quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Luís Roberto de Múcio


Em férias nos Crepúsculos, Luís Roberto de Múcio foi solícito ao convite deste escriba: em três minutos de trocas de mensagens no WhatsApp combinamos um café na Fornarii.
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Pontual, o locutor global chegou na padoca se desculpando pelo traje: “Me perdoe pela bermuda”.
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Sanjoanense de alma e pelo título de cidadão concedido pela Câmara Municipal, ele acidentalmente nasceu em São Paulo para aterrissar em Sanja dois anos depois.
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Luís Roberto, criado na rua Teófilo de Andrade, cresceu na Esportiva jogando futebol e nadando sob as orientações do professor Marcondes. “Na época, a rede social era o clube. Era lá que a gente se divertia, socializava, encontrava os amigos, paquerava. Eu era daquela turma de moleques que chegava na Esportiva pela linha do trem e entrava pelo bambuzal”.
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Do ensino básico no Joaquim José e no Ginasinho, ele se recorda das escapadas para correr atrás da bola e de uma prova de hidrografia: “O mestre João Scannapieco disse que fui o único a acertar os nomes de todos os rios”.
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Foi para o Instituto de Educação cursar o colegial e, eleito presidente do Centro Acadêmico vencendo no pleito o legendário César Gilmar Caslini, teve a primeira atividade na área que seria o seu ganha-pão: no jornalzinho escolar SaCívico, Luís Roberto escrevia a coluna esportiva.  
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Francisco Arten, editor do periódico Opção, o convidou para a página de esportes onde cobriria o futebol dente-de-leite. No mesmo período, o então presidente da Liga Sanjoanense de Futebol, Célio Braga, que apresentava um programa esportivo —O Esporte Amador é Notícia— aos sábados na Rádio Piratininga, chamou De Múcio para trabalhar com o microfone.
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Orminda Cassiano de Carvalho, a famosa diretora da Piratininga, viu nele voz e talento para integrar a equipe do esporte profissional. Ao lado de Wanderley Fleming, apresentava o Piratininga nos Esportes reportando o dia-a-dia do Palmeiras Futebol Clube.
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Não demorou e ele foi promovido a repórter de campo do narrador titular da emissora, Basílio Bisi. Começava ali as rotinas de viagens junto com o Palmeirinha.
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Basílio Bisi, também gerente de banco, deixou a Piratininga para trabalhar longe de São João. Luís Roberto agarrou a oportunidade e no ano de 1978 na cidade de Indaiatuba ele narrou aos 16 anos o seu primeiro jogo: Primavera X Palmeirinha. Na cobertura daquele cotejo Wanderley Fleming foi o comentarista e João Fernando Palomo o repórter de campo.
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Apaixonado pelo rádio, ele ouvia fascinado as transmissões das grandes emissoras de São Paulo. Criativo e inspirado, se arvorou a fazer novas vinhetas para a Piratininga.
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Amigo e colega nos tempos da Piratininga, João Fernando Palomo constata: “O De Múcio sempre foi um cara extremamente profissional, organizado, buscava informações dos times adversários, trazia ideias, inovava nas transmissões, reformulava os textos comerciais, etc. Era claro pra mim que ele ia deslanchar na carreira”. Ao ouvir os confetes, Luís Roberto devolve a gentileza: “João era o melhor entre todos nós! Preferiu a advocacia”.
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Calouro de jornalismo na PUC, Luís Roberto de Múcio mudou-se para Campinas em 1981. Nos finais de semana, ainda trabalhava para a Piratininga nos certames do Lobo da Vila.
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Numa manhã de domingo, na cabine do estádio Ulrico Mursa narrando a visita do Palmeirinha para pegar a Briosa, o hoje deputado Beto Mansur, dono da Rádio Cultura de Santos, convidou Luís Roberto para um teste na Vila Belmiro: transmitir Santos versus Mixto pelo Campeonato Brasileiro. Era o dia 21 de março de 1981 e o Peixe venceu por 2x0.
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Efetivado na emissora, assumiu o microfone e fez as malas para a Itália, onde foi transmitir um torneio internacional com quatro times campeões do mundo. No Brasil e no exterior, de 1981 a 1984, narrou todos os jogos do Santos nas ondas da Rádio Cultura. E foi na cidade litorânea que ele concluiu a faculdade de jornalismo.
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No apagar de 1984, já um profissional experiente, recebeu o convite do ídolo Pedro Luiz para se transferir para a Rádio Gazeta de São Paulo. Nesta emissora, chegou a transmitir alguns jogos da Copa de 1986.
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Por 90 dias, em 1987, trabalhou na Record na equipe de Osmar Santos. A Rádio Globo, depois disso, foi sua casa por 11 anos. Correndo o mundo com a Fórmula 1, Luís Roberto empunhava o microfone da Rádio Globo em 1994 no GP de San Marino, naquele trágico primeiro de maio que levou Ayrton Senna.
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Sem prejudicar o trabalho no rádio, a Manchete numa passagem relâmpago e a ESPN foram os primeiros contratos de Luís Roberto no jornalismo esportivo televisivo.
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Novembro de 1997. Veio o chamado para integrar o rol de locutores de uma das maiores emissoras de TV do mundo. O sanjoanense Luís Roberto de Múcio vestiria a camisa da Rede Globo. E o macaúbico speaker mudou-se de mala e cuia para o Rio de Janeiro.
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Daí, incluindo Copas do Mundo e Olimpíadas, além dos principais campeonatos de futebol do Brasil, Luís Roberto levou, com emoção e precisão, aos lares do país centenas e centenas de disputas esportivas.
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Nos Jogos Olímpicos do Rio, a final masculina que deu a medalha de ouro ao vôlei brasileiro é a transmissão que mais impactou emocionalmente Luís Roberto: “Por ser no Brasil, pelas circunstâncias, pela atmosfera, pelo ginásio, pela torcida. De arrepiar!”
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De arrepiar, também, é a jornada deste sanjoanense que ainda adolescente pegou no microfone e é hoje um dos nomes que estão definitivamente gravados na enciclopédia do jornalismo esportivo brasileiro.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Jota Amaral

