segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Carioca Café

Carioca

O amigo magistrado Christian Robinson Teixeira sentencia:

—Tem novidade na Prata. Novidade na cena gastronômica. O Carioca Café oferece um cardápio de poucos e surpreendentes sandubas. Vamos lá?!

Convite de magistrado não se discute, aceita-se de pronto, sem recorrer.

Luciano e Cláudia dirigem a casa. Ela, de Aguaí. Ele, do Rio. Baixaram na estância hidromineral para ele exercer o seu ofício: luthier, o profissional que fabrica e conserta instrumentos musicais. Alaúdes e guitarras de séculos passados puxavam o seu portfólio.

Ideias projetando novos negócios sempre pululam.

Planejaram ingressar no comércio moveleiro e locaram um ponto. Ventos e planos mudam. Nada mais de mesas e cadeiras, tudo de caçarolas e temperos.

Um salto da específica manufatura de objetos sonoros que alimentam o espírito para a elaboração não menos acurada de mimos de sabor para o corpo e também para a alma.

Luciano encasquetou com uma dupla de ícones cariocas: mate gelado e bolinho de bacalhau. Abrir um café virou o propósito.

650 bolinhos foram feitos para o fim de semana da inauguração. Encalharam. Com o passar dos meses, por sugestões e inspirações, o menu foi sendo moldado.

E a coisa vai indo. O boca a boca espalha que é um lugar pequeno, simples, arrumadinho, com uma carta enxuta de inesperados e deleitosos itens. O atendimento não é dos mais ágeis, mas a simpatia faz o comensal relevar qualquer desconforto.

E lá tem...

Tem hambúrgueres artesanais de fraldinha, tostados na fachada e suculentos na essência, servidos com cebolas caramelizadas flambadas com Jack Daniel’s. Tem outras variantes inusitadas de escolta: gorgonzola e/ou shitake. Tem uma kafta da mesma família dos burgers, que cai na mesa acompanhada de molho de coalhada, salada de pepino e tomate e pão sírio quentinho.

Tem fritas com alecrim que podem ser submersas no clássico ketchup Heinz. Submersos também, em coberturas várias, tem os bacanas waffles.

Tem a mineirice no sanduíche de linguiça. Tem pedigree de boteco no sanduba de pernil defumado com vinagrete. Tem aquele acepipe que mexe com a nossa memória afetiva: bolinho de chuva. Tem um quindim que não é deste mundo. Tem o mate gelado com limão que sobreviveu mesmo depois do melancólico fim do bolinho de bacalhau.

Tem lousa e conversa ao invés do cardápio de papel.

Para remédio dos glutões incorrigíveis, o torrão pratense tem dádivas calóricas que vão muito além do tradicional milho-verde e iguarias derivadas.

Fui, gostei, indico e vou voltar. Muitas vezes.

Carioca2

quarta-feira, 22 de julho de 2015

SAL

SAL

“(…) a gente quer comida, diversão e arte (...)”.

Com as devidas desculpas pelo surrado —mas verdadeiro— som titânico, louvo em dizer aos sânjicos que estas hedonistas e humanas necessidades serão satisfeitas agorinha neste julho que caminha para o fim.

A Semana Assad, grandiosa na qualidade, já cimentada no calendário cultural de prazeres da província, dá uma generosa carona ao SAL, um projeto de múltiplos regalos que nasceu de uma inspiração alterosa e virou realidade levado pelos bons ventos da Mantiqueira.

A brisa da serra é uma licença poética que, reconheço, não faz jus ao trabalho organizado e aguerrido de quem deu jeito e cara à coisa.

Como em tudo que inova, há aquele roteirinho típico: alguém que se apaixona por uma ideia, outros que a compram e embarcam na viagem, tem aqueles que não embarcam e juram que o navio vai afundar, tem o capital que ajuda a bancar o sonho, tem as benfazejas gentes que emprestam suas competências sem nem saber ao certo o retorno disso.

O entusiasmo contaminou, a orquestra afinou, o molho apurou e o SAL taí, prontinho pra rolar bem no coração deste torrão de majestosos crepúsculos. Prontinho pra fluir entre foodies e arteiros, povo que pratica de ofício ou de ocasião.

