segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Profecia derretida

O famoso Relógio de Flores de Viña del Mar

 Na parada para o desayuno nos arredores de Santiago, uma senhora idosa, brasileira, superagasalhada, se incumbiu de tocar o terror em quem estava na fila esperando o café. Mediu Josi da cabeça aos pés e, com olhar de desprezo, sentenciou exibindo a autoridade de quem veste gorro e cachecol: “Nunca, jamais vá a Viña (ela quis demonstrar intimidade com Viña del Mar) e Valparaíso sem roupas de inverno. Vocês vão congelar hoje; a temperatura não vai passar de 8ºC”.

Ressabiados, mas confiando mais nos apps meteorológicos do que naquela profeta glacial, (re)embarcamos na van com nossos trajes de verão. Não foi o caso de uma família de seis paraenses. O provedor nortista, zeloso dos seus, comprou a história da hecatombe climática da velhinha e, num brechó próximo, desembolsou US$ 100,00 para proteger o clã com casacos puídos e malcheirosos. Encapotados, eles adentraram o coletivo como se estivessem na Patagônia no mês de julho.

Josi confessou-me depois que quase acreditou também. Receosa de ficar desconfortável no passeio, faltou pouco pra ela, no brechó, sucumbir a um moletom fedorento que estampava “I ❤️ Chile”.

Horas depois, circulando nas belas Viña del Mar e Valparaíso, sob 29ºC, procurei a tiazinha nas ruas para vê-la hibernando, enrolada em várias camadas de malha de Jacutinga. Não a vi, mas testemunhei os paraenses radiantes, em camisetas, bermudas e vestidos leves. O inútil arsenal polar deles foi devidamente abandonado na van.

O genial Pablo Neruda escreveu: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo.” O tosco, e nada genial Lauro Borges, reescreve: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo de previsões falsas de anciãs arrogantes e desinformadas”.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Réveillon no exílio: uma crônica de Año Nuevo

Restaurante Como en Peru, bairro Lastarria, Santiago do Chile

 Não me encantei com a culinária chilena. O destaque das panelas deles, sem dúvida, está na marcante influência peruana. Ceviches e lomos saltados são as melhores refeições de Santiago —e, imagino, de todo o Chile. Durante nossa breve passagem pela capital, a iguaria local que mais me agradou foi a empanada de pino. Então, segue o baile.

Chegamos ao hotel depois das 23 horas. Esfomeado eu estava, pela minha natureza e pelo lanchinho meia-boca da Latam. O recepcionista, sem muita convicção, indicou-nos um modesto restaurante do outro lado da rua. COCINA PERUANA no letreiro já anunciava uma digna matada de fome. Alex e Mariano Villalobos, os gentis irmãos incas, serviram-nos ceviche e lomo saltado. O jantar memorável avançou madrugada adentro, regado a pisco sour. Voltamos ao local mais três vezes, tamanha a sedução do tempero e do frescor dos peixes.

Ao descobrirmos que o Como en Peru —assim se chama o lugar— seria um dos poucos abertos na região na noite do dia 31, escolhemos aquela casa para passar nossa primeira Virada no exílio. Elegemos, como não poderia deixar de ser, ceviches para a ceia. Rolou até uma celebração com mojitos e taças de espumante, coroada com um típico suspiro limeño como sobremesa de Ano Novo.

Na mesa ao lado, um jovem casal brasileiro se acovardou diante do cardápio variado de uma gastronomia desconhecida. Ao vê-los entrar em 2025 comendo papas fritas, senti verdadeira compaixão por seus temores diante de novas experiências.

Sob as bênçãos dos mapuches, naquele simples estabelecimento étnico no movimentado bairro Lastarria, atendidos pelo honesto suor imigrante dos manos Alex e Mariano, alimentados com deliciosos pratos andinos, vivenciamos, eu e Josi, o mais inusitado Réveillon de nossas rodadas existências.


