domingo, 12 de janeiro de 2025

Peru 4 x 0 Chile

 

Já comentei por aí que me apaixonei ainda mais pela comida peruana durante recente viagem ao Chile. Para chegar a essa conclusão, é claro que também provei pratos genuinamente chilenos. E vou contar como foi essa experiência.


Indicações e reviews apontaram o Galindo como o restaurante a ser visitado. Saímos do hotel em Lastarria e caminhamos por vinte minutos até o local, no bairro Bella Vista. Mesas na calçada e um Chardonnay gelado ajudaram a aliviar o calor daquela noite de dezembro. Josi quis pegar leve nas escolhas, mas eu fiz questão de começar pesado, com duas iguarias-raiz típicas chilenas. Não demorou para que o pastel de choclo e a cazuela de vacuno pousassem, fumegantes, na mesa. O pastel de choclo, um creme de milho adocicado cobrindo um recheio de carne, cebola e ovo, estava longe de ser ruim, mas também não arrancava nenhuma exclamação. Já a cazuela, pobre Josi, era um caldo ralo —sem tempero, sem graça, sem alma— com cenouras boiando e nacos de carne bovina e meia espiga de milho cozido sem sal no fundo da cumbuca. Sopa de hospital, perto daquilo, é um banquete divino.


Ainda assim, demos outro voto de confiança à gastronomia local e, no dia seguinte, decidimos experimentar a chorillana no sugestivo El Palacio de la Chorillana, pertinho do Galindo. A coisa chegou numa travessa: uma montanha de batatas fritas cobertas por carne ressecada picada e quatro ovos fritos. Algo estranho, sem apelo e sem lógica culinária. Frustrados, voltamos convictos à nossa deliciosa rotina inca de ceviches e lomos saltados.

Venda Canta Galo

 

Há paragens que parecem sobreviver ao fluxo inevitável dos ciclos, como se tivessem firmado um pacto silencioso com a eternidade. São refúgios onde o passado ainda conversa com o presente. Ali, entre prateleiras antigas e paredes descascadas sobre o piso vermelhão, a rusticidade abraça gerações e histórias. É mais do que um ponto de venda, é um altar da despretensão em que cantos e objetos contam trajetórias de labor, encontros e resiliência.


Em tempos idos, aquele pedaço fértil de chão era conhecido como Lagoa Formosa. Hoje, com a monocultura da cana, diz-se dos mesmos arredores: “lá perto da usina; nas proximidades da Abengoa”. Na mencionada região, mais precisamente no Sítio Canta Galo, a Venda do Tião Rehder é um centenário comércio que abastecia os colonos das fazendas vizinhas. Tião Rehder não mais está neste plano, tampouco há colonos nas imediações, mas o velho prédio do lendário armazém de secos e molhados continua lá, resistindo. Aventureiros de toda sorte já tocaram o empório. 


Hoje, sem aventuras, a bodega rural é gerida pelo casal Alana e João. Ela, trabalhou em restaurantes de São João; ele, agricultor e meeiro, cultiva quiabo nas roças que cercam o estabelecimento. 


No meio daquela vastidão agrária, a Venda Canta Galo ainda oferta aqueles clássicos itens de mercearia, mas o negócio ganhou um tempero de botequim raiz. Alana carregou das cozinhas onde labutou ideias para incrementar o balcão. A poeira na garganta é lavada com Brahma gelada. Acepipes deliciosos, lindamente apresentados, matam a fome de uma freguesia eclética: médicos avançam sem piedade no lambari frito, lavradores atacam a língua com molho de tomate, empresários se lambuzam com frango a passarinho, motociclistas de fim de semana aceleram fundo sobre a travessa de dobradinha e operários se fartam com moelas.


Um bancário, metido a cronista, aceitou o pot-pourri do cardápio acima. Embriagado também pela poesia da simplicidade, ele se deixou levar por reflexões sobre a extraordinária capacidade humana de empreender, reinventar-se e transformar territórios áridos em oásis.

