quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Bebericos do Jaguari

70ml de Pagu, dez gotas de Badi, duas rodelas de Crepúsculo, 5ml de essência de Serra e cubos de gelo de Macaúba. É bom? É bão por bosta!

Beberico na segunda-feira, pode?
No caso, sim. A causa, o barman e o cenário mais que justificam o aperitivo etílico no dia mais branco da semana.

O roliço escriba esteve na fantástica Fazenda Capituva sorvendo os mixes do crepuscular coqueteleiro Roberto Merlin.

Sanjoanense, 28 anos, ele é o cara que saiu da terrinha para ganhar cancha nos balcões exigentes da metrópole. Foi, misturou, chacoalhou e voltou.

Merlin conhece os preceitos fundamentais do métier, mas tem no DNA a ousadia vital para reler os clássicos e inventar.

E ele usa a capacidade criativa também para a matéria-prima de suas obras encopadas. Insumos aromáticos, fermentados, destilados, vários e vários ingredientes dos drinks são produzidos artesanalmente pelo próprio.

Uma das joias dessa lavra particular é o Melomel, um vinho extraído da fermentação de frutas, mel e açúcar. Essa transformação enzimática é rústica, sem leveduras selecionadas, o que proporciona uma bebida única, selvagem. As diferentes frutas e floradas de mel também são marcas da singularidade do Melomel. E por aí vai o laboratório colorido e almiscarado do bartender.

Roberto Merlin tá por aqui, flanando ao pé da Mantiqueira, mesclando o licor das andanças com bitters de estudo e doses de raízes de vida.

Saúde!

Bombeirinho

E para ilustrar a habilidade (re)interpretativa de Merlin, sintam isso...

Pinga barata e groselha fuleira. Um clássico de boteco é o bombeirinho, um drink que bota fogo no incauto que se arvora a tragar o mix doce-pancadão.

O mago misturador das macaúbas fez uma releitura (foto) sofisticada do coquetel. 

Nessa versão o barman utiliza uma cachaça Ipê envelhecida em tonel de carvalho, misturada com flores desidratadas de hibisco, suco fresco de limão tahiti e calda natural de morangos com xarope de groselha.

O arremate é um morango de compota artesanal aromatizado com notas herbais e especiarias.

De novo, saúde!


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

No ataque

O baixinho Romário assombrou o mundo em 1994. Craque, goleador com um raro senso de colocação, ele foi o maior responsável pelo tetracampeonato da Seleção Brasileira na Copa dos Estados Unidos. Num time cinza e triste, Romário era cor e alegria.

O estrelato dele naquele ano fez pipocar Romários às dúzias Brasil afora. Um destes, filho de um trabalhador rural e de uma costureira, nasceu em São João da Boa Vista. Romário Augusto Pan, o filho do seu Antônio e da dona Sueli.

A mãe, diga-se, até entendeu a fut-inspiração do marido para batizar o menino, mas demorou a aceitar a ideia do nome Romário num bebê. 

Fã da Turma da Mônica, ele cresceu cheio de saúde na periférica Vila Brasil, entre gibis, chuteiras, tacos e bicicleta.

Como o de lá, nosso Romário também faz arte e balança as redes.

Foi pra cima da zaga aos 13 anos, quando começou a pelejar com o pai na lavoura.
Driblou as carências ralando na loja de material de construção do padrinho.
Matou no peito ao conquistar, por mérito, uma bolsa de estudos para cursar o ensino médio numa escola particular.
Arrancou da intermediária labutando na Isabela Flores, uma das mais inovadoras corporações de vendas online do país.
Meteu a bola na gaveta ao receber o diploma de Administração de Empresas pela UniFEOB.

Perto da zona do agrião, Romário estava com fome de empreender estimulado pelos frescos conceitos absorvidos na faculdade. 

Quicou na área, ele chutou pro gol. Seu último grande feito foi fundar a hamburgueria Big Johny em maio de 2016. No Centro de São João, a poucos metros da lendária Ademar de Barros, Romário evocou a pilotagem de chapa que fazia para os amigos para servir fantásticos hambúrgueres artesanais —o blend da carne é autoral e o pão é da Fornarii— a uma torcida sempre fanática por novidades.

