sexta-feira, 5 de maio de 2023

Sidney Beraldo


 Sidney Beraldo foi vereador em São João da Boa Vista nos anos 1970, quando iniciou sua vida pública. Na sequência, foi dos melhores prefeitos que a cidade já teve. Deu continuidade à gestão municipal renovadora de Nelsinho Nicolau. Por quatro mandatos consecutivos, ocupou cadeira de deputado na Assembleia Legislativa paulista. Entre 2003 e 2005, foi presidente da casa de legisladores de São Paulo. Ainda, no executivo dos Bandeirantes foi Secretário de Gestão Pública e Chefe da Casa Civil. Beraldo foi o homem público que mais fez por São João nos últimos quarenta anos. Hoje ele é conselheiro e presidente do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo.

Beraldo, lá na década de 1970, foi forjado no MDB que combatia a ditadura militar. Beraldo, divergindo do então PMDB dominado pelo fisiologismo de Orestes Quércia, esteve, em 1988, no navio do nascituro PSDB que zarpou sob o comando de Franco Montoro, Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso.

Na história política recente do país, Sidney Beraldo não negou seu berço democrático. Embora adversário histórico do PT, ele não se omitiu no último pleito presidencial. Seu lado, sem vacilar, foi o das trincheiras civilizatórias, do antifascismo, do repúdio absoluto aos quatro anos da tragédia bolsonarista.

Dias atrás na Dona Gertrudes, saindo do cinema de mãos dadas com a neta, ele foi insultado publicamente por um triste personagem do extremismo de direita. Sim, acreditem!, suas convicções eleitorais e humanas fizeram dele, na companhia de uma criança, vítima do desrespeito e da violência verbal perpetrados por um membro do bando nefasto que tentou tomar o país de assalto nos últimos tempos.

É triste constatar que parte da província pela qual Beraldo tanto fez, esquecendo seu notável currículo de bons serviços e seu perfil conciliador, hoje o renega e o ultraja por ele ter escolhido o caminho não obscuro da História.

sábado, 8 de abril de 2023

Casa Prata

 

A água mineral que é um dos símbolos maiores da pequena estância presenteou a cidade com uma charmosa hidro-boutique que congrega cafeteria, loja e sorveteria (La Basque!). E quem quiser saber mais sobre os 140 e tantos anos da aquosa tradição de Águas da Prata e da empresa, uma linha do tempo conta a bela história. Do café da manhã ao fim de tarde. De croissants, sanduíches e tábuas de queijos, passando por drinques não alcoólicos e bebidas quentes, até sorvetes de pistache, menta, vanilla, mais brownies, tortas e cookies. 


💦💧💦💧

👉🏻De quarta à sexta, das 11 às 18h

👉🏻Sábados, domingos e alguns feriados, das 9 às 19h 

quarta-feira, 5 de abril de 2023

Casa do Colono Café

 

Família (Junqueira) que planta café rompendo gerações quis também torrá-lo e servi-lo no coração turístico de Poços. No prédio histórico e lindo das Thermas Antônio Carlos, a Casa do Colono se encaixou perfeitamente na arquitetura clássica do lugar. Bacana cardápio que harmoniza com o clima da cidade. Bebidas quentes, caldos, sanduíches, tortas e crepes que exalam aromas da terra e perfumes da serra. Abraços de sabor e afeto que aquecem as tardes e noites frias desta Mantiqueira de tantos encantos.

☕️ 🍜 🍰 🍪

Rua Junqueiras s/n - Thermas Antônio Carlos

Poços de Caldas, MG

domingo, 5 de março de 2023

Maria Tapioca


Desde 2015 trazendo um cheiro do Nordeste para esta aldeia crepuscular. O nome é marcante e deliciosamente sonoro. A localização é mantiqueiramente gostosa. O ambiente é charmosamente acolhedor. A comida é saborosamente afetiva. Há dois meses, o que era bom ganhou lufadas de novidade. Os primos Mollo, Camila e os brothers Dudu e João assumiram a casa e já estão batendo panelas para avisar das atualizações do cardápio. O que me pegou forte, bem forte: o bauru! Evocaram um clássico sanjoanense e botaram Pernambuco e Ceará no meio do sanduba. Escutem só… um bom pão francês recebendo carne-de-sol, queijo coalho chapeado com melaço de cana, tomate também chapeado, rúcula e maionese de ervas artesanal. Arre égua!