Lomo saltado e ceviche

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Primavera do chef

 

Conheci Henrique Benedetti e seu primoroso trabalho na cozinha em junho de 2016. Era o Ollivia de Luciano Mussolin numa noite fria de quarta-feira. Ali, sob a mística do histórico casarão, testemunhamos, eu e Josi, um desfile de técnica, senso estético e valorização de ingredientes regionais. Não é exagero dizer que, na época, ele introduziu a alta gastronomia contemporânea em Poços de Caldas.


Daquele arrebatador jantar de inverno em diante, no próprio Ollivia e, a partir de 2019, em outras tabernas, peregrinamos religiosamente pelas trilhas autorais do chef Henrique. Ultimamente, através das mídias sociais, acompanhamos o virtuose poços-caldense comandando o bistrô do consagrado Charlô Whately, no paulistano Pulso Hotel.


A primavera de 2024 trouxe flores, chuva e Henrique Benedetti de volta às panelas do centenário imóvel. O prédio, repaginado, está mais lindo do que nunca. Seduzido pela proposta do espírito inquieto e criativo que hoje lidera o Ollivia, Rubinho Massa, ele se reconectou às suas raízes vulcânicas. Esse triunfal retorno, aguardado com ansiedade pela antiga clientela do restaurante, traz o artista no esplendor de sua maestria culinária.


Henrique, agora mais maduro e cheio de bagagem, segue na nobre missão de ser o cara que domina os métodos de sua arte para, à mesa, encantar com a beleza e a harmonia dos sabores que unem as riquezas da sua Mantiqueira aos aromas do mundo.


Nota do blogueiro: Dias antes do anúncio oficial do regresso de Henrique ao Ollivia, eu proseava com Rubinho Massa sobre o quão marcante foi o período em que o chef comandou a cozinha do restaurante, entre 2016 e 2019. Ao final da nossa conversa, ele foi enigmático: "Logo mais você vai se surpreender com o novo ciclo do Ollivia". E como eu e Poços de Caldas inteira nos surpreendemos!



domingo, 1 de dezembro de 2024

Vargem Grande do Seu João

Beatriz Amorim e João Pedro, juventude e talento encantando clientes

 As amigas Clau Fontana e Marina Figueiredo, domingo destes, ficaram extasiadas almoçando numa província vizinha. Recebi e rapidamente acatei a indicação delas. Numa agradável noite de terça-feira, abençoados pela brisa que abençoa os hedonistas, fomos, eu e Josi, agraciados com uma sequência de espantosas iguarias. Daquele banquete naquela rua quase deserta, este voraz colunista se rendeu à inspiração nestas condimentadas linhas.

João Pedro Ferreira cresceu no Jardim Fortaleza, em Vargem Grande do Sul, entre o aroma das panelas e o som da máquina de costura da mãe. Enquanto ela cerzia sonhos em tecidos, ele, ainda criança, cuidava do fogão, garantindo mais tempo para dona Sônia se dedicar ao ganha-pão. Ali, entre receitas simples e afetos, começou a brotar o desejo de explorar o mundo cozinhando.

Com o apoio da família, seguiu para Águas de São Pedro para conquistar o diploma de Gastronomia no Centro Universitário do SENAC. Sua estreia foi sob as coifas do Clube Med, lugar que ensinou que a profissão não versa apenas sobre paladares, mas também sobre acolhimento e a arte de encantar pessoas. João queria mais: cruzou o Atlântico e desembarcou em Dublin, Irlanda, como sous-chef de um restaurante de frutos do mar. No Wrights Anglers Rest, ele mergulhou na riqueza da culinária europeia, lapidando técnicas e conhecendo ingredientes locais.

Seu ímpeto o levou ainda mais longe, até o arquipélago de Malta, no conceituado Fernando Gastrothèque, onde a tradição mediterrânea da casa ostenta uma estrela no guia Michelin. Foi lá que João, por três anos, encontrou mais do que jamais imaginou: uma mistura de escolas italiana, francesa e asiática em pratos saborosos, sofisticados e esteticamente impecáveis.

Em 2024, com três décadas de vida, carregado de experiências e memórias, decidiu voltar às origens. No Centro de Vargem, numa linda esquina restaurada, ele abriu o Seu João, um refúgio do bem-comer onde as influências de sua trajetória se transformam em concepções únicas que celebram a fusão de culturas e a diversidade de temperos. Ao lado de Beatriz Amorim, expert em hotelaria e sua parceira desde os tempos do Clube Med, João imprime no bistrô toques de suas paixões e vivência.