Ele quase perdeu a chance de entrevistar Roberto Carlos por estar vestindo uma camisa marrom. Um tio que o acompanhava em Ribeirão Preto, onde o Rei cantaria, foi providencial para evitar o frustrante vexame ao emprestar-lhe uma camisa azul.

Geraldo Alves, sanjoanense, falecido em 2000, é o nome de batismo de um sujeito que veio ao mundo vocacionado para empunhar o microfone no rádio: Jota Amaral.

Com pouco estudo, mas muita intuição, tornou-se em mais de duas décadas —de 1974 a 1998— um dos maiores nomes radiofônicos da região. Comprava horários nas emissoras de diversas cidades do entorno de São João da Boa Vista e viajava por elas apresentando o seu lendário programa “Dez Discos para Milhões”. 

Persuasivo, irreverente, ousado, criativo, a melhor forma de entender a personalidade Jota Amaral é navegar pelas muitas histórias em que ele foi o protagonista. 

Susto
Comunicador nato, seguro do seu carisma e com uma enorme capacidade de improviso, Jota Amaral era mestre em ligar para números de telefone aleatórios e entabular longas conversas com quem atendesse.

Normalmente, o “sorteado” do outro lado da linha gostava da surpresa e o papo sobre os mais diversos assuntos engrenava. No ar!

Raras vezes, a receptividade não era aquela esperada pelo icônico radialista:

—Alô.

—Boa tarde, aqui quem fala é o Jota Amaral.

A voz feminina de alguém que não estava nos seus melhores dias, devolveu seco:

—Grande bosta!

Presente
Na época do sucesso estrondoso da novela Pantanal, na finada TV Manchete, Jota Amaral conseguiu a proeza de entrevistar o autor do folhetim, Benedito Ruy Barbosa.
No fim do bate-papo, o dramaturgo fez questão de agradecer ao Jota pelo presente recebido no estúdio: mudas de ipê de várias cores. Rosa, branca, amarela, roxa. Disse que as floradas multicromáticas ficariam lindas na entrada do seu sítio.
Desconfiados, os sonoplastas perguntaram ao Jota sobre o mimo das árvores coloridas. O vozeirão, galhofeiro, confessou:

—Bregojelo (assim ele apelidava todo mundo), na verdade as mudas são todas de ipê amarelo. Quando elas crescerem eu não estarei mais aqui. Lá no jardim do Papai do Céu ninguém vai me cobrar pela falta das outras cores.

Fariseu
O ano era 1991, a emissora de rádio era a Piratininga de São João da Boa Vista e Jota convidara para ser entrevistado no programa “Dez Discos para Milhões” o recém-ordenado bispo da diocese, Dom Dadeus Grings.

Na hora marcada, se aboleta na porta do estúdio a autoridade eclesiástica. Dom Dadeus estava escoltado pelo conhecidíssimo cônego Luís Gonzaga Bergonzini, o Padre Luisinho.

Jota, que tinha tanta espontaneidade quanto dificuldade para memorizar nomes, chamou-o ao microfone num verbo nada cristão:

—Ô fariseu, entra aí!

Preciso acreditar...
Jota era vezeiro em declamar longas poesias no seu programa.

