sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Donagertrúdico e Guiomarnovático

Marcelo Sguassábia

No retrato, o cronista refestelado depois de fartas porções de chantilly com batata pringles

Polegar para cima

Nascido no Reino da Beloca, deixou de beber a água do Jaguari aos 4 anos. O desterro precoce não matou o seu amor pelos Crepúsculos. Ao contrário.

Caminhando para meio século de vida, Marcelo Pirajá Sguassábia ganha o pão desde os 22 como um premiado redator publicitário. Ele é bom!

Escreve na labuta e escreve no recreio. Desde 2005, fora da faina, ele produz jóias literárias semanais que são publicadas em três jornais (Sanja o lê na Gazeta de São João) e em diversos sítios internéticos. Ele é muito bom!

Sobre o vezo das suas linhas, o escritor mostra resignação com a pena flutuante:

“Minhas lavras oscilam entre o conto e a crônica, sem estilo definido, e já me conformei com o fato de que é neste limbo que elas irão ficar”.

Incertos no enquadramento, ora líricos, ora cheios de humor, ora numa mistura prazerosa de poesia e sátira, os textos do Marcelo são precisos em agradar os leitores. Se seus escritos variam na classificação literária, eles são pétreos na qualidade. O macaúbico letrado espanta pela regularidade. Ele é fora de série!

Bom, muito bom, fora de série, genial!!!! Lavrador onírico, beatlemaníaco empedernido, pianista diletante e viajante no tempo, Marcelo Pirajá Sguassábia, 46 anos, depois de inúmeras e estafantes tratativas (embora não verdadeiro, o tempero da dificuldade valoriza o colóquio perguntativo), sucumbiu ao pedido do blogueiro e respondeu o revelador questionário que segue.

Polegar para cima

Da sua infância na província crepuscular, tem alguma lembrança marcante?

Muitas. As férias na chácara da minha avó Chiquinha, na estrada São João–Pinhal, a casa do velho Pirajá na Tereziano Vallim, as matinês de Carnaval no Recreativo, meu avô Miguel Sguassábia, o antigo Bar Teatro, o quintal e a sala do piano no casarão da minha tia Mariquinha, os primos todos, a fazenda do Matão... a lista é grande.

Descobriu quando o gosto pelas letras? Quem elogiou as suas primeiras lavras?

À minha relação com a palavra eu não atribuiria nem gosto nem facilidade. Há coisas que gosto mais de fazer e escrever nunca é fácil, por mais que se ganhe prática. Digamos que, desde pequeno, o que botava no papel se sobressaía da média. Acho que quem primeiro me incentivou a escrever foi a professora que me alfabetizou, Dona Jamile Pereira.

Como é o seu processo de criação dos textos? Como você escolhe o mote, quase sempre inusitado, para suas deliciosas “viagens maionésicas”?

Depende muito. Às vezes o mote surge e vai sendo trabalhado aos poucos, por uns 3 ou 4 dias. Outras vezes a ideia inicial vira outra coisa completamente diversa. Habitualmente inicio meus textos pelo meio ou pelo fim, quase nunca pelo começo. Invejo aqueles que escrevem dentro de um encadeamento lógico e fluente –obedecendo a sequência introdução/desenvolvimento/conclusão. Meu processo é meio caótico e fragmentado, aos poucos vou juntando as partes para tornar o conjunto coeso.

Por que ainda não sucumbiu ao livro para publicar uma coletânea das suas crônicas?

Porque sem dúvida sucumbiria à tentação de reescrevê-lo, tão logo publicado.

Pergunte ao Mestre Duña, e exija sinceridade, como ele definiria Marcelo Pirajá Sguassábia.

No mais das vezes, é um sujeito que faz ouvidos moucos aos meus enunciados, máximas, teoremas e profecias, não obstante as advertências que reiteradamente lhe faço ao longo dos anos – especialmente quanto ao funesto hábito de caminhar colocando alternadamente um pé à frente do outro.

Um sujeito altamente mais ou menos e paradoxal por excelência, fanfarrão e ensimesmado, Pagúlico e avesso a pândegas e galhofas. Um bipolar de nascença, mormente no que tange a atributos mantiqueiros. Tereziânico do pescoço para cima, porém Vallímico da canela para baixo. Ao mesmo tempo em que é Orídico nos olhos, é estranhamente Fontélico nas pálpebras. Embora baurúnico às terças, é Belóquido às quintas – o que contraria frontalmente as mais elementares leis da física. No afã de tornar-se Perpétuo, não hesita em pedir Socorro.

Donagertrúdico nas preferências gastronômicas pouco ortodoxas, Guiomarnovático aos domingos, nos dias santos de guarda e no interim entre uma coisa e outra. Joaquinjosélico em suas convicções filosóficas. Bairroalégrico quando se trata de optar entre o que é certo e duvidoso, o bem e o mal, chantilly com pringles e pistache com fanta uva.

Ainda assim, desejo ao meu porta-voz, esse carrasco que só me concede aparições bissextas nos seus esquecíveis escritos, uma longevidade Palmyroferrântica.

4 comentários:

Mirze Souza disse...

Lauro!


Muito bom conhecer um pouco mais da genialidade de Marcelo!

Perguntas certeiras e respostas inteligentes.

Um abraço!

Mirze

Maria Célia Marcondes disse...

Que bela entrevista!
Perguntas pertinentes, respostas inteligentes, criativas.
Dois grandes orgulhos!
Beijos
MCélia

Rosana disse...

Olá Lauro...
Parabéns pelo feito! Entrevistar o Marcelo e colocar isso no blog dele realmente foi uma ótima ideia, pois assim pude ler mais um pouco do meu escritor preferido...Obrigada...E, por sinal, seu blog é ótimo também...Um abraço...

Ana Lúcia Finazzi disse...

Sou suspeita para opinar sobre o Marcelo, logicamente por conta do meu parentesco com ele. Marcelo é um doce de pessoa, um dos mais amorosos dos primos e dono de um talento inusitado na família, posto que, perto do que redige, nossos escritos tornam-se puerís. Quando tenho tempo , teço algum comentário sobre a crônica da semana, que é sempre retribuído com carinho. Ele merece!

Ana Lucia Finazzi