No Seu João, cada item do menu é um convite para viajar pelas veredas que o chef percorreu, provando que, mesmo em uma pequena cidade do interior do Brasil, é possível criar uma carta digna das melhores mesas do globo.

 🥩🍤🍷

Seu João Bar & Restaurante

Rua Cel. Lúcio, 635
Vargem Grande do Sul, SP
De terça a sábado, a partir das 18h
Domingo, das 11 às 14h30 e das 18 às 22h

 

A musa, a iguaria e o vinho

domingo, 24 de novembro de 2024

Mercearia do Dito: a poesia do frugal

 


Há algo fascinante nas descobertas gastronômicas que estão recônditas em pequenos estabelecimentos, onde o acepipe autêntico, dos deuses, nasce da simplicidade e da alma de quem cozinha. É ali, na estufa do bar puído de esquina ou na lanchonete com cardápio rabiscado, que está aquele petisco que a plebe trabalhadora pede no fim do expediente: um torresmo crocante, uma coxinha receita de família ou uma empada de frango que nos faz crer que a humanidade (ainda) não está perdida. Esses beliscos do underground carregam tradições, até que, de repente, saem do anonimato e ganham o olhar do mainstream. Tornam-se cult e viralizam no Instagram, mas não perdem charme genuíno de suas origens. É o êxito do despojamento, a poesia do frugal.

Vai daí que um certo bancário, metido a cronista, glutão incurável, segue firme na exploração das trilhas aromáticas e condimentadas da região. Sintam o cheiro da narrativa —com o perdão do trocadilho sofrível— do Dito cujo!

Nivaldo Ferreira, o amigo paulistano-pratense, deu a dica num tom quase de súplica. Acatei sem vacilar a sugestão que atiçou meus instintos com algumas palavras-chave irresistíveis: bolinho de bacalhau, camarão, Mercadão, botequim, chope, Poços. A coisa toda, numa tarde quente de sábado, rolou na Mercearia do Dito, cujas mesas na calçada têm vista privilegiada para o Cristo. No lado externo do Mercado Municipal de Poços, desde 2019, Dito e seu time, de segunda à segunda, servem a freguesia num espaço despretensioso que mistura informalidade, movimento de rua, comércio popular, cerveja gelada e, principalmente, comida boa. O bolinho de bacalhau e a porção de camarão que protagonizam esta publicação devem, obrigatoriamente, figurar em qualquer enciclopédia dedicada aos melhores deste pedaço vulcânico.

O poços-caldense Benedito Aparecido Silva de Oliveira, 61 anos, rodou o Brasil pra ganhar o pão. Voltou ao torrão natal para vendê-lo, para ser o velho Dito do bairro Santana. Regressou para replicar em seu boteco o espírito do Mercadão de São Paulo, o lugar que mais influenciou sua paixão por temperos e sabores. Retornou para triunfar e fazer história.

🍺🍺🍺

Mercearia do Dito
Mercado Municipal de Poços de Caldas, MG
Segunda a sábado, das 9 às 18h
Domingo, das 9 às 14h





quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A casa da Vovó Elna

 

A sala da Vovó Elna

Como os salmões da trama, fui capturado pela série “Ilha de Peixe Grande”, na Netflix. Gravados na Noruega, os seis episódios, bem produzidos, contam a história da disputa entre duas famílias poderosas pelo controle da indústria do famoso peixe de carne alaranjada. O atraente enredo é ambientado na fictícia Ilha de Brima. As locações escolhidas destacam lindas paisagens costeiras, a atmosfera da piscicultura e pequenas vilas que retratam o estilo de vida local.


