segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Chefchaouen — a experiência azul-marroquina



Madrugamos em Málaga para chegar antes das 8h ao porto de Tarifa. Conseguimos, mas uma certa burocracia documental na compra dos (caros) bilhetes fez com que perdêssemos o primeiro ferry-boat do dia. Embarcamos só às 9h rumo a Tânger, rumo ao Marrocos, rumo à África. 


Sob um céu esplendoroso e sobre um mar calmo, cruzamos o Estreito de Gibraltar em cinquenta tranquilos minutos. O visto marroquino é concedido dentro do próprio barco sem nenhuma dificuldade. Incômodo somente foi a longa fila. A ala de passageiros do ferry-boat, diga-se, é grande, confortável e conectada. 


Badreddine, o motorista que nos levaria país adentro, atrasou o suficiente para sermos ostensivamente abordados por vendedores de passeios. Piedoso do camelo que estaria incluído no tour, recusei depositar minhas generosas arrobas nas suas corcovas. Saímos do porto de Tânger enxergando praias cheias, hotéis de luxo, prédios modernos e avenidas largas. As placas são grafadas em árabe e francês. Túnicas (djellabas) e burcas vestiam os nativos que se aventuravam na quentura nas ruas. 


Pé pesado, Badreddine venceu em duas horas a distância até Chefchaouen. Dormi na maior parte do percurso, mas tive despertares para testemunhar a sinuosidade e a boa pavimentação da estrada. Josi se mostrou incrédula com meu sono profundo durante aquela condução veloz de um taxista desconhecido numa terra idem. 


Quando Badreddine estacionou, a visão daquela escada sem fim assombrou-me. Quando derrotei aqueles cento e setenta degraus até a recepção, o suor fez-me proferir alguns palavrões em árabe. Quando a gentil Radia nos deu boas-vindas com uma limonada leitosa, eu ainda questionava-me a escolha daquele hotel. Quando me perguntarem sobre a hospedagem no Dar Jasmine, ainda vou falar mal da escada, mas vou falar excepcionalmente bem da suíte, da cama, do chuveiro, da decoração, da paisagem, do café da manhã, do jantar e do atendimento polido e simpático de toda a equipe. Que experiência única, arrebatadora, surpreendente! 


E a cidade? Uma localidade cravada nas encostas da cordilheira do Rife. Chefchaouen, no norte marroquino, a incrível Cidade Azul. As paredes são azuis, também azul é a simpatia do marroquino falando árabe, francês, inglês ou espanhol nas vielas movimentadas. Nelas, comerciantes expõem artesanatos e produtos da cultura local a turistas do mundo todo que buscam sem parar o melhor ângulo para a melhor foto no cenário mais azul. 


Dizem que, no começo do século passado, os “chefchaouenses” acreditavam no poder da cor azul para repelir mosquitos, por isso a pintura no tom anil. Se funciona contra os insetos, não posso afirmar, mas tenho certeza da força da energia azulada para o turismo naquela remota urbe do norte da África. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

A Napoletana


William Gonçalves, que está há quinze anos na cena gastronômica poços-caldense com o Breja Gastrobar, decidiu fazer discos napolitanos por uma razão simples: “não tinha em Poços uma pizza que eu realmente gostasse”. Um tanto de pesquisas e um montão de testes precederam a abertura d’A Napoletana, uma casa de poucos meses com atmosfera cantineira que serve belas redondas cuja massa é de lenta fermentação e alta hidratação. O perfeito molho de tomate pelado completa o fundamento das impecáveis pizzas do lugar. Mais um bom e assado motivo pra subir a serra.


🍕🍕🍕

A Napoletana

de terça a domingo, a partir das 18h

Av. João Pinheiro, 1033

Poços de Caldas, MG

domingo, 7 de agosto de 2022

Menções e sensações

 

Poeta incurável, escritor compulsivo e cronista irreversível, o amigo e confrade Fernando Dezena mencionou duas vezes este escriba glutão em seu texto dominical. As linhas dele, com a leveza habitual, passearam por bocas leoninas, mesas fartas, sítios elevados e almas idem. Sei lá o porquê (?), nas passagens em que ele cita-me há alusões a um café da manhã e uma leitoa desossada. Até parece que sou movido por compulsões gastronômicas! Isto posto, não quero aqui me gabar de ter sido o anfitrião do desjejum, tampouco o privilegiado convidado da pururucância suína n’altitude. Hoje, prefiro a vanglória nada vã dos duzentos mimos do Rubem Braga com que o Dezena agraciou-me. Ah, posso jactar-me da caneca de pingado como companheira matinal de lavras e leituras?

#ForaBolsonaro

domingo, 31 de julho de 2022

O piano


 História e histórias. Difícil precisar exatamente quando esse piano C. Bechstein chegou em São João da Boa Vista. Fabricado em 1918, o instrumento aterrissou nos Crepúsculos em meados da década de 1920. O historiador Antonio Carlos Lorette defende a hipótese de que o piano foi adquirido pelo quadro associativo do Centro Recreativo Sanjoanense, então composto por filhos intelectualizados da aristocracia rural que comandava a cidade.

