domingo, 31 de maio de 2026

O senhor Fudong e a garrafinha misteriosa



Considero-me um sujeito razoavelmente versado em viagens. Em grandes cidades, por economia e para fugir das obviedades turísticas, gosto de usar o transporte público. Isso é muito rico para se aproximar de realidades locais.

Vai daí que não abracei essas convicções para o nosso primeiro trajeto em Pequim – ou Beijing, como rezam as novas enciclopédias. As malas, vinte horas de voo, a complexidade da megalópole, os apps chineses ainda inexplorados e o preço baixo do transfer privado do aeroporto para o hotel… tudo isso fez-me, com o aval dos companheiros de jornada, dispensar o metrô. Sim, confesso: também um friozinho na barriga diante dessa exótica e novíssima fronteira colaborou para a decisão.


O e-mail confirmando o serviço veio com o nome do profissional que nos conduziria: Zhao Fudong. Eu e Jorge, no espírito eterno da 5ª série, é claro que fizemos piadinhas e trocadilhos com o sobrenome do motorista.


Depois de algum perrengue no preenchimento dos formulários da imigração, o senhor Fudong nos esperava com a plaqueta “Lauro Borges” na porta do desembarque. Gentileza, mas nenhuma palavra de inglês.


Na van ultramoderna, elétrica, cujo multimídia deve ter umas vinte polegadas, singramos pela primeira vez as vias dessa urbe de 21 milhões de habitantes. O senhor Fudong dirige com a serenidade de quem conhece cada centímetro da cidade, tendo ao lado uma pequena garrafinha de conteúdo misterioso – talvez chá, talvez algum elixir milenar para enfrentar as longas maratonas do trânsito pequinês.



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