Dizem os comentaristas que o primeiro gol de placa ainda será anotado. Romário, ele mesmo, narra a jogada nupcial vindoura: “Imprensa e torcedores, fico muito feliz, reconhecem a seriedade do nosso trabalho. Sem descuidar do que eu alcancei, o meu objetivo agora vai um pouco além. Vou treinar forte para formar uma dupla de ataque com quem eu quero tabelar para o resto dos meus dias. O planejamento é para 2019. Lá em casa, a Bruna vai escalar, bater escanteio e cabecear”. 

Batendo um bolão, Romário segue na lida selando o pão, montando o burguer e correndo pro abraço. Transformar a Big Johny numa franquia está no plano tático do empresário-artilheiro.

Vai Romário, vai Romário, vai Romário…

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Tempero, trabalho e sucesso

Nas imediações de onde hoje é o Cine Theatro Avenida, Paulino Bassi, na década de 1940, abriu um pequeníssimo comércio para vender pastel. Começava ali a bela e longeva história dos Bassi com a restauração.

Paulino é pai de Walter que é pai de Walter Filho que é pai de Walter Neto. Estes dois últimos Walters são os que no presente mantêm a relação de décadas do clã com a cozinha. E o fazem com trabalho duro e bons temperos. Quatro gerações mandando bem no fazer e servir.

Durante 48 meses (2010-2014) labutando em Pinhal —ou NO Pinhal, como preferem os pinhalenses—, almocei no W Bassi todos os dias. 

Absurda qualidade e singular variedade no self-service. Comida cotidiana com um baita sabor caseiro. Entre tantos triviais deliciosos, não me sai da memória o melhor pimentão recheado da galáxia. E esse pimentão merece uma nota: Waltinho Bassi, o Filho do segundo parágrafo, sabedor do meu apreço religioso pelo prato, mandava guardar algumas unidades quando eu me atrasava para o almoço. No estresse da faina, era um bálsamo ser mimado com aquelas delícias recheadas com carne moída.

E falo de outro agrado deles que me marcou nessa época: o pudim de café. Quando conheci a sobremesa, numa semana qualquer de 2010, falei para a Cida Bassi, esposa do Filho e mãe do Neto, o quanto eu tinha gostado do doce. Na sexta-feira daquela mesma semana meu presente foi trazer para São João um pudim de café inteiro. 

Nos finais de semana, o excelente da Oliveira Mota chega ao inimaginável no Clube de Campo Caco Velho: um buffet monumental na diversidade e nos atributos. À mesa: de comida mineira a frutos do mar, de massas a menu oriental.

Nas noites de sexta e sábado —ideia do Walter Neto—, o espaço do Centro abre para um serviço à la carte, e só no sábado para um robusto japa à vontade. A coisa é um lindo e colorido mar de sushi, a perder de vista.

Ninguém faz sucesso com restaurante só acordando cedo e carregando panelas; também ninguém tem êxito no ramo só fazendo a melhor comida. Os Bassi estão aí, 70 anos na lida, exemplo clássico e definitivo de que o triunfo vem da mistura de disposição, cebola, manjericão e talento.



quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Felice Pizzaria

Sanjoanense, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Anhembi Morumbi, Frê emendou o fim do curso com seis anos de labor na capital paulista na área de pesquisa de satisfação do consumidor. Nos times da BARE International e da GfK Custom Research, ele atendeu, entre tantas corporações, Shell, O Boticário, McDonald’s, etc.

Voltar a São João foi imperativo de qualidade de vida. Empreender em Sanja foi imperativo de necessidade financeira. E, além disso, cozinhar para os amigos foi e é imperativo de prazer social.

Na época paulistana, Frederico conheceu bons restaurantes da metrópole que é uma das mecas gastronômicas do planeta. Também por isso, ele decidiu que o seu business seria a restauração. E foi.

Aberto no fim de 2015, o Kasa Sushi emplacou rápido como um honestíssimo recanto para quem curte rango japa na região. Meses depois, Frê atravessou a rua e comprou o Felice Gourmet.

