sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Mundinho Facebook

papo de cozinha

Mídias sociais são espaços férteis para criação de lendas cibernéticas. Vez ou outra sou vítima e/ou beneficiário do personagem que brotou das atividades que perpetro na grande rede.

Por algumas fantasiosas deduções decorrentes das minhas digitais no Facebook, Instagram e afins, já fui alvo de pesadíssimas acusações.

Ser tachado de esportista foi uma das maiores barbaridades. Não obstante as múltiplas fotos que retratam um indivíduo notadamente fora dos padrões ditos saudáveis, eventuais postagens de finais de semana em que, enfiado em indumentárias fitness de cores berrantes, caminho ou pedalo em trilhas bucólicas do torrão Sanja-Prata, induzem os incautos a uma falsa visão atlética onde só há fagueiros passeios dominicais.

Publicações que narram viagens de recreio ou efemérides familiares em que sorrisos, poses e belos cenários abundam, também proporcionam divertidos ilusionismos. Família perfeita, digo sempre, só existe em publicidade de margarina. Expresso aqui toda a humanidade do meu clã para me livrar da falsa imputação de felicidade excessiva e ofensiva.

Useiro e vezeiro na produção de imagens e letras sobre os prazeres da mesa, não é raro, em razão disso, me atribuírem uma habilidade que eu definitivamente não tenho: cozinhar. Reconheço meu apreço pela pirotecnia gastronômica, mas assumo a destreza quase nula no fazer. Muito barulho pra pouca mão na massa.

Anos atrás um conhecido me convocou à sua casa. Ansioso, ele tirou do freezer um lindo pernil de cordeiro e intimou: "Sábado ele é todo seu. Me passe os ingredientes para o tempero que você vai preparar essa maravilha". Apavorado e sabedor do quão precioso era aquele tesouro ovino, é óbvio que recusei a tarefa. Recusei, mas implorei por um downgrade na patente: de cozinheiro para apenas comensal.

Dia destes, de novo, o escriba fanfarrão foi convidado para outra estripulia culinária. Fabiana Gimenes, a blondie carismática do programa Papo de Cozinha, encasquetou que eu seria o cara a pilotar o fogão na TV. Essa coisa embriagante chamada ego impediu-me de declinar o chamado.

Uma receita de fácil execução foi a primeira providência tomada pelo MasterFakeChef. Levar a esposa ao estúdio foi a segunda medida preventiva de desastres.

Uma gafe ou uma trapalhada cinematográfica, resignado com o inevitável eu já estava, seria um bom mote de humor para a crônica da semana.

A coisa, surpresa!, rolou legal. Uma produção redondinha, uma direção paciente e uma apresentação descontraída. A Globo!

O êxito na empreitada televisiva, pensando bem, foi muito danoso. Roubou-me o gancho de gracejo para o texto. Obrigou-me a lavrar aquelas divagações sociológicas de almanaque nos primeiros parágrafos. E, por fim, contribuiu para pincelar com tintas definitivas o quadro deste embusteiro das comunidades virtuais.

Nasce o mito! Morre o mito!

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Greve

GREVE

Economia ladeira abaixo. Crise política cada vez mais agravada pelos dramáticos desdobramentos no Legislativo e no Executivo. A nação se arrastando, por tudo isso e pela leseira que nos causa essas temperaturas diabólicas. Greves, protestos, motins e revoltas pipocam em todos os segmentos relevantes do país. O conhecimento da realidade obriga o cidadão a fazer um pequeno tour informativo por aí. Ouçamos atentamente algumas vozes do descontentamento.


Maçarico
Esse tal de leitão é muito arrogante. O suíno é gostoso, mas é muito marrento. Vá lá que a carne dele seja saborosa. E é. No entanto, caramba!, não custaria nada ele dividir os holofotes à mesa e me dar os créditos crocantes da pele. Só volto a prestar o fogoso acabamento pururucante depois do devido reconhecimento público do meu valor.


Borbulha
Sem graça e sem atrativo nenhum. Sem sal e sem açúcar. Ela só ganha um gingado quando eu entro com meus dotes efervescentes. A "patente" gasosa é por minha causa. Ingrato líquido H2O! Só retorno à garrafa se receber a merecida condecoração borbulhante.


Queijo
Sou o contraste pungente à melosidade excessiva da Julieta. Com meu branco láctico, trago também equilíbrio cromático à nossa dupla. Nada quero além do meu papel. Não sou estrela, mas também não aceito ser coadjuvante. Estou no mesmo nível dela e é assim que quero ser apresentado. Goiabada, a partir de agora, somente ao meu lado. Em cima, jamais. Estarei fora do prato se ela exigir o protagonismo.


Azeitona
Quem confere autenticidade a uma receita de empada? [gritando] Sou eu, porra! No boteco ou no buffet grã-fino, ela só impõe respeito se me tem no recheio. Juro que não comparecerei à próxima fornada se o mérito azeitonístico não for cantado em prosa e verso. Empadinhas, cansei!


Manteiga
Percebo o atrevimento de requeijões e geleias rodando bolsinhas por aí. Sei que o francês é volúvel e sucumbe ao desejo do miolo. Foda! Vou deixar bem claro que a virtude da untuosidade é minha. A gorda cremosidade que umidifica baguetes e afins é a razão d'eu existir. Me terás deliciosa no café da manhã se me for dada a exclusividade lubrificante das bengalas. E não peço perdão pelo duplo sentido, pois muito me orgulho das minhas outras utilidades. Aquele filme do Marlon Brando prova que não minto ao falar desta amanteigada versatilidade.


Couve
Não quero mais estar escondida no "completa" da feijoada. Ou melhor, não queremos. Vou pra essa briga com o apoio dos meus companheiros também ignorados: vinagrete, farofa e laranja. Sabemos do nosso status acessório. Respeitamos essa classificação, mas recusamos com veemência o limbo da não menção. Aceitamos o abrigo numa tipologia menor, mas exigimos nossa nominação expressa em cardápios, lousas, letreiros, etc.


Pizza
Cariocada herege! Malemolência desgraçada a desse povo. Minhas napolitanas origens são reiteradamente vilipendiadas por essa turba praiana que me consome submersa em ketchup. Puta mau gosto! Azeite, sim, sempre. Só ele. Não serei mais assada no Rio se não houver pena de morte pra quem ousar me esfregar naquela assustadora pasta atomatada.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Ray-Ban e chinelos

natureza

Estacionei o carro na lateral da estradinha de terra. Dali em diante, só caminhando. Fui...

A trilha até a cachoeira pode ser vencida com pouco esforço em míseros setenta passos. O terreno relativamente limpo, sem obstáculos, deixa mais agradável a vereda em seu suave declive. Aquela imensidão verde para no limite da estreita faixa onde os urbanoides circulam.

Nestes dias de temperaturas desérticas, o corredor descrito transporta o vivente da secura infernal para um recanto de água abundante, fresca e limpa. Banhos ali são mais do que refrescantes, são restauradores de civilidade. O mergulho na piscina natural resgata uma dignidade quase destruída pelo calor que não é de Deus.

Bicho do asfalto e gorducho, desço vagarosamente ao paraíso. Ressabiado com o cenário off-cidade, sou precavido para que peçonhas não estraguem o meu recreio. Observo muito e, perdão cachorrada, farejo idem.

PQP!!!! Tem veneno no pedaço!!!!

Um veneno com a substância letal da morenice brasuca.

No deck rochoso, uma beldade esculpida em harmônicas sinuosidades relaxa sem qualquer material têxtil ou sintético a cobrir-lhe as vergonhas. Seu traje se resume a um par de Havaianas num extremo e óculos ao estilo Jackie Kennedy no outro. Fones nos ouvidos e um geme-geme ritmado entregam que ela escuta Marisa Monte.

A pose de estátua erótica também se quebra com os lentos movimentos que a acomodam numa posição mais confortável. Lagartear ao léu é preciso...

Respeitoso com o repouso alheio, me abstive da aproximação que poderia provocar um afoito gesto para esconder pele e pelos.

Admirador da natureza bruta, camuflei-me nos arbustos como um paciente fotógrafo da National Geographic.

Buscador incansável da paz conjugal, foquei a câmera do meu iPhone na direção de paisagens menos insinuantes.

Faminto insaciável, depois de sessenta minutos plantado, abandonei a posição de voyeur para devorar um curau no bosque da Prata.

Entusiasta de gente bem resolvida, aplaudo a socialite sanjoanense que renunciou temporariamente ao universo do jet set crepuscular para, numa quinta-feira de primavera, se desnudar sozinha e despreocupada num torrão recôndito da floresta platino-pratense.

