terça-feira, 21 de abril de 2020

#BozoPhone

—Pois não, senhor.

—Você tem AI-5?

—Tenho sim. Vou pegar aqui pra lhe mostrar. 

—Quais as vantagens dele em relação ao 4?

—Ele tem novas funções. A função Arminha o pessoal adora. Aqui ó, é só abaixar este flip que ele vira uma pistola automática. Dá pra matar ou, se não quiser ir tão longe, dá pra usar pra fazer pose “cidadão de bem”. Tem também a função Doi-Codi, você abre o app, coloca o câmera na pele do esquerdista e dispara choques como os da década de 1970, que neste AI-5 foram reestilizados para 2020. Enquanto o vagabundo comunista é eletrocutado, o “táokey” na voz do Capitão é repetido a cada três segundos. 

—E tem algum app do coronavírus?

—Claro. O app Covid, na versão 19, consegue contaminar 180 pessoas sem recarregar a bateria. E se você quiser ser mais objetivo tem o localizador “detecta-velhinhos” pra identificar aqueles que precisam morrer mais rápido. 

—E aquele app Moro?

—Tem, mas vou ser bem sincero, não funciona nem a pau. Roda, roda, roda, mas nunca abre.

—Me falaram também da função Mito. 

—Sim, isso só tem no AI-5 Max. O dispositivo vira uma espécie de megafone com a voz do Mito amplificada repetindo palavras de ordem pelos fechamentos do Congresso e do STF. Na última atualização foram inseridos xingamentos ao Maia, ao Doria, à Globo e elogios ao torturador Ustra. Ideal para aqueles momentos nas passeatas em que a garganta já está estropiada.

—Show!

—Agora o mais legal são as variações de mugidos no app Gado. Tem de Nelore, Holandês, Angus, Gir, Caracu... é cada “muuuuuuuu” de arrepiar. Ah, tem até som de berrante.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Cadela Lanches

Um x-tudo com hambúrguer Angus por R$ 14,00? 
Um x-salada por R$ 12,00? Um x-bacon por R$ 12,00?
Sim, isso existe nesta província crepuscular. 
🍔🐶🍔🐶
Hora de invenções e reinvenções. Mudar é imperativo de sobrevivência comercial. As pessoas querem continuar tendo prazeres na boca (ops!), mas cada vez mais buscando economizar para enfrentar a crise.
🍔🐶🍔🐶
Cadela Lanches é o novo empreendimento do grupo Tr3s (Hills/Quintal) para operar exclusivamente no serviço de delivery. Cardápio enxutinho de 5 sandubas clássicos, sem firula, todos com burguer Angus da Carnes Mantiqueira. Ah, rola até um sem carne, uma coisa estranha que eu não pretendo provar que leva os vegetarianos à loucura: hambúrguer de batata com parmesão, queijo e maionese. Fritas podem acompanhar o pedido, dizia o bordão daquele antigo M amarelo do fast-food.
🍔🐶🍔🐶
Chame a Cadela no zap: 19 3195-2061, de terça a domingo a partir das 18h.
Leve a Cadela pra casa!
Siga a Cadela no Insta: @cadela.lanches


Medo


Indignado, revoltado, assustado, nem um pouco surpreso, mas sobretudo estou triste. Envergonhado também.

Quando mais precisamos de um líder para coordenar as forças da nação nas lutas contra a pandemia e contra o caos econômico, vemos um incendiário, novamente, botando pilha no seu séquito de fanáticos. Estes, cegos pelo extremismo e tomados por fetiches autoritários, só sabem berrar contra a Constituição, contra o ordenamento jurídico, contra o bom senso, contra a democracia e contra a vida de seus compatriotas. 

