terça-feira, 11 de agosto de 2020

Cagaço


Depois de um dia longo, calórico e etílico, resolvo aliviar a culpa pelos excessos abdicando do carro para vencer a pé o chão terroso das imediações do Coqueiro Torto à Fonte Platina.

Quase 19h e a escuridão reina na estrada sinuosa. O frio da montanha bate inclemente no meu rosto.

No meio do caminho, perto de uma ponte, algumas reses perambulam pela mesma trilha. Que diabos fazem aqueles ruminantes ali, vagando sem rumo na imensidão da noite?

Miro neles a lanterna do iPhone para sondar as reais intenções daquele pequeno rebanho. As pupilas dos bichos brilham ameaçadoramente. Sinto-os acuados e acuado eu também fico. Dois ou três touros ostentam chifres mortais. Um deles se aproxima e faz algo como se fosse um sapateado pra me botar medo. Consegue. Sou tomado por um cagaço e solto instintivamente: “Ôôôôô!”. Não sei pra que esse som serve, mas meu algoz se afasta um pouco.

Metros à frente, dois dos chifrudos resolvem brigar. Enquanto eles se enfrentam num assustador combate de cabeças, os mugidos ecoam na floresta enquanto os outros desgraçados me cercam. Achei que me fazer de estátua seria prudente. Paralisado e apavorado, senti verdadeiramente que o meu fim estava próximo. Seria, talvez, uma vingança da espécie pelas centenas de picanhas que me deleitaram ao longo da vida.

Os faróis do meu Honda —Josi ia me resgatar na Fonte Platina— jogam luz naquele ambiente tenso. Os bovinos se distanciam com o ronco do veículo. Menos aturdido, eu desisto da caminhada, me aboleto no banco do passageiro e mais convencido fico da minha total incompatibilidade com o gado. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Do Genoma à Xícara

Andréa, a idealizadora e guia do roteiro
Um programa de fim de semana que valoriza uma das maiores riquezas da Mantiqueira. A vocação cafeeira de Espírito Santo do Pinhal, SP, mostrada em detalhes num gostoso passeio de quatro horas que começa no Centro da cidade, passa pela lavoura e termina num café caipira à mesa de uma propriedade centenária. 

O tour que junta História, conhecimento técnico e gastronomia foi idealizado e é guiado pela engenheira agrônoma, pesquisadora e ativista Andréa Squilace de Carvalho. Neta de italianos e filha de cafeicultor, ela é uma pinhalense entusiasta da gente e da cultura do seu torrão natal. 

No fim da jornada no Sítio Santa Rita do Olho d’Água, harmonizando um café coado à moda antiga com pão caseiro, manteiga, geleia de jabuticaba e bolos —o de limão cavalo é de outro mundo—, Andréa conta o quanto ela gostaria que mais turistas de Pinhal e região fizessem o roteiro que tantos paulistanos e estrangeiros fazem e se apaixonam. 

☕️☕️☕️ 
Contato: 19 99921-1272 
[o passeio para grupos de no máximo dez pessoas segue todos os protocolos sanitários relacionados à covid-19]

☕️☕️☕️ 
Mais fotos do roteiro:









domingo, 19 de julho de 2020

SOÉCO

Carolina, a inspiradora da marca, com a irmã Isadora
Carolina Palomo morou na Índia e estuda Naturologia em Santa Catarina. Ela é uma jovem sanjoanense que busca viver em harmonia com o planeta. Nessa nobre luta por sustentabilidade, Carol pediu à avó costureira que confeccionasse para seu uso um absorvente íntimo reutilizável. As amigas de universidade dessa brava geração que combate os bons combates compraram a ideia do respeito ambiental. Mas, óbvio, ninguém queria abrir mão do conforto. 

Carolina inspirou Andresa que convidou Gabriela. Gabriela é prima de Carol e sobrinha de Andresa. Andresa é mãe de Carol e tia de Gabriela.  

Andresa e Gabi estão empreendendo. Lógico, querem o êxito e o que dele advir, mas querem principalmente contribuir com pequenas-grandes mudanças culturais que proporcionem um consumo responsável e menos agressivo à Terra. Além disso, há benefícios à saúde da mulher na troca de um produto permeado por substâncias químicas por outro que é de tecido 100% algodão. 

Há estudos que mensuram uma mulher —da puberdade à menopausa— descartar no lixo, que loucura!, 14 mil absorventes. 