A concepção SALeira quer botar São João no centro de uma torrente de panelas, aromas, notas, timbres e encantamentos visuais. Tudo simultâneo, uma dúzia de horas na mesma barafunda de alho, MPB, aquarelas e polaroides, em qualquer ordem, sem qualquer ordem. E, acreditem, o negócio vai ter muita ordem.

Sábado, 25, ali na Marechal Deodoro, ao lado do gabinete do homem.

++Walgra com risoto e café espresso

++Luciana Guimarães com taco e brigadeiro

++Jazz com pizza

++Cerveja com escultura

++Maracatu com sushi

++São João com tempero e com muito pra fazer

++Sabor com Arte e com Lazer

Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?

foodie

sábado, 18 de julho de 2015

Acrobacias

 Acrobacia

—Foi bom pra você?

—Hmmm, bem, te achei meio crua.

—Crua, por que crua?

—Um pouco fora do ponto, eu quis dizer.

—Explique-se, não entendi…

—Deixa pra lá, bobagem...

—De jeito nenhum... quero ouvir...

—O seu mecanismo corporal carece de jogo de cintura, ginga, entende?

—Não, seja objetivo.

—O ato exige algumas acrobacias pra ser pleno, uma performance mais elástica, flexível...

—Você me recomendaria uma escola de circo? Frequentar sua alcova requer destreza, habilidades especiais?

—Relevo sua ironia, mas na essência é isso mesmo. Algumas piruetas só podem fazer bem.

—Piruetas?! Acho então que cabe um ensaio, uma coreografia, uma música dançante, um jogo de luzes, plateia, juízes...

—Exageros podem ser bem apimentados, entende?

—Onde você quer chegar com isso?

—Vou confessar: seus traços eslavos, seu cabelo liso, sua cara de menina, tudo isso me lembra a Nádia.

—Nádia?! A exibida do quarenta e dois? Ou é aquela oferecida do RH? Ou é a namoradinha de infância de Botucatu?

—Ela é romena. Nadia, sem acento, Comaneci. Nadia Comaneci, a ginasta que assombrou o mundo nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976.

—Ginasta?! Suas taras são atléticas? Se olhe no espelho, tome juízo, gordo abusado, roliço sem noção, obeso marrento...

—Robusto, sim, mas com muito fôlego e agilidade. Posso listar minhas sessenta e nove virtudes físicas. Meia nove! Esse número te diz alguma coisa? [Empolgado] Você vai atrás da medalha? Vamos nos ver no pódio? Posso reforçar a estrutura do leito? Quer ver meu duplo twist carpado? Vamos ouvir Carruagens de Fogo?

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Spaço

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São João+comida boa+Tereziano Valim.

Há quase 11 anos, incansável, o Spaço consegue combinar com muita competência esse trio de deleites.

O tempo passa e mudanças são inevitáveis. Arejar é preciso. Melhorar é necessário. Agradar é essencial.

E aquele bufê consagrado que oferece de segunda a segunda um dos melhores almoços da província? É time vencedor e não muda. Aprimora. Ninguém vai ficar órfão daquelas delícias árabes às sextas-feiras.

E aquela quinta-feira de pizzas em sequência, uma atrás da outra, uma melhor que a outra? Ela volta. Volta com as clássicas margherita, calabresa e portuguesa e, entre outras tantas, com a surpreendente camarão com alho-poró. E a redonda premiada de abacaxi caramelado com sorvete de creme? Soberana, claro, ela também volta.

Muriel Filho, que já tem uma biografia respeitável no universo foodie da cidade, vai ter a companhia das empreendedoras Cláudia Adib e Fernanda Moro nesta nova fase do Spaço.

Cláudia é comerciante nata, extrovertida, que respira desde sempre a paixão da família libanesa pela gastronomia. Fernanda quer sair da Pauliceia e, com paixões —leia-se Muriel— fincadas no pé da Mantiqueira, projeta no restaurante o seu passaporte para viver no interior.