Uma rápida curiosidade sobre o salmão norueguês, pescado nas águas do Atlântico. Na década de 1980, o governo do país nórdico implantou uma estratégia de marketing ousada chamada “Project Japan”. A iniciativa almejava introduzir o peixe no sushi japonês. Resistentes culturalmente, os nipônicos rechaçaram inicialmente a investida dos noruegueses. O salmão não era tradicionalmente usado nos sushis/sashimis do Sol Nascente. Com persistência e um oceano de dinheiro, a Noruega conseguiu cativar os japas, demonstrando as práticas rigorosas de sua aquicultura. Pesaram também, nessa conquista, argumentos gastronômicos: a cor vibrante e o sabor suave do salmão. Convenceram o Japão e o mundo, mas não me dobraram. Só troco o atum do meu sushi por prego.


Ver a Noruega na TV reavivou meus laços afetivos com essa terra que tem outra celebridade em seus mares: o bacalhau. Meu filho, pelo intercâmbio do Rotary, viveu lá por doze meses, entre 2007 e 2008. Foi acolhido no período por três famílias. Em junho de 2010, fomos, eu e Josi, conhecer o país na companhia do Laurinho. Aquele fim de primavera foi inesquecível na Escandinávia.


Laurinho morou em Lillehammer e arredores. Nossa base foi no Centro da cidade, no apartamento do saudoso Anton Beck. A localidade, de pouco mais de 25 mil habitantes, foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 1994. Cercada por montanhas e pistas de esqui de primeira linha, às margens do lago Mjøsa, Lillehammer, ao mesmo tempo, pulsa na emoção dos esportes de neve e relaxa na tranquilidade de um vilarejo setentrional. Ali, entre idas e vindas turísticas, passei dias quase como um nativo: era até reconhecido pelos funcionários do Kiwi, um popular supermercado dos boreais.


Em Oslo, a capital, boquiabertos ficamos ante as esculturas monumentais do Parque Vigeland, caminhamos no teto moderno da Ópera Nacional e até “ouvimos” o icônico “O Grito” de Edvard Munch. Aquela expressão de angústia do quadro até hoje ecoa nas profundezas da minha alma.


Impossível ficar imune àquelas grandiosidades naturais em que formações verticais mergulham em águas límpidas que espelham o céu: os fiordes. Impossível ficar imune à inacreditável arquitetura curva da Storseisundbrua, a ponte mais incrível do planeta. Impossível ficar imune à justiça social e ao bem-estar geral proporcionados pela riqueza petrolífera.


Gostei muito da vivência norueguesa como turista, mas foi o laço terno com clãs locais que nos levou a uma experiência única em Fåvang: a casa da Vovó Elna, uma pequena propriedade rural onde o tempo parecia desacelerar. Entre paredes rústicas de madeira, ela nos brindou com waffles dourados, fresquinhos, acompanhados de mel e geleia feita de framboesas do seu pomar. Ali, naquele recanto que abraçava com hospitalidade e simplicidade, sentimos o afeto genuíno que turista comum jamais vai sentir.


Vovó Elna e seus inesquecíveis waffles

domingo, 3 de novembro de 2024

Três Batalhas: montanha, vinho e arte


 Um passeio pelas altitudes do meu quintal geográfico e afetivo num sábado de clima pouco amigável. Agradável, ao contrário do céu plúmbeo, foi o encontro com os amigos emoldurado pela mais cinematográfica das paisagens deste torrão. Da prosa solta em volta da mesa generosa, das afinidades, das bençãos de Bacco, dos efeitos das taças, enfim, desse caldeirão de prazeres veio a luz para a crônica que segue.

Geraldo Dezena, natural de Águas da Prata, e Angela Bonfante, de São João da Boa Vista, uniram suas existências em uma caminhada marcada tanto pela dedicação profissional quanto pela valorização das culturas locais onde viveram. Seus destinos se cruzaram no Banco do Brasil, onde Geraldo trilhou uma carreira de sucesso, ascendendo a postos importantes, como superintendente estadual na Paraíba e Bahia, até alcançar a vice-presidência de tecnologia da instituição. Angela, por sua vez, levou para a vida de Geraldo sensibilidade, talento e energia criativa como artista plástica inquieta que é. Formaram uma família com três filhos e, na estrada, aproveitaram a vivência nômade como bancários em aprendizado, estímulos e conquistas.