“Preciso acreditar…” era esse o mote do texto edificante, e, para harmonizar com a letra, ele pediu ao sonoplasta JB Flora uma música instrumental leve como fundo melódico.

—Preciso acreditar na evolução da humanidade, preciso acreditar na força do amor, preciso acreditar na bondade, preciso acreditar na inocência das crianças…

Enquanto ele, emocionado, interpretava o poema, o técnico de som deu uma escapadinha para ir ao banheiro. Nesse pipi-break, a trágica mudança de faixa no eclético long play: do piano meloso para um rock pesado.

Jota, contrariado, entrou no ritmo e prosseguiu irritado:

—Preciso acreditar que o sonoplasta não foi ao banheiro, preciso acreditar que ele vai voltar logo… 

Trote
Habitué do bar da velha rodoviária, Jota usava seus talentos vocais para aprontar com os passageiros da Viação Cometa que ali paravam para um lanche antes de seguir viagem. Ele usava copos grandes como uma espécie de megafone e empostava a voz na porta dos sanitários, imitando o locutor da companhia de ônibus:

—Atenção passageiros da Viação Cometa com destino a Poços de Caldas, partida em dois minutos.

Jota se divertia ao ver as pessoas saindo correndo, assustadas, erguendo desajeitadamente as calças e fechando desesperadamente as braguilhas.

sábado, 22 de outubro de 2016

Habaneras 10 - Overdose de coco

Coco. O coco de tudo que é jeito. Puro, assado, cozido, grelhado, frito, empanado. Pão de coco, refogado de coco, doce de coco. Coco é vitamina, coco é remédio, coco é afrodisíaco. Coco satisfaz, coco dá energia, coco cura.

Mais: óleo de coco, sabão de coco, shampoo de coco, desodorante de coco. Papel higiênico da fibra do coco. Água de coco.

Quem lembra do Bubba falando de camarão para o Forrest Gump? Igual.

Numa tarde em Habana Vieja, um aguaceiro dos céus nos obriga a parar numa cafeteria. Chovia o mundo!

O simples senhor cubano, levando no ombro dezenas de bolas douradas numa fôrma, também se recolheu no recinto.

Puxei prosa para passar o tempo e para matar minha curiosidade sobre o que ele vendia. Os atraentes e brilhantes doces eram balas de coco do tamanho de uma bola de beisebol. 

Apóstolo do coco, o mascate rezou a oração das 1001 utilidades coqueiras do primeiro parágrafo. Ele e o coco: muito amor envolvido!

Preciso dizer que fiquei com vontade de provar a bala gigante? 1 CUC foi ligeiramente desembolsado.

Na primeira mordida, a casca crocante, tipo maçã-do-amor, se mistura com o coco ralado do recheio. Bom!

Na segunda mordida, o doce excessivo já sinaliza que vai ser um suplício comer tudo. Incômodo!

Na terceira mordida, a maçaroca fica impossível de engolir e a mastigação atinge números macrobióticos na tentativa de evitar o ardor na garganta. Tortura!

O tiozinho continua o seu fervoroso discurso pró-coco. A chuva continua torrencial. Minhas mãos meladas, aquela bola com três dentadas olhando feio pra mim e aquele retrogosto enjoativo me causam impulsos incontroláveis de arremessar aquela bala do mal para o Golfo do México. O respeito ao ambulante foi maior que meus instintos assassinos.

Segurei a bala-bola, por eternos minutos, até a estiada. Na rua, logo depois, o cesto de lixo viu este Michael Jordan gordo e branquelo cravar a sua mais vigorosa e doce enterrada.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Coxinha de brigadeiro


Mais um empreendedor talentoso que consegue projetar o seu nome no mundo através das mídias sociais.

325.000 seguidores no Instagram que curtem o incrível trabalho dele com o chocolate. No Facebook e no YouTube o frisson chocolateiro também viraliza.

Este triunfo internético ocorre pelo furor quase religioso que o chocolate desperta e pelo apelo visual das taças e doçuras nas belas fotos da timeline @chefekadubarros.

O chef pâtissier Kadu Barros, de Vargem Grande do Sul, SP, tem na origem de sua trajetória de sucesso uma sacada que une duas originais paixões brasileiras: a coxinha de brigadeiro.

Na sua cidade natal, a Chocolateria Kadu Barros teve um êxito enorme numa loja minúscula. Chocólatras do Brasil inteiro correram ao interior de São Paulo para conhecer as gordices autorais do chef. Ele, ainda, cruza o Brasil divulgando a sua arte em cursos e workshops.

Crescendo muito, bombando na rede, Kadu viajou 20km e inaugurou ontem a Chocolateria Kadu Barros em São João da Boa Vista.