Vi imagens de São João e de alguns lugares do Brasil. Em Porto Alegre uma mulher vestida de vermelho foi covardemente agredida. Vi um povo raivoso, olhos esbugalhados, veias saltadas, histéricos, usando a bandeira do país na vil intenção de impor um patriotismo de conveniência e a volta da ditadura. Uma coisa impensada, pra mim, depois da redemocratização do país em 1985. De verdade: será que essa gente sabe o que é uma ditadura?

Em Brasília, o presidente, de novo, discursa, afronta e desafia para delírio de seus apoiadores que se reuniram numa manifestação pedindo intervenção militar, o fechamento do Congresso e do STF e a reedição do AI-5. O mandatário claramente endossou os clamores golpistas.

Mais uma vez o sono não vem. Mais uma vez sou compelido a escrever pelo bem de minha sanidade mental, e pela primeira vez sinto medo das consequências. Bolsonaro fora, dentro dos ritos legais, é uma decorrência da reação —ainda que tardia— das instituições. O que não vai ser legal, em todos os significados da palavra, será a revolta dos congregados da seita bolsonarista. Essa turba ensandecida, pregadora do nazifascismo, ainda que não saibam o que é isso, é apologista das armas e do uso da violência. Não vou negar: tenho medo.

Politicamente, Bolsonaro é um cadáver insepulto. Ele perdeu, hoje, o fio que sobrava de capacidade para presidir o país. Tem a seu lado, por enquanto, os filhos, alguns ministros, poucos militares, meia dúzia de políticos e milhões de seguidores. Destes, milhares estão dispostos a agir, sem perguntar, obedientes a qualquer comando do Capitão.

Sim, eu tenho medo!

terça-feira, 14 de abril de 2020

Seita

Um amigo, ex-colega de empresa, escritor e cozinheiro, tem um perfil bem alto astral no Facebook. Sua timeline é leve, permeada por crônicas, bom humor e delícias que saem do seu fogão. Por opção pessoal, ele não é muito de polemizar nem entrar em bolas divididas na seara política. Esse carisma, óbvio, levou ao seu perfil milhares de seguidores. 

Dia destes, assustado com a pandemia e escandalizado com as sucessivas afrontas ao isolamento social e às mais comezinhas regras de saúde pública perpetradas pelo genocida que nos governa, esse meu amigo quebrou seu protocolo de moderação e expôs sua indignação na rede social.

A maioria esmagadora que comentou no post, até alguns eleitores do Capitão Corona, foi de apoio à manifestação do meu amigo e repulsa absoluta ao personagem criticado. Pipocaram ali também testemunhos de voto-arrependimento. 

Os fanáticos da seita, como era de se esperar, também compareceram no post do meu amigo. Como era de se esperar, espernearam, amaldiçoaram a esquerdalha, o comunismo, a China, a Globo, o Doria, o complô mundial contra o Brasil. Elogios deles foram só para o Capitão que saúda simpatizantes com catarro na mão. Seguiram direitinho a cartilha escrita no gabinete do ódio, odiando o que era pra ser odiado, venerando o que era pra ser venerado e negando o que era pra ser negado. Um primor de irrealidade!

Falei em seita e acho que o termo mais correto é esse mesmo: SEITA. 

Nesse caldeirão medieval há todos os ingredientes de uma seita: ignorância, cegueira, negação de evidências científicas, ataques orquestrados a qualquer um que ameace a divindade do líder, obediência incondicional ao líder, desprezo a tudo e todos que não fazem parte da seita. Nada de racional e muito de extremismo.

É assombroso!

No caso em questão, o mal maior está no fato de que a, digamos, filosofia da seita não afeta só seus membros e seu líder, mas um país inteiro no meio de uma das maiores tragédias infecciosas da História.

O horror, o horror!