🍽️ 🥖🥩🍳

Av. Dr. Durval Nicolau, 252

São João da Boa Vista, SP

De segunda à segunda a partir das 17h30

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

X-curidão, o hambúrguer sinistro


A indicação da hamburgueria veio de uma pessoa que trabalha (bem) com gastronomia. Fomos os primeiros clientes da noite de domingo a chegar ao local, que fica numa rua tranquila do centro da cidade. Não há sinalização, a calçada é escura e a fachada carece de cuidados estéticos.


Na minúscula recepção, a adolescente, pés descalços na cadeira, está sentada à frente de um velho computador com teclado encardido e mouse seboso. Minha presença é solenemente ignorada pela jovem, que só tem olhos para o celular. O dono, também pouca idade, traça um burgão no estilo “nobre medieval devorando coxa de peru.”


“Não temos cardápio de papel. Entra aí no nosso Instagram que o menu tá lá.” “Então tá!”, respondo ao mancebo empreendedor que me deu o caminho da carta burgueira virtual enquanto mastigava e limpava a maionese escorrida no canto da boca.


No terraço cujo piso não é acarinhado por uma vassoura há séculos, não há mesas. Não há nada além de sujeira no chão e pífia iluminação. Misericordioso deste cansado glutão e sua consorte não tão cansada, o moço nos disponibilizou um puído e empoeirado tampo e dois banquinhos. Tudo o que a visão alcança é desolador: ferrugem, pintura descascada, plantas secas.


Fiz o pedido dos hambúrgueres agarrado à minha eterna crença de que boa comida redime pecadilhos, mau atendimento e desconfortos.


Um pouquinho mais asseado que o entorno, pedi o mapa do sanitário para lavar as mãos. “Entre naquela porta ali, cruze o salão, o banheiro fica à esquerda lá do outro lado.” A tal porta deu para um cômodo grande, sem luz. O vazio só não é absoluto pelo mobiliário empilhado num canto. O banheiro? Poupo quem lê de descrições escatológicas, mas uso aspas para reproduzir o que Josi disse sobre o toalete: “O horror!”


Os hambúrgueres? Nenhuma exclamação, mas nada errado. Boa carne e pão idem. Fritas sequinhas em enorme porção. Ketchup Heinz de sachê. Guardanapos não apareceram e a Coca veio quente. Sem guardanapos, voltei ao lavatório do inferno para tirar a gordura das mãos.


Comemos razoavelmente bem num estabelecimento que não mais verá a cara de bolacha deste cronista atormentado por pensamentos de uma cozinha que ele não viu.

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Medieval Bier

 

Que surpresa! Que lugar! Que chopp artesanal! Que cardápio!
🍺🍺🍺
O curso de Medicina Veterinária trouxe Marcella aos Crepúsculos. O coração fez ela aqui ficar. Contingências da vida e de mercado de trabalho também trouxeram Márcio e Luciana —pais de Marcella— para as margens do Jaguari. De Araras, o torrão natal, vieram ainda ideias, uma vontade de empreender e a paixão pelo chopp Hausen. O Medieval Bier nasceu em 2021 deste mix de circunstâncias. Bar bacana, oito estilos de chopp, menu apurado, inspiração alemã, uma família que trabalha duro e atende com natural simpatia. Tomei vários chopes, um drink e devorei três itens da carta de acepipes. Tudo muito acima da média, mas meu paladar rodado obriga-me a mencionar explicitamente os pasteizinhos de vento com recheio de camarão e catupiry.
🍺🍺🍺
Medieval Bier
Cel. Ernesto de Oliveira, 204

São João da Boa Vista, SP




domingo, 12 de fevereiro de 2023

Spaghetti à carbonara — a "verdadeira" história

 

Anos 1940, a labuta era dura nas minas de carvão da Fonte Platina. A mulher Josiane preparava diariamente o embornal do operário Lauro Borges.


Certa manhã, despensa vazia, ela fez um catadão com o que foi achando na cozinha. Lauro levou para a faina um punhado de macarrão seco, dois ovos, nacos de barriga de porco curada da Cascata e queijo meia-cura do empório do Zé do Carlito. Um caldeirãozinho e uma pequena frigideira de ferro completavam o arsenal para aquele modesto mineiro matar a fome.