Após a aposentadoria, no período da pandemia, decidiram consolidar ainda mais suas raízes, adquirindo uma pequena gleba nas montanhas de Águas da Prata. Ali, na plenitude da Serra da Mantiqueira, cercados pelo verde abundante, refundaram aquele naco de chão como Sítio Mirante Azul, um refúgio de paz e inspiração para novos projetos. Um deles —nascido do hábito de Angela de fermentar e engarrafar safras domésticas—, é a produção de vinhos sob o rótulo “Três Batalhas”, uma homenagem à Revolução Constitucionalista de 1932 —na qual a região, situada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, foi palco de intensos combates—, bem como aos antepassados italianos do casal e à tradição vinícola de seus clãs.

Com devoção e pesquisa, Geraldo e Angela usam a técnica da poda de inverno (ou poda invertida) para produzir néctares Syrah e Sauvignon Blanc, elaborados a partir das frutas colhidas no próprio domínio serrano. O solo vulcânico da região, rico em minerais e memórias, confere à bebida características singulares, que refletem tanto a riqueza e a alma da terra, o chamado terroir, quanto o empenho e a biografia de seus produtores. No Sítio Mirante Azul, eles não cultivam apenas uvas, mas também perpetuam o legado de seus ancestrais e a paixão pela lida no campo. Assim, a história se renova, e uma nova geração de viticultores emerge, juntando passado e presente, Itália e Brasil, trabalho árduo e poesia.

E falando em poesia, é necessário reproduzir a bela obra de autoria de Paulo Tó, compositor maior e filho do meio dos neo-vinhateiros, que está gravada nas garrafas da marca. Sintam!

Um soldado pisando com cuidado as terras
altas entre São Paulo e Minas:

“Espera, soldado, espera um momento! 

Olhe a colina, sinta o vento fresco da mata!”

E então o soldado, naquele doce delírio, estafado da guerra, 

sonhou que o vermelho,

descendo nas águas da serra,

em vez de sangue,

era vinho!

 



segunda-feira, 21 de outubro de 2024

O menino que enxergava longe

O blogueiro e Renato Paiva, empresário da Ótica Diveneza

 O trabalho começou cedo na vida do menino Renato. Ainda criança, ele corria, das ruas do Jardim dos Estados, onde cresceu, até o Mercadão Municipal, lugar em que o pai Moacyr era dono do tradicional Frangão, fornecedor de carne fresca de galináceos a restaurantes e hotéis de Poços. O moleque chegava ao velho armazém público cheio de energia para brincar entre as bancas, mas logo era incumbido de alguma pequena atividade da labuta penosa do entreposto de penosos do seu Moacyr. Testemunhando e admirando o suor do genitor, Renato aprendeu ali a importância da dura faina e a arte de bem-servir a freguesia.

Aos doze anos, ele foi colocado pelo pai para laborar numa serralheria de janelas de alumínio. “Não era brincadeira, eu trabalhava mesmo, cumpria horários, cuidava das rotinas e tudo. Foi uma escola e tanto”. Um pouco adiante, o viés empreendedor de Renato foi ficando cada vez mais nítido. Ele custeou seu ensino médio instalando alarmes residenciais.

Ingressou no ramo que ditaria seu rumo empresarial em 1995. Na Ótica Enterprise, do expert Luiz Reginaldo, Renato se apaixonou pelo ofício que exige ciência e profundo conhecimento técnico. Mais do que isso, demanda sensibilidade e vocação para lidar com pessoas, sejam elas parceiras, colaboradoras ou clientes.

A rica e transformadora experiência na Enterprise empurrou-o ao risco do voo solo no comércio. Em julho de 1998, a Diveneza abria as portas para mudar para sempre o negócio de óculos em Poços de Caldas. “No início, eu chegava às sete da manhã para estudar física óptica e gestão comercial”, conta Renato. Com bagagem e motivação, o jovem empresário foi gradativamente implantando seus conceitos e crenças no estabelecimento. Entre tantos métodos, ele instiga os funcionários a serem participantes e críticos do processo como um todo, e não somente meros executores de tarefas. Uma espécie de autogestão, eu diria.