A mata densa, o canto das aves, o ruído da vigorosa catarata, a formiga operária, o milho verde e a moça nua se espreguiçando na pedra. Biodiversidade, eu curto!

jackie k

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Tabus e alicates

FERRAMENTAS
Charles Darwin, se vivo fosse, teria na figura deste roliço escriba uma prova cabal do acerto de suas conclusões evolucionistas.

Nenhuma vanglória, zero de autolouvações, tampouco jactâncias, caríssimos leitores. A constatação de um notável progresso pessoal não exclui o mea-culpa do quão retardado foi esse avanço. Um darwinismo terceiro-mundista, digamos. Um saltinho demorado, convenhamos.

Faz parte da cartilha de conquistas do homo medius alguns itens essenciais: diploma, família, casa, carro, emprego estável, conta no banco, cachorro, pijama de bolinhas, perfil no Facebook e uma caixa de ferramentas.

Atenho-me a esta última e importante menção: a fundamentalíssima caixa de ferramentas. Inatacável é o provedor do lar que tem na garagem um providencial estojo de apetrechos reparadores.

Cumpridor dos deveres de cidadão, temente a Deus, pagador de impostos, zeloso com a prole e marido fiel, são todos atributos desejáveis no homem de bem. Mas de nada adianta esse cesto de virtudes se o varão não for o legítimo possuidor de uma conveniente caixa de ferramentas.

Florear o verbo, repetir conceitos, abusar de sinônimos e arabescos do idioma, carecer de objetividade. São pedaladas marotas —vide parágrafos acima— que o cronista lança mão para encher linguiça, mas são também recursos retóricos para sublinhar momentos ímpares. E este descarado escrevinhador foi protagonista de uma vitória singular no comecinho da semana. Conto-lhes...

Cuidadoso com a integridade física da minha atlética esposa, arvorei-me naqueles magazines xinglings que invadiram a Adhemar de Barros para adquirir equipamentos de proteção para ciclistas.

Num daqueles corredores da Pequim de bugigangas, fui tomado por um devastador sentimento de omissão ao deparar com objetos que deveriam fazer parte da minha vida há mais de vinte e cinco anos —a maioridade dos dezoito seria uma idade razoável para esse batismo de civilidade e prudência. Alicates, martelos, chaves de fenda, aquele arsenal metálico pendurado imputava graves acusações ao paroquiano autor destas linhas: ele nunca teve colhões para ter a própria caixa de ferramentas.

Inimigo de trabalhos que exijam um mínimo de destreza manual, fui arrastado por mais de quarto de século através da generosidade da vizinhança que sempre me acudiu nas horas críticas. O sopro de ar vinha na forma de uma salvadora chave Philips.

Ali, naquela alameda de comércio popular, sitiado por conflitos internos e dramas de consciência, acabei com um tabu existencial, libertei-me de um opressor paradigma de comportamento e, aliviado, comprei a minha primeira e redentora caixa de ferramentas.

Preparado estou ante a imprevisibilidade traiçoeira dos acidentes domésticos.

Ainda sem motivos para o uso inaugural —confesso até um certo receio pela chegada do instante crucial—, ela, a bem fornida caixa, numa prontidão diligente, repousa entre os meus guardados proporcionando uma sensação de segurança jamais sentida nos meus combalidos quinhentos e quarenta meses neste mundo. Alcancei, orgulhoso do feito, o patamar da dignidade entre os meus.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Botecando

radios

Quentura do cão pra não ver a rua nesta noite de primavera nascendo. Sair de casa é um eufemismo maroto pra comer e beber. Bora lá, véio!

Tem #SãoJoãoDaBoaMesa rolando. Tem boa cena de rango nas perifas de Sanja. Tem sanduba do melhor no circuito off-mauricinho. Há vida interessante muito além do mundinho Dona Gertrudes-Mantiqueira.

Paraki Lanchonete é o lugar eleito por este boquirroto glutão. Ali no Jardim Industrial, bordeando com o Durval Nicolau, de um lado, e com o Recanto do Jaguari, de outro.

Bar e/ou lancheteria que quer respeito cá no torrão da Beloca tem que botar bauru de lombo no cardápio. Não sabe fazer bauru? Ok, sem problema, sua praia é outra. Que tal abrir uma sorveteria?

Luiz Carlos Missassi Rivera, o Paraki Boss —ou Luizinho do Durva—, é digno de reverência por servir no seu estabelecimento o acepipe ícone das chapas crepusculares. Recebe, também, admiração pela ousadia nas releituras do sanduba. O bauru de lombo abre o pão para visitas inusitadas em conserva: abobrinha ou berinjela.

Bauru de lombo com abobrinha?! Yes, man, so good!
Berinja também na área? Of course, brother!

Ele ainda tem a pachorra de deixar nas mesas o clássico molho norte-americano de pimenta caiena: Frank’s Red Hot.

E pra acompanhar? Paredes revestidas com antiguidades. Quinquilharias nas prateleiras jogando charme aos comensais. Câmeras, eletrodomésticos, telefones, bugigangas e muitos, muuuitos —e lindos— robustos rádios de antanho.

Digno bauru, cerveja trincando, atendimento casual, objetos de valor histórico e de lambuja a skyline do centro da cidade.

Vou chamar de novo, vou intimar: bora lá, véio!

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Estrambólicas

ovo cozido

Glória ouviu que praticar sexo por seis anos, dois meses, três dias, oito horas e quarenta e sete minutos, produz o calor necessário para cozinhar um ovo. Glória gosta de sexo e ovo cozido, mas, faminta e cansada, ela preferiu usar o velho fogão mesmo.
***
    Waltrudes afirma que o cérebro humano tem a mesma consistência que o tofu. Pessimista, ele tem certeza que, em alguns, o conteúdo também é igual.
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    Ademir descobriu que um raio contém energia suficiente para fatiar cento e vinte mil cenouras. Ele não gosta de cenouras e acha que quem as come muito fica com uma cara alaranjada. Ademir já padeceu de hepatite e tem trauma de amarelão na bochecha.
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    Fabíola leu que as mulheres gastam, em média, duzentos e doze dias de vida depilando as axilas. Ela não se importa com isso, mas muito se chateia com a conclusão de que torra o mesmo tempo raspando o buço. Fabíola não quis responder se descende de portugueses.
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    Eduardo sabe que marsúpio é o nome daquela bolsa abdominal da mamãe canguru. Ele desconfia que a Louis Vuitton da vizinha do terceiro andar é usada para traficar recém-nascidos, sendo, portanto, um marsúpio do demônio.
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    Aline pesquisou que sete pulôveres poderiam ser confeccionados com os pelos do corpo do Tony Ramos. Ela adora novela, suéteres coloridos e só compra carne Friboi. Aline é dona de uma malharia em Jacutinga.
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    Padre Altair diz que o fruto bíblico proibido não é a maçã. Ele já foi missionário no sertão da Paraíba e conta que viu muito casamento desfeito por causa da graviola. Padre Altair quase pendurou a batina quando experimentou graviola.
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    Giuseppe foi informado que em São Paulo são consumidos diariamente cem hectares de pizza. Ele é fã do Luís Fernando Veríssimo e concorda com o escritor ao tachar a pizza como “uma contravenção culinária”. Giuseppe pensa que hectare combina mais com capim.
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    Ricardo nunca conseguiu lamber o próprio cotovelo. Ele é movido por desafios e matriculou-se numa escola de circo. Há dois anos cursando, Ricardo já pilota no globo da morte e faz incríveis acrobacias, mas, por enquanto, só encosta a língua nos lábios da gostosa bailarina espanhola.
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    Amir aprendeu que os chimpanzés do norte do Congo são canhotos. Ele também é canhoto. Amir está juntando dinheiro para viajar ao Congo, mas ainda não tem a mínima ideia do que vai fazer lá.
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    Tereza dá como certo que cronistas gorduchos sofrem de parvoíce aguda. Ela nunca conheceu um que fosse mentalmente equilibrado. Tereza é piedosa com insanidades alheias.
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    O cronista gorducho encontrou um propósito para sua insignificante existência: lamber o próprio cotovelo no norte do Congo.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Disposições

“(...)Joaquim Levy, ministro da Fazenda, diz ter ‘certeza de que todo mundo está disposto’ a pagar ‘um pouquinho de imposto para o Brasil ser reconhecido como um país forte’.(...)”

Acabei de ler a notícia acima num sítio jornalístico. Fiquei estupefato e curioso. E disposto.

Homem culto, preparado, Levy é o cara que também entende das profundezas da alma do cidadão. Humanas disposições, penso eu, não são estados de espírito tão óbvios.

A declaração ministerial tirou-me da sonolência patológica e, cheio de disposição —a foto não me deixa mentir—, saí a pesquisar algumas inclinações surpreendentes do bicho homem.

