quinta-feira, 24 de março de 2016

Gun: projetos e panelas


Nem sempre a inspiração para lavrar vem em porções abundantes como nas linhas que seguem. Nem sempre o estímulo para a escrita brota da mistura de amizades da escola primária com comida que restaura e encanta. Nem sempre o lampejo para as letras salta da brava trajetória de um casal imigrante. Nem sempre...

Oliva Arias Garcia de Misa, a dona Bibi, esbanjando vigor e lucidez aos 88 anos essa espanhola de El Barco de Valdeorras, na Galícia.

Com o marido, Carlos Misa Gonzalez, que veio um pouco antes, e dois infantes, ela buscou nestes trópicos além-mar oportunidades de vida melhores do que na combalida Europa do pós-guerra nos idos da década de 1950.

A localização desta província de majestosos crepúsculos era interessante para o trabalho do marido, um itinerante vendedor de autopeças. Aqui dona Bibi fixou morada e criou os quatro rebentos, os dois que vieram da Espanha —Maria Soledad e Carlos Manuel— e mais dois nascidos às margens do Jaguari —Marcos Antônio e Luís Fernando.

O caçula do quarteto é o Gun, carinhoso apelido de família de Luís Fernando Misa Arias, amigo deste escriba desde o saudoso Joaquim José dos dançantes anos 70.

Diplomado arquiteto em Alfenas, Gun trouxe das Gerais alguns queijos, o canudo e a franco-mineira Tamara Moreira Swerts, uma paixão universitária que rendeu um casamento e o descendente Caetano, hoje com 12.

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O guloso escriba, dona Bibi e Gun: noite espanhola na Benedito Araújo

Nas reuniões familiares, sangria, jamón e afins, dona Bibi evocava as origens ibéricas através da mesa. Em mesa de clã espanhol, olé!, a paella agrada, aglutina e reina.

Gun, 46, influenciado por uma vida de generosas e aromáticas caçarolas maternas, decidiu cozinhar paellas como ofício. A prancheta não foi abandonada, mas a gastronomia das suas raízes absorve cada vez mais tempo, energia e dedicação.

Há poucos meses funcionando, abriu as portas em dezembro, a Divina Paella opera só no delivery e serve em Sanja essa maravilha culinária de Valência que tem fãs espalhados por todo o planeta.

Em tempo: se a valenciana pela tradição encabeça o cardápio, paladares ecléticos também têm vez com a mariñera e a caçador.

Em tempo 2: noite destas, tivemos, eu e Josi, o privilégio de provar a soberba paella do Gun, temperada com a gentileza e com as curiosas histórias dessa galeguinha simpática, dona Bibi.

Em tempo 3: Gun não é o primeiro herdeiro de dona Bibi a labutar para o bem comer. Marcos, o filho número três, é o exitoso empreendedor da Kuka Fresca, a rotisseria mais longeva da cidade, mercadejando consistentes sabores desde 1990.

A clássica paella valenciana

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Divindade


Fanatismo é um vocábulo brando demais para definir o estado psíquico permanente dos seguidores do messias.

No plano racional, as inegáveis evidências de (des)caminhos heterodoxos são tantas que fica difícil exercitar uma defesa crível para o indigitado. Caminhos heterodoxos, tenho dito, é um infame eufemismo para maracutaias.

Percebe-se de pronto o caráter dogmático na crença dos catequizados. Nenhum argumento refletido, isento, suplanta a fé desta turba de delirantes. A inabalável e cega confiança no líder supremo não rui nem com uma sucessão de flagrantes vexatórios.

Vulnerabilidades e equívocos dos adversários são facilmente invocados pelo apostolado ante qualquer esboço de ataque ao cacique. O diabo está sempre do outro lado. A merda está sempre no exército alheio.

Dane-se qualquer ideal de justiça quando se trata da máxima figura. O mandachuva paira acima da legalidade.  

Comezinhas mundanidades não existem para perturbar a paz do maioral. Aliás, na praia ou no campo, ele é merecedor de recantos suntuosos de sossego. Não há meio escuso se o fim resultar no recreio do aiatolá fubango.

Nestes recônditos aparelhos de lazer frequentados pela entidade-mor não se aplicam os conceitos convencionais de aquisição de propriedade e execução de benfeitorias. Forças sobrenaturais conspiram monetariamente para o bem-estar do ser sublime.