🍺🍺🍺
Venda Canta Galo
Todos os dias, das 8 às 20h
WhatsApp: 19 99842-4035
Como chegar? Waze ou Google Maps

O Mestre dos Lanches


 Não existiam delivery, cartão de crédito nem batata palha (argh!) no x-tudo. Ketchup e maionese ficavam naquelas bisnagas plásticas que a gente apertava sem dó sobre o ki-galo, o x-bacon, o x-salada etc. Ninguém chamava de hambúrguer; na madrugada de sábado para domingo, a molecada saía dos bailes da CSB —na Esportiva ou no Recreativo— para comer um LANCHE no Hi-Fi. Nos pós-bailes, eles ficavam abertos até as seis da manhã para alimentar os notívagos famintos e os adolescentes que, vez ou outra, não pegavam ninguém nos salões.

A coisa toda começou em 1982, num trailer na baixada da rua General Osório. Mais velho, Daniel juntou os brothers Denilson e Vivi para abrir o primeiro “carrinho de lanches” de São João. Em Ituiutaba, onde a família Borges (não são meus parentes) morou, Daniel trabalhou numa lanchonete chamada Hi-Fi. De lá, ele trouxe o know-how “lancheiro” e o mesmo nome para ser o pioneiro nos Crepúsculos Maravilhosos. Deu muito certo; a energia da juventude fervia na rua entre bocadas homéricas e garrafinhas de Coca KS.

Denilson aprendeu rápido a arte hamburgueira e, faça-se justiça, ele foi o cara que criou muitos dos lanches (o ki-galo, por exemplo) comandando a chapa na companhia do irmão Vivi. O movimento recorde não sai de sua memória: 738 lanches numa noite pauleira de sábado até o alvorecer de domingo.

Depois de quase um quarto de século empunhando a espátula no Hi-Fi, Denilson foi ganhar o pão em outro ramo. Entregou revistas da Abril e produtos de vendas online. Cansou, mas não descansou! Na General Carneiro, sem modéstia no letreiro, ele voltou às origens pilotando a própria chapa n’O Mestre dos Lanches. Agora tem delivery, cartão de crédito, PIX e ketchup no sachê (argh!). A vida moderna só não mudou o sabor fodão dos lanches e o x-tudo, viva!, sem batata palha.


🍔🍔🍔🍔
O Mestre dos Lanches
General Carneiro, 258
São João da Boa Vista, SP
📲 19 99976-7439
De sexta à quarta, a partir das 18h30

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Profecia derretida

O famoso Relógio de Flores de Viña del Mar

 Na parada para o desayuno nos arredores de Santiago, uma senhora idosa, brasileira, superagasalhada, se incumbiu de tocar o terror em quem estava na fila esperando o café. Mediu Josi da cabeça aos pés e, com olhar de desprezo, sentenciou exibindo a autoridade de quem veste gorro e cachecol: “Nunca, jamais vá a Viña (ela quis demonstrar intimidade com Viña del Mar) e Valparaíso sem roupas de inverno. Vocês vão congelar hoje; a temperatura não vai passar de 8ºC”.

Ressabiados, mas confiando mais nos apps meteorológicos do que naquela profeta glacial, (re)embarcamos na van com nossos trajes de verão. Não foi o caso de uma família de seis paraenses. O provedor nortista, zeloso dos seus, comprou a história da hecatombe climática da velhinha e, num brechó próximo, desembolsou US$ 100,00 para proteger o clã com casacos puídos e malcheirosos. Encapotados, eles adentraram o coletivo como se estivessem na Patagônia no mês de julho.

Josi confessou-me depois que quase acreditou também. Receosa de ficar desconfortável no passeio, faltou pouco pra ela, no brechó, sucumbir a um moletom fedorento que estampava “I ❤️ Chile”.

Horas depois, circulando nas belas Viña del Mar e Valparaíso, sob 29ºC, procurei a tiazinha nas ruas para vê-la hibernando, enrolada em várias camadas de malha de Jacutinga. Não a vi, mas testemunhei os paraenses radiantes, em camisetas, bermudas e vestidos leves. O inútil arsenal polar deles foi devidamente abandonado na van.