E qual é a última deste macaúbico de 28 anos?
A última dele vem em círculos fumegantes.

Tem novidade redonda e napolitana na cena de comer e beber desta província crepuscular. Inaugurada na terça última, estalando de nova, a Felice Pizzaria. No elegante imóvel da General Osório com a Benedito Araújo, onde já funciona um dos melhores buffets de almoço da cidade.

A proposta é servir a melhor pizza. Desde as tradicionais até outras bem ousadas —carbonara, tre funghi e muito mais— inspiradas no cardápio da tradicionalíssima Bráz de São Paulo.

O pizzaiolo, Tieta é o nome artístico dele, não por acaso, trabalhou oito anos na mencionada Bráz.

Na Felice tem...
Tem o melhor forno a lenha do Brasil. Tem massa leve, aerada. Tem molho de tomate artesanal. Tem aliche de verdade, tem as mozzarellas Roni e Montezuma, tem presunto alemão, tem azeite italiano, tem linguiça de javali, enfim, tem ingredientes de primeiríssima linha para oferecer pizzas jamais vistas na terrinha.

Frederico Mauro, o Frê dos primeiros parágrafos, sangue italianíssimo pelo ramo paterno, tem gana e uma vontade imensa de acertar. Ele, minuciosamente, planejou mais essa promissora casa que chega pra ficar.

A lindeza da foto, devorada e chancelada por este roliço escrevinhador, é a assombrosa Castelões, uma clássica de calabresa com mozzarella.

De terça a domingo, para todas as idades e para todos os gostos, in loco ou pelo delivery: Felice Pizzaria.

Diria o moleque: “cara, que pizzas fodásticas!”.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Monte Verde

Vocação zero para desbravador, toda vez que subo a Monte Verde gosto de imaginar —e admirar— o quão difícil foi para os pioneiros chegarem e se estabelecerem no lugar na década de 1930. À época, as precárias trilhas que levavam ao topo só podiam ser vencidas sobre lombos de burros. Uma fazenda longínqua, gelada e sem a mínima infraestrutura.

Verner Grinberg, imigrante letão, foi o idealizador e fundador do distrito. Ele adquiriu na primeira metade do século passado uma grande área de terra por aquelas bandas. Apaixonado pelo clima e pela geografia montanhosa da região, Grinberg impulsionou a ocupação de Monte Verde distribuindo lotes a quem quisesse ali viver e ganhar a vida.

De lá pra cá, a aldeota, europeia em vários aspectos e deliciosamente mineira em tantos outros, se firmou como um dos destinos de turismo mais pitorescos do Brasil.

Na companhia de amigos, viajo anualmente a Monte Verde desde meados dos anos 2000. Desde quando a estrada serrana que liga o povoado a Camanducaia carecia de pavimentação.

Ano a ano, Monte Verde muda. Infraestrutura melhor, novas lojas, novos restaurantes, novas pousadas, internet [um pouco mais] rápida. Antigos estabelecimentos sendo reformados. E o fluxo turístico explodindo. Para o bem e para o mal. Mais gente e mais dinheiro não significa, necessariamente, progresso.

Na manhã do último domingo, saindo de lá para voltar aos Crepúsculos, vi, pela primeira vez, dezenas de ônibus estacionados na entrada do charmoso lugarejo montanhês das Minas Gerais. Centenas de turistas chegando para aqueles passeios de bate-e-volta. Nestes trópicos, o frio, a montanha, o chocolate e a truta são, sem dúvida, atrativos turísticos.

Perguntaria o maldoso: truta combina com farofa?

Conversando com amigos que lá empreendem e que amam Monte Verde, eles acham que algumas questões têm que ser respondidas para se redefinir [ou não] os rumos do distrito, a saber:

1. Emancipação? Bom? Ruim? Necessário? [Monte Verde, pra quem não sabe, é um distrito da cidade de Camanducaia]
2. Qual o preço que se quer pagar para aumentar o fluxo turístico? 
3. Que perfil turístico o destino quer atrair?
4. Monte Verde quer continuar sendo, também, uma opção de paz e sossego para o visitante?
5. Qual o limite de visitantes que a infraestrutura de Monte Verde comporta?
6. A legislação para novos empreendimentos precisa ser revista?
7. O tráfego de veículos na Av. Monte Verde deve permanecer como está?
8. Novas construções estariam em consonância com a preservação ambiental de um lugar que quer se manter como refúgio dos amantes da natureza?

