domingo, 31 de maio de 2026

Celebridades caipiras

 


A impressão que tenho é de que a China, só muito recentemente, vem se abrindo ao turismo ocidental. Somos minoria nos pontos turísticos. Quem realmente movimenta esse segmento são os próprios chineses, deslocando-se em massa pelo imenso território.


Vai daí que, pela nossa aparência e pela sonoridade do idioma – e falo aqui especialmente de nós, brasileiros –, tornamo-nos alvos constantes de curiosidade. Uns nos observam com discrição; outros, mais diretos, nos miram com sorrisos abertos e semblantes genuinamente simpáticos.


As meninas da foto nos abordaram no centro de Xi’an e pediram um retrato ao lado deste cronista dos trópicos e de sua parceira de andanças.


Episódios semelhantes se deram em todas as nove cidades pelas quais passamos, inclusive enquanto navegávamos pelo rio Li: um senhor pediu a este escrevinhador que posasse para um retrato ao lado de sua esposa. Respeitosamente, repousei as mãos sobre os ombros da mulher e sorri amarelo. Tenho comigo que, naquela proa cercada de belíssimas paisagens, o distinto chinês me confundiu com o Leonardo DiCaprio.

Xi’an: o assombro moldado

 


Debaixo da terra de Xi’an, surgiam os primeiros rostos do Exército de Terracota – guardiões moldados no barro para servir ao imperador Qin Shi Huang na eternidade. Séculos antes, entre 246 e 208 a.C., esse imperador havia ordenado a construção de um complexo funerário monumental, pensado não como fim, mas como continuidade em outro plano.


Visitamos esse lugar onde o acaso revelou a história – e ficamos simplesmente estupefatos.


Diante daquela imensidão de rostos únicos, alinhados em silêncio há mais de dois mil anos, a sensação é de assombro.


Ali, a história não apenas se observa. Ela nos impacta com força magnânima, milenar e espiritual.

A bronca e Zhongnanhai


O quarteto viajante na estação ferroviária Beijingxi (Beijing Oeste), minutos após o desembarque do carro da brava motorista Li



Saltitantes, saímos do hotel em Pequim rumo à estação de trem, para embarcar no comboio com destino a Xi’an.


A primeira manifestação da motorista do Didi, o Uber chinês, foi uma bronca dirigida a quatro viajantes muquiranas que requisitaram um carro comum para transportar seus badulaques. Disse ela, em inglês, pela tela do aplicativo de tradução: “Da próxima vez, chamem um veículo maior”. Jorge, com sua mala no colo e espremido no banco de trás, concordou com a carraspana da condutora.


O segundo pronunciamento da jovem Li veio quando percebeu nossas exclamações diante de uma belíssima fachada nas proximidades da Cidade Proibida. Ela elevou levemente o tom de voz e disparou: “Zhongnanhai!”. Ao notar meu semblante de interrogação, a chinesinha repetiu, como se fosse algo óbvio para qualquer mortal: “Zhongnanhai! Zhongnanhai!”.


Logo depois, ao captar sua fala no Google translator, descobri o significado. Zhongnanhai é a sede do governo chinês e do Partido Comunista.


Nos minutos finais da corrida até o terminal ferroviário Beijingxi, Li nada mais disse – talvez resignada com aquela trupe que viajou amontoada e que ignorava, solenemente, a existência de Zhongnanhai.

Mexericas e lágrimas




Na imensidão do monumento, no meio do passeio, paramos para um respiro e contemplação; sacamos da mochila e ali saboreamos as mexericas mais doces das nossas vidas.


Há lugares que habitam a imaginação muito antes de serem pisados. A Grande Muralha da China sempre foi um deles. Desde criança, ela existia como ideia – grandiosa, quase mítica, desenhada em mapas, filmes e livros como uma cicatriz interminável sobre montanhas distantes.


Talvez por isso, ao caminhar por seus trechos sinuosos, entre subidas hercúleas e torres que recortam o horizonte, a experiência ganhe uma dimensão quase íntima. Chegar ali, pela primeira vez – Josi não conteve o choro –, é um encontro entre o que se sonhou e o que, de fato, resiste. E ela resiste – imensa, desafiando o relevo e o tempo, como se ainda vigiasse séculos que já passaram. Cada degrau irregular parece guardar histórias de esforço, de estratégia, de silêncio.