O genial Pablo Neruda escreveu: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo.” O tosco, e nada genial Lauro Borges, reescreve: “É o verão que nos ensina a renascer, sem pressa, sem medo de previsões falsas de anciãs arrogantes e desinformadas”.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Réveillon no exílio: uma crônica de Año Nuevo

Restaurante Como en Peru, bairro Lastarria, Santiago do Chile

 Não me encantei com a culinária chilena. O destaque das panelas deles, sem dúvida, está na marcante influência peruana. Ceviches e lomos saltados são as melhores refeições de Santiago —e, imagino, de todo o Chile. Durante nossa breve passagem pela capital, a iguaria local que mais me agradou foi a empanada de pino. Então, segue o baile.

Chegamos ao hotel depois das 23 horas. Esfomeado eu estava, pela minha natureza e pelo lanchinho meia-boca da Latam. O recepcionista, sem muita convicção, indicou-nos um modesto restaurante do outro lado da rua. COCINA PERUANA no letreiro já anunciava uma digna matada de fome. Alex e Mariano Villalobos, os gentis irmãos incas, serviram-nos ceviche e lomo saltado. O jantar memorável avançou madrugada adentro, regado a pisco sour. Voltamos ao local mais três vezes, tamanha a sedução do tempero e do frescor dos peixes.

Ao descobrirmos que o Como en Peru —assim se chama o lugar— seria um dos poucos abertos na região na noite do dia 31, escolhemos aquela casa para passar nossa primeira Virada no exílio. Elegemos, como não poderia deixar de ser, ceviches para a ceia. Rolou até uma celebração com mojitos e taças de espumante, coroada com um típico suspiro limeño como sobremesa de Ano Novo.

Na mesa ao lado, um jovem casal brasileiro se acovardou diante do cardápio variado de uma gastronomia desconhecida. Ao vê-los entrar em 2025 comendo papas fritas, senti verdadeira compaixão por seus temores diante de novas experiências.

Sob as bênçãos dos mapuches, naquele simples estabelecimento étnico no movimentado bairro Lastarria, atendidos pelo honesto suor imigrante dos manos Alex e Mariano, alimentados com deliciosos pratos andinos, vivenciamos, eu e Josi, o mais inusitado Réveillon de nossas rodadas existências.


Lomo saltado e ceviche

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Primavera do chef

 

Conheci Henrique Benedetti e seu primoroso trabalho na cozinha em junho de 2016. Era o Ollivia de Luciano Mussolin numa noite fria de quarta-feira. Ali, sob a mística do histórico casarão, testemunhamos, eu e Josi, um desfile de técnica, senso estético e valorização de ingredientes regionais. Não é exagero dizer que, na época, ele introduziu a alta gastronomia contemporânea em Poços de Caldas.


Daquele arrebatador jantar de inverno em diante, no próprio Ollivia e, a partir de 2019, em outras tabernas, peregrinamos religiosamente pelas trilhas autorais do chef Henrique. Ultimamente, através das mídias sociais, acompanhamos o virtuose poços-caldense comandando o bistrô do consagrado Charlô Whately, no paulistano Pulso Hotel.


A primavera de 2024 trouxe flores, chuva e Henrique Benedetti de volta às panelas do centenário imóvel. O prédio, repaginado, está mais lindo do que nunca. Seduzido pela proposta do espírito inquieto e criativo que hoje lidera o Ollivia, Rubinho Massa, ele se reconectou às suas raízes vulcânicas. Esse triunfal retorno, aguardado com ansiedade pela antiga clientela do restaurante, traz o artista no esplendor de sua maestria culinária.


Henrique, agora mais maduro e cheio de bagagem, segue na nobre missão de ser o cara que domina os métodos de sua arte para, à mesa, encantar com a beleza e a harmonia dos sabores que unem as riquezas da sua Mantiqueira aos aromas do mundo.


Nota do blogueiro: Dias antes do anúncio oficial do regresso de Henrique ao Ollivia, eu proseava com Rubinho Massa sobre o quão marcante foi o período em que o chef comandou a cozinha do restaurante, entre 2016 e 2019. Ao final da nossa conversa, ele foi enigmático: "Logo mais você vai se surpreender com o novo ciclo do Ollivia". E como eu e Poços de Caldas inteira nos surpreendemos!



domingo, 1 de dezembro de 2024

Vargem Grande do Seu João

Beatriz Amorim e João Pedro, juventude e talento encantando clientes

 As amigas Clau Fontana e Marina Figueiredo, domingo destes, ficaram extasiadas almoçando numa província vizinha. Recebi e rapidamente acatei a indicação delas. Numa agradável noite de terça-feira, abençoados pela brisa que abençoa os hedonistas, fomos, eu e Josi, agraciados com uma sequência de espantosas iguarias. Daquele banquete naquela rua quase deserta, este voraz colunista se rendeu à inspiração nestas condimentadas linhas.