Num prédio no Mantiqueira —na Av. Durval Nicolau—, em que o interior foi totalmente remodelado ao bom gosto dele, a casa vai ser uma referência física do conceito Kadu Barros.

Chocólatras, glutões e formigões de Sanja: o Kadu chegou!


Habaneras 9 - Propaganda


Existe muita —centenas, milhares— propaganda em muros e outdoors nas calles habaneras. Como a da foto.

Frases "revolucionárias" de Fidel, de Che, do governo. Dizeres com a intenção de manter elevada a moral do povo. Enunciados com um tom de catecismo socialista. Uma coisa de lavagem cerebral mesmo, de onipresença do Estado, de mão pesada, de censura ao contraponto. Opressor!

Pior que isso só a TV. Canais estatais transmitidos com sinal ruim, dominados por noticiários anti-americanos, numa programação tosca, mal produzida, nada atraente. 

Explica-se, por isso, o sucesso assombroso das telenovelas brasileiras em Cuba. A estética consagrada dos folhetins globais hipnotiza as famílias cubanas. 

domingo, 25 de setembro de 2016

Sainte Marie Gastronomia


Impossível não se encantar com esse cara!

Um libanês que morou um bom tempo na Síria aterrissa no Brasil pra tentar ganhar a vida como jogador de futebol. As coisas não dão muito certo e ele vai ser bancário.

Bom na cozinha das suas origens, saiu do mercado financeiro e foi comandar jantares fechados nas casas dos clientes. Sucesso!

Em Sampa, num bairro distante, numa rua esquisita, num imóvel simples, ele monta uma rotisseria que logo vira um pequeno restaurante.

Aí rola essa química irresistível: o lugar inusitado, o carisma do dono, preços razoáveis, uma cozinha criativa sobre pilares clássicos, pratos saborosíssimos e esteticamente impecáveis, a força das redes sociais. Sucesso ao quadrado!

Falei do chef mais simpático do mundo: Stephan Kawijian.

Sainte Marie é a Casa dele, onde eu, emocionado, almocei semanas atrás.







quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Habaneras 8 - O povo



Depois de cinco dias em Havana, fui encerrar as férias no espetacular balneário de Varadero —seguramente uma das praias mais lindas do mundo.

Curioso e guloso, perguntei a uma garçonete do restaurante do hotel qual era a sobremesa cubana mais tradicional. 

—É o flan. Aqui no hotel tem, mas não é tão bom quanto o feito em casa.

Agradeci a informação e fui provar o flan das minhas hoteleiras possibilidades.

No café-da-manhã do dia seguinte, Rosemary, a garçonete, surpreende este roliço escriba com um mimo: um flan caseiro. 

Conto este causinho para ilustrar a minha admiração pelo povo cubano. Sofrido, oprimido, mas alegre e generoso.

Os cubanos adoram turistas, sabem receber bem, querem a todo momento saber nossa opinião sobre o país deles, gostam de ajudar, sentem prazer em agradar.

Falei com muitos em Havana e Varadero. Tem os que abertamente repudiam o regime político e sonham com uma nova vida no exterior; há os apoiadores do regime que dizem ter tudo —segurança, saúde e educação— para uma vida digna; tem, ainda, os ressabiados que preferem não se manifestar sobre política.

Em todos, um traço comum: a alegria. Suas aflições, receios, carências, desgostos, não são externados publicamente. Nas minhas andanças por aí vi muita coisa e todo tipo de gente. Poucas vezes vi uma efusividade tão cativante como a da plebe da ilha caribenha que, decididamente, não merece o governo que tem.


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Habaneras 7 - Charutos

Não há como dissociar Cuba dos charutos. Eles são um símbolo e um orgulho nacional. Também são importantíssimos para a combalida economia da ilha.

Os habanos mais desejados —e portanto mais caros— são os feitos à mão. Pelas condições climáticas e características do solo, a região de Pinar del Rio, no extremo oeste cubano, produz aquele que é considerado o melhor tabaco do mundo. 

Como quase tudo em Cuba, a indústria “charuteira” é totalmente controlada pelo governo.

Vendidos em poucos estabelecimentos oficiais, um legítimo charuto cubano de selo consagrado —Cohiba, Montecristo, Partágas, Romeo y Julieta— pode custar até R$ 100,00 a unidade.

Pelo status, pelo preço e pela grande procura pelos turistas, o habano é objeto de falsificação em larga escala. Nas ruas de Havana você é abordado o tempo todo com ofertas imperdíveis para comprar “o preferido do Fidel” ou “o favorito do Che”. Tudo fake.

Em Centro Habana, visitei a fábrica Partágas. Nas puídas e antigas instalações, centenas de tabaqueiros —ou torcedores—, ao som de música bem alta, numa quentura do cão, produzem manualmente cada um cerca de 100 charutos/dia.