Assumo um certo egoísmo, mas não consigo conceber Monte Verde sob as agruras do turismo de massa. Definitivamente, não orna. Absolutamente, foge da essência.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Zé do Queijo


A mensagem do Pedro Oka, pedindo um frila, pipoca no WhatsApp: “Precisamos falar de queijo fresco, precisamos falar do Zé do Queijo”. Escrever histórias de gente da terra que ganha o pão na terra fazendo comida da terra. Eu me alimento disso. Bora lá!

A casa no São Benedito é simples. Simples, limpa, arejada e bem cuidada.

Mais de meio século de vida, José “do Queijo” Geraldo Bargas, um velho conhecido, me recebe com café na cozinha junto à mulher, Dona Lucelina. Passa das três da tarde e o semblante do casal é de cansaço. A estafa do dever cumprido. A exaustão de quem trabalha 364 dias por ano —o Natal é a única folga. 

Naquela segunda-feira de fim de outono a rotina não foi diferente. Às duas da madrugada, bem antes do despertar das galinhas, Zé do Queijo e a esposa já estão na estrada rumo ao sítio do Lélio, onde pegam religiosamente trezentos litros do mais puro leite. O negócio está em família: Lélio, o dono das vaquinhas, é irmão de Dona Lucelina. 

Depois do bate-e-volta na zona rural, começa a lida para transformar o líquido branco das mimosas em 120 lindas peças do melhor queijo fresco da galáxia. Um produto artesanal que mescla primores: o primor do sabor suave, o primor de uma massa com pouca gordura, o primor da consistência —macia e não pastosa— que desmancha na boca e o primor no uso equilibrado do sal. 

Uma autêntica joia culinária para ser consumida solo, com pão e azeite, na salada, com doces caseiros, em sanduíches…

Zelosa do tesouro que guarda, Dona Lucelina não revela o segredo do queijo. Obcecada pela higiene e pela qualidade da matéria-prima, ela conta que a receita de família foi sendo aperfeiçoada ao longo de mais de quinze anos pelejando na faina queijeira. 

Nas primeiras horas da manhã, Zé, sem perder tempo, já está nas ruas de São João da Boa Vista e Águas da Prata entregando num seleto rol de pontos de venda a cota diária do seu singular cilindro láctico viçoso. Cilindro láctico viçoso!? Ai meu Deus! Ainda bem que o queijo do Zé, fresco, básico e alvo, não padece das firulas mofadas e dos arabescos verbais rançosos do cronista.

Abençoada seja a brava resistência dos pequenos produtores da província. Abençoados sejam os comerciantes locais que abrem espaços nos seus balcões às mercadorias destes valentes microempreendedores da aldeia. Abençoado seja o queijo do Zé!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Oitentistas

Você, caro leitor, que passou parte da infância ou da juventude na década de 1980, chamou, em algum momento, agasalho esportivo de abrigo? “Bacana esse seu abrigo. É da Adidas?”

E agasalho “abrigo” esportivo, naquela época, tinha que ser o clássico Adidas azul-marinho, que formava um impecável conjunto com o tênis modelo Roma, branco e azul, do mesmo selo lendário das três listras.

Eu, então moleque, pré-adolescente, tive o meu abrigo —marrom— da moda, que servia como traje para as mais diversas efemérides. Perdi a conta em quantos aniversários fui retratado com o figurino training. Roupa literalmente de missa, este escriba tomava a comunhão na Catedral com a mesma indumentária de quem fazia o teste de Cooper. Era chique.

Abre parênteses. O mano Gui há de perdoar a minha indiscrição: ele, numa festinha familiar, teve a maior falta de senso estético da História, combinando(?) o seu abrigo cor de vinho com mocassim de bico fino. Fecha parênteses.

