domingo, 16 de março de 2025

Fazenda Chiqueirão e o fermento das origens

 

— Mãe, podemos nadar na piscina do tio Xixo? —pedia a caçula Elena à matriarca, dona Augusta. 

— Podem, mas só depois das dez. Primeiro, venham me ajudar com os doces.


Um tanto contrariadas, as crianças, em férias de verão, invadiam a cozinha da Fazenda Chiqueirão para descascar goiabas, bananas, peras, marmelos, figos; despejar açúcar, mexer o tacho, envasar, embrulhar...


Assim, Elena Stein Carvalho Dias e seus nove irmãos cresceram, aprendendo as durezas e as belezas do fogão materno, de onde também saíam bolos, pães, queijos e toda sorte de iguarias típicas das roças de antigamente.


A televisão só chegou à casa de Ernesto Carvalho Dias —o pai— quando Elena tinha quatorze anos. Sem TV, a criançada corria pelos campos, subia em árvores, se deliciava no pomar, brincava, lia, admirava a mãe pintando —dona Augusta relaxava com pincéis e telas.


A prole também testemunhou o sucesso do trabalho do genitor, que se tornou o maior produtor de leite de gado Caracu do Brasil. As 1.600 cabeças da propriedade são totalmente criadas no pasto. Desde 1947, o rebanho é fechado, ou seja, não entra nenhum animal de fora, e a reprodução utiliza apenas touros do próprio plantel, o que proporciona uma padronização genética dos bovinos da estância de 400 alqueires. No limiar de um século de jornada —ele faz 100 em maio próximo—, seu Ernesto continua ativo, dominando os números e outras variáveis do negócio.


Elena saiu de Poços ainda adolescente. Aos 16, que choque térmico!, foi cursar o último período do ensino médio em Ribeirão Preto. Logo depois, sentou-se nos bancos universitários em São Paulo para conquistar o diploma de Artes Plásticas pela FAAP. A faculdade foi interrompida por dois anos, quando ela viajou para o Canadá na bagagem da irmã mais velha, Matilde, cujo marido, engenheiro, conseguiu uma colocação profissional em Vancouver.


Na volta à capital paulista, Elena uniu a influência culinária de dona Augusta, a vocação artística e algumas receitas canadenses para empreender num ateliê de bolos sofisticados. Por mais de uma década, ela literalmente meteu a mão na massa e encantou uma clientela de paulistanos exigentes.


A avançada idade dos pais —dona Augusta também chega aos 100 neste 2025—, um chamamento sentimental das raízes e o companheirismo do parceiro de vida, Fernando, fizeram a poços-caldense retornar ao solo vulcânico natal. Era 2018.


O então “menino” de 93 anos, seu Ernesto, incentivou sua menina: “Elena, nosso leite é bom, gordo, forte. Vá depressa fazer queijo.” Ela foi.


O arquiteto Fernando Costa Sousa abraçou o projeto da mulher e imergiu no universo queijeiro da Canastra. Ganharam o pingo e começaram a produção no embalo: testando, aprendendo, errando, conversando com produtores experientes. O terroir vulcânico, não sem muita pesquisa, vingou. A queijaria artesanal Pátio de Pedra nasceu para ser o único selo brasileiro que fabrica queijo de leite 100% da raça Caracu.


A coisa deu tão certo que os clientes iniciaram um desembarque intenso na Chiqueirão para adquirir o queijo cuja fama se espalhava rapidamente pela região. Café e pão de queijo entraram no cardápio da lojinha por clamores da freguesia, seduzida pela atmosfera rural do lugar.


Queijo curado, café coado e pão de queijo assado. Precisa mais? Elena, novamente iluminada pela cozinha da mãe e pelo tempero da existência, achou que sim, o menu poderia ser maior e melhor.


Tirando o pão de lenta fermentação da padaria Nita, tudo o que é servido no Pátio de Pedra é feito ali mesmo: bolos, doces, coalhada, geleias, quiches, pão de queijo etc. Uma combinação caseira e harmoniosa de aromas, cores, texturas e sabores.