Nesta nova etapa, salve!, o menu à la carte das noites de sextas e sábados será reavivado. Um cardápio que contempla com harmonia pastas, carnes, peixes e frango em receitas autenticadas por quem conhece e aprecia a arte do fogão. Um dos itens da carta: filé ao molho de mostarda Dijon com farofa de pão e trio de cogumelos. Outro item? Não conto.

Extra-menu, a “sugestão do chef” vai oferecer a inspiração semanal do Muriel, onde eu espero ver muito cordeiro. [e que ninguém nos ouça: o cordeiro da foto foi honrosamente apreciado pelo autor destas linhas]

Sobremesa, formigões? Crème brûlée, petit gâteau e creme de papaya. O mais do que bom, tradicional, sem invenções.

Vinhos, seguidores de Bacco? Vinte opções que abarcam variedade, qualidade e que não necessariamente agridem os bolsos daqueles que não querem sair dos dois dígitos. Quer extrapolar um tiquito? Montes Alpha e Chandon Brut estão lá pra isso.

E a Dona Salma? Num merecido descanso da lida cotidiana, ela deixou sua marca de excelência gravada em todos os detalhes da casa. Um legado que os que assumem, por respeito e pelos negócios, têm que preservar.

São João+comida boa+Tereziano Valim=Spaço. Nunca é excessivo ressaltar a precisão desta aritmética de prazeres.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Vana & Barack

Vana & Barack

—Grande isso aqui, Barack...

—Sim, Vana. Posso dizer que eu moro bem.

—Tem muito mais jeitão de casa que o Alvorada. Lá não tenho aconchego nenhum. A arquitetura do Oscar é boa pra turista e estudante. Pra quem trabalha ou vive nas obras dele, a funcionalidade e o conforto são zero.

—Vem ver a cozinha, super bem equipada. Olha aquela coifa ali, foi desenvolvida pela NASA. Tem um exaustor embutido que suga toda a gordura do ambiente em milésimos de segundo. A Michelle adora.

—Que beleza! Deve ser um espetáculo fritar mandioca aqui...

—What?

—Deixa pra lá... mandioca é uma coisa muito complexa pra ianque entender.

—Então, Vana, sei que a coisa já esfriou, mas não posso deixar de me desculpar pessoalmente pelo lance da espionagem. Sorry! Foi mal mesmo.

—Olha, Barack, quando descobri a arapongagem, confesso que fiquei muito puta da vida. Surtei no dia ao saber que você sabia do meu vício em comer jambo com cerveja preta. Mas depois, de verdade, acho que aquilo foi muito bom.

—Sério, Vana, por quê?

—Na época, os urubus da oposição e da imprensa golpista estavam me aporrinhando com bobagens que estavam drenando minhas forças. Os grampos ajudaram a desviar o foco da política interna.

—Vocês têm Republicanos lá também?

—Acho que o mal é o mesmo, mas no Brasil esse mal tem o nome de tucano. Republitucanos! [ela cai na gargalhada].

—Você é muito boa com trocadilhos.

—Sem falsa modéstia: sou. Mas não vim à Casa Branca pra falar dos meus múltiplos dons. Você sabe que os meus companheiros de partido têm enorme afeição pela ilha do Fidel. Como estão as coisas lá?

—Fácil, fácil... estamos indo devagar pra deixar os velhinhos saírem com dignidade, pra botar um verniz de que eles ainda têm fibra pra negociar.

—E não têm?

—Nada. O país está sucateado, a população passa por tantas privações que uma brisa democrática que leve alguns bens de consumo derruba todo mundo lá. E, convenhamos, não precisa nada muito vigoroso pra tombar os Castro brothers.

—Barack, vou mudar o rumo da prosa pra lhe fazer dois pedidos. I have two dreams. Quero tirar uma selfie com você no Salão Oval. Também quero fritar mandioca na sua cozinha. Aliás, quero saudar a mandioca na sua cozinha. Podemos fazer isso?

—Yes, we can!

domingo, 21 de junho de 2015

Poético-coentro

jaca

—Cachê pra cozinhar?

—Sim.

—Mas você é chef, cobre pelos pratos, divulgue seu trabalho.

—Sou artista. Ninguém janta no meu estúdio, as pessoas interagem com a minha arte. Elas mastigam minhas divagações. Elas engolem minhas texturas. Elas são deleitadas com meu vezo poético-coentro.