[PS: terminando o texto vejo um vídeo dos fanáticos dançando com um caixão em plena Av. Paulista no último fim de semana, zombando das medidas de saúde pública, dos profissionais que estão na linha de frente, zombando dos mortos pela doença e de seus familiares. Isso não é normal, por Deus!]



sábado, 11 de abril de 2020

Vevey

Moleque, fim dos anos 1970, eu tomava café da manhã lendo os rótulos da escassa variedade de itens à época. Na maioria das vezes, Claybom Cremosa e Nescau eram os únicos objetos de leitura matinal à mesa do infante glutão. Vez ou outra, o requeijão Poços de Caldas estava também por ali, para ser lido e lambuzado nas bengalas da padaria da Dona Elza. O leite era gordo, o café era Negrito e a Tereziano Valim era deliciosamente residencial.

Na lata do clássico achocolatado Nescau, um nome curto, simpático e sonoro me fazia viajar na imaginação: Vevey. A cidade suíça onde fica a sede da colossal Nestlé. Idealizava o lugar com aquelas paisagens helvéticas de calendário. Vaquinhas em verdes pastagens, chalés, céu azul, cheiro de chocolate e picos nevados.

Corta para maio de 2018. O dia 12 terminava. Depois de um almoço inesquecível na francesa Yvoire e de passeios lindos pela região do Lago Léman, Josi quis fazer uma parada rápida em Vevey. Ela também sonhava conhecer a cidade mencionada nas latinhas de leite condensado.

O pitstop foi de menos de hora. Injusto julgar Vevey pelos poucos minutos passados no entorno da matriz da Nestlé num fim de tarde chuvoso, mas aquele prédio moderno, aquelas ruas vazias, aquela arquitetura triste, fria e sem charme, aquele silêncio, nada daquilo tinha o gosto de infância, o gosto de Chokito, o gosto gostoso de assistir Sessão da Tarde comendo Leite Moça com Nescau.

Pausa


O homem enxergou as vísceras de sua vulnerabilidade. O ritmo cotidiano diminui. A reeducação é forçosa. Revalorizamos o ecossistema planetário. Vemos, no sentido real e metafórico, o que era oculto pelas engrenagens incessantes. A natureza nos mostra mais do seu vigor quando menos interferimos nos sopros divinos. A vida, mais do que nunca, pede passagem. 

sábado, 4 de abril de 2020

Lamúria


O vírus à espreita nos espirros dos seres mais insuspeitos. Não, não há mais insuspeitos numa época de pandemia. Senhoras nas janelas amedrontadas com o que está além do portão. Ruas desoladas. O tráfego diminuto remete a tempos idos. Pessoas não flanam mais. As poucas que andam nas calçadas o fazem por necessidade imediata e específica. Visitam o mercado ou a farmácia e se recolhem novamente. Suas casas viraram bunkers antivirais. O convívio doméstico se mistura com uma nova forma de trabalhar. A mesa de jantar divide sua prazerosa finalidade com documentos e computadores. Varandas e quintais são o máximo possível de lufadas de ar. Usar a voz ao telefone voltou à moda. As motos de delivery entregam o que retirávamos nos balcões. É preciso ouvir, ao menos, quem víamos com frequência. Esteiras e bicicletas ergométricas foram reavivadas para cumprirem sua missão fundamental. Netflix e livros nos salvam do tédio. Escrever espanta nossas angústias. A música alivia nossa tristeza. Fanáticos gritando mentiras e insanidades escancaram nossa mediocridade como espécie. Dizer “estamos perdidos” nunca foi tão literal. 

segunda-feira, 23 de março de 2020

Verme


Quero luta
Necessidade
Varrer o biruta
Não à maldade

Praga, tormento 
Estupidez 
Sujo, nojento
Insensatez

Inepto, fraco
Sem norte
Bruto, velhaco
Cheiro de morte

Flores e cores
Viva!, virão
Ódio e dores
Passarão 

sábado, 7 de março de 2020

Restaurante Sítio Fortaleza

Comida caipira, comida da roça, comida rancheira, comida rústica...