Na hora do rancho, o fogareiro cozinhava a pasta e frigia o toucinho enquanto Lauro agregou o meia-cura picado aos ovos batidos. Tudo junto e misturado no calor da panela, o trabalhador atacou com volúpia a inusual massa com ovos, queijo e porco.


Umberto Lino, o italiano colega de serviço, fez troça ao ver as cinzas de carvão caírem sobre o prato de Lauro Borges: “ma che cosa strana, carbone nella pasta, quello non è cibo, quella è carbonara.”


É isso, o resto é história de quem, hoje, coloca pimenta do reino para parecer fuligem de carvão. 

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

Ekeko

 

Provei! De verdade fui arrebatado pelos aromas e pela leveza da massa. Salteñas e empanadas inspiradoras da croniqueta abaixo, lavrada ainda sob o efeito do cominho.

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O boliviano Fernando Escobar aterrissou no Brasil na década de 1960 para estudar. Fisgado pela mineira Isabel, casou e aqui ficou. Os três filhos do casal —Valéria, Andrea e Arturo— nasceram no Rio de Janeiro. Aos oito anos do caçula Arturo, a família foi passar férias na Bolívia. O garoto se apaixonou pela salteña à primeira mordida: “eu queria comer a toda hora, mas lá salteñas só são servidas das dez ao meio-dia; nem os bolivianos sabem explicar direito o porquê desse hábito que se mantém até hoje.”


Em 2017, confabulando com um primo que o visitava no Brasil, Arturo reclamou da dificuldade de se achar uma boa salteña em São Paulo. Tentaram fazer, mas não deu muito certo, o sabor ficou muito diferente do original. Ouviu de um legítimo “salteñeiro” que a iguaria tinha um segredo. Frustrado e sem saber o tal segredo, ele voou para La Paz e se inscreveu num curso: “nas aulas descobri existir mais de trinta segredos e inúmeros macetes para a confecção de uma perfeita salteña.” 


Voltou a Sampa e abriu o restaurante Ekeko no Paraíso. Colocou no cardápio também as famosas empanadas argentinas, cuja receita lhe foi passada por um chef porteño amigo. Nos três anos de portas abertas, a cozinha do Ekeko conquistou a comunidade boliviana (e parte da argentina) de São Paulo. 


A pandemia antecipou o projeto de mudança para o interior de Arturo Kelmer, 50. A terra da mulher Silvana Vianna, 48, foi o solo eleito. O vento que não vem dos Andes é suprido pelo que vem da Serra da Paulista. Vai daí que esta Sanja de majestosos crepúsculos tem ao alcance do WhatsApp empanadas e salteñas cultivadas com pesquisa e paixão desde a infância do menino Arturo. 


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19 3366-7500

domingo, 9 de outubro de 2022

Vai passar

 


Meados de 2019, primeiro ano de desgoverno do inominável. No grupo intermunicipal de amigos, eu, Josi e outra boa alma éramos os únicos a bater no Mal. As conversas, antes amistosas e bem temperadas, se transformaram em discussões pesadas, tóxicas, insalubres.


Saí daquele ambiente quando me mandaram à Venezuela, tacharam Luiza Trajano de comunista e Jair de ungido dos céus e defensor da família. Ali, ouvindo aquelas barbaridades de gente supostamente instruída, tive certeza da potência avassaladora da máquina de fake news do nazifascismo brasileiro.


Claro que algumas daquelas pessoas já estavam no armário, à espreita, só esperando um aceno das trevas para colocar pra fora discursos excludentes e odiosos, mas a força das notícias manipuladoras criadas no submundo da extrema-direita empoderou mais ainda a turba fanática.


Desde 2018, estamos mergulhados num conflito político-institucional potencializado pela criminosa insensibilidade social do governo central. A pandemia, que poderia ter unido o país contra o vírus, escancarou a quem quis enxergar um presidente cruel, que debocha das vítimas, que nega vacina, que tira máscara de criança, que sabota medidas protetivas, que exalta medicamentos inócuos. Enfim, um sujeito desprezível desprovido de qualquer traço de humanidade.


De sete dias pra cá, depois do primeiro turno da eleição, a guerra de postagens eclodiu novamente nas redes sociais. Os cegos exaltados de sempre somados aos assumidamente fascistas dispararam, entre tantas mentiras e maldades, preconceito e xenofobia contra o povo nordestino. Testemunhamos um festival triste e intolerante que disse nada sobre o alvo dos insultos e muito sobre quem os proferiu. Detalhe: xingam nordestinos mas arrogam hipocritamente temor a Deus.


