quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sou cego, mas não sou surdo


No celular: flashes publicitários em rádios
da região

O sotaque inconfundível e a boa prosa entregam: ele é mineiro, uai!

Há 21 anos, o rebento primogênito do seu Alípio e da dona Antônia nascia na minúscula localidade de Carvalhos que, segundo o São Google, fica perto da turística e nem tão minúscula Caxambu.

Cristiano de Jesus Andrade veio ao mundo com baixa visão, o que lhe permitiu, até os sete anos, ver cores, distinguir formas e semblantes de pessoas.

Sem recursos, numa cidade provinciana, a humilde família de origem rural resignava-se com as parcas explicações dos médicos locais. O “problema na vista”, que é como os pais se referiam à patologia do menino, só foi corretamente diagnosticado muitos anos depois, com Cristiano já maior de idade e morando em Poços de Caldas. Os oftalmologistas apontaram que ele padecia de uma atrofia no nervo ótico.

Aos 12 anos, a pouca claridade virou escuridão total. E com a escuridão, veio o desespero dos familiares e a revolta do garoto Cristiano. Os pais não aceitavam o doloroso carimbo de cego: “Meu filho tem um probleminha na vista, enxerga pouco”.

A imensa aflição pela deficiência irreversível levou os Andrade a procura de curas menos ortodoxas: benzedeiras de vários credos, novenas pra todos os santos, simpatias de todos os tipos, enfim, a busca de um milagre. Nada!

Como a doença começou a se agravar no início de sua idade escolar, e a diminuta cidade não tinha classes destinadas ao ensino especial, até os 14 anos foi alfabetizado pela mãe. Dedicada ao filho e lutadora, dona Antônia fez o que pôde para “mostrar” as primeiras letras ao filho, mas não tinha o preparo adequado para ensinar deficientes visuais.

Ciente das suas limitações e das prementes necessidades escolares de Cristiano, a mãe pediu ajuda e família e amigos se mobilizaram para que Carvalhos recebesse um mestre capacitado no ensino do alfabeto Braille. E conseguiram: a APAE local implantou uma classe para deficientes visuais.

Sedento para sorver os caracteres do novo mundo, Cristiano aprendeu o alfabeto Braille em um mês. A logística do leva-e-traz obrigou os Andrade a engordarem as estatísticas do êxodo rural.

Rápido no gatilho do verbo, o menino assobiou, deu uma erguidinha no chapéu com o indicador e decretou para mãe num tom Giuliano Gemma: “Mãe, leio e escrevo como poucos, Carvalhos ficou pequena demais para mim”.

Sábia, dona Antônia é daquelas que criam os filhos para o mundo. Corajosa, “deportou” o filho para Poços de Caldas, onde ele, com o auxílio da Associação de Assistência aos Deficientes Visuais (AADV), concluiu o ensino básico e o médio. E mais, na AADV aprendeu as técnicas de enfrentar a selva urbana de bengala. Nas aulas de informática, caramba!, descobriu um software que transforma texto em áudio.

Multimídia na cosmopolita Poços, Cristiano também fez aulas de canto para entoar os sucessos sertanejos que embalaram sua infância rural. Com a voz treinada, não maltratava ouvidos alheios ao se aventurar pelos versos de Pena Branca e Xavantinho, Tonico e Tinoco, Mococa e Paraíso...

Da época em Poços, ele permite a divulgação de duas passagens cômicas.

Uma. Ele desce do ônibus no terminal e pede ajuda ao primeiro que “vê” para atravessar a rua. Esta boa alma aquiesce e o conduz até o meio da via quando, estimulada pelo elevado grau etílico, começa a bradar num timbre neopentecostal: “Santa Luzia, devolve a vista do moço!” A movimentada Assis Figueiredo parou esperando a cura milagrosa.

Duas. Outra boa alma, desta vez uma alma de saia e perfume doce, no mesmo auxílio da primeira história, ao chegar do outro lado da rua faz uma proposta um tanto libidinosa. Atônito, ele ainda foi tranqüilizado pela alma lasciva: “Podemos ficar numa boa lá em casa. Meu marido está viajando”. Cristiano jura que não freqüentou o leito da alma fogosa.

Como todo jovem vestibulando, o mineirinho queria o melhor ensino e o custo zero das universidades públicas. Não passou em nenhuma delas. Na de São João Del Rey, lamentou o 38° lugar de 35.