João Pedro Ferreira cresceu no Jardim Fortaleza, em Vargem Grande do Sul, entre o aroma das panelas e o som da máquina de costura da mãe. Enquanto ela cerzia sonhos em tecidos, ele, ainda criança, cuidava do fogão, garantindo mais tempo para dona Sônia se dedicar ao ganha-pão. Ali, entre receitas simples e afetos, começou a brotar o desejo de explorar o mundo cozinhando.

Com o apoio da família, seguiu para Águas de São Pedro para conquistar o diploma de Gastronomia no Centro Universitário do SENAC. Sua estreia foi sob as coifas do Clube Med, lugar que ensinou que a profissão não versa apenas sobre paladares, mas também sobre acolhimento e a arte de encantar pessoas. João queria mais: cruzou o Atlântico e desembarcou em Dublin, Irlanda, como sous-chef de um restaurante de frutos do mar. No Wrights Anglers Rest, ele mergulhou na riqueza da culinária europeia, lapidando técnicas e conhecendo ingredientes locais.

Seu ímpeto o levou ainda mais longe, até o arquipélago de Malta, no conceituado Fernando Gastrothèque, onde a tradição mediterrânea da casa ostenta uma estrela no guia Michelin. Foi lá que João, por três anos, encontrou mais do que jamais imaginou: uma mistura de escolas italiana, francesa e asiática em pratos saborosos, sofisticados e esteticamente impecáveis.

Em 2024, com três décadas de vida, carregado de experiências e memórias, decidiu voltar às origens. No Centro de Vargem, numa linda esquina restaurada, ele abriu o Seu João, um refúgio do bem-comer onde as influências de sua trajetória se transformam em concepções únicas que celebram a fusão de culturas e a diversidade de temperos. Ao lado de Beatriz Amorim, expert em hotelaria e sua parceira desde os tempos do Clube Med, João imprime no bistrô toques de suas paixões e vivência.

No Seu João, cada item do menu é um convite para viajar pelas veredas que o chef percorreu, provando que, mesmo em uma pequena cidade do interior do Brasil, é possível criar uma carta digna das melhores mesas do globo.

 🥩🍤🍷

Seu João Bar & Restaurante

Rua Cel. Lúcio, 635
Vargem Grande do Sul, SP
De terça a sábado, a partir das 18h
Domingo, das 11 às 14h30 e das 18 às 22h

 

A musa, a iguaria e o vinho

domingo, 24 de novembro de 2024

Mercearia do Dito: a poesia do frugal

 


Há algo fascinante nas descobertas gastronômicas que estão recônditas em pequenos estabelecimentos, onde o acepipe autêntico, dos deuses, nasce da simplicidade e da alma de quem cozinha. É ali, na estufa do bar puído de esquina ou na lanchonete com cardápio rabiscado, que está aquele petisco que a plebe trabalhadora pede no fim do expediente: um torresmo crocante, uma coxinha receita de família ou uma empada de frango que nos faz crer que a humanidade (ainda) não está perdida. Esses beliscos do underground carregam tradições, até que, de repente, saem do anonimato e ganham o olhar do mainstream. Tornam-se cult e viralizam no Instagram, mas não perdem charme genuíno de suas origens. É o êxito do despojamento, a poesia do frugal.

Vai daí que um certo bancário, metido a cronista, glutão incurável, segue firme na exploração das trilhas aromáticas e condimentadas da região. Sintam o cheiro da narrativa —com o perdão do trocadilho sofrível— do Dito cujo!