Dessa forma, entre memórias afetivas, paladares ancestrais e a força das origens, Elena transportou o passado para o presente e fez da queijaria não apenas um comércio, mas um acolhedor refúgio onde o queijo descansa e as panelas borbulham, fermentadas por histórias, ternura e tradição.



sábado, 22 de fevereiro de 2025

Burgers, brejas, estética e impulsos


 Caio Augusto Caldas Nunes é chef por formação, opção e vocação. Influenciado por tradições familiares no fogão — mãe e avó eram boas na arte das panelas —, começou cedo a gostar da alquimia de temperos e da diversidade dos pontos de cocção. Diplomado pela Universidade São Francisco, lançou-se no mundo e acumulou experiências em cozinhas dos Estados Unidos, Campinas e Salvador.

Desse período na estrada, ele destaca o trabalho no resort Gaylord Palms, em Orlando, nos restaurantes Old Hickory Steak House, de carnes premium, e Moore, de frutos do mar. No Brasil, passou pelos campineiros Maialini e Lume, além do baiano Origem.

Durante a pandemia, Caio conheceu Fabiele da Silva Melo, a Bia, em Andradas, cidade natal de ambos, e o calor desse encontro transformou sua vida. Designer floral e arquiteta, ela trouxe seu refinamento visual para os jantares em grupo na casa dela, reuniões que ajudaram a atravessar o período difícil de restrições, unindo gastronomia, decoração e hospitalidade.

Com a flexibilização do isolamento social, novas necessidades e vontades surgiram: trabalhar mais, crescer, mudar de ares, explorar um novo mercado. A vulcânica Poços de Caldas foi eleita para essa nova fase do casal.

Num quarteirão underground da rua Corrêa Netto, um prédio bacaninha com uma cozinha minúscula abrigou a inauguração da Coyote Tap House, nascida da admiração de Caio pela cultura norte-americana. Cervejas artesanais, hambúrgueres, tacos tex-mex e música country inspiraram o empreendimento dos jovens andradenses.

Ali, por três anos, consolidaram um conceito informal e de alta qualidade culinária entre poços-caldenses e turistas. Em 2025, a Coyote estreou em um pedaço mais mainstream. Bia imprimiu seu apuro estético nas novas instalações da Praça dos Macacos. O cardápio renovado manteve o espírito original do negócio. As brejas autênticas e os burgers clássicos agora têm novas companhias na carta, como steaks, brisket sandwich, defumados, fantásticas e pungentes hot wings, coquetéis autorais, entre outras viagens do paladar.

Poderia elencar milhares de motivos para visitar e revisitar a Coyote, começando pela energia vital e simpatia de Caio e Bia, mas vou me ater a dois que falam diretamente à alma de quem ama um bom hambúrguer: lá tem cheddar de verdade e o faminto pode pedir ovo mole no seu burgão.


🍔🍺🍔🍺🍔

Coyote Tap House

Praça Dom “dos Macacos” Pedro II, 37
Poços de Caldas, MG

De terça à sexta e domingo, a partir das 17h

Sábado, a partir das 11h30



terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Praia na montanha

 

Eduardo e Margareth fizeram a vida em São Paulo. Por décadas, ele se dedicou a implantar lojas de uma famosa rede de frango frito. Foi numa dessas viagens de trabalho que Eduardo conheceu Poços de Caldas e se apaixonou pela região. O desejo de empreender por conta própria surgiu como fruto da vontade e das circunstâncias da vida. E morar na praia também estava nos planos do casal.


Foi assim que, em Itanhaém, eles passaram a tirar o sustento de um quiosque à beira-mar. Camarão frito com caipirinha e porquinho com cerveja tornaram-se duplas imbatíveis, encantando veranistas famintos e sedentos pelos petiscos servidos sob a brisa oceânica. Ainda assim, Poços de Caldas nunca saiu do radar de desejos deles. Quando decidiram trocar o mar pelas montanhas que unem paulistas e mineiros, levaram na bagagem o know-how peixeiro e abriram o restaurante Navegantes. A casa navegou bem até a pandemia. O isolamento social, no entanto, afundou o barco.


As portas fechadas guardavam um estoque generoso de camarão. E Eduardo, para não perder mercadoria tão preciosa, muniu-se de isopores, gelo e uma pequena pick-up e saiu mascateando os crustáceos por estas plagas abençoadas pela Mantiqueira. O sucesso foi imediato, e das vendas itinerantes nasceu o Carro do Peixe, uma verdadeira peixaria volante que percorre a região ofertando o melhor do mar: mariscos, lagosta, siri, polvo, robalo, atum, ostras e mais, muito mais. Fresquíssimos, os produtos vêm para a altitude semanalmente, transportados cuidadosamente pelo próprio empreendedor.


