domingo, 15 de julho de 2018

Festa do Biscoito


Lindeza estas festas populares da mineiridade. Simplicidade, o frio da montanha, o cheiro do fogo na madeira, o sabor de casa de vó, gente acolhedora. Aquelas receitas de família que atravessam gerações. A caipirice em estado puro!

Em Caldas, a tradicional Festa do Biscoito que acontece em todos os fins de semana de julho tem como atração principal a iguaria do polvilho assada no forno a lenha, em versão graúda, recheada com pernil, calabresa ou linguiça defumada, tudo com vinagrete e queijo. Tudo farto e gostoso com o DNA do melhor das Gerais.

Das mesmas fornadas biscoiteiras saem também pães de mandioquinha, broas de fubá —que baita BROA—, roscas, bolachinhas mil...

Isso é Minas!



sexta-feira, 13 de julho de 2018

Casa Verrone


Neste julho de temperaturas polares, tão bom quanto o vinho é conhecer histórias do vinho.

Alguém em algum lugar disse para Márcio Verrone que o solo do seu —dele— torrão natal, São José do Rio Pardo, não seria bom para o cultivo de videiras. 

Dogmas estão aí para serem contestados. A colheita de inverno, decorrente da poda invertida —ou dupla poda—, está aí para provar que, com pesquisa e inovação, certezas de outrora não são mais absolutas. A EPAMIG —Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais— foi fundamental no apoio técnico do primeiro plantio em 2009.

E essa cultura pioneira veio depois de Márcio ter frequentado por oito anos a Associação Brasileira de Sommeliers, a ABS, onde se aprimorou no métier em cursos, workshops e degustações. Viagens para vinícolas na França, Itália e Portugal consolidaram esse envolvimento.

Com trabalho duro e com as bênçãos de Bacco, no início de 2016 a primeira safra da Casa Verrone foi para o mercado. Nos rótulos dessa primeira leva estavam sauvignon blanc, syrah e chardonnay. Esse último, dois meses depois de lançado, conquistou o prêmio de melhor do Brasil na sua categoria. 

O batismo com troféu colocou a Casa Verrone em destaque na mídia especializada e no boca a boca entre os experts do wine world. Desde então, outras prêmios enriqueceram a galeria de Márcio Verrone e o 1,5 hectare inicialmente plantado foi expandido. 20 promissores hectares em Itobi, nas cercanias de Rio Pardo, são hoje o futuro dessa ousada vinícola orgulhosamente paulista. Ali —foto abaixo— está fincada a pedra essencial de um ambicioso centro de enocultura. Por enquanto, sem instalações fabris próprias, a empresa produz e engarrafa seus produtos em Caldas, MG.

Tarde destas, fui recebido pelo staff da Casa para prosas e provas. Algumas garrafas depois, entusiasmado e emocionado, Márcio se despediu com esse desejo:

—Um dia, eu quero sentar sobre a minha barrica, tirar o vinho com uma pipeta, encher uma taça, erguê-la, da minha vinícola olhar para o horizonte e dizer: “realizei meu sonho”. 


segunda-feira, 9 de julho de 2018

Fazenda Irarema


Da represa Bortolan, em Poços de Caldas, rodamos 4 km na estrada de terra que vai para São Sebastião da Grama. Já em solo gramense, paramos numa propriedade de cair o queixo: Fazenda Irarema.

O empreendimento da família Carvalho Dias impressiona pela beleza, magnitude e organização.

A pérola do lugar é a fábrica de azeite, idealizada e tocada por Moacir Carvalho Dias, cujo rótulo tem o mesmo nome da fazenda. Uma charmosa loja-café junto à indústria, construída em vidro, madeira e ferro, marca o visitante por ser um dos recantos mais lindos da região.

Em abril deste ano, na categoria "delicate blend", o óleo de oliva da Fazenda Irarema foi premiado em Nova York com o prêmio "best in class" na World Olive Oil Competition.

As tortas e doces servidos na pequena cafeteria são também produzidos artesanalmente pelas talentosas mãos de Lili Carvalho Dias, irmã de Moacir. Guloseimas que são harmonizadas com café da própria terra.

O passeio ali se completa com um contêiner surpreendente que oferta sabonetes artesanais de azeite da lavra de Mônica —mãe de Moacir e Lili— e uma boutique de carnes nobres, cujos cortes têm preços justíssimos pela qualidade.

A arquitetura, as cores, os aromas, o entorno de natureza, o clima de montanha.
Impossível não se apaixonar!



domingo, 10 de junho de 2018

Palmeirinha


Manhã de hoje, caminhando para a feira livre, vi aberto o portão do estádio e entrei. Entrei, fotografei e relembrei...