Nivaldo Ferreira, o amigo paulistano-pratense, deu a dica num tom quase de súplica. Acatei sem vacilar a sugestão que atiçou meus instintos com algumas palavras-chave irresistíveis: bolinho de bacalhau, camarão, Mercadão, botequim, chope, Poços. A coisa toda, numa tarde quente de sábado, rolou na Mercearia do Dito, cujas mesas na calçada têm vista privilegiada para o Cristo. No lado externo do Mercado Municipal de Poços, desde 2019, Dito e seu time, de segunda à segunda, servem a freguesia num espaço despretensioso que mistura informalidade, movimento de rua, comércio popular, cerveja gelada e, principalmente, comida boa. O bolinho de bacalhau e a porção de camarão que protagonizam esta publicação devem, obrigatoriamente, figurar em qualquer enciclopédia dedicada aos melhores deste pedaço vulcânico.

O poços-caldense Benedito Aparecido Silva de Oliveira, 61 anos, rodou o Brasil pra ganhar o pão. Voltou ao torrão natal para vendê-lo, para ser o velho Dito do bairro Santana. Regressou para replicar em seu boteco o espírito do Mercadão de São Paulo, o lugar que mais influenciou sua paixão por temperos e sabores. Retornou para triunfar e fazer história.

🍺🍺🍺

Mercearia do Dito
Mercado Municipal de Poços de Caldas, MG
Segunda a sábado, das 9 às 18h
Domingo, das 9 às 14h





quarta-feira, 20 de novembro de 2024

A casa da Vovó Elna

 

A sala da Vovó Elna

Como os salmões da trama, fui capturado pela série “Ilha de Peixe Grande”, na Netflix. Gravados na Noruega, os seis episódios, bem produzidos, contam a história da disputa entre duas famílias poderosas pelo controle da indústria do famoso peixe de carne alaranjada. O atraente enredo é ambientado na fictícia Ilha de Brima. As locações escolhidas destacam lindas paisagens costeiras, a atmosfera da piscicultura e pequenas vilas que retratam o estilo de vida local.


Uma rápida curiosidade sobre o salmão norueguês, pescado nas águas do Atlântico. Na década de 1980, o governo do país nórdico implantou uma estratégia de marketing ousada chamada “Project Japan”. A iniciativa almejava introduzir o peixe no sushi japonês. Resistentes culturalmente, os nipônicos rechaçaram inicialmente a investida dos noruegueses. O salmão não era tradicionalmente usado nos sushis/sashimis do Sol Nascente. Com persistência e um oceano de dinheiro, a Noruega conseguiu cativar os japas, demonstrando as práticas rigorosas de sua aquicultura. Pesaram também, nessa conquista, argumentos gastronômicos: a cor vibrante e o sabor suave do salmão. Convenceram o Japão e o mundo, mas não me dobraram. Só troco o atum do meu sushi por prego.


Ver a Noruega na TV reavivou meus laços afetivos com essa terra que tem outra celebridade em seus mares: o bacalhau. Meu filho, pelo intercâmbio do Rotary, viveu lá por doze meses, entre 2007 e 2008. Foi acolhido no período por três famílias. Em junho de 2010, fomos, eu e Josi, conhecer o país na companhia do Laurinho. Aquele fim de primavera foi inesquecível na Escandinávia.


Laurinho morou em Lillehammer e arredores. Nossa base foi no Centro da cidade, no apartamento do saudoso Anton Beck. A localidade, de pouco mais de 25 mil habitantes, foi sede dos Jogos Olímpicos de Inverno em 1994. Cercada por montanhas e pistas de esqui de primeira linha, às margens do lago Mjøsa, Lillehammer, ao mesmo tempo, pulsa na emoção dos esportes de neve e relaxa na tranquilidade de um vilarejo setentrional. Ali, entre idas e vindas turísticas, passei dias quase como um nativo: era até reconhecido pelos funcionários do Kiwi, um popular supermercado dos boreais.


Em Oslo, a capital, boquiabertos ficamos ante as esculturas monumentais do Parque Vigeland, caminhamos no teto moderno da Ópera Nacional e até “ouvimos” o icônico “O Grito” de Edvard Munch. Aquela expressão de angústia do quadro até hoje ecoa nas profundezas da minha alma.