O salário deste trabalhador que manufatura aproximadamente 2.200 habanos por mês equivale ao preço de venda de, acreditem!, dois charutos.


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Habaneras 6 - Hospedagem


O governo cubano autoriza a existência de alguns negócios privados. A hospedagem em domicílios é um destes serviços consentidos pela ditadura castrista.

Influenciado por testemunhos no TripAdvisor e consultas em blogs de viagem, optei por esse tipo de estadia e, ligeiro, escolhi a Casa Particular de Zoe y Victor.

A negociação via e-mail foi rápida e Victor, por 25 CUC (R$ 80,00), enviou um táxi para resgatar-me no aeroporto de Havana.

Não me arrependi da escolha da casa deste simpático casal de químicos aposentados, que fica no térreo de um prédio de 13 andares no bairro Cerro.

Não me arrependi porque a diária —33 CUC ou R$ 110,00— é bem econômica em relação a qualquer hotel razoável da capital cubana. 

Não me arrependi porque as acomodações simples oferecem tudo o que o turista precisa: dormitório com banheiro privativo, ar-condicionado e frigobar. Tudo limpo e organizado. Nenhum luxo, mas uma excepcional relação custo-benefício

O café-da-manhã servido —frutas da estação, omelete, café com leite, pão e manteiga— mantém o vivente bem alimentado até o meio da tarde.

Victor é atencioso para indicar e contraindicar aos hóspedes. Orienta sobre o câmbio, abre mapas para mostrar passeios interessantes, recomenda restaurantes, dá dicas de negociação com taxistas. Alerta para que não caiamos em ciladas —uma muito comum é a oferta de charutos falsificados nas ruas. 

Até a internet que é uma lástima em Cuba, é menos pior no lar de Zoe e Victor. A casa deles fica defronte ao Estádio LatinoAmericano de Beisebol, um dos poucos pontos de Havana que tem wifi público. Público, mas pago. Para navegar há que se comprar por 2 CUC uma tarjeta que dá direito a uma hora de conexão.

Enfim, a experiência cubana fica ainda mais rica e menos impessoal com essa hospedagem no seio de uma família nativa.


Habaneras 5 - Carniceria

Os estabelecimentos comerciais para locais na ilha são esteticamente defasados em décadas. Zero de apelo visual e manutenção.

Prateleiras vazias e nenhuma variedade de rótulos deixam as lojas com um triste aspecto monocromático.

Entrei numa padaria e vi a escassez: não se vendia nada ali além de dois tipos de pães. Um esbranquiçado tipo hambúrguer e outro que é uma bisnaguinha. Murchos e sinistros!

Vi outras tantas padarias em que a oferta cai 50%: só há UM tipo de pão.

Estupefação maior veio na visão obscena dos açougues. Carnes sem refrigeração expostas quase na rua sob um calor de 35 graus. O asseio para manusear a carne inexiste na mesa de corte, nas paredes e nas roupas dos açougueiros. O mau cheiro me dá uma certeza: Cuba é um bom lugar para se converter ao vegetarianismo.


Habaneras 4 - Tukola


Algum burocrata da ditadura castrista decidiu, em algum momento, que a ilha carecia da sua própria versão de um dos maiores símbolos do capitalismo.

Criaram a variante socialista da Coca-Cola: a Tukola. Ruim de doer!

E eles ainda têm a pachorra de vilipendiar com isso o belo drink que é a cuba libre. O horror! O horror!

Nota: sim, há Coca-Cola em Cuba. Nos bons hotéis, em alguns restaurantes não estatais e no aeroporto de Havana.

domingo, 18 de setembro de 2016

Habaneras 3 - Los coches


O táxi em Havana, ou melhor, os táxis.

Os carros mais novos de cor amarela que fazem ponto nas cercanias dos hotéis podem ser os mais seguros, mas além das corridas caras certamente são os mais sem graça.

Ladas russos e outras bugigangas motorizadas dos anos 1970/80 vindas do leste europeu também buscam turistas nas ruas. A maioria destes está em condições precárias. Circulam, ainda, graças às gambiarras.

Num deles, assustadoramente desintegrando-se, o taxista bota mais emoção na viagem dirigindo com apenas uma mão no volante. A outra, funcionando como um prendedor, supre a ausência de fechadura e mantém a porta fechada.

Bacanas mesmo são os lindos veículos americanos da década de 1950. Chevys, Pontiacs, Buicks, Plymouths, Oldsmobiles, Bel-Airs… Vários e vários, conservados/restaurados, são pura poesia rodando às margens do Malecón e entre os prédios antigos de Habana Vieja.