—Poético-coentro?

—Uma gastronomia que versa sobre o lirismo das sobreposições harmônicas de aromas intensos e delicados.

—Você tá de brincadeira?

—Não, não brinco com isso.

—E quanto seria o seu cachê?

—Dez mil reais por seis horas. Vocês pagam os ingredientes e dois assistentes.

—Só isso?

—Não, tem mais. Também quero um fotógrafo exclusivo. Meu Instagram precisa ser alimentado com imagens assinadas e bem editadas.

—E a coisa do TNT?

—TNT Flavor Experience. É o ato número quatro da minha performance.

—Hmmm...

—O TNT Flavor Experience consiste em pequenos estampidos no salão enquanto os comensais apreciam mousse de cajá com risoto de cupuaçu e carne de bode. O cheiro de pólvora dos explosivos será anulado com spray de jatobá.

—Qual o propósito das bombinhas fedidas?

—Respeito, cara, respeito... minha obra traz embutido um conceito de impactar. As míni-dinamites transmitem a ideia de explosão de sabores. O jatobá com seu característico odor tem a proposta de incomodar.

—O cara vai pagar uma baita grana pra se sentir incomodado?

—Sim, também. Aí entra um pouco de sexualidade não convencional na experiência do espectador. O incômodo sentido é pra despertar inclinações sadomasoquistas.

—O cara sai de casa pra jantar, vai pagar uma puta bufunfa e vai querer descobrir tendências sadomasoquistas pensando num suculento filé com fritas?

—Sim, a riqueza da humana diversidade há sempre que ser contemplada em qualquer manifestação cultural.

—E o tofu? Vai ter tofu?

—Hã? Tofu?

—Nada, esquece, tofu rima com vai tomar... tofu, melhor dizendo, rima com coquetel de umbu...

#TripAdvisor

tripadvisor-logo

Uma coisa de quinta, sem pé nem cabeça, sem graça, sem gosto. A água de 500 ml por oito dinheiros valeu cada centavo por livrar o palato daquele sabor abominável. Estomazil à mão também é altamente recomendável caso o incauto, ainda assim, se aventurar por ali.

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De que adianta o bovino ser tratado dentro dos melhores preceitos “free range” se a morte dele foi pra servir aquela carne fora do ponto. De seca já basta minha língua quando falta o Rivotril.

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E a panna cotta de frutas vermelhas? O leite era desnatado, a fruta em compota, a gelatina genérica e o creme de leite azedo. O chef pâtisser, como reprimenda, deveria ser obrigado a comer aquilo por duas semanas consecutivas. E sem nenhuma gota d’água por perto.

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Maldita obsessão pelo aumento do ticket médio. A bagaça até que agrada em alguns itens do cardápio, mas aqueles putos empurrando couvert caro, licor e sobremesa é de amargar. Garçom ou vendedor de seguro?

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Pão de queijo por seis reais? Não, cara, não. Meu espírito perdulário ainda não chegou nesse nível. Branquelo e borrachudo, além do preço exorbitante, a coisa ofendeu Minas Gerais. Tiradentes foi enforcado em vão?

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Entrada, principal, sobremesa, duas águas. Nada de vinho. A conta apontou R$ 397,50. O casal? Não, uma pessoa. Um único infeliz. Divide o valor em três prestações? Não, sinto muito. Foda-se, ladrão! Não sinto muito, sinto raiva.

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Na Vila Madalena e atrai foodies? Decorado pelo Sig Bergamin? Ketchup de goiaba e omelete sem gema? Pão de farelo de trigo da Islândia? Caipirinha sem álcool? É fato, a humanidade não deu muito certo.

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É óbvio que o cara jamais serviria comida decente. Não dá pra confiar num cozinheiro que não goste de bucho. O cara torce o nariz pra rabada? Que fique longe de qualquer cozinha.

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—O peixe tem cheiro de peixe. Cheiro e gosto. Não gosto de peixe que tenha cheiro de peixe. Acho muito forte, agride o paladar. Peixe pra mim tem que ter notas mais suaves.

—Tipo o quê?