Mudança, afinal, sempre esteve no DNA do casal. Em busca de sossego e do frio montanhês, Eduardo e Margareth ancoraram no bairro da Cascata, em Águas da Prata. Mas a calmaria da aldeia que junta São Paulo e Minas se quebra nos segundos e últimos domingos do mês, quando a rua diante de sua casa, fechada com a devida autorização do poder público, transforma-se em um restaurante a céu aberto. Ali, pratos e porções protagonizados pelos tesouros das profundezas de Netuno conquistam cada vez mais adeptos.


Na Cascata lendária dos cafeicultores e batateiros, a questão “praia ou montanha” já não faz sentido. Porque ali, na mais improvável geografia, existe agora uma praia na montanha.



📍 Rua Manoel Diogo, 115 - Bairro da Cascata, Marco Divisório, Águas da Prata, SP


🌍 Clique aqui para saber como chegar


📞 Faça sua reserva: (13) 99609-4747 



domingo, 2 de fevereiro de 2025

Gerações, amores e sabores

 

Conheci Camila Mollo em um doce contexto. No coração de São João, ela preparava brigadeiros maravilhosos em seu pequeno e acolhedor espaço, a Dona Margot Brigaderia. Preciso confessar: a coxinha e o pão de queijo eram tão irresistíveis quanto as bolinhas de chocolate belga. O negócio nasceu em 2019, das necessidades da vida e de inspirações afetivas dos avós.


Zé Carlos, avô paterno, fez um fogãozinho a lenha para os netos brincarem em seu quintal. As primeiras lembranças de Camila na cozinha foram ali. Ela e a irmã, Renata, preparavam omeletes e bolos para o clã. Bem ruins, Camila revela, mas o vovô devorava tudo. Nascia, daquele fogo na madeira, a paixão pelas panelas.


Aos sábados, religiosamente, Dona Margot, avó materna, reunia a família em torno da mesa. Servir a comida mais gostosa aos queridos era o grande prazer da matriarca. O sabor da feijoada fumegante e as sobremesas caseiras da avó entraram definitivamente na alma de Camila.


A neta não nega os créditos à Dona Margot: dela vieram ensinamentos e estímulos para empreender no ramo da alimentação. Da já saudosa Brigaderia, onde Camila descobriu sua verdadeira vocação no comércio, a rua Prudente de Moraes jamais vai esquecer daqueles pequenos-grandes deleites gastronômicos.


Em março de 2023, ela saiu do Centro para se associar a dois primos na ambicionada Mantiqueira destes Crepúsculos. A sociedade na Maria Tapioca não vingou.


Apoiada pelos pais e empurrada pela força vital da mãe, Silvia, Camila vem, desde 2024, exercendo sua arte em um ambiente (bem) mais amplo. Mais área, mais trabalho, mais cores, mais sabores! O prédio na Durval Nicolau, onde as tapiocas reinavam, hoje acolhe um cardápio contemporâneo que segue homenageando a cozinha nordestina, mas vai além: o Flor de Mandacaru celebra a riqueza e a diversidade de toda a culinária brasileira.


E as doçuras da incansável e talentosa Camila? Ah!, elas continuam nos tentando no novo balcão.


Nota do autor: Não há como falar da protagonista desta crônica sem falar de seu filho, Davi. Autista, o menino é alvo de toda a devoção da mãe. De alguma forma, tudo o que ela fez, e continua fazendo, é para proporcionar o melhor para a cria. Sorriso genuíno sempre aberto aos clientes, a energia de Camila para cuidar de um rebento com necessidades especiais e vencer no concorrido ramo de restaurantes é admirável, resistente como a flor de mandacaru.



Flor de Mandacaru

📍 Av. Dr. Durval Nicolau, 252, São João da Boa Vista, SP

🕒 Segunda a sábado, das 11h às 22h


domingo, 19 de janeiro de 2025

Pizzas, sonhos e paixões

 

Há na inquietude humana um chamado irresistível pelo desafio, pelo oposto, pelo que rompe as fronteiras do conforto; foi assim que um rapaz do norte da Itália, seduzido por uma paixão brasileira, pelo calor dos trópicos e pela liberdade que só o desconhecido oferece, trocou a segurança fria dos Alpes da Bota pela incerteza vibrante e cálida da América Latina. 


