sexta-feira, 24 de abril de 2015

Eduardo & Sylvia

Comidaria

Depois de um rápido namorico adolescente, cada um tomou seu rumo na vida universitária.

Ele: Comércio Exterior e Turismo. Ela: Negócios da Moda, na conceituada Anhembi Morumbi.

Eduardo Pradella estudava uma coisa e pensava em outra. Enquanto cursava Turismo, não sossegou até ser admitido na cozinha do Casa Grande Hotel, no Guarujá. Lavar pratos não era bem o que ele queria, mas estar ali, na muvuca aromática e fascinante do mise en place à finalização, o fez definir seu norte profissional.

No mesmo litoral sul de SP, na UniMonte em Santos, diplomou-se em Gastronomia.

Canudo na mão, era hora de ralar e praticar. De ajudante de cozinha à sous(segundo) chef, perambulou, entre outros restaurantes brasucas, pelo Sofitel, Kaá, Essence Maison Degaine...

A pátria gastronômica gaulesa é o sonho de quem quer ganhar o pão sob a coifa. Eduardo, em 2013, zarpou para uma temporada no sul da França —em Molitg-les-Bains— e foi beber na fonte de Michel Guérard, chef do estrelado Château de Riell.

Sylvia Merlin, ao término da universidade, também tratou de buscar trabalho e realização. Em Sampa, na sua área de formação, laborou com criação e estilo, assessoria de imprensa e produção. Um negócio próprio era o que ela queria. Qual negócio ela não sabia.

Arriscou numa loja online de bijoux e depois numa doceria —ou doçaria como querem os ortodoxos do idioma. Erros, acertos, tombos, lições, experiência.

Eduardo voltou da França e reencontrou Sylvia. Do flerte da puberdade ainda saíam fagulhas. Mergulharam de novo numa relação, mais madura, mas não menos intensa.

Da metrópole para a província. Regressaram ao pé da Mantiqueira com convicções pessoais e necessidades profissionais. Destas convicções veio o casamento em novembro de 2013. Das necessidades, uma ideia.

A intenção se concretizou num pulo, conta Sylvia: “sem firulas, sem rodeios, direto e reto”. Aquele impulso de jovens que querem, sabem e precisam. Jovens com habilidades manuais, com veia artística, com senso estético e que cresceram na onda da revolução digital que marcou este inicio de século 21.

Nascia em Sanja a Comidaria, um baita nome legal para um conceito de delivery gastronômico. O cardápio, enxuto e ecumênico, tinha risoto, pasta, costelinha de porco, salada e fritas.

Por não receberem comensais in loco, o investimento inicial não foi tão alto. Por usarem sua própria cozinha doméstica na empreitada, a casa padeceu de um inevitável rebu.

A coisa engrenou, principalmente, pelo esmero do Eduardo na execução dos pratos. Mas, no conjunto da obra, também contribuíram para o êxito: embalagens bacanas e modernas, uma identidade visual original —um mix harmônico de clássico e hipster— e uma divulgação muito bem feita via redes sociais. Isso tudo concebido pela multimídia e superconectada Sylvia que, por isso, acrescentou talento publicitário ao seu currículo.

“Sugestão do Chef”, aquele item variável, extra-menu, que surpreende o cliente foi incorporado à proposta de serviços comideiros.

Em meados de 2014 —junho pra ser exato— ofertaram um hambúrguer homemade na “Indicação do Cozinheiro”. Os pedidos explodiram, o telefone não parava e fotos no Instagram mostravam que no torrão do bauru de lombo ainda havia espaço pra outros sandubas. No caso, um de inspiração ianque, confecção artesanal, lindo em calorias e pra lá de sedutor.

A criatura atingiu uma dimensão que botou pressão na cachola do criador. Era hora de mudar, era hora de crescer. Era e foi.

No corredor hamburgueiro da aldeia, a Avenida Oscar Pirajá Martins, um imóvel residencial foi adaptado pra acolher a Comidaria Burger.

Após pesquisar influências do ramo no circuito São Paulo-NYC-Chicago, Eduardo & Sylvia reabriram as portas neste comecinho de outono.

E reinauguraram presenteando a cidade com um lugar que é a cara deles: contemporâneo, permeado por referências, descontraído e, ao mesmo tempo, mainstream e underground, da moda e do gueto.

Nada congelado, tudo fresco. O redondo de carne definitivo —depois de várias combinações experimentais— é um blend de fraldinha e ponta de peito. 160 gramas de dignidade.

Tem o meu respeito um cara que regala os fregueses com um hambúrguer rosado por dentro, a léguas da secura. Tem o meu respeito o cara que corta uma batata asterix na faca e a serve crocante acompanhada de molho barbecue rústico. Tem o meu respeito o cara que espeta picles de pepino na cabeça do sanduíche. Tem o meu respeito o cara que traz brejas inusitadas do Pará. Tem o meu respeito o cara que amolece o brigadeiro com creme de leite e tem a pachorra de apresentá-lo na colher escoltado por uma cerveja encorpada. Tem o meu respeito...

Eduardo & Silvia voltaram pra terrinha/E vão trampar muito no verão/Nas próximas férias não vão viajar/Porque a “filhinha” do Eduardo tá na maior ferveção/E quem um dia irá dizer/Que não existe razão/Nas coisas feitas pelo coração?... (Russo, Lauro)

Go, guys, go!

Comidaria 2

Joint: dignidade absoluta, pra lá de sedutor

6 comentários:

Sylvia e Eduardo disse...

LAUROOOOO!!!!!!

Arrancou meia duzia de lagrimas do casal aqui!
Que delicia de texto, que bacana te-lo como parceiro nesse capitulo!

Tudo muito bem escrito, muito legal! Adoramos! Estamos emocionados!

Um forte abraço!
A casa aqui estará sempre aberta para o casal Borges, sempre com uma gelada esperando e 160g de muita dignidade!

Sylvia e Eduardo

Marcela Silveira disse...

Que belíssimo texto!
Meu desejo é que você escreva minha breve biografia que vai estar no livro que eu ainda vou escrever.
Que os anjos digam amém!
Excelente final de semana!
Abraços

Marcelo Pirajá Sguassábia disse...

Ave Maria, isso atiçou meu lado Scooby! Parece bom demais. Sucesso ao casal sânjico e parabéns ao guiomarnovático escriba pelo delicioso texto.

Luis Bazani disse...

Onde fica essa casa??

Lauro Augusto Bittencourt Borges disse...

Bazani, Av. Oscar Pirajá Martins em São João da Boa Vista, SP. Procure por Comidaria no Facebook.

helinho fonseca disse...

texto impecável.....
dica gastronômica imperdível.
vale a pena conferir.