Adidas em Sanja era na rua Hugo Sarmento, n’O Coringão. Quem lembra? Quem lembra da morena bonita, alta, olhos claros, cabelo liso, fumante inveterada, que atendia os fregueses da loja com mínimas palavras e um semblante sério, fechado? Ser atendido por essa cara de poucos amigos era obrigatório para o incauto que quisesse ter Adidas no guarda-roupa. Tive algumas peças da Adidas, mas nunca vi um sorriso da moça.

Navego por reminiscências oitentistas de consumo da província macaúbica e, pá!, outra pérola: Gigante Operação Vassoura, o popular Vassourão. O estabelecimento abriu as portas na Ademar de Barros para vender tênis de marcas ordinárias por preços idem. Era o típico comércio que apelava para um ambiente com música no volume máximo e tiras de papel picado no piso —qual é a explicação mercadológica para infestar o chão com picotes disformes de papel vagabundo? 

North Star era a etiqueta carro-chefe do Vassourão. A sedução da economia funcionou até os clientes começarem a perceber que os calçados dali, além da falta de charme, careciam de conforto e durabilidade. Tive um par da North Star que não aguentou trinta dias de uso. Por que me lembrei disso? Gigante Operação Vassoura, isso lá é nome com pegada comercial? Será que o dono era janista?

E segue a falta de assunto, ou o excesso de recuerdos: 1ª Cópia, Foto Real ou Peninha Gianelli? Qual foi a videolocadora de sua preferência no começo da era do videocassete? Certeza mesmo era a marca do aparelho que reproduzia as fitas: Panasonic. Milhões e milhões foram iniciados no cinema em casa com os videocassetes japoneses que entravam no Brasil pelo Paraguai. Stallone, Schwarzenegger ou Chuck Norris? A Hora do Pesadelo, Um Tira da Pesada ou Loucademia de Polícia? Você, desleixado leitor, rebobinava a fita antes de devolver?

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Carnaval


Era ritual em qualquer família brasileira de classe média na década de 1970. Levar os filhos às matinês de Carnaval. Mais: levá-los fantasiados.

A vontade da criança pouco importava. Zelosos pais só cumpriam integralmente seus deveres se arrastassem a prole aos bailes vespertinos. E não bastava, aos genitores, a simples presença da gurizada. A vestimenta alegórica era compulsória para exibir os rebentos à sociedade.

Minha mais remota recordação momesca é do Centro Recreativo, lá pelos meus quatro ou cinco anos. Fomos, eu e o brother Gui, de indiozinhos. Índios híbridos, diga-se. Meio apaches norte-americanos pelo penacho e outros adereços, e meio caiapós pelas diminutas indumentárias. Um pé no Arizona e outro no Xingu.

As mães, maquiadas e sobre saltos enormes, aproveitavam o tríduo profano para desfiles de fendas, decotes e tomaras-que-caia. Não eram poucas as fumantes que empesteavam de nicotina os salões dos clubes. Algumas bebiam. Outras bebiam muito. Uma coisa, salve!, intolerável hoje em dia. 

Aquela turba insana, dedos indicadores em riste, num transe rítmico ao som de marchinhas, me assustava. Naquele calor infernal, incomodado pela overdose barulhenta de “Chiquita Bacana”, quase nu, busquei proteção nas caçulinhas da Antarctica: tomei guaraná tanto quanto as madames tragavam Charm. Sorver o canudinho, na mesa, era boa desculpa para ficar longe daquela muvuca burlesca.

No coração urbano de Sanja, involuntariamente, representei bem o personagem da minha fantasia: um indígena acuado pelos delírios do homem branco.

Anos depois, menos manipulável e mais arisco, aceitei quando Dona Marly, mãe do amigo Tocko, convidou-me para participar de um bloco. No mesmo Centro Recreativo, participaríamos do concurso de fantasias caracterizados como prisioneiros, sob o nome de “Foragidos de Alcatraz”. 