A soberba no seu excelso mundo é tanta que ali o erro é prerrogativa única dos mortais. Na confraria dos morubixabas celestiais, a perfeição. Nada menos que o sagrado impoluto.

Defecções acontecem não por lapsos na doutrina superior. O miserável que se bandear para trincheiras oponentes foi um fraco corrompido pelos bicudos a serviço do imperialismo satânico.

No íntimo, bem no íntimo, o mentor sabe que estas pregações só sobreviverão se calcadas no culto a sua personalidade, mas enredado nas próprias contradições ele aquiesce no quão nocivo é isso, para si, para a biografia que quer deixar e para o reino. Falta-lhe, no entanto, pudor, vigor e vontade para quebrar imagens.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Homo Crepuscularys

Foto: Edson Lopes Jr.

















A USP é, desde sempre, um centro de excelência em ensino e pesquisa.

E o escriba iletrado que vos fala sempre teve um baita respeito por esta magnânima academia paulista. Este respeito, agora, virou devoção.

Explico. A famosa universidade inseriu nos cursos da área de humanas uma inusitada matéria: Sanjologia.

Sanjologia, na definição da intelectualidade uspiana, estuda “assuntos mantiqueiros em geral com foco nos hábitos do 'Homo Crepuscularys'”.

O professor-doutor Joaquim José Jaguari coordena a implantação da matéria e, sem perder tempo, já perambula por estas bandas caipiras para pesquisas in loco.

Este cronista teve acesso exclusivo aos primeiros apontamentos do professor Jaguari e, também sem perda de tempo, os revela em primeira mão ao leitorado.
Reproduzo a seguir, ipsis literis, as notas de rascunho do acadêmico Jaguari.

“'Homo Crepuscularys' é o nascido em Sanja ou o que na cidade se estabeleceu e por ela criou especial afeição. Este segundo tipo, o 'Crepuscularys' por adoção, evita citar a localidade onde nasceu. A todos que o inquirem ele enche o peito e se diz sanjoanense 'desde o tempo em que a Beloca pulava amarelinha'. Para ser mais crível, ele gosta de cascatear histórias assim: 'meu pai foi pedreiro quando da construção do casarão da Rosinha do Bilu' ou 'minha mãe foi cozinheira do dom Davi Picão' ou ainda, 'meu avô foi o primeiro lanterninha do Cine Avenida'. Pura cascata. Mas uma cascata com lastro histórico.

O 'Crepuscularys' reverencia com fervor alguns símbolos da cidade. Diz ele que só em Sanja se faz bauru com lombo suíno. Saudosista, diz sempre que o melhor já passou. Cita os extintos Bar do Formiga e o Canecão do Jorge como antologias na arte baurueira. O 'Crepuscularys' da gema se orgulha das chapas pouco asseadas: 'bauru bom tem que ser feito numa chapa sujinha, assepsia de mais espanta o sabor'.
 Quando vai a Sampa de ônibus, o 'Crepuscularys' jamais menciona o nome da empresa mogimiriana que encampou o Expresso São João. O 'Crepuscularys' só vai a SP de Expressinho.

Sorvete de macaúba, guloseima-ícone da cidade, nascido das mãos hábeis da dona Angelina lá na Dom Pedro II. Há mais de 30 anos dona Angelina vendeu a sorveteria com a receita mágica. Mas o 'Crepuscularys' ainda convida: 'vamos lá na Dona Angelina tomar um sorvete de macaúba'.

'Pega a Dona Gertrudes e quando chegar na padaria da Massimina (ou seria Maximina?) vira à direita e segue reto até chegar na Transamazônica'. O 'Crepuscularys' adora referenciais sepultados —Massimina não assa pães há trocentos anos. Também gosta o 'Crepuscularys' de fazer em sua província analogias às grandes obras do país. Lá no fim dos anos 70 quando a Avenida Dr. Oscar Pirajá Martins foi aberta, a imensidão despovoada da região fez brotar a alcunha amazônica no logradouro. 'Montei na minha CB400 e dei 180 na Transamazônica'.

