terça-feira, 8 de novembro de 2016

Jota Amaral

Ele quase perdeu a chance de entrevistar Roberto Carlos por estar vestindo uma camisa marrom. Um tio que o acompanhava em Ribeirão Preto, onde o Rei cantaria, foi providencial para evitar o frustrante vexame ao emprestar-lhe uma camisa azul.

Geraldo Alves, sanjoanense, falecido em 2000, é o nome de batismo de um sujeito que veio ao mundo vocacionado para empunhar o microfone no rádio: Jota Amaral.

Com pouco estudo, mas muita intuição, tornou-se em mais de duas décadas —de 1974 a 1998— um dos maiores nomes radiofônicos da região. Comprava horários nas emissoras de diversas cidades do entorno de São João da Boa Vista e viajava por elas apresentando o seu lendário programa “Dez Discos para Milhões”. 

Persuasivo, irreverente, ousado, criativo, a melhor forma de entender a personalidade Jota Amaral é navegar pelas muitas histórias em que ele foi o protagonista. 

Susto
Comunicador nato, seguro do seu carisma e com uma enorme capacidade de improviso, Jota Amaral era mestre em ligar para números de telefone aleatórios e entabular longas conversas com quem atendesse.

Normalmente, o “sorteado” do outro lado da linha gostava da surpresa e o papo sobre os mais diversos assuntos engrenava. No ar!

Raras vezes, a receptividade não era aquela esperada pelo icônico radialista:

—Alô.

—Boa tarde, aqui quem fala é o Jota Amaral.

A voz feminina de alguém que não estava nos seus melhores dias, devolveu seco:

—Grande bosta!

Presente
Na época do sucesso estrondoso da novela Pantanal, na finada TV Manchete, Jota Amaral conseguiu a proeza de entrevistar o autor do folhetim, Benedito Ruy Barbosa.
No fim do bate-papo, o dramaturgo fez questão de agradecer ao Jota pelo presente recebido no estúdio: mudas de ipê de várias cores. Rosa, branca, amarela, roxa. Disse que as floradas multicromáticas ficariam lindas na entrada do seu sítio.
Desconfiados, os sonoplastas perguntaram ao Jota sobre o mimo das árvores coloridas. O vozeirão, galhofeiro, confessou:

—Bregojelo (assim ele apelidava todo mundo), na verdade as mudas são todas de ipê amarelo. Quando elas crescerem eu não estarei mais aqui. Lá no jardim do Papai do Céu ninguém vai me cobrar pela falta das outras cores.

Fariseu
O ano era 1991, a emissora de rádio era a Piratininga de São João da Boa Vista e Jota convidara para ser entrevistado no programa “Dez Discos para Milhões” o recém-ordenado bispo da diocese, Dom Dadeus Grings.

Na hora marcada, se aboleta na porta do estúdio a autoridade eclesiástica. Dom Dadeus estava escoltado pelo conhecidíssimo cônego Luís Gonzaga Bergonzini, o Padre Luisinho.

Jota, que tinha tanta espontaneidade quanto dificuldade para memorizar nomes, chamou-o ao microfone num verbo nada cristão:

—Ô fariseu, entra aí!

Preciso acreditar...
Jota era vezeiro em declamar longas poesias no seu programa.

“Preciso acreditar…” era esse o mote do texto edificante, e, para harmonizar com a letra, ele pediu ao sonoplasta JB Flora uma música instrumental leve como fundo melódico.

—Preciso acreditar na evolução da humanidade, preciso acreditar na força do amor, preciso acreditar na bondade, preciso acreditar na inocência das crianças…

Enquanto ele, emocionado, interpretava o poema, o técnico de som deu uma escapadinha para ir ao banheiro. Nesse pipi-break, a trágica mudança de faixa no eclético long play: do piano meloso para um rock pesado.

Jota, contrariado, entrou no ritmo e prosseguiu irritado:

—Preciso acreditar que o sonoplasta não foi ao banheiro, preciso acreditar que ele vai voltar logo… 

Trote
Habitué do bar da velha rodoviária, Jota usava seus talentos vocais para aprontar com os passageiros da Viação Cometa que ali paravam para um lanche antes de seguir viagem. Ele usava copos grandes como uma espécie de megafone e empostava a voz na porta dos sanitários, imitando o locutor da companhia de ônibus:

—Atenção passageiros da Viação Cometa com destino a Poços de Caldas, partida em dois minutos.

Jota se divertia ao ver as pessoas saindo correndo, assustadas, erguendo desajeitadamente as calças e fechando desesperadamente as braguilhas.

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