—Tipo peito de frango. É isso, quero peixe com retrogosto galináceo.

—Coma frango, então.

—Não, mestre, você não entendeu, eu vim aqui pra comer peixe.

Walther nas alturas

céu

—Por obséquio, poderia informar-me onde estou neste momento? Vejo em demasia coisas que imagino, mas que não entendo.

—Hã?

—Confuso demais, quanta luz aqui! Esse lance de paraíso é real? Sempre fui um puta cético com essa coisa espiritual. O cenário impressiona pela perfeição, quase surreal. A beleza é muito simétrica, ortodoxa demais para a poesia concreta, cartesiana demais pra quem veio de um mundo tão deliciosamente anárquico. E você, meu caro da espécie angelical, pode me dar explicações mais abrangentes sobre essa minha nova morada? Esse conceito estético é um bocado entediante, não?

—Moço, que mal lhe pergunte: de onde está vindo?

—Acho uma questão um tanto descabida, perdoe-me pela franqueza. A confirmar-se tudo que sabemos sobre jardins celestiais e demais concepções divinas, você, seus superiores e o Superior Maior, sabem tudo sobre mim. Minha ficha mundana deve estar fácil aí, a dois cliques da sua vontade.

—Poderia simplificar as coisas, por favor?

—Lembro-me vagamente que estava deitado em casa, acometido por uma moléstia que insistia em me tirar o bom da vida. De repente, deparo-me com esse local de traços delicados, de luz abundante, de paz insuportavelmente silenciosa, de antíteses terráqueas, de paradoxos existenciais...

—Então o senhor não sabe mesmo o que aconteceu?

—Deduzo, mas sem convicção nenhuma.

[São Pedro aparece, intervém e passa ser o porta-voz das alturas]

—Walther, Walther... eu já esperava isso de uma personalidade tão inquieta, tão instintivamente contestadora...

—Pera lá, homem de Deus, literalmente, cá nesta minha entrada ainda não quero me aprofundar em dogmas religiosos, em divagações filosóficas. Ainda, que fique bem claro, mais pra frente tem muita coisa para embalar nossos colóquios.  O que quero, por enquanto, é conhecer questiúnculas mais comezinhas da minha permanência eterna aqui.

—Por exemplo?

—Existe uma segmentação por afinidade? Sendo mais específico: cantores sertanejos, pagodeiros e escritores de autoajuda frequentarão os mesmos espaços de convivência que os meus?  No refeitório: veganos, macrobióticos e outras tribos sem tempero dividirão a mesa comigo? Conflitos de idiossincrasias, resumindo.

—Warthi, pra usar o dialeto carregado da sua aldeia, aqui há uma certa uniformidade de gostos, condutas, paisagens...

—Repito o que afirmei perguntando ao anjinho: entediante, não?

—Eu não diria assim...

—Ok, podemos florear com eufemismos: ambiente de estadia infinita padronizado por parâmetros politicamente corretos, esteticamente neutros e poeticamente nulos.

—Warthi, Warthi… [gritando para o anjo] Gabriel, chama o Rui Barbosa, o João Ubaldo, o Houaiss e o Rubem Alves pra conversar com o homem… tá duro de domar o verbo rebelde dele!


PS: texto concebido em parceria com a amiga Silvia Ferrante, com quem compartilho uma saudade imensa do literato maior Walther Castelli Júnior.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sabores e tremores

alexandra-daddario

Fim de tarde de sexta-feira e o trabalho me manda à rua para colher negócios. O mundo fora do ambiente do ganha-pão areja, desintoxica da faina rotineira. Contato com o diferente pode ser um dos melhores nutrientes da existência. Contato com gente, também.

Por curiosidade, vício e gula, estou sempre aberto a descobrir novos sabores. Já encarei sarapatel, caldo de sururu, buchada de bode, peixes estranhos e outros bichos inusitados à mesa.

No mencionado crepúsculo da semana do primeiro parágrafo, acho que exagerei na coragem pra explorações gustativas.

Visitando o carismático cliente fabricante de incensos, ele nos diz que a resina —que na verdade é o produto em si— é comestível e que é relativamente comum a sua ingestão por alguns povos do norte da África. Falou isso e colocou à nossa frente uns "petiscos" da coisa.