Certo é que a peça histórica integrou a patrimônio do Theatro Municipal e da Sociedade Cultura Artística, esta última uma confraria de intelectuais e artistas sanjoanenses fundada em 1930 que se reunia no pavimento superior do foyer do Theatro. Segundo o pesquisador Lorette, naquele mesmo 1930 Heitor Villa-Lobos se apresentou no Theatro usando o antológico piano de cauda.

Em 1946, Guiomar Novaes voltou a São João para um recital no Theatro em prol da Casa da Criança. A consagrada pianista também mostrou seu talento no enorme C. Bechstein que protagoniza este texto.

Com o passar dos anos, a falta de manutenção, cessões infelizes e reformas inadequadas foram cabais para deixar o piano à mercê de melancólicos usos corrosivos: aparador de vasos de samambaias, mesa de pingue-pongue e tábua de refeições.

Lorette, o incansável gladiador do patrimônio histórico de São João, pediu socorro ao casal mecenas Angela Bonfante e Geraldo Dezena para salvar o piano de cento e quatro anos da ruína absoluta. Sensibilizados, eles assumiram o ônus do restauro, contrataram um paulistano expert na marca C. Bechstein e, depois de oito meses de um trabalho minucioso e dispendioso, o instrumente de cauda inteira está lindo, renovado, impecável, imponente. Onde? Na Boca do Leão em Águas da Prata, totalmente disponível para visitação.

domingo, 17 de julho de 2022

Liti, o sábio da montanha

 

Voltei ao bairro da Cascata, aquela provinciana fronteira paulista que beija Minas Gerais. Vi empórios e bares modestos, vi senhoras proseando na calçada e carros puídos estacionados, vi crianças brincando na rua e homens cobertos com chapéus ostentando canivetes na cintura, senti o cheiro de alho e cebola fritando e o aroma de lenha queimando, vi jovens nas portas de humildes casas vidrados nas telas de celulares nada humildes. Vi galinhas ciscando no asfalto…


E vi o Liti, entrei na inusitada morada de madeira do Liti. O registro civil revela que ele é Luís Antônio de Oliveira, 64 anos. Liti é um cascatense nativo, retireiro de toda uma vida nas fazendas do pedaço. Descobri o personagem em 2017, trilhando com Josi. Do nada, numa aparição típica de bons caçadores, ele surgiu do mato com seu pastor alemão, Lobo, e nos mostrou atalhos e picadas que só um matuto da montanha conhece. Pintor e escultor diletante, Liti faz suas obras com ossos de animais granjeados em suas intermináveis incursões pelas florestas e pastagens da região. Não há quem domine melhor as veredas destas selvas pratenses. Ele, ainda, é um poeta popular que escreve diariamente. Liti, o cara não para, é um difusor da cura com plantas e ervas que ele mesmo colhe nos bosques recônditos que só ele acha. O papo com a figura é eclético e recheado de histórias que trazem ovnis, espíritos, crendices, folclore e um profundo amor por este solo bendito. 

quinta-feira, 7 de julho de 2022

#ForaBolsonaro



Um brinde…

🥂🥂

…aos que resistem aos arroubos autoritários, aos que não perderam a humanidade, aos que acolhem e abraçam a diversidade, aos que não são insensíveis aos vulneráveis, aos que se norteiam pelo pensamento racional, aos que combatem os mercadores da fé, aos que rejeitam a pregação insana de pseudolíderes desalmados, aos que repelem o ódio de falsos moralistas, aos que condenam a violência de messias sebosos, aos que se indignam com a vagabundagem sobre duas rodas, aos que não compactuam com roubos rachados e propinas douradas, aos que não digerem chocolates lavados e mansões sujas, aos que lutam incansavelmente para destruir as novas câmaras de gás do nazifascismo. Saúde!

sábado, 4 de junho de 2022

Ipê Amarelo Café da Serra

 


Café colonial ou brunch?
☕️ 🍰 🍳 🥤 
A sanjoanense Maria Aparecida Germinaro Smith, depois de uma vida em São Paulo e no Rio de Janeiro, voltou às raízes para reencontrar a serra, literalmente. Morando na Serra da Paulista, ela compartilha a beleza de sua propriedade à mesa do novíssimo Ipê Amarelo Café da Serra. Todo o lauto buffet é servido com delícias feitas artesanalmente na casa e nas redondezas montanhosas. 