Há um instante, inevitável, em que a gente para, olha ao redor e se dá conta: estamos ali, dentro de um dos símbolos mais poderosos da humanidade. Não mais na abstração, mas na aspereza da pedra, no vento que sopra entre as torres, na paisagem que se derrama pelas cordilheiras, no delicioso perfume cítrico das mexericas e nas lágrimas da Josi.

O senhor Fudong e a garrafinha misteriosa



Considero-me um sujeito razoavelmente versado em viagens. Em grandes cidades, por economia e para fugir das obviedades turísticas, gosto de usar o transporte público. Isso é muito rico para se aproximar de realidades locais.

Vai daí que não abracei essas convicções para o nosso primeiro trajeto em Pequim – ou Beijing, como rezam as novas enciclopédias. As malas, vinte horas de voo, a complexidade da megalópole, os apps chineses ainda inexplorados e o preço baixo do transfer privado do aeroporto para o hotel… tudo isso fez-me, com o aval dos companheiros de jornada, dispensar o metrô. Sim, confesso: também um friozinho na barriga diante dessa exótica e novíssima fronteira colaborou para a decisão.


O e-mail confirmando o serviço veio com o nome do profissional que nos conduziria: Zhao Fudong. Eu e Jorge, no espírito eterno da 5ª série, é claro que fizemos piadinhas e trocadilhos com o sobrenome do motorista.


Depois de algum perrengue no preenchimento dos formulários da imigração, o senhor Fudong nos esperava com a plaqueta “Lauro Borges” na porta do desembarque. Gentileza, mas nenhuma palavra de inglês.


Na van ultramoderna, elétrica, cujo multimídia deve ter umas vinte polegadas, singramos pela primeira vez as vias dessa urbe de 21 milhões de habitantes. O senhor Fudong dirige com a serenidade de quem conhece cada centímetro da cidade, tendo ao lado uma pequena garrafinha de conteúdo misterioso – talvez chá, talvez algum elixir milenar para enfrentar as longas maratonas do trânsito pequinês.



A indefinível China


Quatro caipiras flanando por uma movimentada avenida de Chengdu. A fachada, envidraçada e iluminada, chama a atenção dos famintos. A escolha do restaurante, guiada pela estética, nos levou a mergulhar numa incrível experiência gastronômica típica de Sichuan: o hot pot. Quente, apimentado, saboroso – um ritual de socialização em volta da mesa


“China? Só vocês? Sem guia? Sem hotéis e transporte interno comprados? Vocês mesmos vão fazer o roteiro? Mas poucos falam inglês! A internet lá é complicada! E os pagamentos? Dizem que é impossível sem os apps deles! China… jura?”


Ainda assim, abraçamos a missão. Jorge Splettstoser e Zizi Menezil, amigos de mente aberta, embarcaram conosco na aventura, cogitada e decidida em apenas dois dias, no início de janeiro de 2026.


Muita pesquisa, o necessário preparo: compramos eSIMs (chip internacional) com VPN, baixamos os apps certeiros de hotéis, trens e tradução, além do essencial AliPay para pagamentos, que já vem com o Didi, o Uber chinês, embutido.


De fato, o inglês é escasso na China, mesmo nas áreas turísticas. Mas isso é generosamente compensado pela boa vontade dos chineses com os visitantes. A simpatia e a disposição em ajudar atenuam os perrengues – que, diga-se, foram pouquíssimos – em nossa jornada de trens-bala, avião, nove cidades e mais de 5.000 quilômetros rodados pelo país.


A China, como diz Jorge, é uma nação indefinível: ao mesmo tempo conservadora de tradições milenares e ultramoderna.


Confesso: foi a viagem que mais me deu frio na barriga, por todos os alertas do primeiro parágrafo. Mas o país é arrebatador para quem tem vontade e destemor para explorar novas fronteiras – e uma cultura assombrosamente incomum para nós, ocidentais.


Já quero voltar – ou melhor, já queremos voltar.