O 'Crepuscularys', salvo as exceções abastadas do PIB Mantiqueiro, anda meio quebradão. Mas não perde a pose. Sábado de manhã ele toma um cappuccino pequeno no Lafarrihe da Rita Yazbek, compra os jornais da cidade na Letra Viva e joga maldição no Hélio Gatti: 'Héliooo!, eu te odeio!, você teve a pachorra de fechar um bar para abrir uma livraria!'. Flana na Dona Gertrudes botando a prosa em dia e senta no Tekinfin pra bebericar um chope, só um, por três horas.

O chope é pretexto. O 'Crepuscularys' é provinciano e não quer outra coisa. Só quer ver a Sanja passar...”

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Réveillon


Centenas de milhares na mais paulista das avenidas. O copo na mão, a roupa branca, o espírito de celebração para receber o novo. Ainda que por uma noite, as dores e as tristezas do ano terrível são esquecidas. O champanhe e a esperança de dias melhores são estimulantes do ânimo. Os fogos espocam, beijos e abraços pipocam...

O primeiro parágrafo é uma impressão real, verdadeira, mas miseravelmente não me deixo contaminar por esse astral festivo. Sou o cinza na efusividade colorida. Sou o pingo amargo na massa doce. Sou, ao mesmo tempo, autor e vítima de uma escolha infeliz.

A metrópole que me fascina em outras épocas, hoje se mostra muito distante do que eu quero. Nada tem de bom estar, numa data tão simbólica, longe de familiares, amigos e próximos, com os quais, uns mais outros menos, eu convivo. 

Insone, refestelado no leito de um excepcional hotel nos Jardins, 1:40 entrando em 2016, a melancolia impera com o incômodo retrogosto de tacos de quinta, guiozas encharcados, sertanejo universitário e Coca quente.

Na GloboNews, Marisa Monte canta que "já não há caminhos pra voltar".

Engulo seco, amaldiçoo meu desolado Réveillon e concordo com ela.

Em tempo: passado o oba-oba natural da virada —sou sempre habitué nestas publicações otimistas e comemorativas—, pela vaidade das letras e pelo travo na boca, não resisti em externar angústias tão humanas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Frevo


Desde 1956, com o passar dos anos, o Frevo se transformou numa instituição paulistana. Muito por causa do seu clássico beirute de rosbife, que desde sempre deleita gerações e gerações de famintos.

Ainda na Oscar Freire, há pouco mais de dois meses ele mudou atravessando a rua.

A nova morada não quebrou a tradição: os beirutes continuam maravilhosos, o chope continua vindo naquelas taças setentistas, a sobremesa Capricho ainda nos seduz com a calda quente de chocolate e com aquela exagerada farofa doce sobre o sorvete e, o último dos românticos, a conta permanece nos sendo cobrada pelos garranchos dos garçons. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A Casa do Porco


Domingo chuvoso, fim de feriadão. O cinza pede um viagra para a alma. A magreza no ânimo pede calorias.

Antes do retorno à província, o repasto na capital é n’A Casa do Porco, do chef de São José do Rio Pardo, Jefferson Rueda, o Jeffinho.

Jeffinho, um sabe-tudo dos cortes suínos, entrou na cena gastronômica comandando por bons anos a cozinha do Attimo, trabalhando com primor num conceito que ele chama de ítalo-caipira.

Apesar de interiorano, ele é um apaixonado pelo velho centro da Pauliceia, onde mora e onde a esposa, a “Dona Onça” Janaína Rueda, serve caçarolas densas no pé do Copan.

Por isso, sair do reduto mauricinho —o Attimo fica na Vila Nova Conceição— pra cozinhar em oldtown foi mais do que natural.

A Casa do Porco foi “porcamente” pensada. O prédio, na degradada rua Araújo, preserva seu exterior detonadão. Dentro, a brigada jovem e bem treinada abraça o comensal num ambiente repaginado, informal e muito ajeitado. Uma coisa rústico-moderna, se é que isso existe. O cardápio é um fervoroso culto ao porco, concepção de quem conhece o bicho desde a roça.

Comida que ergue, que restaura, que extasia…


Minha emocionante e antológica experiência...

Entradas: pancetta com goiabada. Sim, é isso, pode acreditar: goiabada cremosa com um toque de pimenta cobrindo uma crocante barriga de porco frita. Um soco gordo na mesmice! 

