmo.

Habemus revista!

Em tempo 1: Este blogueiro foi honrosamente incumbido de lavrar o texto acima para e edição primeira da ARCA, uma publicação da Academia de Letras de São João da Boa Vista.

Em tempo 2: Mais triste e menos saborosa, Pinhal perdeu Tonheca, um personagem que fez história na cidade. Fez pelo empreendedorismo, pela longevidade da cria e pelos sanduíches que são ícones na gastronomia de toda a região. Morre o homem, o legado fica. As plagas celestiais ganham novos temperos a partir desta semana. E cá no plano terreno a prole dignifica a arte do pai. Jefferson e Jackson nunca deixaram a chapa esfriar e estão aí, há muito, deliciando os famintos desta urbe cafeeira com o clássico cardápio de lombinhos & afins.

Foto e arte: Silvia Ferrante – Estação Ferroviária de São João da Boa Vista

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Federais do Distrito

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Três dias de labuta na capital brasuca não vão desviar o escriba rechonchudo do seu reto caminho em busca de mais saúde e menos arrobas. Vaguear é preciso!

Noite de segunda-feira, pouco político e baixa temperatura em Brasília. E um macaúbico desejoso de mexer o esqueleto aproveitando a visão das sedutoras edificações do Eixo Monumental.

Saio do Setor Hoteleiro Norte com o obstinado propósito de marchar até a Praça dos Três Poderes. Coisa de pouco mais de oito quilômetros entre a ida e a volta.

Primeira parada: Catedral Metropolitana. Uma prece silenciosa contemplando as incríveis colunas em formato hiperboloide genialmente projetadas pelo ateu Oscar Niemeyer. Rogo pouco, quase nada, pelas grandes causas que afligem a humanidade. Minhas súplicas espirituais têm mais a ver com as particulares pretensões salubres mencionadas no primeiro parágrafo destas toscas linhas.

Da virtude para o pecado, ops!, ato falho, quero dizer, da igreja para a Esplanada dos Ministérios. Aquela sequência paradoxalmente monótona e harmônica de prédios idênticos. Passa muito das 20h e em todos eles há muitas luzes acesas. As conjecturas são inevitáveis. Servidores públicos abnegados trabalhando exageradamente por um país melhor? Gente mal intencionada usando o pós-expediente para engendrar falcatruas com dinheiro público? Ou simplesmente pessoas indolentes, inimigas da tarefa hercúlea que é pressionar um interruptor?

Itamaraty, o QG da nossa política externa. O palácio reflete suas belas linhas curvas no espelho d'água e proporciona uma fértil colheita de imagens para este “instagranzeiro" compulsivo. E provoca também algumas indagações. Continuariam os diplomatas brasucas a granjear argumentos em defesa da moribunda ditadura cubana dos irmãos Castro? E a democracia de fachada da Venezuela de mãos dadas com a vizinha Cristina Kirchner, cujo esporte preferido atualmente é tentar calar a imprensa livre da Argentina. Por que nenhuma palavra mais incisiva dos nossos homens de relações exteriores contra estes arroubos reiterados de totalitarismo? Seria por que urgem preocupações essenciais com os rótulos dos champanhes franceses e com a quantidade do caviar iraniano servidos nos suntuosos banquetes diplomáticos?

O STF e seu quase solitário cavaleiro da Justiça, Joaquim. Conseguirá esse magistrado que é referência de probidade conter as manobras espúrias de bastidores tendentes a "empizzar" as condenações dos mensaleiros? Ah!, claro, a sede da corte maior da nação também é monumento da arquitetura desta cidade que é um museu a céu aberto. E dá-lhe postagens cheias de efeitos na rede social de fotografias!

No Planalto arrisquei com o porteiro: "Sou o Lauro, de São João, filho da Ana Maria e neto do professor Augusto. Faço parte da Academia de Letras de lá. O Dulcídio Braz, o Marcelo Sguassábia e o Walther Castelli são meus amigos. Será que a presidenta pode me receber pra um naco de prosa?" O cara anotou tudo e interfonou para o gabinete da chefe-mor. "Senhor Borges, suas credenciais impressionam, mas a presidenta Dilma está em Portugal, numa missão importantíssima de degustação de bacalhau. Quem sabe na sua próxima vez no Distrito Federal", justificou quase pedindo perdão o leão-de-chácara do palácio.

Sobre o Congresso é desnecessário cantar em prosa e verso mais uma vez sobre magnitude das viagens em concreto armado do maior arquiteto brasileiro. Acerca dos parlamentares, um relato. Voei de volta a Viracopos numa quinta-feira, 10:50. Da manhã, diga-se. A aeronave estava abarrotada de deputados federais da região de Campinas. Desde que o mundo é mundo sabe-se que a semana de "trabalho" deles em Brasília começa na terça e termina na quinta. A novidade foi descobrir como o expediente acaba rapidinho na quinta-feira.

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Digna foi a perda calórica pela caminhada na chegada ao cerrado; e mais digna ainda foi a reposição energética dias depois. A ela.

Antes do retorno aos Crepúsculos, um happy-hour com os colegas no Bar Brasília, lugar bacaníssimo ornado com motivos retrô, uma mistura do Bar Brahma de Sampa com os botecos da Lapa carioca. O chope, muitíssimo bem tirado, é servido naqueles clássicos copos cervejeiros da década de 1970. O acepipe que reina ali é o bolinho de batata-baroa com carne-seca e catupiry.

O melhor dos quatro dias na capital da República: uma revelação que muda os rumos da minha insignificante existência. Batata-baroa, acreditem!, é o mesmo que mandioquinha-salsa.

E sobe foto dos bolinhos para o Instagram!

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http://www.barbrasilia.com/