Compartilho o resultado dessa busca com o leitorado.
   
    ++ Pela sustentabilidade do planeta, todo mundo está disposto a renunciar ao uso das abomináveis geladeiras. A carne será conservada numa lata de banha, legumes e frutas só serão consumidos frescos e bebidas sorvidas apenas na temperatura ambiente.

    ++ Pela preservação da harmonia conjugal, as esposas estão dispostas a abdicar de alguns valores demasiadamente femininos: 1) toalha molhada poderá repousar sobre a cama; 2) DRs não mais ocorrerão no horário do futebol na TV; 3) lugar de roupa suja será no chão do banheiro; 4) dor de cabeça não poderá ser usada como desculpa para nada.

    ++ Pela saúde, pela necessária dieta e pela alegria das mulheres, os homens estão dispostos a abrir mão de alguns prazeres mundanos: fora picanha e cerveja, viva o peito de frango com suco detox; futebol domingueiro 0 x 10 almoço na casa da sogra; passear entre as araras da C&A, da Renner, da Marisa e da Riachuelo, ufa!, será um ótimo entretenimento para as tardes de sábado.

    ++ Pelo respeito aos cofres públicos, políticos estão dispostos a recusar salários, verbas de representação, carro oficial e boquinhas para familiares.

    ++ Pelo sacrifício pessoal, mineiros estão dispostos a abolir o consumo de queijo. “Uai” e “trem” dizimados do vocabulário é outra disposição inesperada dos habitantes das Gerais.

    ++ Pela integridade dos canais de saída, baianos estão dispostos a banir o consumo de pimenta na Boa Terra.

    ++ Para corroborar as exóticas disposições mencionadas, o autor destas linhas irá mergulhar no regime “trio sabor”: soja, rúcula e gelo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Aylan

aylan

Tênis, bermuda azul-marinho e camiseta vermelha vestiam o corpinho de três anos de Aylan Kurdi, o garoto sírio cuja foto correu o mundo esta semana mostrando-o morto numa praia turca.

Aylan acompanhava sua família que, como tantas outras, buscava desesperadamente uma acolhida do Ocidente para fugir do regime de miséria, opressão e terror que castiga há muito a Síria.

O cadáver da criança refugiada, uma imagem tão triste quanto chocante, é uma das coisas que nos faz crer nos descaminhos irreversíveis da humanidade. É fato, nós erramos.

Lamentos sinceros povoaram as redes sociais. Alguns, ante o impacto do retrato, preferiram contestar a pertinência de publicá-lo.

Publicar e compartilhar, sim.

Que o simbolismo agressivo da imagem chacoalhe a opinião pública europeia. Que ela acorde definitivamente para a questão e pressione os governantes. Que estes pensem nada em cifrões e só no viés humanitário. Que eles sejam sensíveis aos gritos de socorro dos desterrados.

Bandeiras fortes como a foto de Aylan, sim, têm o poder de mudar o curso da história. Vide a foto de 1972 daquela menininha vietnamita correndo nua após um bombardeio na sua aldeia.

Os Kurdi, Aylan, a mãe Rihan e o irmão Galib, tombaram em fuga.

Fuga da guerra, fuga do estampido impiedoso de fuzis e canhões, fuga das privações das necessidades mais básicas, fuga do medo da mão pesada da ditadura.

A consciência planetária pesa como nunca. Fomos incapazes de segurá-lo.
Fomos incapazes de acolhê-lo. Fomos incapazes de proporcionar a ele uma sobrevivência digna. Fomos incapazes de lhe dar a expectativa de um futuro menos cinza.

Rabisco estas linhas revendo dolorosamente a foto a cada parágrafo. Minha dor é nada perto da realidade das hordas de Aylans que perecem por aí, no mar, na escuridão e na falta de horizonte.

Naquela areia quente em Bodrum, de bruços e sem vida, Aylan Kurdi nos mostrou de forma dura e inequívoca que um pouco do mundo, também prostrado e de bruços, morreu ali. Levaremos para sempre o calor incômodo da areia nas nossas caras.

Abdullah, o pai, único da família a sobreviver ao naufrágio, não se perdoava: “Meus filhos escorregaram das minhas mãos”.

Escorregaram, sim, Abdullah. Das mãos débeis e sujas do mundo.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Carioca Café

Carioca

O amigo magistrado Christian Robinson Teixeira sentencia:

—Tem novidade na Prata. Novidade na cena gastronômica. O Carioca Café oferece um cardápio de poucos e surpreendentes sandubas. Vamos lá?!

Convite de magistrado não se discute, aceita-se de pronto, sem recorrer.

Luciano e Cláudia dirigem a casa. Ela, de Aguaí. Ele, do Rio. Baixaram na estância hidromineral para ele exercer o seu ofício: luthier, o profissional que fabrica e conserta instrumentos musicais. Alaúdes e guitarras de séculos passados puxavam o seu portfólio.

Ideias projetando novos negócios sempre pululam.

Planejaram ingressar no comércio moveleiro e locaram um ponto. Ventos e planos mudam. Nada mais de mesas e cadeiras, tudo de caçarolas e temperos.

Um salto da específica manufatura de objetos sonoros que alimentam o espírito para a elaboração não menos acurada de mimos de sabor para o corpo e também para a alma.

Luciano encasquetou com uma dupla de ícones cariocas: mate gelado e bolinho de bacalhau. Abrir um café virou o propósito.

650 bolinhos foram feitos para o fim de semana da inauguração. Encalharam. Com o passar dos meses, por sugestões e inspirações, o menu foi sendo moldado.

E a coisa vai indo. O boca a boca espalha que é um lugar pequeno, simples, arrumadinho, com uma carta enxuta de inesperados e deleitosos itens. O atendimento não é dos mais ágeis, mas a simpatia faz o comensal relevar qualquer desconforto.

E lá tem...

Tem hambúrgueres artesanais de fraldinha, tostados na fachada e suculentos na essência, servidos com cebolas caramelizadas flambadas com Jack Daniel’s. Tem outras variantes inusitadas de escolta: gorgonzola e/ou shitake. Tem uma kafta da mesma família dos burgers, que cai na mesa acompanhada de molho de coalhada, salada de pepino e tomate e pão sírio quentinho.

Tem fritas com alecrim que podem ser submersas no clássico ketchup Heinz. Submersos também, em coberturas várias, tem os bacanas waffles.

Tem a mineirice no sanduíche de linguiça. Tem pedigree de boteco no sanduba de pernil defumado com vinagrete. Tem aquele acepipe que mexe com a nossa memória afetiva: bolinho de chuva. Tem um quindim que não é deste mundo. Tem o mate gelado com limão que sobreviveu mesmo depois do melancólico fim do bolinho de bacalhau.

Tem lousa e conversa ao invés do cardápio de papel.

Para remédio dos glutões incorrigíveis, o torrão pratense tem dádivas calóricas que vão muito além do tradicional milho-verde e iguarias derivadas.

Fui, gostei, indico e vou voltar. Muitas vezes.

Carioca2

quarta-feira, 22 de julho de 2015

SAL

SAL

“(…) a gente quer comida, diversão e arte (...)”.

Com as devidas desculpas pelo surrado —mas verdadeiro— som titânico, louvo em dizer aos sânjicos que estas hedonistas e humanas necessidades serão satisfeitas agorinha neste julho que caminha para o fim.

A Semana Assad, grandiosa na qualidade, já cimentada no calendário cultural de prazeres da província, dá uma generosa carona ao SAL, um projeto de múltiplos regalos que nasceu de uma inspiração alterosa e virou realidade levado pelos bons ventos da Mantiqueira.

A brisa da serra é uma licença poética que, reconheço, não faz jus ao trabalho organizado e aguerrido de quem deu jeito e cara à coisa.

Como em tudo que inova, há aquele roteirinho típico: alguém que se apaixona por uma ideia, outros que a compram e embarcam na viagem, tem aqueles que não embarcam e juram que o navio vai afundar, tem o capital que ajuda a bancar o sonho, tem as benfazejas gentes que emprestam suas competências sem nem saber ao certo o retorno disso.

O entusiasmo contaminou, a orquestra afinou, o molho apurou e o SAL taí, prontinho pra rolar bem no coração deste torrão de majestosos crepúsculos. Prontinho pra fluir entre foodies e arteiros, povo que pratica de ofício ou de ocasião.

A concepção SALeira quer botar São João no centro de uma torrente de panelas, aromas, notas, timbres e encantamentos visuais. Tudo simultâneo, uma dúzia de horas na mesma barafunda de alho, MPB, aquarelas e polaroides, em qualquer ordem, sem qualquer ordem. E, acreditem, o negócio vai ter muita ordem.