Como Psicologia era o curso desejado, uma amiga deu a dica: “Embarque no Cometa, desça a serra, cruze a fronteira e quando, em plagas paulistas, encontrar um recanto de serras verdejantes e belos crepúsculos, pare, respire o ar da Mantiqueira e procure a UniFAE”.

Procurou e achou. Aprovado no processo seletivo e já entorpecido pelas águas do Jaguari, ele reivindicou e, com justiça, conseguiu uma bolsa integral para cursar a universidade.

Academia garantida, ele carecia de uns trocos para custear pão e teto. Com a ajuda de uma amiga que fornecia a mercadoria, ele passou a mascatear pela Dona Gertrudes e adjacências. Vendia trufas.

Numa destas mascateadas numa loja de roupas, o supervisor, surpreso pela forma altiva e pouco “coitadinha” que ele oferecia seu produto, fez uma proposta de trabalho.

Hoje, morando sozinho em uma quitinete no centro da cidade, Cristiano ganha o sustento com muita competência na rede de lojas Zer0800. Satisfeito e querido pelos colegas, ele trabalha na área de telemarketing e entra ao vivo, por telefone, em diversas rádios da região com flashes publicitários da rede.

Em tempo: o título do texto é um sutil recadinho àqueles que, involuntariamente, elevam a voz em muitos decibéis ao falar com ele.

CLIQUE AQUI, APERTE "PLAY" E OUÇA UM FLASH DO NEO-MACAÚBICO

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito bom Lauro, muito bom mesmo!!!

PARABÉNS!

Frank Sabino

Regis disse...

Lauro!

Como vc é fera! hahahaha
adorei a forma como vc escreveu!
principalmene nessa partes:
"Outra boa alma, desta vez uma alma de saia e perfume doce, no mesmo auxílio da primeira história, ao chegar do outro lado da rua faz uma proposta um tanto libidinosa. Atônito, ele ainda foi tranqüilizado pela alma lasciva: “Podemos ficar numa boa lá em casa. Meu marido está viajando”. Cristiano jura que não freqüentou o leito da alma fogosa."

Dei muita risada, e ao mesmo tempo, parei e pensei em mta coisa né?

como somos "completos" e não emos do que reclamar!

é isso ai!

Desejo todo sucesso pra vc, e pro Cris tbm! pq eu so fã numero1 desse neo-macaúbico! uahuahuahuaha

ABRAÇO!

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Que bela lição de vida do neo-macaúbico. História que merece reverberar pra servir de exemplo e estímulo, e que ficou melhor ainda com o estilo inconfundível do escriba - que nos deve lavras mais frequentes. Parabéns e abraços, amigo!

beth disse...

Oi Lauro
Eu sou a Beth e como diz o Cristiano, sou a mãe postiça dele aqui em São João... Amei o seu texto e sei q tem muita coisa ainda pra tirar das histórias do sr. Cris ..
Agora gostaria muito q vc esclarecesse uma dúvida minha ...
O QUE SIGNFICA NEO-MACAÚBICO??? rsr
um abraço
Beth

Lauro Augusto Bittencourt Borges disse...

Oi Beth, muito obrigado pelo comentário. O texto ficou bom porque o personagem é bom.
São João, até onde eu saiba e eu já viajei um pouquinho por aí, é a única cidade no mundo onde existe sorvete de macaúba. A receita antológica da dona Angelina, você sabe, até hoje é vendida ali na rua D. Pedro II. Por isso, nas minhas andanças cronísticas pelos jornais da cidade eu sempre cunhei crepuscular, macaúbico, mantiqueiro, como sinônimos de sanjoanense. Então, neo-macaúbico ou neo-crepuscular, nada mais é do que neo-sanjoanense. Aliás, faça-se justiça, eu, modestamente, popularizei a expressão por aqui, mas quem me sugeriu o termo macaúbico foi um grande amigo, macaúbico exilado em Campinas e genial cronista, Marcelo Pirajá Sguassábia.
abraço

Anônimo disse...

Que legal ... aliás adoooooro o sorvete de macaúba de lá ...
Fiquei mais feliz ainda quando vi o seu artigo no jornal ...
Um exemplar já está guardado pra enviar pra dona "Tonha" ... ela vai ficar muito feliz e orgulhosa por ver o filho lindo dela ...
Um abraço e fique sabendo que voce ganhou mais uma fã ...