Numa noite de calor infernal, tomei um Bel-Air em Vedado. A delícia foi descobrir que o chofer adaptou no seu automóvel o ar-condicionado mais poderoso do planeta. Pela temperatura, um norueguês se sentiria em casa e, pela potência, o vento gelado alcança fácil o sul da Flórida.

Outra nota: gostem ou não os clientes, a música alta está em 100% dos táxis em Havana. Ouvi de hip-hop local até pop-rock norte-americano. No talo!

Habaneras 2 - Las chicas


No desembarque em Havana surpreendi-me com as diminutas saias das jovens funcionárias da imigração. Meias-calças insinuantes também compunham o look das moças que, para nossos padrões, destoam num ambiente de trabalho.

Batendo pernas nas ruas e observando o uniforme normalista-nelsonrodrigueano das estudantes cubanas compreendi o traço cultural do como vestir-se na ilha.

Garotos cubanos devem ter uma enorme capacidade de concentração nas aulas.

Habaneras 1 - O rango


Minha experiência gastronômica em Havana foi um tanto repetitiva, quase um monocardápio. Mas por uma boa causa. Uma ótima causa que responde pelo irresistível nome de LAGOSTA. Era bater o olho nas cartas, checar o preço e sucumbir à sedução. Come-se generosos e deliciosos pratos de lagosta por, no máximo, 40 reais. Em alguns restaurantes esse valor cobre o repasto de dois lauros famintos.

Num paladar** da rua Obispo, em Habana Vieja, comi a melhor: ao molho de tomate bem condimentado com pimenta e especiarias. Ela, a lagosta, simplesmente grelhada com alho é uma escolha difícil de errar na capital cubana.

Estando em Cuba, procure os paladares e, regra geral, evite os restaurantes estatais, nos quais o serviço é uma lástima e a comida inconstante.

**paladar é o típico restaurante cubano, particular, cujo nome tem origem numa telenovela da Globo. 

Para saber mais sobre os paladares clique aqui ou aqui.


segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Restaurante Escondido


Um judeu paulistano capturado pelos encantos geográficos do torrão platino-pratense. O cara é Michel Zimberknopf, ou só Michel Zimber para economizar consoantes e tornar o nome de família mais pronunciável.

Ele trabalha com desenvolvimento de sistemas e não foge de ter comprometimentos sociais na comunidade onde vive. Nos bons combates por Águas da Prata e pela Fonte Platina, Michel está sempre nas trincheiras dos aldeões de boa vontade. Ele fala, mobiliza e faz!

Restaurante Escondido é um conceito em que chefs e/ou cozinheiros diletantes abrem suas casas para grupos pequenos de comensais. Cardápios sedutores, cozinhas domésticas e ambientes informais juntam afins em torno da mesa. Ali, comer é tão importante quanto prosear e cambiar experiências.

No refúgio Bom Retiro, a acolhedora propriedade de Michel na região, ele, exímio piloto de fogão, eventualmente recebe convidados no seu Restaurante Escondido. Entusiasta da ideia, Michel também é incentivador para que outros façam o mesmo nas suas moradas.

Noite destas, tive a sorte de ser um dos frequentadores do lugar. Fui, vi, comi e adorei o conjunto da obra: pessoas, receptividade, atmosfera, natureza, minúcias e, claro, a comida.

Assessorando full-time o marido anfitrião, a esposa Valéria Manco, mulher cativante, prova que não foram só geográficos os encantos que seguraram Michel no pedaço.

O menu do encontro foi árabe —falafel, homus, couscous marroquino, arroz com macarrão rosmarinho, etc.— permeado pelos excepcionais ovinos do renomado criador sanjoanense Isaías Valim que, diga-se, foi nosso companheiro de esbórnia no evento. 

A carne de cordeiro do jantar foi uma garupa desossada, recheada com tâmaras, temperada com especiarias e assada em fogo brando por mais de quatro horas. Defumado, o cordeiro também reinou nos antepastos em suculentas peças de pernil e costela. 


Merecedora de menção: ela, linda, a sobremesa. A compota —ou kompott— de frutas é receita da mãe Zimberknopf. Damasco, tâmara, ameixa, uva-passa, mamão, abacaxi, cravo, canela, gengibre e sucos de laranja e de limão, servida harmoniosamente com sorvete de creme. 

O arremate? Licores artesanais, produção da casa, de jabuticaba e pitanga.

As fotos que ilustram este texto retratam o capricho de Michel e Valéria nos detalhes.

Sorry!, o sabor maiúsculo do repasto ainda não pode ser reproduzido por imagens.


segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Fornarii


Já rabisquei por aí sobre a essencialidade do pão em qualquer mesa, em qualquer ocasião. Também já falei sobre o quão representativo é o pão como identidade de um povo.