Sinto informá-los que óbices anatômicos impediram-me de dar um testemunho baseado num “test-drive” do produto, mas, troças de lado, exalto a SOÉCO, uma empresa de gente amiga da minha aldeia, uma empresa forjada em princípios e valores que pregam mais consciência por um mundo melhor.


Andresa e Gabriela Palomo, as empreendedoras

sábado, 4 de julho de 2020

Arlanch Massas Artesanais

Já falei por aí que o isolamento nos trouxe de volta o prazer de comer em casa, a revalorização dos nossos quintais e áreas domésticas de lazer. Cozinhar é bom, trazer boa comida pro nosso canto também é delicioso.

Conheci inúmeros novos sabores nos últimos meses. E uma das coisas que mais me surpreendeu foi a Arlanch, uma marca pinhalense de massas artesanais. Pati Noronha, da Carnes Mantiqueira, foi quem me apresentou o selo através de um incrível capeletti de ragu de carne.

Fui atrás do fio da pasta e descobri Mayra Arlanch, natural de Brotas e radicada em Pinhal, uma apaixonada pela culinária que traz no DNA os antepassados da Velha Bota e na memória afetiva as massas e os molhos da avó Zulmira.

Herdar a mão da matriarca e os segredinhos do seu fogão foram estímulos para Mayra confeccionar pastas em escala comercial sem jamais abrir mão da alma homemade da comida.

Terminei a semana recebendo na minha porta “o” presentão da Mayra: um generoso pot-pourri da Arlanch composto de cannelloni de espinafre com cream cheese, manicaretti de alho-poró, manicaretti caprese que leva mozzarella, tomate cereja e manjericão e, sublime dos sublimes, manicaretti de damasco com cream cheese.

Onde foi a degustação da belíssima seleção? No meu quintal. 
As massas foram bem acompanhadas do molho bechamel da Josi e do copa-lombo defumado do Empório 3 do amigo Renato Pires. 

🍝🍷🍝🍷 
Em São João, na Carnes Mantiqueira 
Em Pinhal, pelo zaPasta 19 99984-0490

domingo, 21 de junho de 2020

Sanja Fried Chicken

Em razão de princípios morais, éticos, religiosos e gulosos, aceito ofertas para experimentar e opinar sobre comidas da província. Por alguma estranha razão, gostam que eu fotografe e escreva em cima daquilo que provei. Por alguma estranha razão, eu gosto da missão a mim confiada. Nessa militância gastronômica, me considero um sujeito afortunado por aprovar a maioria do que me oferecem. Algumas vezes, a coisa é abaixo do decente. Quando isso ocorre, privadamente dou um feedback sincero ao ofertante e não espinafro ninguém publicamente nas minhas mídias.

Confesso que às vezes não boto muita fé no “você nunca comeu nada igual”. Nestes casos, minha intuição costuma funcionar. Sim, também quebro vergonhosamente a cara nos pré-julgamentos.

Então…

Não sou um fã ardoroso do frango frito do KFC. Prefiro mais o nosso franguinho frito, bem temperado e sequinho, sem empanar. Também sei da complexidade de fazer bem feito a especialidade penosa que os norte-americanos veneram. Não é fácil chegar numa mistura boa de temperos e itens de empanamento, como também não é fácil uma fritura perfeita que deixe o frango sequinho e crocante por fora e suculento no interior.

Quando Marcos Gabriel ofereceu-me a versão crepuscular do frango do Kentucky, fiquei com um pé atrás. Será que o jovem —21 anos— empreendedor nascido em Tapiratiba seria capaz de reproduzir dignamente a iguaria?

Feliz e satisfeito, quebrei vergonhosamente a cara! Mais do que reproduzir o empanamento do KFC, Marcos criou seu mix e método próprios de empanar, além de um tempero singular com oito especiarias. Muuuuuito, mas muuuuuito melhor do que o KFC.

🍗🍗🍗 
Frangotis Fritin
Delivery de terça a domingo, a partir das 19h
19 99490-8646 // 19 99587-3150

sábado, 20 de junho de 2020

P de pizza, P de Poiano!