☕️ 🍰 🍳 🥤 

Serra da Paulista, km 7,5

Sábados, domingos e feriados, das 8h30 às 17h

19 99459-4974



segunda-feira, 30 de maio de 2022

Botas vermelhas

 


Elas irromperam espalhafatosas pelo Velho Mundo. Tanto quanto a berrante cor rubra, os barulhentos atritos com o chão chamam a atenção do desavisado turista. É o fim do silêncio contemplativo de séculos nos museus de Firenze. É o fim das preces serenas nos templos católicos de Siena. É o fim do flanar quieto pelos jardins de Montreux. É o fim da degustação tranquila de queijos em Gruyères. É o fim do chocolate relaxado na Maison Cailler. É o fim do schnitzel sossegado no Augustiner de Munique. É o fim do remanso com uma caneca de cerveja nas calçadas de Innsbruck. É o fim da hidratação em paz nas fontes de Evian. É o fim da calmaria insossa de Liechtenstein. É o fim…


Culpa da Arezzo, não a urbe da Toscana do filme “A vida é bela”, esta também fustigada em seu solo medieval pelas vigorosas pisadas, mas a grife dos trópicos que insiste em não adaptar um redutor de ruídos no solado que protege os pés da elegante mulher. Num mundo onde já existem impressoras 3D, câmeras 4K em dispositivos móveis e internet 5G, o avanço da civilização ainda não foi capaz de silenciar as passadas das atrevidas botas vermelhas. É o fim!


sábado, 28 de maio de 2022

Ovos Fonte Platina

 

Dona Marisa, matriarca do clã Figueiredo de Jardinópolis, SP, se apaixonou por Águas da Prata na década de 1980. Os filhos Luís Ricardo, Antônio Carlos e Suzana, então jovens, não viram tantos encantos na pacata estância.


Nada como o passar dos anos para virar a chavinha bagunça/sossego. Vai daí que…


A família nunca se desfez do apartamento pratense e a frequência que começou um bocado incômoda para os meninos foi se transformando em adoração. O clima, a paisagem, a tranquilidade, as trilhas de bike, a Fonte Platina. Ah!, a Fonte Platina.


Estabelecidos, bem postos na vida, Luís Ricardo, professor universitário, e Antônio Carlos, dono de restaurante, decidiram abraçar os 60 reforçando os vínculos com este abençoado torrão: há vinte e poucos meses compraram um sítio. Óbvio, na Fonte Platina. Na roça!


E na roça tem fogão a lenha, tem cisterna, tem casa com piso de cimento queimado, tem água na moringa de barro, tem linguiça curando, tem queijo já curado, tem café coando… E na roça tem galinhas saudavelmente soltas nas pastagens que botam ovos saudavelmente caipiras. Aqueles cujas gemas avermelhadas tingem lindamente um arroz branco e um miolo de pão.


Generosamente, Luís e Toninho compartilham com a região um naco desta caipirice. Os ovos Fonte Platina, alimento que carrega a alma da terra e o suor bendito dos pequenos empreendedores, têm sua modesta produção disposta em poucas e afortunadas prateleiras da aldeia Sanja-Prata.


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OVOS FONTE PLATINA

📲 16 98833-1850

🍳🥚🍳🥚

👉🏻São João: 

📌 SuperVitória

📌 Açougue Vitória

📌 Hortifruti+


👉🏻Águas da Prata:

📌 Quitanda da Val

📌 Forte Prata

📌 Supermercado Wan


sexta-feira, 27 de maio de 2022

Zé Pelé, o camisa 10 da mandioca


Ninguém conhece José Vítor de Araújo pelo nome de batismo. Fonteplatinense de alma, 62 anos, ele está no bairro desde 1974, quando chegou de São Sebastião da Grama com a família para trabalhar nas lavouras de café. A boia era fria, o sol era quente, a idade era pouca e o vento nas montanhas trazia alguns sonhos de mudar de vida. Muita água correu de lá pra cá.

Líder comunitário e vereador por quatro mandatos (1982-2000), Zé Pelé sempre usou sua cadeira na Câmara para melhorar o Principado da Fonte Platina.

Num balcão de botequim na Barrinha —Bar do Norfinho—, recebeu clamores para comercializar aquela mandioca que ele levava para acompanhar a cerveja com amigos.

Então funcionário da Renovias, Zé percebeu uma oportunidade de negócio. Fez proposta a donos de terrenos baldios do Principado: “eu mantenho seu imóvel limpo e você me permite o plantio da mandioca”.

Com a ajuda essencial da irmã Célia e do genro Sandro, Zé Pelé montou uma eficiente linha de produção para descascar, lavar, cozinhar, embalar e congelar as macaxeiras platino-pratenses. “Pesquisando e testando, conseguimos ofertar ao freguês a mandioca mais perfeita para fritar. Sequinha, ela não encharca na fritura. Tenho o meu segredo!”, discursa o orgulhoso empresário que entrega mensalmente 1.300 quilos daquilo também chamado por aí de aipim.

Desde 2018 com a pequena fábrica 100% regularizada nos órgãos sanitários, o selo Mandioca Prata está em pontos de venda em Águas da Prata, São João, Pinhal e Poços. Cá no pedaço, poucos mencionam o nome oficial. MANDIOCA DO ZÉ PELÉ, reto e direto, é a marca que está na boca e no prato do povo.

Zé Pelé, o camisa 10 da mandioca, ainda tem planos de crescer. “Duas toneladas por mês? Quem sabe!”

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MANDIOCA PRATA

19 3642-2525 // 19 99729-5567