Sanja, como nunca antes, vai receber uma padaria que trata o seu produto com um cuidado obsessivo.

A fermentação natural, a manipulação artesanal, a excelência dos ingredientes, a mão de obra qualificadíssima... a FORNARII. Assim mesmo com duplo "i".

Em poucas semanas a FORNARII abrirá as portas na Dona Gertrudes, em poucas semanas uma generosa carta de pães será ofertada: a baguete francesa, o italiano clássico, o ciabatta, o português, o brioche, o croissant, o aromatizado com especiarias... dezenas de receitas minuciosamente executadas e aperfeiçoadas pelo chef-padeiro Fernando Oliveira.

Pão, pão, doce, doce: Simone Lemos, crepuscular tereziânica, voltou à terrinha para comandar a área de pâtisserie da FORNARII. Tortas, tartelettes, pudins, cheesecakes... Agrados açucarados que suprem magistralmente abstinências glicêmicas.

Sabe o que é o melhor? Essa perdição vai estar a uma quadra da minha casa.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Sanja & Blues


A música sempre foi essencial na vida da sanjoanense Nilda Virginia Machado Santos. 

Entre pedaladas nas veredas naturais do torrão Sanja-Prata —outro prazer que ela tinha—, sua devoção aos múltiplos ritmos rendia convites para pilotar o som em festas de amigos.

De hobby na terrinha a coisa virou profissão quando suas performances na picape foram mais aclamadas que as redondas na pizzaria campineira Piola Cambuí. Por dois anos, Nilda foi a DJ que ditou a melodia do lugar. Competência e alma no trabalho a alçaram ao posto de gerente da casa.

Uma paixão, noventa dias de namoro e o casamento. Levada por essa irreprimível batida progressiva, Sampa passou a ser a nova morada dela.

Chamada para tocar num evento internacional no hotel Pullman Ibirapuera, seu desempenho arrebatador fez com que ela fosse contratada como DJ residente. Emprestou seu talento ali por 24 meses. Nilda gravou seu nome na cena paulistana também com diversas fainas pontuais em celebrações e restaurantes. O ápice foi botar deep house para estremecer as passarelas da São Paulo Fashion Week. 

Cansado da insanidade urbana da Pauliceia, o marido quis morar na Mantiqueira das origens da mulher. Com a família ela voltou aos Crepúsculos convicta em concretizar um projeto rascunhado em suas andanças na noite.

Em setembro de 2015, Dona Gertrudes, elegante como nunca, abriu seus domínios para o revolucionário Terapia, uma mistura terapêutica de bar, música e cozinha.

Musicalmente eclético, o Terapia agrega tribos e não-tribos numa liga jovial de informalidade, cores, luzes, drinques e petiscos. Com pouquíssimo tempo de funcionamento, as múltiplas gentes que lá circulam e se divertem revelam o quão consolidado está o bar na sedutora geografia desta plaga macaúbica. Mostram, sobretudo, que o respeito à diversidade é um saudável caminho sem volta para, além de empreender e lucrar, dignificar as pessoas. 

Saúde, Nilda! Evoé, Terapia!

Baixa estatura, alta gastronomia

Este guloso escrevinhador não pode falar do Terapia sem mencionar a recente ousadia no cardápio da casa. O ambiente botequeiro moderno recebeu, três meses atrás, pratos da gastronomia clássica. O novo menu está sob a batuta de um craque: o chef autodidata Alcides “Baixinho” Ortega.

Baixinho, que criou os filhos vendendo produtos veterinários e agrícolas, conheceu o fogão em circunstâncias curiosas. Dono de restaurante nos anos 1990, o Abaporu, ele arriscava nas panelas para não deixar de servir clientes mais notívagos, que queriam comer quando o cozinheiro titular já tinha se recolhido. 

Gostou tanto da brincadeira que, inspirado nos mestres José Hugo Celidônio, Claude Troisgros e Emmanuel Bassoleil, o então aspirante a chef foi buscar aprimoramento em livros, vídeos e prática. Carismático e habilidoso, conquistou admiradores caçarolando em seletas residências do jet set crepuscular.

Noite destas, proseando solto com ele, eu esfaqueava um filé alto da sua frigideira. Encantado fiquei com a suculência rosada da carne. Muito mais do que isso: maravilhado fiquei com o entusiasmo juvenil daquele homem de inacreditáveis 70 anos.

Saúde, Baixinho! Evoé, Terapia!


sexta-feira, 1 de julho de 2016

Henrique & Ollivia


Mineiro de Poços de Caldas, Henrique Benedetti, 35, é um jovem chef que retornou ao solo natal levando riquíssima bagagem adquirida com virtuoses do ofício em Boston, Dénia (Espanha) e São Paulo. No digníssimo Ollivia a sua arte personalíssima tem uma liga genuína com produtos e com a cultura da região.