Sábado, 25, ali na Marechal Deodoro, ao lado do gabinete do homem.

++Walgra com risoto e café espresso

++Luciana Guimarães com taco e brigadeiro

++Jazz com pizza

++Cerveja com escultura

++Maracatu com sushi

++São João com tempero e com muito pra fazer

++Sabor com Arte e com Lazer

Você tem fome de quê? Você tem sede de quê?

foodie

sábado, 18 de julho de 2015

Acrobacias

 Acrobacia

—Foi bom pra você?

—Hmmm, bem, te achei meio crua.

—Crua, por que crua?

—Um pouco fora do ponto, eu quis dizer.

—Explique-se, não entendi…

—Deixa pra lá, bobagem...

—De jeito nenhum... quero ouvir...

—O seu mecanismo corporal carece de jogo de cintura, ginga, entende?

—Não, seja objetivo.

—O ato exige algumas acrobacias pra ser pleno, uma performance mais elástica, flexível...

—Você me recomendaria uma escola de circo? Frequentar sua alcova requer destreza, habilidades especiais?

—Relevo sua ironia, mas na essência é isso mesmo. Algumas piruetas só podem fazer bem.

—Piruetas?! Acho então que cabe um ensaio, uma coreografia, uma música dançante, um jogo de luzes, plateia, juízes...

—Exageros podem ser bem apimentados, entende?

—Onde você quer chegar com isso?

—Vou confessar: seus traços eslavos, seu cabelo liso, sua cara de menina, tudo isso me lembra a Nádia.

—Nádia?! A exibida do quarenta e dois? Ou é aquela oferecida do RH? Ou é a namoradinha de infância de Botucatu?

—Ela é romena. Nadia, sem acento, Comaneci. Nadia Comaneci, a ginasta que assombrou o mundo nos Jogos Olímpicos de Montreal em 1976.

—Ginasta?! Suas taras são atléticas? Se olhe no espelho, tome juízo, gordo abusado, roliço sem noção, obeso marrento...

—Robusto, sim, mas com muito fôlego e agilidade. Posso listar minhas sessenta e nove virtudes físicas. Meia nove! Esse número te diz alguma coisa? [Empolgado] Você vai atrás da medalha? Vamos nos ver no pódio? Posso reforçar a estrutura do leito? Quer ver meu duplo twist carpado? Vamos ouvir Carruagens de Fogo?

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Spaço

IMG_1767
São João+comida boa+Tereziano Valim.

Há quase 11 anos, incansável, o Spaço consegue combinar com muita competência esse trio de deleites.

O tempo passa e mudanças são inevitáveis. Arejar é preciso. Melhorar é necessário. Agradar é essencial.

E aquele bufê consagrado que oferece de segunda a segunda um dos melhores almoços da província? É time vencedor e não muda. Aprimora. Ninguém vai ficar órfão daquelas delícias árabes às sextas-feiras.

E aquela quinta-feira de pizzas em sequência, uma atrás da outra, uma melhor que a outra? Ela volta. Volta com as clássicas margherita, calabresa e portuguesa e, entre outras tantas, com a surpreendente camarão com alho-poró. E a redonda premiada de abacaxi caramelado com sorvete de creme? Soberana, claro, ela também volta.

Muriel Filho, que já tem uma biografia respeitável no universo foodie da cidade, vai ter a companhia das empreendedoras Cláudia Adib e Fernanda Moro nesta nova fase do Spaço.

Cláudia é comerciante nata, extrovertida, que respira desde sempre a paixão da família libanesa pela gastronomia. Fernanda quer sair da Pauliceia e, com paixões —leia-se Muriel— fincadas no pé da Mantiqueira, projeta no restaurante o seu passaporte para viver no interior.

Nesta nova etapa, salve!, o menu à la carte das noites de sextas e sábados será reavivado. Um cardápio que contempla com harmonia pastas, carnes, peixes e frango em receitas autenticadas por quem conhece e aprecia a arte do fogão. Um dos itens da carta: filé ao molho de mostarda Dijon com farofa de pão e trio de cogumelos. Outro item? Não conto.

Extra-menu, a “sugestão do chef” vai oferecer a inspiração semanal do Muriel, onde eu espero ver muito cordeiro. [e que ninguém nos ouça: o cordeiro da foto foi honrosamente apreciado pelo autor destas linhas]

Sobremesa, formigões? Crème brûlée, petit gâteau e creme de papaya. O mais do que bom, tradicional, sem invenções.

Vinhos, seguidores de Bacco? Vinte opções que abarcam variedade, qualidade e que não necessariamente agridem os bolsos daqueles que não querem sair dos dois dígitos. Quer extrapolar um tiquito? Montes Alpha e Chandon Brut estão lá pra isso.

E a Dona Salma? Num merecido descanso da lida cotidiana, ela deixou sua marca de excelência gravada em todos os detalhes da casa. Um legado que os que assumem, por respeito e pelos negócios, têm que preservar.

São João+comida boa+Tereziano Valim=Spaço. Nunca é excessivo ressaltar a precisão desta aritmética de prazeres.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Vana & Barack

Vana & Barack

—Grande isso aqui, Barack...

—Sim, Vana. Posso dizer que eu moro bem.

—Tem muito mais jeitão de casa que o Alvorada. Lá não tenho aconchego nenhum. A arquitetura do Oscar é boa pra turista e estudante. Pra quem trabalha ou vive nas obras dele, a funcionalidade e o conforto são zero.

—Vem ver a cozinha, super bem equipada. Olha aquela coifa ali, foi desenvolvida pela NASA. Tem um exaustor embutido que suga toda a gordura do ambiente em milésimos de segundo. A Michelle adora.

—Que beleza! Deve ser um espetáculo fritar mandioca aqui...

—What?

—Deixa pra lá... mandioca é uma coisa muito complexa pra ianque entender.

—Então, Vana, sei que a coisa já esfriou, mas não posso deixar de me desculpar pessoalmente pelo lance da espionagem. Sorry! Foi mal mesmo.

—Olha, Barack, quando descobri a arapongagem, confesso que fiquei muito puta da vida. Surtei no dia ao saber que você sabia do meu vício em comer jambo com cerveja preta. Mas depois, de verdade, acho que aquilo foi muito bom.

—Sério, Vana, por quê?

—Na época, os urubus da oposição e da imprensa golpista estavam me aporrinhando com bobagens que estavam drenando minhas forças. Os grampos ajudaram a desviar o foco da política interna.

—Vocês têm Republicanos lá também?

—Acho que o mal é o mesmo, mas no Brasil esse mal tem o nome de tucano. Republitucanos! [ela cai na gargalhada].

—Você é muito boa com trocadilhos.

—Sem falsa modéstia: sou. Mas não vim à Casa Branca pra falar dos meus múltiplos dons. Você sabe que os meus companheiros de partido têm enorme afeição pela ilha do Fidel. Como estão as coisas lá?

—Fácil, fácil... estamos indo devagar pra deixar os velhinhos saírem com dignidade, pra botar um verniz de que eles ainda têm fibra pra negociar.

—E não têm?

—Nada. O país está sucateado, a população passa por tantas privações que uma brisa democrática que leve alguns bens de consumo derruba todo mundo lá. E, convenhamos, não precisa nada muito vigoroso pra tombar os Castro brothers.

—Barack, vou mudar o rumo da prosa pra lhe fazer dois pedidos. I have two dreams. Quero tirar uma selfie com você no Salão Oval. Também quero fritar mandioca na sua cozinha. Aliás, quero saudar a mandioca na sua cozinha. Podemos fazer isso?

—Yes, we can!

domingo, 21 de junho de 2015

Poético-coentro

jaca

—Cachê pra cozinhar?

—Sim.

—Mas você é chef, cobre pelos pratos, divulgue seu trabalho.

—Sou artista. Ninguém janta no meu estúdio, as pessoas interagem com a minha arte. Elas mastigam minhas divagações. Elas engolem minhas texturas. Elas são deleitadas com meu vezo poético-coentro.

—Poético-coentro?

—Uma gastronomia que versa sobre o lirismo das sobreposições harmônicas de aromas intensos e delicados.

—Você tá de brincadeira?

—Não, não brinco com isso.

—E quanto seria o seu cachê?

—Dez mil reais por seis horas. Vocês pagam os ingredientes e dois assistentes.

—Só isso?

—Não, tem mais. Também quero um fotógrafo exclusivo. Meu Instagram precisa ser alimentado com imagens assinadas e bem editadas.

—E a coisa do TNT?

—TNT Flavor Experience. É o ato número quatro da minha performance.

—Hmmm...