Vai daí que uma confluência de vontade, circunstâncias, sustos e amizades guiou Marco Rota ao Brasil. As devoções pelo país e por uma casabranquense, Lídia Maria, foram determinantes para o jovem lombardo ter endereço fixo em São João da Boa Vista.


Aquela pizza que reunia a famiglia em Cassano d’Adda, região da Lombardia, virou profissão depois que ele decidiu oferecer um disco genuinamente napolitano a esta província crepuscular. O “genuinamente” é por minha conta, já que Marco fez algumas concessões ao gosto brasileiro: a redonda é grande, como as nossas, e a cobertura é mais robusta. Embora mais generosa, ela, a cobertura, está longe de ser desequilibrada.


Numa pequena casa alugada no bairro Santo André, pertinho do Instituto, o peninsular Marco, fiel à farinha italiana e ao tomate San Marzano, vai perpetrando na novíssima San Michele belíssimas obras que têm a alma e o sabor de suas origens. Carismático e falante existe italiano que não seja?— o pizzaiolo brinca com a pronúncia do nome da pizzeria: “Lauro, per Dio, di’alla gente che il nome è SAN MIQUÉLE, non è SAN MIXÉLE!”. Sì, Marco, lo farò.


É evidente que a Itália de hoje pouco se assemelha àquela devastada pela Segunda Grande Guerra. Tampouco o protagonista desta crônica enfrentou as privações que afligiram seus antepassados na metade do século passado. Ainda assim, a história de Marco Rota carrega simbolismos profundos da saga da imigração italiana no Brasil: cruzar o Atlântico buscando uma vida melhor em uma distante e alvissareira terra prometida.


Nota do blogueiro: Lídia Maria, primeira-dama da San Michele, confessou a imagem que ela projetou do autor destas linhas antes de nos conhecermos pessoalmente: “Lauro, achei que você fosse um senhorzinho rabugento, do tipo daqueles ranzinzas críticos gastronômicos que só enxergam defeitos em tudo e todos”. 



🍕🍕🍕

Pizzeria San Michele

São João da Boa Vista, SP

Só delivery!

19 99280-4376

Quinta a domingo, a partir das 18h



domingo, 12 de janeiro de 2025

Peru 4 x 0 Chile

 

Já comentei por aí que me apaixonei ainda mais pela comida peruana durante recente viagem ao Chile. Para chegar a essa conclusão, é claro que também provei pratos genuinamente chilenos. E vou contar como foi essa experiência.


Indicações e reviews apontaram o Galindo como o restaurante a ser visitado. Saímos do hotel em Lastarria e caminhamos por vinte minutos até o local, no bairro Bella Vista. Mesas na calçada e um Chardonnay gelado ajudaram a aliviar o calor daquela noite de dezembro. Josi quis pegar leve nas escolhas, mas eu fiz questão de começar pesado, com duas iguarias-raiz típicas chilenas. Não demorou para que o pastel de choclo e a cazuela de vacuno pousassem, fumegantes, na mesa. O pastel de choclo, um creme de milho adocicado cobrindo um recheio de carne, cebola e ovo, estava longe de ser ruim, mas também não arrancava nenhuma exclamação. Já a cazuela, pobre Josi, era um caldo ralo —sem tempero, sem graça, sem alma— com cenouras boiando e nacos de carne bovina e meia espiga de milho cozido sem sal no fundo da cumbuca. Sopa de hospital, perto daquilo, é um banquete divino.


Ainda assim, demos outro voto de confiança à gastronomia local e, no dia seguinte, decidimos experimentar a chorillana no sugestivo El Palacio de la Chorillana, pertinho do Galindo. A coisa chegou numa travessa: uma montanha de batatas fritas cobertas por carne ressecada picada e quatro ovos fritos. Algo estranho, sem apelo e sem lógica culinária. Frustrados, voltamos convictos à nossa deliciosa rotina inca de ceviches e lomos saltados.