De família italiana, sua vocação começou a aflorar na infância pela influência do fogão doméstico de pastas, pães e sopas da avó paterna, dona Terezinha.

A vontade de aprender inglês e mochilar o fez aterrissar nos EUA logo após terminar o ensino médio. Henrique foi para a Flórida, onde a mãe já residia. Em Orlando, suou por um ano numa pizzaria. Ali, no calor dos fornos, teve a certeza do que abraçaria como profissão.

Inquieto, migrou para o norte. Em Boston, depois de fazer um rápido curso de barman, foi contratado para integrar a equipe de Peter Davis, o chef que comanda até hoje a cozinha do Henrietta’s Table, dentro do Charles Hotel. No trabalho com o exigente Davis assimilou a importância de valorizar ingredientes locais. A partir de então, entre queijos de cabra e cordeiros de Massachusetts, a chamada culinária de origem passou a ser um conceito de lavor almejado pelo recém-convertido Henrique Benedetti.

Quatro anos expatriado foi tempo suficiente para o renascimento de clamores afetivos pelo Brasil. Ele voltou e, antes de desembarcar em Sampa, fez escalas em Florianópolis e Campinas. Na primeira, estudou gastronomia. Na segunda, vestiu o dólmã no renomado Buffet Baracat.

O convite para estagiar no D.O.M., do genial e célebre Alex Atala, colocou o poços-caldense no centro do maior e melhor polo gastronômico do país. O extraordinário desempenho no estágio rendeu uma merecida efetivação no time do chef popstar. Rigoroso, criativo e inspirador, Atala também contribuiu consideravelmente na forja profissional dele.

Estímulos e a ânsia por novas fronteiras transportaram de novo Henrique para o outro hemisfério. Mais um estágio com mais um bambambã das panelas: Quique Dacosta, discípulo de Ferran Adrià naquela explosão de espantos e invencionices químicas que é a cozinha molecular. A temporada espanhola em Dénia, ao sul de Valência, durou seis meses. Sobre esse período, ele revela: “Nunca trabalhei tanto”.

São Paulo chamou e o regresso foi para auxiliar o não menos fora-de-série Jefinho Rueda na inauguração do Attimo, a casa de menu ítalo-caipira que o chef de São José do Rio Pardo botou para bombar no mundinho gastrô da Pauliceia.

Tanta competente e devotada coadjuvação o credenciou para o inevitável: o protagonismo sob a coifa. Nos Jardins paulistanos Henrique Benedetti pela primeira vez ostentou a insígnia de CHEF. No multiétnico Obá ele angariou holofotes da imprensa especializada transitando solto numa babel de temperos. O restaurante tinha quatro vertentes no cardápio: tailandesa, mexicana, italiana e, ufa!, brasileira.

Poços gritou forte e, após mil dias corridos no Obá, o personagem desta crônica beijou de novo a terra vulcânica da sua aldeia.

Na própria morada, na rua dos Alecrins, concebeu a Casa dos Alecrins, operando no modelo intimista de acolher vintes comensais semanais. A cozinha de origem mostrava seu vigor em sacadas assim: costela bovina no caldinho de feijão servida com serralha e canjiquinha.

Frequentador da Casa, Luciano Viti Mussolin propôs a Henrique uma parceria para remodelar o Olívia Restaurante, um espaço que ele criara em 2009 na centenária Chácara Viti para preservar o legado familiar do local, que abrigou por décadas uma vinícola.

Em abril de 2015, arejado e renovado, o Ollivia Gastronomia presenteou a urbe mineira com contemporâneos padrões da arte de cozinhar e servir.

E presenteou a região com ela própria à mesa do Ollivia: pupunha, vinho, azeite, favo de mel, feijão jalo, farinha de milho, broto de ervas, tomate, cordeiro, queijos, flores comestíveis, fava, frutas. Produtores regionais ofertando a excelência.

O acúmulo de vivência e saber por quem sai pelo mundo encontra o seu maior significado quando este caldo de experiências proporciona uma redescoberta de suas raízes.

No histórico e elegante imóvel, noite gelada de 29 de junho, o autor destas linhas teve o privilégio de se aquecer com o surpreendente menu degustação, provando um naco lindo da cozinha autoral que Henrique Benedetti faz com notável sensibilidade. Muitas exclamações!

Robalo com salada de maçãs, ao molho de salsão, iogurte, mel e laranja

Mil Folhas de Costela || ragu de costela bovina, chips de batata doce, pesto de manjericão, molho roti, molho aromático e vinagrete

Pupunha à carbonara com bife angus

Brownie: chocolate e frutas