Impossível ficar imune àquelas grandiosidades naturais em que formações verticais mergulham em águas límpidas que espelham o céu: os fiordes. Impossível ficar imune à inacreditável arquitetura curva da Storseisundbrua, a ponte mais incrível do planeta. Impossível ficar imune à justiça social e ao bem-estar geral proporcionados pela riqueza petrolífera.


Gostei muito da vivência norueguesa como turista, mas foi o laço terno com clãs locais que nos levou a uma experiência única em Fåvang: a casa da Vovó Elna, uma pequena propriedade rural onde o tempo parecia desacelerar. Entre paredes rústicas de madeira, ela nos brindou com waffles dourados, fresquinhos, acompanhados de mel e geleia feita de framboesas do seu pomar. Ali, naquele recanto que abraçava com hospitalidade e simplicidade, sentimos o afeto genuíno que turista comum jamais vai sentir.


Vovó Elna e seus inesquecíveis waffles

domingo, 3 de novembro de 2024

Três Batalhas: montanha, vinho e arte


 Um passeio pelas altitudes do meu quintal geográfico e afetivo num sábado de clima pouco amigável. Agradável, ao contrário do céu plúmbeo, foi o encontro com os amigos emoldurado pela mais cinematográfica das paisagens deste torrão. Da prosa solta em volta da mesa generosa, das afinidades, das bençãos de Bacco, dos efeitos das taças, enfim, desse caldeirão de prazeres veio a luz para a crônica que segue.

Geraldo Dezena, natural de Águas da Prata, e Angela Bonfante, de São João da Boa Vista, uniram suas existências em uma caminhada marcada tanto pela dedicação profissional quanto pela valorização das culturas locais onde viveram. Seus destinos se cruzaram no Banco do Brasil, onde Geraldo trilhou uma carreira de sucesso, ascendendo a postos importantes, como superintendente estadual na Paraíba e Bahia, até alcançar a vice-presidência de tecnologia da instituição. Angela, por sua vez, levou para a vida de Geraldo sensibilidade, talento e energia criativa como artista plástica inquieta que é. Formaram uma família com três filhos e, na estrada, aproveitaram a vivência nômade como bancários em aprendizado, estímulos e conquistas.

Após a aposentadoria, no período da pandemia, decidiram consolidar ainda mais suas raízes, adquirindo uma pequena gleba nas montanhas de Águas da Prata. Ali, na plenitude da Serra da Mantiqueira, cercados pelo verde abundante, refundaram aquele naco de chão como Sítio Mirante Azul, um refúgio de paz e inspiração para novos projetos. Um deles —nascido do hábito de Angela de fermentar e engarrafar safras domésticas—, é a produção de vinhos sob o rótulo “Três Batalhas”, uma homenagem à Revolução Constitucionalista de 1932 —na qual a região, situada na divisa entre São Paulo e Minas Gerais, foi palco de intensos combates—, bem como aos antepassados italianos do casal e à tradição vinícola de seus clãs.

Com devoção e pesquisa, Geraldo e Angela usam a técnica da poda de inverno (ou poda invertida) para produzir néctares Syrah e Sauvignon Blanc, elaborados a partir das frutas colhidas no próprio domínio serrano. O solo vulcânico da região, rico em minerais e memórias, confere à bebida características singulares, que refletem tanto a riqueza e a alma da terra, o chamado terroir, quanto o empenho e a biografia de seus produtores. No Sítio Mirante Azul, eles não cultivam apenas uvas, mas também perpetuam o legado de seus ancestrais e a paixão pela lida no campo. Assim, a história se renova, e uma nova geração de viticultores emerge, juntando passado e presente, Itália e Brasil, trabalho árduo e poesia.

E falando em poesia, é necessário reproduzir a bela obra de autoria de Paulo Tó, compositor maior e filho do meio dos neo-vinhateiros, que está gravada nas garrafas da marca. Sintam!

Um soldado pisando com cuidado as terras
altas entre São Paulo e Minas:

“Espera, soldado, espera um momento! 

Olhe a colina, sinta o vento fresco da mata!”

E então o soldado, naquele doce delírio, estafado da guerra, 

sonhou que o vermelho,

descendo nas águas da serra,

em vez de sangue,

era vinho!