Venda Canta Galo

 

Há paragens que parecem sobreviver ao fluxo inevitável dos ciclos, como se tivessem firmado um pacto silencioso com a eternidade. São refúgios onde o passado ainda conversa com o presente. Ali, entre prateleiras antigas e paredes descascadas sobre o piso vermelhão, a rusticidade abraça gerações e histórias. É mais do que um ponto de venda, é um altar da despretensão em que cantos e objetos contam trajetórias de labor, encontros e resiliência.


Em tempos idos, aquele pedaço fértil de chão era conhecido como Lagoa Formosa. Hoje, com a monocultura da cana, diz-se dos mesmos arredores: “lá perto da usina; nas proximidades da Abengoa”. Na mencionada região, mais precisamente no Sítio Canta Galo, a Venda do Tião Rehder é um centenário comércio que abastecia os colonos das fazendas vizinhas. Tião Rehder não mais está neste plano, tampouco há colonos nas imediações, mas o velho prédio do lendário armazém de secos e molhados continua lá, resistindo. Aventureiros de toda sorte já tocaram o empório. 


Hoje, sem aventuras, a bodega rural é gerida pelo casal Alana e João. Ela, trabalhou em restaurantes de São João; ele, agricultor e meeiro, cultiva quiabo nas roças que cercam o estabelecimento. 


No meio daquela vastidão agrária, a Venda Canta Galo ainda oferta aqueles clássicos itens de mercearia, mas o negócio ganhou um tempero de botequim raiz. Alana carregou das cozinhas onde labutou ideias para incrementar o balcão. A poeira na garganta é lavada com Brahma gelada. Acepipes deliciosos, lindamente apresentados, matam a fome de uma freguesia eclética: médicos avançam sem piedade no lambari frito, lavradores atacam a língua com molho de tomate, empresários se lambuzam com frango a passarinho, motociclistas de fim de semana aceleram fundo sobre a travessa de dobradinha e operários se fartam com moelas.


Um bancário, metido a cronista, aceitou o pot-pourri do cardápio acima. Embriagado também pela poesia da simplicidade, ele se deixou levar por reflexões sobre a extraordinária capacidade humana de empreender, reinventar-se e transformar territórios áridos em oásis.

🍺🍺🍺
Venda Canta Galo
Todos os dias, das 8 às 20h
WhatsApp: 19 99842-4035
Como chegar? Waze ou Google Maps

O Mestre dos Lanches


 Não existiam delivery, cartão de crédito nem batata palha (argh!) no x-tudo. Ketchup e maionese ficavam naquelas bisnagas plásticas que a gente apertava sem dó sobre o ki-galo, o x-bacon, o x-salada etc. Ninguém chamava de hambúrguer; na madrugada de sábado para domingo, a molecada saía dos bailes da CSB —na Esportiva ou no Recreativo— para comer um LANCHE no Hi-Fi. Nos pós-bailes, eles ficavam abertos até as seis da manhã para alimentar os notívagos famintos e os adolescentes que, vez ou outra, não pegavam ninguém nos salões.

A coisa toda começou em 1982, num trailer na baixada da rua General Osório. Mais velho, Daniel juntou os brothers Denilson e Vivi para abrir o primeiro “carrinho de lanches” de São João. Em Ituiutaba, onde a família Borges (não são meus parentes) morou, Daniel trabalhou numa lanchonete chamada Hi-Fi. De lá, ele trouxe o know-how “lancheiro” e o mesmo nome para ser o pioneiro nos Crepúsculos Maravilhosos. Deu muito certo; a energia da juventude fervia na rua entre bocadas homéricas e garrafinhas de Coca KS.

Denilson aprendeu rápido a arte hamburgueira e, faça-se justiça, ele foi o cara que criou muitos dos lanches (o ki-galo, por exemplo) comandando a chapa na companhia do irmão Vivi. O movimento recorde não sai de sua memória: 738 lanches numa noite pauleira de sábado até o alvorecer de domingo.

Depois de quase um quarto de século empunhando a espátula no Hi-Fi, Denilson foi ganhar o pão em outro ramo. Entregou revistas da Abril e produtos de vendas online. Cansou, mas não descansou! Na General Carneiro, sem modéstia no letreiro, ele voltou às origens pilotando a própria chapa n’O Mestre dos Lanches. Agora tem delivery, cartão de crédito, PIX e ketchup no sachê (argh!). A vida moderna só não mudou o sabor fodão dos lanches e o x-tudo, viva!, sem batata palha.