A lavra abaixo é uma republicação de 1999. Tem um viés saudosista, um tempero nostálgico, mas também clama por um escrete crepuscular em certames de projeção. Isso é importante para a identidade da província, além de injetar na molecada altas doses de estímulo para a prática esportiva. E mais: do entorno destas competições sai um denso caldo de cultura, rico em fatos e personagens, que inspira textos como o que segue.

Dia destes, ao remexer guardados antigos encontrei uma velha e surrada bandeira alvi-negra. Fiquei surpreso e ameacei jogá-la no lixo.

Por que um Tricolor até a raiz dos cabelos preservaria entre tantos objetos de estima um antigo estandarte da Fiel mosqueteira?  

Lembrei! Alvi-negra, sim, corintiana, não.

A bandeira preta e branca foi confeccionada por minha avó, Dona Fiuca, especialmente para a final da então 3ª Divisão de Profissionais. O ano era 1979 e o nosso Palmeirinha, se a memória não me trai, foi campeão e ascendeu à Segundona  jogando contra a Guairense.

Segurando o velho pano mergulhei em boas lembranças. O futebol sanjoanense está tão apagado que há anos estou saudosista.

Bons tempos...

...em que o Palmeirinha mandava seus jogos no Getúlio Vargas Filho. 

...em que o bambuzal atrás do velho estádio era uma ameaça a árbitros mal intencionados. “Olha o bambu, juiz!”

...em que torcíamos pelo Palmeirinha petiscando os amendoins torrados do saudoso seu Mancini.

...em que o Chupetinha azucrinava o bandeirinha. Ver o jogo, nada. O prazer do velho Chupeta era correr acompanhando o assistente e gritando palavrões.

...em que assistíamos os jogos atrás do gol para atirar gelo de raspadinha no goleiro visitante.

...em que um dos meus grandes prazeres de moleque era ser gandula em Vila Manoel Cecílio, trajando aquele surrado uniforme de calção preto e camiseta branca.

...em que os jogos noturnos eram disputados à luz de velas. Os refletores fraquinhos mais pareciam iluminação de boate.

...em que a Torcida Uniformizada Lobos da Vila incendiava o pequeno alçapão.

...em que Piau fazia gols do meio-campo.

...em que Ari marcava tentos olímpicos.

...em que assistia Mirandinha, ao vivo, correndo de cabeça baixa e fazendo gols.

...em que Norinha defendia o arco palmeirino envergando um uniforme —hoje horrível— bordô. 

...em que João Bacana era o eterno interino. Caía o técnico e lá estava ele para tampar o buraco.

...em que gente abnegada e apaixonada como Dr. Antenor, Bento Palermo, Severiano Palomo e tantos outros eram a força motriz do futebol local.

...em que grudava os olhos no campo e o ouvido na Piratininga para saber do plantão de Fábio Silveira a quantas ia o meu Tricolor. Fabinho Silveira, inesquecível voz, nos informava da “suntuosa” Sala Nacional de Esportes. Na minha ingenuidade de criança, imaginava um local cheio de aparatos tecnológicos para receber notícias ininterruptamente. Que nada! Tempos depois vim a saber que a “nababesca” sala era o acanhado estúdio da Piratininga.

Lembranças de um tempo bom e de um futebol romântico que já não existem mais.

sábado, 9 de junho de 2018

Anthony Bourdain



Vi todos os episódios de Sem Reservas na Netflix. Amava esse cara!

Ele rodou o mundo pra comer e beber. Mais do que a mesa, ele mergulhava na alma dos lugares visitados. Ele compreendia e respeitava a diversidade. Não tinha exotismo que o assustasse. Ele provava de tudo com voracidade. Ele bebia sem freios, no ar, sem pudor. Seu programa era condimentado com o elemento humano, com viagens, com comida boa de qualquer tipo, com o melhor da existência.

Prefiro não me arvorar a entender os impenetráveis mistérios da mente humana. Fica só a lembrança e a obra de um sujeito incrível, um brilhante talento, espontâneo, que transbordava simplicidade e era mestre em contar boas histórias.

Esse imagem sintetiza bem a trajetória dele. De jeans e camiseta, em algum lugar da Ásia, sentado numa banqueta de plástico, comendo na rua.

Mais triste e menos temperada, segue a vida sem Anthony Bourdain.

terça-feira, 5 de junho de 2018

Airbnb


Em algumas fotos postadas de viagem recente, fiz menção ao tipo de hospedagem que escolhemos: Airbnb.