Outro aperitivo: sushi de papada de porco com tucupi preto. O homem inventa, arrisca e acerta.

Principal: Porco à SanZé, o carro-chefe. A carne, lentamente assada, é servida tenra e desossada com couve, tartar de banana, farofa amanteigada e tutu de feijão. Uma "porca" poesia. 

Sobremesa: morangos frescos com fitas de salsão e sorbet de manjericão. Foda de bonito e de diferente. Muito foda!

É fato, este planeta está cada vez mais inóspito, mas ainda é o único lugar onde se pode comer o porco-arte do Jeffinho Rueda.



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Mundinho Facebook

papo de cozinha

Mídias sociais são espaços férteis para criação de lendas cibernéticas. Vez ou outra sou vítima e/ou beneficiário do personagem que brotou das atividades que perpetro na grande rede.

Por algumas fantasiosas deduções decorrentes das minhas digitais no Facebook, Instagram e afins, já fui alvo de pesadíssimas acusações.

Ser tachado de esportista foi uma das maiores barbaridades. Não obstante as múltiplas fotos que retratam um indivíduo notadamente fora dos padrões ditos saudáveis, eventuais postagens de finais de semana em que, enfiado em indumentárias fitness de cores berrantes, caminho ou pedalo em trilhas bucólicas do torrão Sanja-Prata, induzem os incautos a uma falsa visão atlética onde só há fagueiros passeios dominicais.

Publicações que narram viagens de recreio ou efemérides familiares em que sorrisos, poses e belos cenários abundam, também proporcionam divertidos ilusionismos. Família perfeita, digo sempre, só existe em publicidade de margarina. Expresso aqui toda a humanidade do meu clã para me livrar da falsa imputação de felicidade excessiva e ofensiva.

Useiro e vezeiro na produção de imagens e letras sobre os prazeres da mesa, não é raro, em razão disso, me atribuírem uma habilidade que eu definitivamente não tenho: cozinhar. Reconheço meu apreço pela pirotecnia gastronômica, mas assumo a destreza quase nula no fazer. Muito barulho pra pouca mão na massa.

Anos atrás um conhecido me convocou à sua casa. Ansioso, ele tirou do freezer um lindo pernil de cordeiro e intimou: "Sábado ele é todo seu. Me passe os ingredientes para o tempero que você vai preparar essa maravilha". Apavorado e sabedor do quão precioso era aquele tesouro ovino, é óbvio que recusei a tarefa. Recusei, mas implorei por um downgrade na patente: de cozinheiro para apenas comensal.

Dia destes, de novo, o escriba fanfarrão foi convidado para outra estripulia culinária. Fabiana Gimenes, a blondie carismática do programa Papo de Cozinha, encasquetou que eu seria o cara a pilotar o fogão na TV. Essa coisa embriagante chamada ego impediu-me de declinar o chamado.

Uma receita de fácil execução foi a primeira providência tomada pelo MasterFakeChef. Levar a esposa ao estúdio foi a segunda medida preventiva de desastres.

Uma gafe ou uma trapalhada cinematográfica, resignado com o inevitável eu já estava, seria um bom mote de humor para a crônica da semana.

A coisa, surpresa!, rolou legal. Uma produção redondinha, uma direção paciente e uma apresentação descontraída. A Globo!

O êxito na empreitada televisiva, pensando bem, foi muito danoso. Roubou-me o gancho de gracejo para o texto. Obrigou-me a lavrar aquelas divagações sociológicas de almanaque nos primeiros parágrafos. E, por fim, contribuiu para pincelar com tintas definitivas o quadro deste embusteiro das comunidades virtuais.

Nasce o mito! Morre o mito!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Greve

GREVE
Economia ladeira abaixo. Crise política cada vez mais agravada pelos dramáticos desdobramentos no Legislativo e no Executivo. A nação se arrastando, por tudo isso e pela leseira que nos causam essas temperaturas diabólicas. Greves, protestos, motins e revoltas pipocam em todos os segmentos relevantes do país. O conhecimento da realidade obriga o cidadão a fazer um pequeno tour informativo por aí. Ouçamos atentamente algumas vozes do descontentamento.