—O TNT Flavor Experience consiste em pequenos estampidos no salão enquanto os comensais apreciam mousse de cajá com risoto de cupuaçu e carne de bode. O cheiro de pólvora dos explosivos será anulado com spray de jatobá.

—Qual o propósito das bombinhas fedidas?

—Respeito, cara, respeito... minha obra traz embutido um conceito de impactar. As míni-dinamites transmitem a ideia de explosão de sabores. O jatobá com seu característico odor tem a proposta de incomodar.

—O cara vai pagar uma baita grana pra se sentir incomodado?

—Sim, também. Aí entra um pouco de sexualidade não convencional na experiência do espectador. O incômodo sentido é pra despertar inclinações sadomasoquistas.

—O cara sai de casa pra jantar, vai pagar uma puta bufunfa e vai querer descobrir tendências sadomasoquistas pensando num suculento filé com fritas?

—Sim, a riqueza da humana diversidade há sempre que ser contemplada em qualquer manifestação cultural.

—E o tofu? Vai ter tofu?

—Hã? Tofu?

—Nada, esquece, tofu rima com vai tomar... tofu, melhor dizendo, rima com coquetel de umbu...

#TripAdvisor

tripadvisor-logo

Uma coisa de quinta, sem pé nem cabeça, sem graça, sem gosto. A água de 500 ml por oito dinheiros valeu cada centavo por livrar o palato daquele sabor abominável. Estomazil à mão também é altamente recomendável caso o incauto, ainda assim, se aventurar por ali.

•••

De que adianta o bovino ser tratado dentro dos melhores preceitos “free range” se a morte dele foi pra servir aquela carne fora do ponto. De seca já basta minha língua quando falta o Rivotril.

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E a panna cotta de frutas vermelhas? O leite era desnatado, a fruta em compota, a gelatina genérica e o creme de leite azedo. O chef pâtisser, como reprimenda, deveria ser obrigado a comer aquilo por duas semanas consecutivas. E sem nenhuma gota d’água por perto.

•••

Maldita obsessão pelo aumento do ticket médio. A bagaça até que agrada em alguns itens do cardápio, mas aqueles putos empurrando couvert caro, licor e sobremesa é de amargar. Garçom ou vendedor de seguro?

•••

Pão de queijo por seis reais? Não, cara, não. Meu espírito perdulário ainda não chegou nesse nível. Branquelo e borrachudo, além do preço exorbitante, a coisa ofendeu Minas Gerais. Tiradentes foi enforcado em vão?

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Entrada, principal, sobremesa, duas águas. Nada de vinho. A conta apontou R$ 397,50. O casal? Não, uma pessoa. Um único infeliz. Divide o valor em três prestações? Não, sinto muito. Foda-se, ladrão! Não sinto muito, sinto raiva.

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Na Vila Madalena e atrai foodies? Decorado pelo Sig Bergamin? Ketchup de goiaba e omelete sem gema? Pão de farelo de trigo da Islândia? Caipirinha sem álcool? É fato, a humanidade não deu muito certo.

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É óbvio que o cara jamais serviria comida decente. Não dá pra confiar num cozinheiro que não goste de bucho. O cara torce o nariz pra rabada? Que fique longe de qualquer cozinha.

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—O peixe tem cheiro de peixe. Cheiro e gosto. Não gosto de peixe que tenha cheiro de peixe. Acho muito forte, agride o paladar. Peixe pra mim tem que ter notas mais suaves.

—Tipo o quê?

—Tipo peito de frango. É isso, quero peixe com retrogosto galináceo.

—Coma frango, então.

—Não, mestre, você não entendeu, eu vim aqui pra comer peixe.

Walther nas alturas

céu

—Por obséquio, poderia informar-me onde estou neste momento? Vejo em demasia coisas que imagino, mas que não entendo.

—Hã?

—Confuso demais, quanta luz aqui! Esse lance de paraíso é real? Sempre fui um puta cético com essa coisa espiritual. O cenário impressiona pela perfeição, quase surreal. A beleza é muito simétrica, ortodoxa demais para a poesia concreta, cartesiana demais pra quem veio de um mundo tão deliciosamente anárquico. E você, meu caro da espécie angelical, pode me dar explicações mais abrangentes sobre essa minha nova morada? Esse conceito estético é um bocado entediante, não?

—Moço, que mal lhe pergunte: de onde está vindo?

—Acho uma questão um tanto descabida, perdoe-me pela franqueza. A confirmar-se tudo que sabemos sobre jardins celestiais e demais concepções divinas, você, seus superiores e o Superior Maior, sabem tudo sobre mim. Minha ficha mundana deve estar fácil aí, a dois cliques da sua vontade.

—Poderia simplificar as coisas, por favor?

—Lembro-me vagamente que estava deitado em casa, acometido por uma moléstia que insistia em me tirar o bom da vida. De repente, deparo-me com esse local de traços delicados, de luz abundante, de paz insuportavelmente silenciosa, de antíteses terráqueas, de paradoxos existenciais...

—Então o senhor não sabe mesmo o que aconteceu?

—Deduzo, mas sem convicção nenhuma.

[São Pedro aparece, intervém e passa ser o porta-voz das alturas]

—Walther, Walther... eu já esperava isso de uma personalidade tão inquieta, tão instintivamente contestadora...

—Pera lá, homem de Deus, literalmente, cá nesta minha entrada ainda não quero me aprofundar em dogmas religiosos, em divagações filosóficas. Ainda, que fique bem claro, mais pra frente tem muita coisa para embalar nossos colóquios.  O que quero, por enquanto, é conhecer questiúnculas mais comezinhas da minha permanência eterna aqui.

—Por exemplo?

—Existe uma segmentação por afinidade? Sendo mais específico: cantores sertanejos, pagodeiros e escritores de autoajuda frequentarão os mesmos espaços de convivência que os meus?  No refeitório: veganos, macrobióticos e outras tribos sem tempero dividirão a mesa comigo? Conflitos de idiossincrasias, resumindo.

—Warthi, pra usar o dialeto carregado da sua aldeia, aqui há uma certa uniformidade de gostos, condutas, paisagens...

—Repito o que afirmei perguntando ao anjinho: entediante, não?

—Eu não diria assim...

—Ok, podemos florear com eufemismos: ambiente de estadia infinita padronizado por parâmetros politicamente corretos, esteticamente neutros e poeticamente nulos.

—Warthi, Warthi… [gritando para o anjo] Gabriel, chama o Rui Barbosa, o João Ubaldo, o Houaiss e o Rubem Alves pra conversar com o homem… tá duro de domar o verbo rebelde dele!


PS: texto concebido em parceria com a amiga Silvia Ferrante, com quem compartilho uma saudade imensa do literato maior Walther Castelli Júnior.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Sabores e tremores

alexandra-daddario

Fim de tarde de sexta-feira e o trabalho me manda à rua para colher negócios. O mundo fora do ambiente do ganha-pão areja, desintoxica da faina rotineira. Contato com o diferente pode ser um dos melhores nutrientes da existência. Contato com gente, também.

Por curiosidade, vício e gula, estou sempre aberto a descobrir novos sabores. Já encarei sarapatel, caldo de sururu, buchada de bode, peixes estranhos e outros bichos inusitados à mesa.

No mencionado crepúsculo da semana do primeiro parágrafo, acho que exagerei na coragem pra explorações gustativas.

Visitando o carismático cliente fabricante de incensos, ele nos diz que a resina —que na verdade é o produto em si— é comestível e que é relativamente comum a sua ingestão por alguns povos do norte da África. Falou isso e colocou à nossa frente uns "petiscos" da coisa.

O colega Guerino, mais educado e menos guloso, mastigou delicadamente uma pedrinha. O lambão aqui logo mandou três das graúdas à boca. O troço é sem gosto e quase impossível de engolir. Envergonhado para cuspir, fiquei mascando aquela goma insossa que gruda implacavelmente no vão dos dentes e, depois de alguns minutos de transpiração e luta, meu estômago recebeu aquela maçaroca triturada. Recebeu, mas não acolheu bem. Terminei a sexta e iniciei o sábado com um desconforto digestivo monumental.

Feliz ficou o Guerino que me disse em mensagem privada —agora caiu o segredo, meu amigo— que o incenso teve um efeito aromático muito agradável na fragrância dos seus flatos.

Ainda padecendo de azia pelo “aperitivo” vespertino, sob coação conjugal, o cinema foi o programa da noite. San Andreas estava em cartaz e a expectativa era de uma chacoalhante diversão. Hollywood sabe fazer melhor e a Califórnia não é merecedora da obra.