As menções despertaram interesse em alguns amigos que não conhecem o aplicativo. Outros que conhecem, mas nunca utilizaram o serviço, também me perguntaram sobre.

Antes de dar meu testemunho, uma breve explicação do que é a plataforma. O Airbnb proporciona o contato entre turistas que procuram hospedagens e proprietários de imóveis que querem locar seus espaços. Essa locação pode ser parcial, somente um quarto de uma casa, por exemplo, ou total, a casa toda disponível para quem se hospeda. 

Às dicas:

a.
 No nosso caso, viajando em dois casais, coloquei nos filtros de busca do app: “quatro hóspedes”, “espaço inteiro”, “dois quartos”, “wifi” e “estacionamento”;

b. A definição dos locais se deu pelas fotos e, principalmente, pelos depoimentos de quem já se hospedou;

c. O custo desse tipo de hospedagem, regra geral, é bem mais barato que hotel. Em alguns casos, 60% mais em conta;

d. Se a viagem for de carro ou se o transporte público no destino for bom, fugir de hospedagens em centros históricos é outra forma de baratear ainda mais a estadia. Consegue-se tarifas fantásticas no Airbnb quando o imóvel está fora do bochicho turístico;

e. Das quatro hospedagens pelo Airbnb —duas na Itália e duas na Suíça—, em termos de conforto, nenhuma decepcionou. Imagens e depoimentos 100% fidedignos. Imóveis limpos, espaçosos, banheiros decentes, cozinhas equipadas, internet rápida. Em dois deles, em Pieve di Cadore na Itália e em Grindelwald [foto] na Suíça, fomos agraciados ainda com vistas espetaculares das varandas;

f. O que deu errado? Na suíça Grindelwald, a estadia teve dissabores no começo e no fim. Faltou comunicação adequada sobre onde retirar as chaves do chalé. Foi um quiproquó estressante até conseguirmos ingressar no Chalet Judith, cuja janela dá para uma paisagem deslumbrante. Na saída, o valor fechado no aplicativo dobrou com abusivas taxas de limpeza e de fornecimento de toalhas e roupas de cama. Fui pra briga e acho que serei ressarcido;

g. Sobre essa chateação na Suíça, uma dica importante: fuja de hospedagens onde existam empresas que agenciam os imóveis para os proprietários. Em Grindelwald, uma tal Interhome foi a responsável pela mordida no nosso bolso.

O Airbnb, aliás, não deveria tolerar essa prática que vai contra o conceito original de promover encontros de conveniência entre viajantes e locadores. Se tem mais intere$sados na transação, o usuário paga a conta.

Enfim, não falo nenhuma novidade, mas repito: a tecnologia como aliada de um mundo cada vez mais viajante está revolucionando para melhor o modelo de hospedagem turística.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Chácara Pizza Bar


Uma atmosfera rural, uma casa de fazenda, a rusticidade iluminada por um forno a lenha. 

A estrada é de terra, mas a Chácara Pizza Bar fica pertinho do centro de São Sebastião da Grama, praticamente numa extensão da avenida principal da cidade.

Uma carta que acolhe pizzas clássicas e outras tantas ousadas. 

Porteira Aberta está no rol das inusuais e surpreende com molho de tomate fresco, escarola, calabresa, mozzarella de búfala e pesto de azeitona.

Na terra do consagrado torresmo do Carlão e do Laticínio Roni, tem redondas napolitanas mais do que respeitáveis.

Pra não dizer que só falei de flores, o forno é pequeno e esperar é preciso.

Serviço:
Estrada Anhumas, km 1
São Sebastião da Grama, SP
tel: 19 3646-3009

Um senhor bauru


Desde que o mundo é mundo, o bauru de lombo é coisa mais do que séria nesta província crepuscular. A devoção é tanta que chapeiros de final de semana reúnem amigos para uma esbórnia gastronômica nominada “bauruzada”. Desconheço outros lugares onde exista a “bauruzada”.

Bar do Formiga, Bar Canecão e Nosso Bar (o antigo), deliciosas lembranças!, foram estabelecimentos que marcaram época com baurus espetaculares. Quem provou algum destes tem o paladar gravado na memória gustativa. 

O lombo dormido uma noite no tempero, cortado na espessura que proporciona suculência e aquele tostadinho por fora. O queijo prato tem que ter as bordas crocantes (a foto é real!) extrapolando os limites do pão. Da hora, fresquinho, o pão francês abraça o recheio sem ser prensado. O tomate, nem verde tampouco tão maduro, deve ser fatiado não muito fino e receber pitadas de sal na chapa. Eu gosto do meu com cebola, mas não acho falta grave comer sem.