Maçarico
Esse tal de leitão é muito arrogante. O suíno é gostoso, mas é muito marrento. Vá lá que a carne dele seja saborosa. E é. No entanto, caramba!, não custaria nada ele dividir os holofotes à mesa e me dar os créditos crocantes da pele. Só volto a prestar o fogoso acabamento pururucante depois do devido reconhecimento público do meu valor.

Borbulha

Sem graça e sem atrativo nenhum. Sem sal e sem açúcar. Ela só ganha um gingado quando eu entro com meus dotes efervescentes. A "patente" gasosa é por minha causa. Ingrato líquido H2O! Só retorno à garrafa se receber a merecida condecoração borbulhante.

Queijo

Sou o contraste pungente à melosidade excessiva da Julieta. Com meu branco láctico, trago também equilíbrio cromático à nossa dupla. Nada quero além do meu papel. Não sou estrela, mas também não aceito ser coadjuvante. Estou no mesmo nível dela e é assim que quero ser apresentado. Goiabada, a partir de agora, somente ao meu lado. Em cima, jamais. Estarei fora do prato se ela exigir o protagonismo.

Azeitona
Quem confere autenticidade a uma receita de empada? [gritando] Sou eu, porra! No boteco ou no buffet grã-fino, ela só impõe respeito se me tem no recheio. Juro que não comparecerei à próxima fornada se o mérito azeitonístico não for cantado em prosa e verso. Empadinhas, cansei!

Manteiga
Percebo o atrevimento de requeijões e geleias rodando bolsinhas por aí. Sei que o francês é volúvel e sucumbe ao desejo do miolo. Foda! Vou deixar bem claro que a virtude da untuosidade é minha. A gorda cremosidade que umidifica baguetes e afins é a razão d'eu existir. Me terás deliciosa no café da manhã se me for dada a exclusividade lubrificante das bengalas. E não peço perdão pelo duplo sentido, pois muito me orgulho das minhas outras utilidades. Aquele filme do Marlon Brando prova que não minto ao falar desta amanteigada versatilidade.

Couve
Não quero mais estar escondida no "completa" da feijoada. Ou melhor, não queremos. Vou pra essa briga com o apoio dos meus companheiros também ignorados: vinagrete, farofa e laranja. Sabemos do nosso status acessório. Respeitamos essa classificação, mas recusamos com veemência o limbo da não menção. Aceitamos o abrigo numa tipologia menor, mas exigimos nossa nominação expressa em cardápios, lousas, letreiros etc.

Pizza
Cariocada herege! Malemolência desgraçada a desse povo. Minhas napolitanas origens são reiteradamente vilipendiadas por essa turba praiana que me consome submersa em ketchup. Puta mau gosto! Azeite, sim, sempre. Só ele. Não serei mais assada no Rio se não houver pena de morte pra quem ousar me esfregar naquela assustadora pasta atomatada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Ray-Ban e chinelos

natureza

Estacionei o carro na lateral da estradinha de terra. Dali em diante, só caminhando. Fui...

A trilha até a cachoeira pode ser vencida com pouco esforço em míseros setenta passos. O terreno relativamente limpo, sem obstáculos, deixa mais agradável a vereda em seu suave declive. Aquela imensidão verde para no limite da estreita faixa onde os urbanoides circulam.

Nestes dias de temperaturas desérticas, o corredor descrito transporta o vivente da secura infernal para um recanto de água abundante, fresca e limpa. Banhos ali são mais do que refrescantes, são restauradores de civilidade. O mergulho na piscina natural resgata uma dignidade quase destruída pelo calor que não é de Deus.

Bicho do asfalto e gorducho, desço vagarosamente ao paraíso. Ressabiado com o cenário off-cidade, sou precavido para que peçonhas não estraguem o meu recreio. Observo muito e, perdão cachorrada, farejo idem.

PQP!!!! Tem veneno no pedaço!!!!

Um veneno com a substância letal da morenice brasuca.

No deck rochoso, uma beldade esculpida em harmônicas sinuosidades relaxa sem qualquer material têxtil ou sintético a cobrir-lhe as vergonhas. Seu traje se resume a um par de Havaianas num extremo e óculos ao estilo Jackie Kennedy no outro. Fones nos ouvidos e um geme-geme ritmado entregam que ela escuta Marisa Monte.