Nos bastidores, atrás da área de vendas, há uma movimentação intensa e contínua de capacitação profissional, pesquisa, compras de novos produtos, prospecção de tendências, treinamento tecnológico, marketing e suporte ao consumidor.

Este cronista míope, freguês Diveneza desde 2019, atesta o excepcional conjunto da obra construído pelo obstinado Renato. Na minha última visita imperativa à loja (depois que meus óculos foram esmigalhados por um carro de polícia na Sicília), fui apresentado à “senhora” Visioffice, uma máquina ultramoderna que escaneia o rosto do cliente, proporcionando precisão nas medidas e uma produção de lentes personalizadíssimas, adequadas à anatomia de cada um. Só faltou ela me dar “boa tarde”. Talvez ela tenha até dado, eu é que não entendi.

O robô é essencial para o perfeito resultado dos óculos, claro, mas verdadeiramente o que me seduz como freguês Diveneza está muito além disso: gosto do bom trato, da gentileza, do café, daquele atendimento caloroso que me remete aos antigos balcões, enfim, daquilo que só gente é capaz de fazer. Dudu Hermano, craque do time Diveneza, músico e DJ nas horas vagas, é o cara que não posso deixar de mencionar nestas linhas: ele sempre me atende e personifica tudo o que eu disse na frase anterior.

Formado em Direito, “diplomado” no varejo, filho também de dona Dirce, pai de meninas, Paola e Isadora, marido de Maria Fernanda, aos 48 de existência, Renato Paiva é, inegavelmente, um homem bem-sucedido. Quem o conhece de perto e sabe de sua trajetória, enxerga, nesse sucesso, muito daquele garoto observador que vivia no Mercadão ajudando a família na luta diária pela sobrevivência. 


O blogueiro e Dudu Hermano, craque do time Diveneza,
além de músico e DJ


PS: Conheci o personagem desta crônica num  memorável jantar de outono, no Ollivia, impecavelmente organizado pela saudosa Lurdinha Camillo. O protocolo do evento colocou-nos, eu e Josi, ao lado dele e da mulher, numa ponta da grande mesa. A prosa foi boa, afinidades afloraram e, dias depois, eu já estava explorando aquele lindo e iluminado empório do bem-enxergar na rua Prefeito Chagas. 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

Geladas influências

Attilio Junior e Letícia Brunorio, o casal Dubelato

Nascido em Buritama, ele cresceu em outra cidade de São Paulo, Monte Azul Paulista, onde o pai tinha uma sorveteria que aliviava o calor infernal do norte do estado. O comércio, na verdade, era mais do que um ponto de venda. A Dubon, esse era o nome, também fabricava e distribuía regionalmente os sorvetes do empresário Atilio José Aparecido Rossi, genitor do personagem desta crônica, Attilio Junior Rossi.

O menino, cuja infância monteazulense foi de deleites diários e ilimitados no saboroso empreendimento do clã, saiu de casa para cursar Engenharia de Alimentos na USP de Pirassununga. Na diversidade do ambiente acadêmico, Attilio conheceu e caiu de paixão pela poços-caldense Letícia Pereira Brunorio. O namoro começou em meio às aulas de Microbiologia e Tecnologia de Produtos Lácteos.

No meio do curso, Letícia se auto-exilou na França para um período de intercâmbio. Voltou trazendo na bagagem outra paixão: gelatos. Compartilhou com o namorado os aromas da viagem e o que tinha provado de bom nas gelaterias da Europa.

Diplomados, Letícia e Attilio ingressaram na trajetória profissional em multinacionais: ela, na Nestlé; ele, na Danone. Attilio, depois da temporada nos iogurtes famosos, regressou a Monte Azul para auxiliar o pai na expansão da Dubon.

Fazer gelatos, morar em Poços e casar foram determinantes vontades do casal. Attilio se inspirou no negócio do pai para em 2017, junto com Letícia, abrir na estância vulcânica a primeira loja da Dubelato. A marca é uma junção de Dubon e gelato. Attilio conta: “Quis fazer um produto diferente do que eu conhecia. O gelato é feito com ingredientes melhores, textura e cremosidade que nada têm a ver com sorvete. Estudei muito, fiz milhões de testes até chegar no resultado que vendemos hoje. Continuo aprimorando, inovando e aprendendo. Gosto do desafio de experimentar uma fruta ou uma sobremesa e transformar o sabor num gelato, obviamente sem aditivos químicos e insumos artificiais.”