🍔🍔🍔🍔
O Mestre dos Lanches
General Carneiro, 258
São João da Boa Vista, SP
📲 19 99976-7439
De sexta à quarta, a partir das 18h30

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Profecia derretida

O famoso Relógio de Flores de Viña del Mar

 Na parada para o desayuno nos arredores de Santiago, uma senhora idosa, brasileira, superagasalhada, se incumbiu de tocar o terror em quem estava na fila esperando o café. Mediu Josi da cabeça aos pés e, com olhar de desprezo, sentenciou exibindo a autoridade de quem veste gorro e cachecol: “Nunca, jamais vá a Viña (ela quis demonstrar intimidade com Viña del Mar) e Valparaíso sem roupas de inverno. Vocês vão congelar hoje; a temperatura não vai passar de 8ºC”.

Ressabiados, mas confiando mais nos apps meteorológicos do que naquela profeta glacial, (re)embarcamos na van com nossos trajes de verão. Não foi o caso de uma família de seis paraenses. O provedor nortista, zeloso dos seus, comprou a história da hecatombe climática da velhinha e, num brechó próximo, desembolsou US$ 100,00 para proteger o clã com casacos puídos e malcheirosos. Encapotados, eles adentraram o coletivo como se estivessem na Patagônia no mês de julho.

Josi confessou-me depois que quase acreditou também. Receosa de ficar desconfortável no passeio, faltou pouco pra ela, no brechó, sucumbir a um moletom fedorento que estampava “I ❤️ Chile”.

Horas depois, circulando nas belas Viña del Mar e Valparaíso, sob 29ºC, procurei a tiazinha nas ruas para vê-la hibernando, enrolada em várias camadas de malha de Jacutinga. Não a vi, mas testemunhei os paraenses radiantes, em camisetas, bermudas e vestidos leves. O inútil arsenal polar deles foi devidamente abandonado na van.

O genial Pablo Neruda escreveu: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo.” O tosco, e nada genial Lauro Borges, reescreve: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo de previsões falsas de anciãs arrogantes e desinformadas”.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Réveillon no exílio: uma crônica de Año Nuevo

Restaurante Como en Peru, bairro Lastarria, Santiago do Chile

 Não me encantei com a culinária chilena. O destaque das panelas deles, sem dúvida, está na marcante influência peruana. Ceviches e lomos saltados são as melhores refeições de Santiago —e, imagino, de todo o Chile. Durante nossa breve passagem pela capital, a iguaria local que mais me agradou foi a empanada de pino. Então, segue o baile.

Chegamos ao hotel depois das 23 horas. Esfomeado eu estava, pela minha natureza e pelo lanchinho meia-boca da Latam. O recepcionista, sem muita convicção, indicou-nos um modesto restaurante do outro lado da rua. COCINA PERUANA no letreiro já anunciava uma digna matada de fome. Alex e Mariano Villalobos, os gentis irmãos incas, serviram-nos ceviche e lomo saltado. O jantar memorável avançou madrugada adentro, regado a pisco sour. Voltamos ao local mais três vezes, tamanha a sedução do tempero e do frescor dos peixes.

Ao descobrirmos que o Como en Peru —assim se chama o lugar— seria um dos poucos abertos na região na noite do dia 31, escolhemos aquela casa para passar nossa primeira Virada no exílio. Elegemos, como não poderia deixar de ser, ceviches para a ceia. Rolou até uma celebração com mojitos e taças de espumante, coroada com um típico suspiro limeño como sobremesa de Ano Novo.

Na mesa ao lado, um jovem casal brasileiro se acovardou diante do cardápio variado de uma gastronomia desconhecida. Ao vê-los entrar em 2025 comendo papas fritas, senti verdadeira compaixão por seus temores diante de novas experiências.

Sob as bênçãos dos mapuches, naquele simples estabelecimento étnico no movimentado bairro Lastarria, atendidos pelo honesto suor imigrante dos manos Alex e Mariano, alimentados com deliciosos pratos andinos, vivenciamos, eu e Josi, o mais inusitado Réveillon de nossas rodadas existências.


Lomo saltado e ceviche