A pose de estátua erótica também se quebra com os lentos movimentos que a acomodam numa posição mais confortável. Lagartear ao léu é preciso...

Respeitoso com o repouso alheio, me abstive da aproximação que poderia provocar um afoito gesto para esconder pele e pelos.

Admirador da natureza bruta, camuflei-me nos arbustos como um paciente fotógrafo da National Geographic.

Buscador incansável da paz conjugal, foquei a câmera do meu iPhone na direção de paisagens menos insinuantes.

Faminto insaciável, depois de sessenta minutos plantado, abandonei a posição de voyeur para devorar um curau no bosque da Prata.

Entusiasta de gente bem resolvida, aplaudo a socialite sanjoanense que renunciou temporariamente ao universo do jet set crepuscular para, numa quinta-feira de primavera, se desnudar sozinha e despreocupada num torrão recôndito da floresta platino-pratense.

A mata densa, o canto das aves, o ruído da vigorosa catarata, a formiga operária, o milho verde e a moça nua se espreguiçando na pedra. Biodiversidade, eu curto!

jackie k

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Tabus e alicates

FERRAMENTAS
Charles Darwin, se vivo fosse, teria na figura deste roliço escriba uma prova cabal do acerto de suas conclusões evolucionistas.

Nenhuma vanglória, zero de autolouvações, tampouco jactâncias, caríssimos leitores. A constatação de um notável progresso pessoal não exclui o mea-culpa do quão retardado foi esse avanço. Um darwinismo terceiro-mundista, digamos. Um saltinho demorado, convenhamos.

Faz parte da cartilha de conquistas do homo medius alguns itens essenciais: diploma, família, casa, carro, emprego estável, conta no banco, cachorro, pijama de bolinhas, perfil no Facebook e uma caixa de ferramentas.

Atenho-me a esta última e importante menção: a fundamentalíssima caixa de ferramentas. Inatacável é o provedor do lar que tem na garagem um providencial estojo de apetrechos reparadores.

Cumpridor dos deveres de cidadão, temente a Deus, pagador de impostos, zeloso com a prole e marido fiel, são todos atributos desejáveis no homem de bem. Mas de nada adianta esse cesto de virtudes se o varão não for o legítimo possuidor de uma conveniente caixa de ferramentas.

Florear o verbo, repetir conceitos, abusar de sinônimos e arabescos do idioma, carecer de objetividade. São pedaladas marotas —vide parágrafos acima— que o cronista lança mão para encher linguiça, mas são também recursos retóricos para sublinhar momentos ímpares. E este descarado escrevinhador foi protagonista de uma vitória singular no comecinho da semana. Conto-lhes...

Cuidadoso com a integridade física da minha atlética esposa, arvorei-me naqueles magazines xinglings que invadiram a Adhemar de Barros para adquirir equipamentos de proteção para ciclistas.

Num daqueles corredores da Pequim de bugigangas, fui tomado por um devastador sentimento de omissão ao deparar com objetos que deveriam fazer parte da minha vida há mais de vinte e cinco anos —a maioridade dos dezoito seria uma idade razoável para esse batismo de civilidade e prudência. Alicates, martelos, chaves de fenda, aquele arsenal metálico pendurado imputava graves acusações ao paroquiano autor destas linhas: ele nunca teve colhões para ter a própria caixa de ferramentas.

Inimigo de trabalhos que exijam um mínimo de destreza manual, fui arrastado por mais de quarto de século através da generosidade da vizinhança que sempre me acudiu nas horas críticas. O sopro de ar vinha na forma de uma salvadora chave Philips.

Ali, naquela alameda de comércio popular, sitiado por conflitos internos e dramas de consciência, acabei com um tabu existencial, libertei-me de um opressor paradigma de comportamento e, aliviado, comprei a minha primeira e redentora caixa de ferramentas.

Preparado estou ante a imprevisibilidade traiçoeira dos acidentes domésticos.

Ainda sem motivos para o uso inaugural —confesso até um certo receio pela chegada do instante crucial—, ela, a bem fornida caixa, numa prontidão diligente, repousa entre os meus guardados proporcionando uma sensação de segurança jamais sentida nos meus combalidos quinhentos e quarenta meses neste mundo. Alcancei, orgulhoso do feito, o patamar da dignidade entre os meus.