Oriundo da Grande São Paulo, o descendente de italianos Antonio Poiano foi um dos precursores da pizza em São João da Boa Vista. As redondas chegaram à terrinha em 1964, quando ele comprou o Bar Jussara na Praça Coronel Joaquim José. Nascia ali, no coração da província, uma tradição familiar que resiste até hoje. À época, Antonio ensinou o ofício pizzaiolo aos filhos Zé, Roberto e Horácio. Todos eles, em negócios próprios, n’algum momento enveredaram pelos caminhos ensinados pelo pai. Tekinfin, Master Pizzas e Pizzaria Poiano são casas que têm nas suas cartas a grife Poiano de pizzas. Zé e Roberto, falecidos, têm os nomes honrados pelos filhos que abraçaram seus legados. Horácio, 70 anos, mantém bravamente aberta sua Pizzaria Poiano desde 1977. Só no delivery, de sexta a domingo, ele, enquanto tiver força e saúde, vai persistir servindo aos crepusculares o pioneirismo redondo de quase seis décadas de Antonio Poiano.

A pizza do post, uma bem montada portuguesa, é a campeã de pedidos do forno de Horácio Poiano.

🍕🍕🍕
Disk-Poiano: 19 3623-3626

terça-feira, 2 de junho de 2020

Manda Balla, Ney!

Filho de um batateiro dos alpes gelados de São Roque da Fartura, ele desceu à cidade —São João da Boa Vista— aos treze para trabalhar numa choperia. “Vou te falar a verdade, Lauro, eu nem sabia o que era chope”, assume Elinei Aparecido Paina sua então matutice.

Anos depois, já casado com Adriana Saavedra e pai de Bianca e Bruna, Nei quis usufruir de sua experiência como garçom para melhorar de vida na capital paulista. Sua primeira ocupação em São Paulo foi numa casa de recreação sexual masculina. Nessa zona sofisticada na Pompéia, ele pilotava a chapa fazendo hambúrgueres para quem precisasse de energia ou reposição dela antes ou depois das extenuantes atividades libidinosas. 

Outros trabalhos, sempre como garçom, se sucederam em São Paulo, onde ficou mais de cinco anos, e em São João a partir do retorno em 2013. Em todos os restaurantes nos quais serviu mesas, Nei se aproximou dos cozinheiros para matar sua curiosidade de como os pratos eram preparados. 

Aqui na província crepuscular, Nei labutava durante o dia como office-boy num escritório contábil. Sua rapidez na motocicleta levando e trazendo documentos lhe rendeu o apelido de Bala. Na era das mídias sociais, ele duplicou o “l” e botou um “y” no Nei. 

Ney Balla, cansado de correr carregando bandejas, pegou um disco de arado, comprou insumos a crédito e começou a fazer baurus em sua residência no bairro São Benedito. 

O instantâneo sucesso obrigou Ney a buscar um ponto. Em 20 de fevereiro de 2018, num prédio modesto na General Carneiro, O Sr. Bauru abria as portas com uma mão de obra 100% familiar. 

Vinte e quatro meses após a inauguração, O Sr. Bauru está aí, consolidado na cena gastronômica sanjoanense, oferecendo setenta e cinco itens de um cardápio nada estático. Obcecado por qualidade, cuidado no manuseio, procedência dos ingredientes e tamanho das porções, Ney Balla escolhe pessoalmente os mais de quinhentos quilos de mignon bovino e lombo suíno que consome mensalmente para elaborar cerca de cinco mil pratos, entre filés, polpetones e sandubas. 

O êxito d’O Sr. Bauru é decorrência inequívoca da soma de talento, dura lida, experimentos e esmero. 

Manda Balla, Ney!

🍔🌭🥩
O Sr. Bauru
Delivery todos os dias, das 10h às 23h30
Fone: 19 3636-5050
WhatsApp: 19 99233-4321

🍔🌭🥩
[na foto: o Bauru de Lombo, símbolo e origem d’O Sr. Bauru e o Sr. de Respeito, o sanduíche campeão de vendas]


sexta-feira, 29 de maio de 2020

Homer Simpson


Embora no Facebook ele esteja no rol dos meus amigos, Homer Simpson é só um conhecido. No sentido verdadeiro da palavra amigo, temos poucos em comum. Socialmente, já cruzei com ele em alguns ambientes. Sempre tive a impressão de Homer ser um homem cordial, respeitoso. Depois, descobri ele ser, na real, um polido fake, um pseudo-gentil.