Vários são os nomes que batizam o mesmo tipo de rango servido nos restaurantes localizados em áreas rurais. Nesse modelo de estabelecimento, quase sempre a família proprietária faz tudo: compra os insumos, limpa o salão, cozinha, recebe os comensais, serve mesas, repõe a comida, fecha a conta...

Fincado na Serra da Paulista, esse pedacinho de exuberância verde que conecta São João a São Roque da Fartura, o Restaurante Sítio Fortaleza regala com uma comida camponesa que agrada matutos pelas raízes e saudade e urbanoides pelo sabor e abundância. O pururucar da leitoa, o estalar da mandioca, o amargar do jiló, o roncar da feijoada, o queimar da lenha...

O repasto fresco, fumegando e cheiroso, evoca fogões do passado em casas de mulheres queridas —mães, tias e avós— que nos beijavam sem tirar o avental. O molho de pimenta artesanal e os doces caseiros com queijo denotam um cuidado também nos detalhes.

As portas estão abertas há quase vinte anos, e esta longevidade, penso eu, também se deve à geografia que proporciona uma visão cinematográfica dos arredores. O panorama contemplado dali sintetiza a singularidade desta Mantiqueira de tantas exclamações.

E por falar em mantiqueirices: a propriedade é agraciada, ainda, com uma cachoeira belíssima, cujo acesso é exclusivo aos clientes.

🥘🍗🍺 🍌🌳💦 
👉🏻Onde? Restaurante Sítio Fortaleza.
👉🏻Como? Acesso pelo km 4 da Estrada da Serra da Paulista (o Waze faz a rota sem erro).
👉🏻Quando? Sábados, domingos e feriados, das 12 às 15h.
👉🏻Quanto? Mastigue sem limites pagando 45 polentas por pessoa.
👉🏻Dinheiro de plástico? Deixe em casa essa modernidade e leve as antigas notas de real ou os esquecidos talões de cheque.

domingo, 9 de fevereiro de 2020

Cantina Galo de Ouro


A poesia na simplicidade. O encanto nos pequenos prazeres da vida. A surpresa nos recônditos da Mantiqueira.

Entrego-me, não raras vezes, às dicas de amigos quando estas trazem algum tesouro gastronômico da região. 

Entrego-me, não raras vezes, ao apelo irresistível de um frango assando em slow motion naquilo que a genial sabedoria popular apelidou de “televisão de cachorro”. 

A entrega deste fim de semana foi na vizinha mineira Andradas. Conheci lá, no Centro da cidade, um inusitado boteco que serve um irretocável frango assado.

Picado, servido numa prosaica bandeja de papelão, o penoso, temperado à perfeição, chega à mesa para ser devorado da forma preferida do freguês: com talheres ou deliciosamente com as mãos. É regra, pela secura, minha rejeição à carne do peito do frango. Na Cantina Galo de Ouro, pelo ponto ideal, todas as partes têm a suculência desejada por este escriba glutão. 

Devem acompanhar a refeição acessórios que contribuem para a grandeza do momento: farofa e maionese da casa, tudo com aquele jeitão de almoço de domingo que os mineiros sabem tão bem fazer.

A taberna é democraticamente frequentada por trabalhadores que relaxam com uma cervejinha no balcão e por casais sentados para o lauto repasto.

Desde a década de 1980 nas mãos da família Pádua, o bar é tocado pelo casal João Vergílio e Abigail e pelo filho João Vítor. Na prosa com o clã, que transborda gentileza, é admirável ouvir a preocupação deles com cuidado no preparo e com a satisfação dos comensais. 

João Vítor, dezoito anos, brilho nos olhos, é quem vai manter a tradição no nobre oficio de assar mais de mil frangos por mês por mais algumas décadas.

🐓🍗🍺
Cantina Galo de Ouro
Rua Cel. Eduardo Amaral, 286, Centro
Andradas, MG
35 99930-1264
(o bar abre diariamente, mas o frango só é servido de sexta a domingo, das 8 às 23h)