O filme não tem nada de entretenimento, não conta nenhuma história e é todo tenso no pior sentido da palavra. A fantasia é exagerada e não cola. Uma das cidades mais lindas do mundo, San Francisco, é inteira destruída enquanto o protagonista —Dwayne Johnson— tenta resolver seu combalido relacionamento conjugal. Ele pilota helicóptero, avião e lancha, mas é incapaz de transmitir qualquer emoção crível. Achei ofensivo e muito deprimente mostrar a Golden Gate destroçada num pseudo exercício de possibilidades geológicas. A maior tragédia no filme é ele próprio. 9,9 na escala "ruinchter".

Rola algo digno de deleite na película? Sim, um assombro de beleza perdido no meio de tanta patacoada: Alexandra Daddario.

Maguary de caju

comida congelada

—Comida congelada!?

—É... só tenho isso.

—Esperava algo mais... um macarrãozinho feito na hora, uma saladinha fresca, um franguinho refogado, sei lá, uma comidinha com gosto de aconchego, de after sex. Esse Escondidinho da Sadia é o ó! da culinária sem graça. E também vem muito pouco, quase nada, mal dá pra um.

—Quebra um galho...

—Pois é, quebra um galho. Pra você essa noite tem um quê de quebra-galho?

—Eu disse isso?

—Não disse, mas deu a entender. Você poderia ter pensado numa coisa mais caprichada, mais romântica.

—Não gostou da minha cueca de oncinha?

—Gostei, mas não tô falando do durante, tô falando do depois. Acho que eu merecia um pouco mais de consideração. Essa gororoba de micro-ondas serve pro dia a dia, não pra uma noite especial. Ou o que a gente teve agorinha não foi especial?

—Desencana, para de pensar bobagem. Vamos tomar alguma coisa...

—Um vinho!?

—Maguary de caju, pode ser?

—Edmilson Gustavo!, você só pode estar brincando... Maguary de caju é a puta que te pariu... nem uma bebida decente você foi capaz de providenciar?

—Quem está estragando a noite é você, com esse vocabulário ofensivo.

—Vocabulário ofensivo é o que vai acontecer daqui a pouco se você não largar a porra desse videogame e não me trouxer em trinta minutos um jantar que combine com a minha pessoa.

—E o que seria um jantar que combina com a sua pessoa?

—Quer saber, seu pão duro insensível, agora eu vou apelar. Pega o cartão de crédito porque a coisa vai engrossar pro seu bolso. Vai lá no Bento’s e me traga um badejo grelhado com amêndoas e arroz negro. Também quero um risoto de pera com gorgonzola e lombo de cordeiro com geleia de hortelã. De sobremesa, ouça bem, eu quero duas, duas sobremesas: um petit gâteau e uma banana flambada com sorvete.

—E a balança?

—Que balança, Edmilson Gustavo?

—Aquela que vai quebrar depois dessa comilança toda.

—@$%&@$%&@$%&

[Em respeito aos leitores o escriba se abstém de transcrever as palavras um tanto pesadas da transtornada moça depois da infame piadinha, também pesada, do cuca fresca Edmilson Gustavo].

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sabor foice

Bela Gil

Vistosa, sorriso fácil e simpática, Bela Gil perpetra estranhices na cozinha. Soube do trabalho dela quando bombou nas redes uma receita inusitada, muito sem graça: melancia grelhada com azeite, sal e pimenta. A moça, com essa abominável heresia, maculou a santidade da grelha.

O blogueiro Iran Giusti quis conceder o benefício da dúvida à cozinheira filha de Gilberto. Ele comprou uma robusta melança, temperou e tascou no fogo, tal como prescrito no programa do GNT. Seu veredito não foi lá muito positivo: “churrasco de melancia tem gosto de morte”. O colunista acredita na sentença do Iran e vai se abster de provar a iguaria sabor foice.

Não provei, mas, sei lá a razão, fiquei tentado a dar uma espiada nos pratos dela. Que fique bem claro a distância que nos separa: ela na TV e eu no sofá. Ela na soja e eu na panceta.

Num dos programas, Bela ensina a fazer umas tais “marmitas nutritivas” em que o ingrediente principal é, valha-me Deus, acreditem!, painço. Que eu me lembre, painço é parente do alpiste, ração de cereais pra alimentar passarinho. Um troço seco, miúdo, quebradiço, nada atraente.

Imaginem um trabalhador braçal acostumado a repor seu vigor com calóricas e homéricas marmitas. Imaginem a justa ira desse homem ao descobrir que sua refeição será uma gororoba sabor painço. Ele poderia matar e invocar legítima defesa do seu estômago. Seria indigno provê-lo com esse mousse da infelicidade.

“Os colegas vão invejar sua marmita”, disse a menina vangloriando-se da sugestão saudável. Eu, honestamente, sentiria dó.

Noutra edição, Bela se aventura a fazer um hambúrguer nada ortodoxo. Esqueça a carne e chore sem pudor: hambúrguer de feijão-preto. Nem nos piores pesadelos eu poderia imaginar o sacro nome do hambúrguer ser invocado com tamanho desrespeito.

Elias Gleizer, o ator, bonachão e bom de garfo, foi um dos convidados do programa. Ao vê-lo, lembrei de uma história que mostra seu apreço pela boa mesa. Gravando novela no Rio, Gleizer sentiu falta da pizza paulistana. Não padeceu pela vontade e, sozinho, pegou a ponte-aérea pra devorar uma redonda no Bixiga e, feliz, voltar na mesma noite.

Glutão assumido, Elias Gleizer foi obrigado a ser cobaia de um experimento natureba batizado kitchari. Gentil, ele não deu mais que três pescadas na mistura de gengibre, cominho, lentilhas e outros bichos. Aquele homem que fala de comida com alma, que é um devoto das mamas napolitanas, ali estava, murcho e educado, tentando entender por que diabos alguém jura ser feliz comendo cúrcuma, agrião e couve-flor.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eduardo & Sylvia

Comidaria

Depois de um rápido namorico adolescente, cada um tomou seu rumo na vida universitária.

Ele: Comércio Exterior e Turismo. Ela: Negócios da Moda, na conceituada Anhembi Morumbi.

Eduardo Pradella estudava uma coisa e pensava em outra. Enquanto cursava Turismo, não sossegou até ser admitido na cozinha do Casa Grande Hotel, no Guarujá. Lavar pratos não era bem o que ele queria, mas estar ali, na muvuca aromática e fascinante do mise en place à finalização, o fez definir seu norte profissional.

No mesmo litoral sul de SP, na UniMonte em Santos, diplomou-se em Gastronomia.

Canudo na mão, era hora de ralar e praticar. De ajudante de cozinha à sous(segundo) chef, perambulou, entre outros restaurantes brasucas, pelo Sofitel, Kaá, Essence Maison Degaine...

A pátria gastronômica gaulesa é o sonho de quem quer ganhar o pão sob a coifa. Eduardo, em 2013, zarpou para uma temporada no sul da França —em Molitg-les-Bains— e foi beber na fonte de Michel Guérard, chef do estrelado Château de Riell.

Sylvia Merlin, ao término da universidade, também tratou de buscar trabalho e realização. Em Sampa, na sua área de formação, laborou com criação e estilo, assessoria de imprensa e produção. Um negócio próprio era o que ela queria. Qual negócio ela não sabia.

Arriscou numa loja online de bijoux e depois numa doceria —ou doçaria como querem os ortodoxos do idioma. Erros, acertos, tombos, lições, experiência.

Eduardo voltou da França e reencontrou Sylvia. Do flerte da puberdade ainda saíam fagulhas. Mergulharam de novo numa relação, mais madura, mas não menos intensa.

Da metrópole para a província. Regressaram ao pé da Mantiqueira com convicções pessoais e necessidades profissionais. Destas convicções veio o casamento em novembro de 2013. Das necessidades, uma ideia.

A intenção se concretizou num pulo, conta Sylvia: “sem firulas, sem rodeios, direto e reto”. Aquele impulso de jovens que querem, sabem e precisam. Jovens com habilidades manuais, com veia artística, com senso estético e que cresceram na onda da revolução digital que marcou este inicio de século 21.

Nascia em Sanja a Comidaria, um baita nome legal para um conceito de delivery gastronômico. O cardápio, enxuto e ecumênico, tinha risoto, pasta, costelinha de porco, salada e fritas.

Por não receberem comensais in loco, o investimento inicial não foi tão alto. Por usarem sua própria cozinha doméstica na empreitada, a casa padeceu de um inevitável rebu.

A coisa engrenou, principalmente, pelo esmero do Eduardo na execução dos pratos. Mas, no conjunto da obra, também contribuíram para o êxito: embalagens bacanas e modernas, uma identidade visual original —um mix harmônico de clássico e hipster— e uma divulgação muito bem feita via redes sociais. Isso tudo concebido pela multimídia e superconectada Sylvia que, por isso, acrescentou talento publicitário ao seu currículo.