Intencionalmente ou não, tem muitos passando pano nas atrocidades perpetradas por esse ser ruim sem se dar conta do que está em jogo.


Fernando Abrucio escreveu no Valor: “Como a História verá quem optar pelo modelo bolsonarista? Será que os tucanos e afins que abraçam o bolsonarismo não percebem que os políticos, pesquisadores e a mídia internacionais estão dizendo que esta é a trilha certa para o precipício? Que poderemos sofrer sanções comerciais e políticas com efeitos danosos para a economia se continuarmos com as diretrizes ambientais e de direitos humanos atuais? Essa cegueira custará a carreira política de muitos políticos mais ao centro, mas principalmente terá consequências terríveis para toda a sociedade”.


É fato, não raras vezes me pego desolado ao descobrir alguém que um dia foi digno do meu apreço se revelar tão desalmado e absurdamente alienado. Aflição e desalento, sim, eu sinto, mas logo recupero o orgulho e a altivez por combater ao lado dos humanamente imperfeitos contra o incurável perverso.


Sem sigilo de 100 anos no meu voto: eu, sem vacilo, aperto 13! Com força!

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Chefchaouen — a experiência azul-marroquina



Madrugamos em Málaga para chegar antes das 8h ao porto de Tarifa. Conseguimos, mas uma certa burocracia documental na compra dos (caros) bilhetes fez com que perdêssemos o primeiro ferry-boat do dia. Embarcamos só às 9h rumo a Tânger, rumo ao Marrocos, rumo à África. 


Sob um céu esplendoroso e sobre um mar calmo, cruzamos o Estreito de Gibraltar em cinquenta tranquilos minutos. O visto marroquino é concedido dentro do próprio barco sem nenhuma dificuldade. Incômodo somente foi a longa fila. A ala de passageiros do ferry-boat, diga-se, é grande, confortável e conectada. 


Badreddine, o motorista que nos levaria país adentro, atrasou o suficiente para sermos ostensivamente abordados por vendedores de passeios. Piedoso do camelo que estaria incluído no tour, recusei depositar minhas generosas arrobas nas suas corcovas. Saímos do porto de Tânger enxergando praias cheias, hotéis de luxo, prédios modernos e avenidas largas. As placas são grafadas em árabe e francês. Túnicas (djellabas) e burcas vestiam os nativos que se aventuravam na quentura nas ruas. 


Pé pesado, Badreddine venceu em duas horas a distância até Chefchaouen. Dormi na maior parte do percurso, mas tive despertares para testemunhar a sinuosidade e a boa pavimentação da estrada. Josi se mostrou incrédula com meu sono profundo durante aquela condução veloz de um taxista desconhecido numa terra idem. 


Quando Badreddine estacionou, a visão daquela escada sem fim assombrou-me. Quando derrotei aqueles cento e setenta degraus até a recepção, o suor fez-me proferir alguns palavrões em árabe. Quando a gentil Radia nos deu boas-vindas com uma limonada leitosa, eu ainda questionava-me a escolha daquele hotel. Quando me perguntarem sobre a hospedagem no Dar Jasmine, ainda vou falar mal da escada, mas vou falar excepcionalmente bem da suíte, da cama, do chuveiro, da decoração, da paisagem, do café da manhã, do jantar e do atendimento polido e simpático de toda a equipe. Que experiência única, arrebatadora, surpreendente! 


E a cidade? Uma localidade cravada nas encostas da cordilheira do Rife. Chefchaouen, no norte marroquino, a incrível Cidade Azul. As paredes são azuis, também azul é a simpatia do marroquino falando árabe, francês, inglês ou espanhol nas vielas movimentadas. Nelas, comerciantes expõem artesanatos e produtos da cultura local a turistas do mundo todo que buscam sem parar o melhor ângulo para a melhor foto no cenário mais azul. 


Dizem que, no começo do século passado, os “chefchaouenses” acreditavam no poder da cor azul para repelir mosquitos, por isso a pintura no tom anil. Se funciona contra os insetos, não posso afirmar, mas tenho certeza da força da energia azulada para o turismo naquela remota urbe do norte da África.