O colega Guerino, mais educado e menos guloso, mastigou delicadamente uma pedrinha. O lambão aqui logo mandou três das graúdas à boca. O troço é sem gosto e quase impossível de engolir. Envergonhado para cuspir, fiquei mascando aquela goma insossa que gruda implacavelmente no vão dos dentes e, depois de alguns minutos de transpiração e luta, meu estômago recebeu aquela maçaroca triturada. Recebeu, mas não acolheu bem. Terminei a sexta e iniciei o sábado com um desconforto digestivo monumental.

Feliz ficou o Guerino que me disse em mensagem privada —agora caiu o segredo, meu amigo— que o incenso teve um efeito aromático muito agradável na fragrância dos seus flatos.

Ainda padecendo de azia pelo “aperitivo” vespertino, sob coação conjugal, o cinema foi o programa da noite. San Andreas estava em cartaz e a expectativa era de uma chacoalhante diversão. Hollywood sabe fazer melhor e a Califórnia não é merecedora da obra.

O filme não tem nada de entretenimento, não conta nenhuma história e é todo tenso no pior sentido da palavra. A fantasia é exagerada e não cola. Uma das cidades mais lindas do mundo, San Francisco, é inteira destruída enquanto o protagonista —Dwayne Johnson— tenta resolver seu combalido relacionamento conjugal. Ele pilota helicóptero, avião e lancha, mas é incapaz de transmitir qualquer emoção crível. Achei ofensivo e muito deprimente mostrar a Golden Gate destroçada num pseudo exercício de possibilidades geológicas. A maior tragédia no filme é ele próprio. 9,9 na escala "ruinchter".

Rola algo digno de deleite na película? Sim, um assombro de beleza perdido no meio de tanta patacoada: Alexandra Daddario.

Maguary de caju

comida congelada

—Comida congelada!?

—É... só tenho isso.

—Esperava algo mais... um macarrãozinho feito na hora, uma saladinha fresca, um franguinho refogado, sei lá, uma comidinha com gosto de aconchego, de after sex. Esse Escondidinho da Sadia é o ó! da culinária sem graça. E também vem muito pouco, quase nada, mal dá pra um.

—Quebra um galho...

—Pois é, quebra um galho. Pra você essa noite tem um quê de quebra-galho?

—Eu disse isso?

—Não disse, mas deu a entender. Você poderia ter pensado numa coisa mais caprichada, mais romântica.

—Não gostou da minha cueca de oncinha?

—Gostei, mas não tô falando do durante, tô falando do depois. Acho que eu merecia um pouco mais de consideração. Essa gororoba de micro-ondas serve pro dia a dia, não pra uma noite especial. Ou o que a gente teve agorinha não foi especial?

—Desencana, para de pensar bobagem. Vamos tomar alguma coisa...

—Um vinho!?

—Maguary de caju, pode ser?

—Edmilson Gustavo!, você só pode estar brincando... Maguary de caju é a puta que te pariu... nem uma bebida decente você foi capaz de providenciar?

—Quem está estragando a noite é você, com esse vocabulário ofensivo.

—Vocabulário ofensivo é o que vai acontecer daqui a pouco se você não largar a porra desse videogame e não me trouxer em trinta minutos um jantar que combine com a minha pessoa.

—E o que seria um jantar que combina com a sua pessoa?

—Quer saber, seu pão duro insensível, agora eu vou apelar. Pega o cartão de crédito porque a coisa vai engrossar pro seu bolso. Vai lá no Bento’s e me traga um badejo grelhado com amêndoas e arroz negro. Também quero um risoto de pera com gorgonzola e lombo de cordeiro com geleia de hortelã. De sobremesa, ouça bem, eu quero duas, duas sobremesas: um petit gâteau e uma banana flambada com sorvete.

—E a balança?

—Que balança, Edmilson Gustavo?

—Aquela que vai quebrar depois dessa comilança toda.

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[Em respeito aos leitores o escriba se abstém de transcrever as palavras um tanto pesadas da transtornada moça depois da infame piadinha, também pesada, do cuca fresca Edmilson Gustavo].