Na hora H, empaquei. Impliquei com o uniforme zebrado e com a corrente presa no tornozelo. A implicância deste escriba, na verdade, era com a própria inépcia carnavalesca. Covardemente, fugi de ser “foragido”. 

Fujo, confesso, até hoje, tal qual um pierrô aterrorizado. Fujo do cheiro das máscaras de papelão, da serpentina, dos confetes e da estridência contra a “Cabeleira do Zezé”.

Não, mamãe, eu não quero!

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Léxico vintage


O frio desperta necessidades de consumo no guarda-livros Orlando. A japona azul-marinho da loja do Zeca Italiano é a cobiça dele para usar nos meses de inverno.

Munheca notório, seu espírito sovina é mais forte que o impulso de comprar o agasalho. Zeca Italiano não vai ver a cor dos caraminguás de Landinho, que vai enfrentar a friagem vindoura com as jaquetas puídas de mil novecentos e guaraná com rolha. 

****

Nada contido é o compulsivo desejo de Landinho pelos júbilos carnais. À boca pequena comenta-se nas esquinas sobre as estrepolias extra-conjugais dele com a sirigaita Neide Bisturi.

Dia destes, a recatada Ivonete, esposa, cobriu-o de chapoletadas e safanões, quando a ceroula manchada de batom entregou mais uma pulada de cerca do marido herege.

****

Colérica pra dedéu pelas recorrentes infidelidades, Ivonete radicalizou na punição ao cônjuge: a radiola que Landinho herdou do pai foi impiedosamente destroçada a marteladas.

Assustado com o banzé causado pela ira destruidora da furiosa mulher, ele conjectura: 
—Ela deve estar lelé da cuca.

****

No balcão da venda do João Garrucha, os gorós libertaram o verbo de Landinho:

—Nenete se desmazelou muito de uns tempos pra cá. Ela anda muito marmota, mal-ajambrada à beça, passa o dia com os zóio remelado, com o cabelo sebento. Muié assim não faiz vontadi no homi. A Neide dá gosto de ver, é uma cabrocha batuta, perfumada, tá sempre supimpa, elegante…

—Vorta! A nossa patota vai te dar razão, Landinho.

—Pombas!, João Garrucha, cê sabe que, tirando a minha muquiranice, eu sô um homi bão. Não entendo patavinas por que a Nenete relaxou desse jeito.

—Você abre a mão pra Nenete se arrumar?

—Então…

—Pois é, então…

****

Landinho matutou, matutou, matutou e decidiu ser menos apegado ao próprio cascalho: negociou em três parcelas a japona azul-marinho da loja do Zeca Italiano. Também comprou um ramalhete de flores, uma caixa de bombons e um anel. 

Ainda não se sabe se os mimos foram para Nenete ou para a alcova pecaminosa de Neide Bisturi.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Alcôa - doçaria conventual

A doçaria conventual recebe esse nome por ter sido criada nos conventos, onde os trajes dos religiosos eram engomados com clara de ovo. 

Os doces da doçaria conventual, que têm fartura de gema —que sobrava aos montes nas clausuras— e açúcar, e quase nada de farinha, são típicos da culinária portuguesa. Eles são onipresentes nas esquinas calóricas das urbes lusitanas. Estupidez! Absoluta estupidez!

Alcôa —nada a ver com a riqueza do alumínio, tudo a ver com outras riquezas— é uma fantástica porta-bandeira da doçaria conventual, estabelecida na Rua Garret, no lisboeta bairro do Chiado.

Dia destes, no meio da tarde, fui estapeado pelos bárbaros doces do lugar. A vitrine ofende de tantos atrativos que vão muito além dos incríveis pastéis de nata.

As duas pesadas ofensas:

1. Torrão Real: gemas, nata, canela e amêndoas, uma coisa linda e estúpida que me fez surtar, mas que eu não tenho a mínima ideia do como fazer.

2. Cornucópia: a massa exterior, tipo canudinho, é muito fina, estaladiça como dizem os portugueses, frita em azeite e recheada com doce de ovos feito em tacho de cobre.

ÓmeuDeus, faizfavoire, deixa de ser estúpido!