Depois de sete anos da unidade inaugural, a Dubelato é um selo de qualidade consolidado na região. Entre lojas próprias e parceiras, sete fazem sucesso em Poços (4), São João da Boa Vista, Amparo e Pouso Alegre. Mais quatro serão abertas nos próximos meses.

Attilio Rossi encontrou Letícia para construir família e prosperar. A beleza da coisa está na inovação que honra a história do pai, o batalhador Atilio, que sustentou a prole enquanto o rebento se lambuzava de geladas influências que viriam moldar sua vocação e seu norte empresarial.

Attilio, permita uma provocação deste cronista glutão: que tal pensar num gelato sabor vulcão?

domingo, 15 de setembro de 2024

Almiro, o peregrino da Mantiqueira

 

Almiro Grings num trecho do Caminho da Fé
(Trilha do Avestruz, Águas da Prata, SP)

Noite agradável de semana, a pizza no Império uniu eu, Josi e Gil Sibin para uma prosa sobre viagens. Interrompi minhas dicas sicilianas ao amigo Gil quando avistei aquele personagem que admiro chegando em passos lentos na companhia da mulher, Ana. Levantei-me para reverenciá-lo e pedir uma foto. Ganhei o registro e a inspiração para esta crônica.


Gaúcho, ele nasceu no mesmo pedaço de chão que deu ao mundo Gisele Bündchen. Ilustres nomes de Horizontina, noroeste do Rio Grande do Sul, têm uma diferença de quatro décadas no registro civil. O então jovem Almiro saiu do interior para cursar Ciências Contábeis em Porto Alegre. Saiu para caminhar nas imprevisíveis veredas da existência.


O início da carreira laboral foi como auditor no universo corporativo. Em razão desse trabalho, ele aterrissa em São Paulo. Estudioso, o horizontinense logo ingressa no serviço público paulista. Em 1983, Almiro, a esposa e três filhos se estabelecem em São João da Boa Vista, onde ele assume o posto de agente fiscal de rendas da Secretaria da Fazenda estadual.


Morador de Águas da Prata desde 1999, ele foi guiado pelo planeta por sua alma mochileira e seu ímpeto caminhante. As páginas dos seus passaportes têm um bocado de carimbos: Peru, Colômbia, Bolívia, Cuba, grande parte da Europa, Tailândia, Camboja, Vietnã, entre outros.


Com o irmão, Almiro fez o mítico Caminho de Santiago de Compostela pela segunda vez em 2000. Voltou decidido a replicar a trilha peregrina no Brasil. Idealizou a rota de Águas da Prata até Aparecida. Riscou o trajeto off-road no mapa, transitou nele inúmeras vezes para aperfeiçoá-lo, pediu apoio às Prefeituras, incentivou donos de hospedagens e restaurantes de pequenas comunidades, fez ele mesmo as primeiras sinalizações do trecho, conseguiu que a Folha de São Paulo fizesse uma matéria sobre a ideia.


Visionário, Almiro Grings foi o criador do Caminho da Fé, que desde 2003 arrebanha dezenas de milhares de peregrinos anualmente, buscando uma jornada de reflexão, uma caminhada para repensar valores e fortalecer o espírito. E tudo isso emoldurado pelo cenário deslumbrante desta incrível Mantiqueira que junta São Paulo e Minas num abraço nas montanhas.


Hoje, aos 84, ele, o lendário Almiro, pode se orgulhar de um feito que melhora de fato a vida das pessoas, seja pelo bem-estar proporcionado durante o percurso introspectivo, seja pelo incremento turístico nos modestos lugarejos cruzados pelo Caminho da Fé.


A fé, sem dúvida, abre caminhos!


Estação Ferroviária de Águas da Prata, SP


Arredores da Fazenda Retiro, Águas da Prata, SP