Poucas e boas casas deste torrão seguem os preceitos fundamentais do bauru elencados no parágrafo acima. Uma delas, recém-inaugurada, é O Sr. Bauru, do competente e exigente Ney Balla.

Ele sabe do riscado e não vacila: mete bala nos ingredientes de qualidade inferior. [eu estava lá e testemunhei a devolução à Balla de um queijo meia-boca que o fornecedor quis empurrar]

Manda Balla, Ney!

O Sr. Bauru —por enquanto— é só no delivery, todos os dias a partir das 18h.
Pelo WhatsApp 19 99233-4321 ou pelo iFood.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Parmesão de búfala

Novidade queijeira na sempre exuberante Serra da Paulista.

O agitado Fabio Pimentel incluiu um queijo tipo parmesão no portfólio de tesouros bufalinos do selo Montezuma.

Oito meses de maturação é o tempo de aprimoramento do redondo. Experimentos aos montes foram feitos para chegar à excelência láctica que este roliço escriba provou num fim de tarde junto com algumas garrafas de vinho Guaspari.

O FP gravado na superfície, contrariando quem diz que é um capricho personalista do Fabinho, remete à Fazenda Paineiras, o nome da propriedade onde fica o laticínio.

terça-feira, 20 de março de 2018

Glenda



“A vida me deu tanto, Deus foi tão generoso comigo que eu tenho que retribuir”.

Glenda Maria Sabbag da Silva, inteligente, obstinada, profissional de sucesso, vocacionada para ensinar e fazer o bem.

Neta de libaneses, paulista de Novo Horizonte, graduada em Ciências e Matemática pela Unesp de Marília.

No período da faculdade, Glenda trabalhou numa seguradora para se sustentar longe dos pais. Conseguia se manter e ainda ajudava financeiramente os genitores.

Nessa época, ela conheceu Durval, funcionário do Banespa. Casaram-se quando Glenda ingressou no magistério estadual.

Aterrissar em São João da Boa Vista em 1974 foi contingência da carreira do marido. Aqui se fixou, aqui nasceram seus dois filhos biológicos, aqui adotou mais três filhos em circunstâncias diversas.

Nos Crepúsculos, antes de ser admitida no Banco do Brasil em 1981, deu aula em várias escolas, notadamente no grupo Santos Cabral, onde trabalhou por mais tempo e onde era mestra das crianças órfãs do Lar Santo Antônio.

Estabelecida na lida bancária, a falta dos alunos e da lousa era um sentimento desconfortável. Supriu essa carência ministrando, nos finais de semana, reforço de Matemática aos meninos do orfanato.

Compartilhar conhecimento, pra ela, sempre foi essencial. Pequenos círculos de jovens eram acolhidos na mesa de jantar de Glenda em estudos preparatórios para concursos. Glenda embolsava a fortuna da gratidão eterna de muitos que conquistavam o sonho do emprego estável.

Quando do fechamento do Lar Santo Antônio, oito meninos, maiores de 14 anos, ficaram ao léu.

O aluguel de uma casa para eles saiu do bolso dela; empregos para todos saíram do esforço e da rede de contatos dela. O provimento material foi pouco perto do que ela mais transmitiu aos moleques: integridade.

Glenda se orgulha destes oito afilhados: “Sem exceção, todos acharam seu caminho. Todos são gente”.

Entre 2000 e 2007, ela rodou, pelo banco, por São José do Rio Preto, Mirassol e Limeira. Voltar a São João, aposentada, foi estímulo pra mergulhar de volta na labuta nobre de ensinar Matemática a concurseiros, sem nada ganhar monetariamente.

Suas classes abrigam candidatos de qualquer origem social, mas é clara a atenção extra dela aos mais carentes.
Está na casa das dez centenas os que, em algum momento, absorveram os ensinamentos da professora Glenda Sabbag. Enorme parcela destas 1.000 pessoas teve a vida mudada por um novo emprego.

Também no ambiente corporativo, ela combateu o bom combate. Os embates se davam com gestores quando Glenda achava que colegas desafortunados e/ou menores-aprendizes eram vítimas de decisões injustas. E por falar em menor-aprendiz, essa instituição do Banco do Brasil, não foram poucos os que ganharam um norte profissional pelas orientações dela.

Numa era de tanta falação e brigas retóricas, mais Glendas fariam deste mundo um lugar menos árido. Glenda é destes raros seres iluminados, talhados para fazer mais e melhor.