“Sugestão do Chef”, aquele item variável, extra-menu, que surpreende o cliente foi incorporado à proposta de serviços comideiros.

Em meados de 2014 —junho pra ser exato— ofertaram um hambúrguer homemade na “Indicação do Cozinheiro”. Os pedidos explodiram, o telefone não parava e fotos no Instagram mostravam que no torrão do bauru de lombo ainda havia espaço pra outros sandubas. No caso, um de inspiração ianque, confecção artesanal, lindo em calorias e pra lá de sedutor.

A criatura atingiu uma dimensão que botou pressão na cachola do criador. Era hora de mudar, era hora de crescer. Era e foi.

No corredor hamburgueiro da aldeia, a Avenida Oscar Pirajá Martins, um imóvel residencial foi adaptado pra acolher a Comidaria Burger.

Após pesquisar influências do ramo no circuito São Paulo-NYC-Chicago, Eduardo & Sylvia reabriram as portas neste comecinho de outono.

E reinauguraram presenteando a cidade com um lugar que é a cara deles: contemporâneo, permeado por referências, descontraído e, ao mesmo tempo, mainstream e underground, da moda e do gueto.

Nada congelado, tudo fresco. O redondo de carne definitivo —depois de várias combinações experimentais— é um blend de fraldinha e ponta de peito. 160 gramas de dignidade.

Tem o meu respeito um cara que regala os fregueses com um hambúrguer rosado por dentro, a léguas da secura. Tem o meu respeito o cara que corta uma batata asterix na faca e a serve crocante acompanhada de molho barbecue rústico. Tem o meu respeito o cara que espeta picles de pepino na cabeça do sanduíche. Tem o meu respeito o cara que traz brejas inusitadas do Pará. Tem o meu respeito o cara que amolece o brigadeiro com creme de leite e tem a pachorra de apresentá-lo na colher escoltado por uma cerveja encorpada. Tem o meu respeito...

Eduardo & Silvia voltaram pra terrinha/E vão trampar muito no verão/Nas próximas férias não vão viajar/Porque a “filhinha” do Eduardo tá na maior ferveção/E quem um dia irá dizer/Que não existe razão/Nas coisas feitas pelo coração?... (Russo, Lauro)

Go, guys, go!

Comidaria 2

Joint: dignidade absoluta, pra lá de sedutor

sábado, 18 de abril de 2015

Memórias do cárcere

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Istambul, segunda-feira, primeira manhã de viagem. Perto do hotel fica o inacreditável Grand Bazaar, no coração histórico da metrópole turca. É pra lá caminhando que nós vamos.

Os tapetes, voadores ou não, fascinam desde sempre os que botam os pés no Oriente. Nas mulheres, eternas sedentas por upgrades nos ornamentos domésticos, esse fascínio aumenta consideravelmente na Turquia, dada a magnífica oferta de capachos de todas as formas, tamanhos, preços e estampas.

E foi essa fraqueza feminina que atrasou nossa chegada ao Grand Bazaar. Explico.

Nos arredores do nosso destino, a senhora Borges insinua-se a um vendedor na rua demonstrando inequívocos desejos tapeteiros. Era a senha pra sermos conduzidos ao terceiro andar de um prédio abarrotado de alcatifas —existem poucos sinônimos para tapete, por isso me desculpo pelo horrendo “alcatifa”. Evitarei usá-lo novamente nesta crônica.

O local, um tanto mal-ventilado e sinistro, abrigava um exército de mercadores de alfombras —outro sinônimo igualmente pavoroso. Imagino que, exceto os quatro caipiras brasucas, não havia mais nenhum cliente naquela Galeria Pajé da Tabacow.

Essa escassez de compradores causou um vigoroso assédio mercantil aos únicos incautos, ali praticamente encarcerados.

A coisa foi de desnortear. Uns quinze homens misturando turco, espanhol, inglês, Ronaldo e Pelé, enaltecendo através de muitos decibéis as supostas qualidades dos tapetes que eram desenrolados aos borbotões. E dá-lhe bandejas e bandejas de tchai, a onipresente bebida turca. No auge da tensão cheguei a pensar que nas xícaras servidas haveria alguma erva causadora de efeitos perdulários a quem a ingerisse.

O escancarado espanto nosso pelos cifrõe$ cobrados pelos tapetes parecia enervar aquele batalhão de negociantes ávidos para ferir de morte o meu cartão de crédito.

Num inglês melhor que o meu —qual inglês seria pior que o meu?—, o jovem destemido Lauro Filho assume a transação e começa a falar mais grosso com a agressiva tropa de vendas.

Já antevendo um possível fracasso no ataque aos nossos bolsos, a turba fica ainda mais ensandecida com a brava resistência dos macaúbicos em plagas estrangeiras.

Aproveitando um cochilo dos sentinelas e o fogo no jovem very good english, sorrateiramente este escriba alcança a rua escorregando desesperadamente suas muitas arrobas pelas escadas do edifício.

Quando percebem que os três remanescentes acuados carecem do que os interessa —$$$$$$$—, a libertação deles foi questão de segundos. Os inimigos cessaram a artilharia quando o comandante, braço direito erguido, decretou: “No money!”

Aquele cárcere no alvorecer das férias teve três consequências: uma pedagógica, uma econômica e outra linguística.

A senhora Borges, passado o susto, ignorou solenemente qualquer tapete ou congênere nos vinte dias da nossa estada na Turquia e, por isso, minhas descontroladas finanças foram agraciadas com uma poupança de centenas de euros.

A consequência linguística? Meu inglês subiu de nível: de péssimo para ruim.

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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Nobel II

ciència

E segue a minha gloriosa catança de inventos/pesquisas que mudarão os rumos da humanidade. Leiam, anotem , compartilhem.

Doutor Len Fisher, inglês, calculou o melhor modo de molhar um biscoito. Sem trocadilhos. Hoje ele está finalizando a equação para a fabricação de bules e chaleiras que não pinguem.

O coreano Hyuk-ho Kwon criou o terno executivo auto-perfumante.

George Blonsky e Charlotte Blonsky, de Nova York, conceberam um dispositivo para ajudar mulheres durante o parto —elas são amarradas em uma mesa circular e então esta é rodada em altíssima velocidade.

Ellen Greve, australiana, escreveu Living on Light, que versa sobre a não necessidade de algumas pessoas comerem.

De uma universidade holandesa, Andre Geim mostrou como usar imãs para levitar sapos.

Lesões causadas por cocos em queda, foi o impactante estudo médico do canadense Peter Barss, da MgGill University.

O beberrão germânico Arnd Leike provou que a espuma da cerveja obedece à lei matemática do decaimento exponencial.

Eleanor Maguire, David Gadian, Ingrid Johnsrude, Catriona Good, John Ashburner, Richard Frackowiak, e Christopher Frith, da University College London, demonstraram que o cérebro dos taxistas londrinos é mais desenvolvido que o de cidadãos normais. Disso depreende-se que taxista é um ser anormal.

John Trinkaus, da Zicklin School of Business de Nova York, coletou dados e publicou mais de 80 relatórios acadêmicos sobre assuntos que o incomodavam, tais como: 1- percentagem de jovens usando bonés com aba para trás; 2- pedestres com tênis brancos; 3- pessoas que só nadam na parte rasa da piscina; 4- percentagem de motoristas de automóveis que quase, mas não completamente, param em determinada placa de "pare"; 5- percentagem de viajantes carregando maletas; 6- percentagem de clientes de supermercado que excedem o número de itens do caixa rápido; 7- e percentagem de estudantes que não gostam de couve de Bruxelas.

Steven Stack, de Detroit, foi definitivo na obra “O Efeito da Música Country no Suicídio”.

Daniel Simons, da Universidade de Illinois, revelou que mulheres vestidas de gorilas são imperceptíveis para pessoas concentradas em algo.

Do Conselho Sueco de Pesca, Hakan Westerberg decifrou a comunicação por flatulências dos arenques do Mar do Norte.

Claire Rind e Peter Simmons, da Universidade de Newcastle, Reino Unido, monitoraram a atividade cerebral de uma lagosta enquanto ela assistia a uma seleção dos melhores momentos de "Guerra nas Estrelas".

Gauri Nanda, do Massachusetts Institute of Technology, fabricou um relógio despertador que foge e se esconde para assegurar que as pessoas de fato saíam da cama.

Chico Ramon, editor deste semanário, catalogou as reações raivosas dos habitantes de Jacutinga ante as linhas torpes de cronistas ineptos.