Desde a última campanha eleitoral, em 2018, percebi que ele era, digamos, um bolsonarista-raiz. Jair Bolsonaro encorajou Homer a liberar seus instintos mais primitivos. Num post meu da época, o “cidadão de bem” não teve ferramentas retóricas para contraditar o meu escrito, mas teve ferraduras e foi covardemente pra cima de uma amiga que comentava concordando com o teor do que eu argumentava. Rolou pra cima da moça com impropérios, insultos e aqueles rótulos de praxe aos que se opõem a Bolsonaro: petralha, comunista, esquerdopata etc. 

Homer também é participante de grupos de WhatsApp bolsonaristas. Aqueles que reverberam memes, fake news, xingamentos à jornalistas e aquelas distorções da realidade oriundas de blogs e perfis bancados pelo Gabinete do Ódio. Ele jamais compartilha notícias de órgãos sérios de imprensa, declarações de especialistas respeitados e análises feitas por gente da ciência e da academia. Homer é destes que pregam o fechamento do Congresso e do STF em nome da causa nazifascista que abraçou.

Dia destes vi novamente a cólera de Homer. Numa postagem crítica ao governo, muito ponderada, embasada, sem massacres nem paixões, ele entrou de sola comentando e ofendendo a autora —Homer tem, ao que parece, fixação em brigar com mulheres. “Vá pra Cuba, vá pra Venezuela!”, foi seu clamor final no comentário infame que em nenhum momento apresentou um contraditório compreensível. Não duvido que ele creia no terraplanismo, na cloroquina, no catecismo do Olavo de Carvalho e nas estapafúrdias previsões do Osmar Terra.

Formado e bem posto na vida, diriam os cronistas de antanho, Homer tem sérias dificuldades com a escrita e com a exposição lógica de suas ideias. Não o condeno, tampouco o recrimino por estas deficiências de comunicação. O que me causa repulsa é sua patológica deficiência de civilidade fermentada por uma abominável adoração incondicional àquele capitão que gosta de dar uns tiros pra relaxar enquanto seus compatriotas morrem aos milhares.

sábado, 23 de maio de 2020

Nathalia Ferreira Doces Finos

A obra da imagem é uma massa levinha, tipo uma esponjinha bem fofa e úmida. A cobertura, que tem muito mais do que beleza aparente, leva ganache de chocolate branco belga saborizado com pasta italiana 100% pistache. Aos montes, pistaches finalizam chapiscados na parede verde e cremosa do bolo.

A dona da arte é Nathalia Ferreira, 31 anos, confeiteira de bolos do cotidiano e sofisticados, mestre de brigadeiros e doces finos. Ela entrou quase sem querer no mundo da pâtisserie fazendo cupcakes para o aniversário do sobrinho, João Vitor. Vai daí que ela se apaixonou pelo planeta doce, pediu demissão na empresa onde vendia equipamentos industriais e foi buscar teoria e prática no universo colorido das massas, cremes, frutas, polpas, essências, caldas e afins.

Sessenta meses vivendo disso provam o quão recompensador é o labor sério que mescla qualidade dos insumos, bom senso na harmonização, técnica apurada e produtos esteticamente atraentes.

Quero mais, Nathalia!

🍰 🧁 🥧 
Zap-encomendas 19 99833-8359
*consulte também bolos para o dia a dia

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Quiches & Letras

A massa é aquele segredinho de família, a crocância única que vem do aconchego amanteigado da cozinha da avó. O recheio foi descoberto no puído livro de receitas da mãe. Descoberto, testado, aperfeiçoado, diversificado e… aprovado!

Lucinda Noronha, do magistério letrado, está usando o isolamento social para escrever a crônica da quiche perfeita. Creme de leite, ovos e mozzarella é a base encorpada que recebe, ao gosto do freguês, sabores múltiplos: lorraine (a clássica de queijo com bacon), quatro queijos, brócolis com bacon, margherita e a sublime que protagoniza o post, abobrinha com bacon.

No torrão pratense, neste frio outonal, o professora inspira o ar da montanha e se inspira também para lavrar poemas açucarados. Os versos fumegantes brotam mesclados com aromas de maçã, banana e canela. Sim, senhoras e senhores, há poesia naquele fim de tarde perfumado com o doce das tortas caseiras reinando sobre a velha toalha xadrez.

🥧 🥓 🧀 🍎 🍌 🥧
Cozinharias
Zap-quiches 19 99618-5827
Entregas em Águas da Prata e São João da Boa Vista