Rodolpho Biasotto, pinhalense e engenheiro de produção, planilhou o estudo “Efeitos do Lombinho do Tonhecas no Sono de Homens Carecas Cinquentões”.

Nilsinho Heccus, cabeleireiro, registrou o libidinoso experimento que trata das consequências positivas do uso de xampu de camomila na performance sexual de funcionárias públicas.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Aí…

mídias-sociais

Aí você entra na doideira passional do debate político e começa a se manifestar num tom acima do razoável, extrapolando um pouco os limites do civilizado.

Aí você lê algo que escreveu no calor da contenda e não se reconhece ali naquelas linhas permeadas por palavras ácidas, por petardos em embalagens adjetivadas.

Aí seu oponente, acuado, na defensiva, contra-ataca com um verbo ainda mais quente. A fogueira é alimentada pela gasosa de saliva de governistas, de um lado, e do resto do Brasil, do outro lado.

Aí você para, pensa, respira, reflete...

Aí você lê, relê, trelê...

Aí você traz pra frente do teclado um caldo do que tem ouvido nas últimas semanas.

Aí você percebe que há um sentimento comum, genuíno, de indignação na esmagadora maioria das pessoas do seu convívio pessoal e profissional.

Aí você se dá conta que algumas destas pessoas, íntegras e discretas, nunca tinham se manifestado como fazem agora. Com a intensidade que fazem agora. Com a convicção que fazem agora.

Aí você vê que aqueles que se achavam os donos dos gritos de rua estão desolados pelo despejo às avessas. Da rua pra casa.

Aí você descobre que muitos dos despejados não esperneiam por ideais. São militantes pagos, grudados na máquina, vivendo da máquina, cegos pela medo de perder a boquinha. Há exceções, poucas.

Aí você capta o desespero deles na vã tentativa de tentar direcionar a indignação para alvos outros, diferentes dos que têm brotado espontaneamente.

Aí você tem a certeza que [tentativas de] orquestração contra alguns entes passíveis de críticas não tem o condão de mandar o povo à rua.

Aí você sabe que há algo estranho quando se tenta demonizar um dispositivo constitucional com a máscara fake de um feioso golpista.

Aí cai a ficha que escaramuças e conflitos, por mais acirrados que sejam, ajudam na consolidação de instituições nas nações democráticas.

Aí, viva!, você agradece pelo contraponto raivoso, pelo contraditório azedo. Até pela confrontação lúcida, ponderada.

Aí você escorrega e não resiste na menção de um bordão de auto-ajuda, mas verdadeiro: “o que vem da adversidade só reforça nossa crença”. (Augusto, Lauro).

Aí finalmente você sai destas reflexões racionais e sente vontade de mandar alguns pra aquele lugar.

Aí você come um chocolate e espera a vontade passar. Aqui não!

Aí fica mais evidente o quão as pessoas, anônimas ou não, ficam mais exaltadas —inconvenientes, até— nas timelines das redes sociais. Para o bem e para o mal.

Nobel

78431525

A despeito do pessimismo que grassa por aí, a humanidade tem motivos para se dar como salva. Leiam a boa nova que esteve nas manchetes da semana nos portais internéticos:

“Nova tecnologia evita sobra de ketchup dentro da embalagem”.

Combalida, a economia mundial vai voltar a crescer muito nos próximos meses com tão revolucionário invento.

E este derrubado escriba, apesar de tudo um otimista incorrigível, navegou nos mares virtuais para pescar outros achados fenomenais. Nossa frágil existência granjeou muitos séculos a mais.

Segue o rol da ciência para o novo mundo:

Josiah Carberry, professor, explorador eclético e buscador da verdade, desenvolveu uma pioneira pesquisa em psicocerâmica, analisando milhões de cacos de vasos quebrados.

Um quarteto nipônico de Yokohama desbravou fronteiras inóspitas do fedor e elucidou quais são os componentes químicos responsáveis pelo chulé.

A nutrição alegórica deve muito à Doutora Ivette Bassa, que conseguiu sintetizar a gelatina azul brilhante. Hoje ela trabalha muito para que vacas do Nepal produzam leite verde musgo.

Três médicos norte-americanos, misericordiosos, escreveram o tratado “Gestão Crítica do Pênis Preso no Zíper”. Projetam, em conjunto com um grupo de dentistas, um estudo sobre “Resíduos de Carne Encravados nos Vãos dos Dentes”.

Wayne Hansen mapeou e planilhou a frequência numérica e sonora dos movimentos intestinais dos soldados americanos no Golfo Pérsico.

Mestres da Universidade de Yale criaram um método que ensina pombos a identificarem pinturas de Picasso e Monet.

Hogne Sandvik, da Universidade de Bergen, na Noruega, escreveu a brilhante tese: “Efeito da Cerveja, Bacalhau, Alho e Creme Azedo no Apetite dos Pernilongos”.

Outro norueguês, este de Oslo, cravou um necessário alerta médico preventivo em “Transmissão da Gonorreia Através de uma Boneca Inflável”.

Em Massachusetts, Don Jacobson criou a mais fantástica ave decorativa do planeta: o flamingo rosa de plástico.

Cientistas suíços e japoneses conceberam em Zurique um robô que mede as ondas cerebrais de pessoas enquanto elas mascam diferentes tipos de chiclete.

A meteorologia encontrou seu máximo expoente em Bernard Vonnegut, por seu experimento “Depenagem de Galinhas Como Meio de Medir a Velocidade de Ventos e Tornados”.

Peter Fong, da Universidade da Pensilvânia, contribuiu com “Efeitos do Prozac no Humor dos Mexilhões”. Aqui cabe um parêntese local: Johnny Noronha, farmacêutico pinhalense, se inspirou na descoberta do acadêmico norte-americano e está lavrando “Efeitos do Rivotril na Personalidade do Lambari”.

Takeshi Makino, de Osaka, inventou o Spray da Infidelidade. Esposas detectam as escapulidas do marido aplicando-o nas roupas de baixo dele. A cueca fica rosa se o bandido pulou a cerca.

No Reino Unido, Charles Deeming fez um magnífico relato da sua observação homem/animal em “Hábitos de Cortesia de Avestruzes com os Humanos em Fazendas da Bretanha”.

Lauro Augusto Bittencourt Borges, bancário de São João da Boa Vista, foi definitivo na sua brochura “Como Embromar Leitores do Blog Mesclando o Nada com Coisa Nenhuma”.

sexta-feira, 13 de março de 2015

#15deMarçoDe2015

panela

Panelaços e buzinaços sacudiram a noite do último domingo em diversas localidades do país. Enquanto a inquilina do Alvorada fazia um pronunciamento débil na TV, brasileiros muitos cravaram decibéis nas latas num protesto insuflado via redes sociais. No decorrer da semana em São Paulo, a presidente levou outra bordoada ruidosa das indignadas gentes.

Estas manifestações são prenúncios claros para o dia quinze vindouro.

E por que o Brasil vai pra rua?

Porque existe um justo repúdio ao bando de malfeitores que assaltou —ainda assalta?— desavergonhadamente o Estado brasileiro.

Porque uma sociedade vigilante —e barulhenta quando necessário— é pilar de um regime democrático.

Porque a Petrobras, patrimônio da nação, está sendo corroída por ações e omissões criminosas que destroçaram sua credibilidade e, consequentemente, seu valor de mercado.

Porque, pela vastidão de indícios e engodos sacramentados, é legítimo discutir política e juridicamente a capacidade de governar do mandatário maior da República.

Porque é intolerável que compromissos de palanque sejam rasgados com a maior cara-de-pau depois da posse.

Porque a participação política do povo não se resume ao ato de votar.

Porque os interesses de um partido político não podem ser misturados às políticas de Estado.

Porque protestar não é golpismo.

Porque ventilar sobre dispositivos constitucionais não é terceiro turno.

Porque liberdade de imprensa é outro pilar de nações democráticas.

Porque o Brasil é muito maior que a peleja tucanos X petistas.

Porque só fama não alça ninguém ao posto de gerente competente.

Porque a economia de um gigante precisa de um timoneiro que saiba navegar também em mares revoltos.

Porque Cuba e Venezuela têm muito de ditadura e pouco de liberdade.

Porque a contrariedade ao governo também está nas periferias e nos rincões do país.

Porque pedir mudança não significa vestir o traje da elite golpista, tampouco farda e bolsonarices alegóricas.

Porque existe corneta vigorosa —e livre— muito além da CUT e dos movimentos sociais.

Porque a vaca tossiu.

Em tempo: convicto estou dos propósitos da passeata como convicto estou da baixeza de protestar com linguajar de rasteiro calão e com desejos estúpidos de sangramento.